Domingo de Páscoa, 5 de abril de 2026. Nesta data completa-se 32 anos que o Kurt Cobain partiu e estou ouvindo “Something In The Way”, do Nirvana, e um amigo me comunica o falecimento do Alvin L, aos 67 anos, no Rio de Janeiro.
TEXTO: Alex Dusky
DEPOIMENTOS: Michael Meneses!
IMAGENS: Arquivo

A notícia chegou primeiro como chegam quase todas, fragmentada, sem contornos, e só mais tarde vieram os detalhes: Alvin morreu enquanto dormia, em decorrência de um ataque cardíaco.
Em poucos minutos, a minha rede foi sendo tomada por amigos em comum lamentando a perda. Entre uma lembrança e outra, as músicas começaram a reaparecer. “Eu Não Sei Dançar”, que muita gente voltou a ouvir na hora, gravada por Marina Lima, surgiu mais de uma vez, como se a obra precisasse ocupar o espaço que a ausência abriu de repente. Vieram juntos outros, também assinadas por ele, como “Stromboli” e “Deve Ser Assim”, e, na voz do Capital Inicial, canções como “Natasha”, “Eu Vou Estar” e “Tudo Que Vai”, que ajudaram a banda a atravessar décadas sem perder o fôlego.

Lembro dele de uma época em que ambos tínhamos bandas que começavam com “Sex”. Sex Noise, a minha. Sex Beatles (capa ao lado), a dele, ligada ao selo Rockit, do Dado Villa-Lobos, circulava no mesmo circuito onde a música ainda não precisava caber em lugar nenhum. Coisas dos anos 90, quando ainda parecia possível existir à margem sem pedir licença.
Antes de suas músicas se tornarem conhecidas na voz de outros artistas, Alvin atravessou diferentes formações que ajudaram a moldar sua linguagem, passando por grupos como Os Vândalos, Rapazes de Vida Fácil e Brasil Palace. O repertório alternava composições próprias e experimentações que incorporavam referências do punk e da new wave, muitas vezes apresentadas em espaços pequenos, com som cru e direto do underground.
Eu já estava em 1994 pensando no Kurt Cobain e em como “Tudo é tão simples, é como tropeçar e quebrar as pernas” como cantava Larry Antha. Eu e Alvin não éramos próximos, mas também não éramos estranhos. Havia esse reconhecimento silencioso de quem divide o mesmo hábitat.
Além do citado, Kurt Cobain, Alvin L., junta-se à e ao vocalista do Alice in Chains, Layne Staley, que faleceu em 2002, e ao baterista Cozy Powell (Rainbow, Whitesnake, Mickie Most, Keith Emerson, Greg Lake, Michael Schenker Group e Black Sabbath), que faleceu no ano de 1998, em um acidente automobilístico. Todos partiram em um 5 de abril.
Lendo o que outros escreveram, fui lendo camadas que não conhecia. Respeitosamente deixo minha lembrança e meus sentimentos aos familiares e amigos que atravessam esse momento tão devastador e inevitável de nossas existências. Que sempre haja música, amor e paz a todos nós. – Alex Dusky.

