ACÚSTICO IRA!: Envelhecendo na cidade!

A banda IRA! revive seu famoso e consagrado Acústico MTV, brinda seus fãs no mítico Circo Voador e de quebra; mostra atitude política e a conhecida técnica musical de quem já caminhou mais de quarenta anos na música.

Circo Voador – Lapa – Rio de Janeiro
Sexta-Feira, 16 de outubro de 2026

TEXTO: Leozito Rocha
FOTOS: Michael Meneses
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Esse papo poderia ser transcrito na década de 80 ou 90. Poderia até ser narrado nos anos 2000 com a fase do Acústico e outros álbuns e shows. O fato é que poucas bandas brasileiras tem a moral e o Know-How que o IRA! tem. Poucas. Algumas acabaram (a banda também terminou bons anos atrás), algumas sucumbiram ao tempo e outras sequer deixaram um caminho tão fértil e memorável.

A questão é que Edgard Scandurra e Nasi construíram uma carreira gradativa, sólida e repleta de clichês no bom e mau sentido. Independente dos sentidos os caras seguem com uma baita moral no meio musical e nos fãs. Antigos ou novos.

Quando se tem álbuns clássicos, shows memoráveis e respeito de crítica é aberto um caminho importante e relevante para novos riscos. A banda já arriscou muito nessa longa trajetória. Edgard e Nasi fizeram e tiveram trabalhos paralelos dos mais diferentes e distantes do IRA!. Fosse com a eletrônica, hip hop ou blues.
Enfim… O material é vasto e está todo disponível para quem quiser conferir.

O SHOW...

Mas, o assunto é o show do Acústico MTV. A turnê em comemoração do projeto ambicioso feito ali entre 2004 e 2005.
Mais uma vez um Circo Voador lotado e ansioso para a performance deles. Eles vieram acompanhados de Daniel Scandurra (baixo), Jonas Moncaio (violoncelo), Juba (percussão), Evaristo Pádua (bateria) e o majestoso e classudo Johnny Boy (teclados). Puta banda, hein?

Antes que me esqueça: antes e depois do show tivemos as carrapetas de DJ José Roberto Mahr (uma lenda no assunto) colocando preciosidades que, de alguma forma, englobava parte da história dos músicos. Do pós punk, do rock, do mod, do brit pop 60, etc… Tudo a ver, né?

ACÚSTICO…

O set list, claro, obedeceu às canções do disco somadas a ótimas surpresas. E, ali por volta das 22:10hs (horário de Brasília) os caras sacaram “Train Vain” (Clash) adaptada “Pra Ficar Comigo”. Seguindo com “Girassol” e “Flerte Fatal” (essa com dedicações póstumas). Nasi entrou numa elegância espanhola com colete e calça preta e uma blusa de cetim tom rubro. Detalhe: um sapato bicolor que não falava português. Scandurra preferiu um traje mais básico.

Aliás, em determinado momento, o guitarrista teve que sair do palco pelo calor. Suava muito. Trocou por uma camisa branca mais suave. Mantendo elegância, claro. Tivemos mais “Dias de Luta” (sem aquele corinho chato, por favor), “Saída” (antiga canção) e “XV Anos”. Esse combo foi prestigiado e cantado a plenos pulmões.

Ah sim… O coro ficou por conta de um “VTNC Bolsonaro” (Sim, eu sou de esquerda e a Rock Press também) muito providencial. Nasi dedicou algumas vezes certos intervalos para se posicionar e dizer: “Democracia contra a barbárie”. Fazendo o L de Lula. Scandurra veio junto. Mais: a galera em peso veio também. Tem vídeos aí espalhados na rede com muitos gritos de “Lula, Lula, Lula”. Não tem jeito. O Circo é um lugar politizado e de resistência. E, se você até hoje não entendeu está no texto e show errado, man! Ok?

Duas canções novas estiveram presentes: “Ciganos” e “Muito Além” (trabalhos atuais) e caíram muito bem no set. Indício de que eles seguirão compondo e criando muita coisa por aí. Mais dedicações póstumas com “Vida Passageira” seguida de “Eu Quero Sempre Mais” e “Por Amor” (uma espécie de homenagem a Roberto e Erasmo Carlos nos anos 70). “Rubro Zorro” entrou numa luz vermelha (tudo a ver… Se você não pescou procure saber sobre a letra) com um “punch” de outrora.

Vinho embalava o vocalista e uma gin tônica o guitarrista. Belas pedidas para essa noite especial, cheio de memórias e lembranças tenras. Eu disse que o IRA! é outro patamar… A cozinha permanece poderosa, os solos de Edgard hipnotizam e nos emocionam, a performance do Nasi costura tudo como se fosse um espetáculo de teatro e o “cello” de Moncaio deixa tudo muito harmonioso e primoroso.

O tempo foi passando, porém ninguém sentia. Tinham ainda “Boneca de Cera”, “Tarde Vazia” (absurdamente linda) e “Flores em Você” (The Jam assina embaixo). Claro que cada fã irá reclamar da falta de uma ou outra canção. Não tem jeito. Mas, veja só: “Poço de Sensibilidade” e “Tanto Quanto Eu” estiveram presentes também.

Aí, meus amigos… O show encaminhava-se para o fim. Plateia alucinada pedindo mais. Um monte de cinquentões chorando e jovens estarrecidos. Tudo preparado para “Envelheço na Cidade” (numa versão enorme e com solo de guitarra assombroso) e “Núcleo Base” na veia. Afinal de contas: pois é tarde, muito tarde e eu preciso ir embora…
Delírio geral. No relógio marcava 00:00hs em ponto. Faltava o bis. O set list que eu recebi constava apenas “Bebendo Vinho” (lembra que Nasi o fez o show inteiro?), porém a banda mudou em cima da hora e trouxe algo tão belo que fui tomado de assalto. Minha “skin” arrepiou-se e tivemos “Tolices” (coisa muito séria) complementando a noite. Incrível!

O IRA! é assim mesmo. Promessa de grandes shows, solos maravilhosos, interações ímpares e um conjunto de músicos talentosos e extremamente sensíveis. Uma noite absurda! Os caras seguem como vinho mesmo: envelhecem melhores. E eu brindei na saída com uma merecida taça de vinho! Cheers. – Leozito Rocha.

LEOZITO ROCHA – É radialista, pesquisador musical, escritor e amante de cinema. Colaborador de sites musicais, curador de rádio, editor e apresentador do “O Som do Leozito” na Internova Rádio (OUÇA), e observador incurável. Seu facebook é aqui! e seu instagram é: @leozito_rocha4.

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