TRINA ROBBINS: Muito além da Mulher Maravilha. ENTREVISTA!

A CCXP World’s começou e entre as atrações que marcaram presença hoje (4/12), se encontra uma das TRINA_ROBBINSpersonalidades mais marcantes do quadrinho norte americano: Trina Robbins. Ela acaba de lançar seu novo livro “The Flapper Queens” obra importante que mostra as mulheres cartunistas na década de 1920. Trina é ativista feminista e uma das mais importantes artistas do traço, ela foi a primeira a desenhar uma edição em quadrinhos solo da Mulher Maravilha. Trina também é uma escritora engajada na pesquisa de quadrinhos produzidos por mulheres, fazendo um trabalho importante que a torna uma referência na área. Nesta entrevista à Rock Press, ela falou um pouco sobre suas obras, sobre o momento político do Brasil e dos EUA, feminismo e sobre projetos futuros.

TRINA ROBBINS:
Muito além da Mulher Maravilha. ENTREVISTA!

TEXTO: Jorginho
COLABORAÇÃO:
Larissa Oliveira, Michael Meneses e Patrícia Maciel  
IMAGENS: Divulgação.

Ao ler o anúncio dos nomes que iriam comparecer na CCXP World's, me deparei com a presença de Trina Robbins. Já havia pesquisado sobre a importância da Trina para Wonder_Woman_By_Trina_Robbinsos quadrinhos para um artigo que desenvolvi para faculdade a respeito das mulheres nos quadrinhos e o incentivo a leitoras e artistas femininas para ocupação dessa área. Uma coisa me chamou atenção sobre o histórico profissional da Trina: as chamadas, em sua maioria, a denominavam como a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha nos quadrinhos. No entanto, o correto é que ela foi a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha em uma revista solo da princesa amazona, já que a artista Ramona Fradon desenhou a Mulher Maravilha para a animação "Super Friends" (Superamigos) e para a adaptação em quadrinhos da mesma. Porém, o assunto é Trina Robbins, e ela é muito mais do que uma artista marcada por seu trabalho com a super-heroína mais famosa do mundo, Trina é uma artista e ativista essencial para o desenvolvimento dos quadrinhos feitos por e para mulheres.
 
Trina Robbins surgiu no underground americano dos anos sessenta, destacando-se desde sempre por ser uma ativista do Feminismo, inclusive havendo desavenças entre ela e Robert Crumb por conta das representações femininas que ele usava em suas histórias. Em 1971, ela publicou a primeira revista de quadrinhos feita somente por mulheres, a “It ain’t me, babe” (capa).TRINA_ROBBINS_It_aint_me_babe Logo em seguida, em 1972, esteve no projeto “Wimmen’s Comix”, uma série de HQs também produzida apenas por mulheres, e já na primeira edição de "Wimmen’s Comix", Trina apresenta “Sandy Comes Out“ (Sandy sai do armário), uma história que se baseava na vida de uma amiga lésbica.
 
Na década de 1980, Trina trabalhou na história em quadrinhos “Misty”, para o selo Star Comics da Marvel, projeto voltado ao público infanto-juvenil que visava atrair mais leitoras do sexo feminino para a editora. Misty trazia histórias da sobrinha da personagem “Millie The Model” (sucesso da Marvel nos anos 1940 e 1950, sendo publicada até meados da década 1970 e que também era voltada ao público feminino) que sonhava em trabalhar com o ramo da moda.
 
Em 1986, Trina foi convidada para trabalhar com a Mulher Maravilha, junto com o escritor Kurt Busiek, para realizar uma série em quatro edições que homenageava a fase de ouro da heroína. Enquanto George Perez preparava a reformulação da personagem no pós evento “Crise nas Infinitas Terras” que trouxe novas caras aos personagens como o Super Homem, de John Byrne, e o Batman Ano Um, de Frank Miller e David Mazzucchelli.
 