DEPOIMENTOS:
TOM LEÃO – Site Na Cova do Leão – Jornalista – (Rio de Janeiro/RJ) – Conheci Alvin do jeito que se conhecia gente, nos anos 80: em show ou por causa de camiseta de rock. no caso do Alvin, fui ver show no extinto Western Club (Humaitá), na qual a banda dele, Os Rapazes de Vida Fácil, se apresentou. Naquela época, começo dos 80s, era raríssimo shows de rock de bandas locais, sobretudo, se fosse punk ou new wave. Então, todo mundo acabava sendo amigo, por causa disso. Alvin era uma enciclopédia do rock e muito fã do Mink DeVille. tanto, que seu visual era inspirado no do Willy: Terninho new wave fajuto, brincos de cigano e um fino bigodinho. Alias, Alvin foi a única pessoa que conheci que era fã do Mink DeVille (e ambos eram muito parecidos, no rosto e na magreza). Com o tempo, vimos que nossa conexão era mais estreita do que pensávamos, Vários amigos em comum, que continuaram se vendo desde esses tempos e ate hoje. estavam quase todos lá, no velório. Ao longo de quatro décadas de amizade, Alvin teve varias bandas (do grupo punk Os Vândalos, passando pelos Rapazes de Vida Fácil e também pelo Paris Palace e Sex Beatles). Nenhum fez sucesso (o Rapazes, chegou a lançar um single pela Polygram, e fez uma apresentação no “Clube da Criança” apresentado pela Xuxa, na TV Manchete!). O que saltava aos olhos, em todas, eram as boas letras de Alvin. foi assim que sua carreira decolou: quando ele fez uma letra para Marina, ‘”Eu Não Sei Dançar’” que fez muito sucesso. em seguida, passou a ser chamado para trabalhar com outros artistas. Mas, o que mudou muito a sua vida, pra melhor, foi quando passou a escrever para o Capital Inicial, na fase de comeback da banda. Sem o Alvin, o capital não teria se reinventado e feito o sucesso que fez, a partir dos anos 2000. a banda renovou a base de fãs e passou a tocar em grandes espaços, e saiu fora da linha de bandas dos anos 80, de tocar em festas do gênero. O Alvin escreveu uma duzia de hits para eles, fora as que não estouraram. Não existe na história do rock brasileiro nada parecido. Um letrista (que não era da banda), que recriou a banda e a moldou, poderíamos dizer que para melhor. Assim, Alvin, finalmente, ganhou dinheiro (se mudou para o seu próprio apartamento, no Flamengo, perto da mãe e uma das irmãs, com quem morava), e passou a fazer o que ele sempre quis: viajar pelo mundo atrás de feiras de discos, do UK ao Japão, Alvin fazia todo o circuito anualmente, trazendo raridades. numa dessas, trouxe uma maquina de limpar vinis, e me convidou para ‘passar a limpo’ alguns de meus LPs favoritos. passamos uma tarde fazendo isso. e, a partir de agora, certas festas de amigos vão ficar meio sem graça, sem as tiradas espirituosas e presença de Alvin. naquela festa, vai faltar ele. Pra sempre!
Max Merege – Programa Troca Discos na PEEP FM – (Itapeva/SP) – Alvin L foi um desses seres que apesar de não mostrarem muito a cara, estavam sempre na área! Cheguei a ter no finzinho dos 80s o antológico compacto da banda “Rapazes de Vida Fácil” que havia adquirido feliz da vida numa loja de Santa María/RS. Acho que o encontrei num Porão do Rock, em Brasília. Em setembro de 2021, Carlos Eduardo Lima, escrevera uma ótima matéria no Célula POP (Leia Aqui), e que merece ser sempre revisitada. O baque propriamente foi pelo pop brasuca ter perdido um de seus últimos bastiões de dignidade, um mestre, que deixará uma imensa lacuna na música jovem brasileira.
Hélio Ribeiro – Professor de Artes, Artista Plástico e Músico – (Rio de Janeiro/RJ) – A minha banda era a Willbor, há quase uns 20 anos. Um produtor do rock nacional e grande amigo estava dando uma ajuda na elaboração e produção desse trabalho. Uma nova casa de shows iria abrir na região da Lapa, e fomos até lá para tocar no próprio espaço e testar o som recém instalado. Dias depois acabamos inaugurando o espaço. Esse amigo produtor convidou para aquela noite o Alvin L, que já conhecia das composições para grandes artistas e da sua excelente banda Sex Beatles. Sempre achei Alvin um exemplar único. O cara tanto escrevia para artistas do mainstream – como Capital Inicial e Marina – como marcava presença numa cena mais alternativa com seus Sex Beatles. O pensamento de Alvin para sua produção própria era voltada para o underground. Nunca houve sinais de aceno para as maiores esferas do rock nacional, embora ele circulasse com prestígio entre artistas, produtores e profissionais da música com grande desenvoltura. Naquela noite, pela presença de Alvin eu lembro que cortamos as músicas covers que tocávamos. Queríamos concentrar a atenção dele no nosso trabalho autoral. Ele foi muito sensível nas análises, sendo cuidadoso ao tocar em pontos que eu já reconhecia como fracos e que corrigiríamos num futuro próximo. Entre os papos, Alvin comentou sobre a grande quantidade de músicas e letras produzidas até que ele chegasse a uma música pronta. O padrão estético e de qualidade da produção dele era muito elevado. A música é divertida, mas o trabalho era sério. Nossas músicas não chegaram perto da sensibilidade, humor e crítica do trabalho do Alvin, mas posso dizer que ele nos ajudou de alguma forma. Hoje, a sua partida precoce é um grande lamento. Foi alguém que deixou uma bela marca na história do rock nacional.

Greco Blue – Guitarrista e vocalista de As Beattas – (Rio de Janeiro/RJ) – Alvin L. é uma grande referência em minha formação como compositor, genética de meu DNA. Os dois discos da Sex Beatles e o seu solo dialogam diretamente comigo, mudaram minha vida e me apontaram caminhos. Adoro até suas composições interpretadas por artistas que não gosto. Tive a honra de ser recebido em sua casa para uma agradabilíssima tarde de troca de ideias que rendeu algumas linhas suas para o release do disco de minha ex-banda Os Azuis. Depois disso passamos a nos comunicar esporadicamente por e-mail, eu sempre enviava meus lançamentos e ele respondia suas impressões. Voa alto & olhe por nós de onde estiver!
Peter Larubia – Escritor e Músico – (Rio de Janeiro/RJ) – Uma carta para Alvin L. Recebo a notícia de seu falecimento e imediatamente me lembro do dia em que entrei no seu apartamento, lá no bairro do Flamengo. Quanto tempo tem isso? Como conseguimos chegar lá? Realmente não me lembro. Na época éramos o Nabuco on the Roxy e por alguma razão insondável havíamos chamado a atenção de nosso ídolo e lá estávamos pra tomar umas cervejas. Alvin, você é O Compositor (com o C mais maiúsculo possível). Você é um liquidificador pós-moderno de referências “musicaos”. O melhor letrista de rock, entre terras tupiniquins e estrangeiras, seu caldeirão borbulhantes de versos mais parece uma colagem de aforismos de Mark Twain: corrosivos, irônicos e nonsenses, mas um Mark Twain que mora na Rua Augusta e ouve New York Dolls noite e dia. Alvin, você é o cara que consegue misturar Hemingway, Dostoiévski e Proust no meio de riffs rock punk e refrões grudentos, rachando sem vergonha nenhuma na cara a muralha entre erudição e deboche pop. Alvin, você é tudo o que o universo pop e rock precisam: uma convocação para dançar, mas dançar à beira da insanidade. Alvin L., sua colaboração à música é imensurável. Você foi o compositor de rock mais rock que o Brasil já teve, e você foi o letrista de rock mais rock do país. Nunca tive dúvidas disso. Agora descanse em paz. E obrigado por tudo.
OUÇA e SIGA:
Alvin L: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/2BbY68cbHXIX2jpdA5Rk2i?si=Wh1fEO58RdyBAdB3YZ5A9A
Sex Beatles: https://open.spotify.com/intl-pt/artist/12o5m4KfZGMUFC2O2E8SdP?si=wjLZlLpVTluqDji3SDy4ag
Alex Dusky é: Filho do seu Marcos, carioca, cria de Inhoaíba. Música é meu amor, cinema é profissão, escrever é necessidade. Flamenguista, velho, post-punk, ex-guitarrista da banda Sex Noise.