Posteriormente, Trina parou de desenhar e se transformou em uma pesquisadora renomada na área dos quadrinhos, tendo como objetivo trazer luzes para as desenhistas mulheres que ajudaram a construir a indústria da nona arte nos EUA e no mundo. Seu primeiro livro foi uma co-autoria com a escritora e editora Catherine Yronwode (responsável, durante os anos 1970, pelo título em quadrinhos de Modesty Blaise): TRINA_ROBBINS_Women_and_the_Comics“Women and the Comics” (Capa), uma história das mulheres criadoras de tiras e revistas em quadrinhos. Como um dos primeiros livros publicados sobre este assunto, ele obteve um grande destaque e Trina prosseguiu com outros livros sobre as mulheres na indústria de quadrinhos, incluindo “A Century of Women Cartoonists” (1993), “The Great Women Superheroes” (1997), “From Girls to Grrrlz: A History of Women’s Comics from Teens to Zines” (1999), “The Great Women Cartoonists” (2001), “Pretty In Ink: North American Women Cartoonists, 1896-2013" (2013), TRINA_ROBBINS_Last_Girl_Standing“Last Girl Standing” (autobiografia lançada em 2017) e seu mais recente trabalho “The Flapper Queens”, lançado agosto de 2020.
 
A artista também foi co-fundadora da “Friends of Lulu”, associação que esteve na ativa entre 1994 e 2011 incentivando a leitura e a participação das mulheres na indústria de quadrinhos. No ano de 2013, durante a San Diego Comic Con, ela foi homenageada com sua entrada no prêmio Will Eisner Hall of Fame.
 
Vale a pena destacar que não encontrei publicações de Trina em língua portuguesa, a não ser a história “Problema Existencial”, roteiro que TRINA_ROBBINS_A_PEQUENA_SEREIAela fez para a "Pequena Sereia", desenhado por Mary Wilshire, e que saiu na edição n°01, licenciada pela Disney e editada pela Editora Abril, em 1998. Importante lembrar que a fase da Mulher Maravilha também está inédita. Uma ótima pedida seriam as editoras publicarem tanto o material dela como desenhista como o de autora/pesquisadora de quadrinhos. Uma artista com uma história e um trabalho tão significativo não pode ficar de fora dos catálogos brasileiros.
 
Enquanto estava imerso na pesquisa para escrever sobre Trina Robbins, tive uma intuição: “e se eu conseguisse uma entrevista com ela?”. O “não” eu já tinha, não custava nada tentar. Através das redes sociais solicitei uma pequena entrevista, ela respondeu gentilmente que sim e me passou seu e-mail. Falei com o editor Michael Meneses que havia conseguido uma entrevista com a Trina Robbins, ele convidou Larissa Oliveira e trabalhamos juntos, Larissa, Michael, eu e minha esposa, Patrícia. Entrevista enviada, entrevista respondida, abaixo segue o papo com essa artista, que é um verdadeiro ícone.
 
1 - Rock Press/Jorginho: Você sempre foi ativista feminista, como você observa os avanços e retrocessos dos movimentos pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos e no mundo?
TRINA ROBBINSTrina Robbins:
Acho que já era feminista antes mesmo de ouvir essa palavra. É maravilhoso ver o quão longe nós mulheres chegamos, mas sempre há pessoas que querem nos mandar de volta. Mas não vamos voltar!

2 - Rock Press: Quais são suas expectativas em relação ao momento político norte-americano com a eleição de Biden como presidente? Você acompanha a política brasileira? Se sim, qual a sua opinião?
Trina Robbins:
Minha opinião é que seu presidente é tão maluco quanto nosso Trump. Estou muito grata e aliviada por Joe Biden ter vencido a eleição e ser nosso próximo presidente! Assim que ele estiver na Casa Branca, acho que podemos começar a cura.

3 - Rock Press: Fale sobre “Sandy Comes Out”, a primeira história em quadrinhos TRINA_ROBBINS_Sandy_Comes_Outde uma mulher que se assume lésbica.
Trina Robbins:
Sandy era minha colega de quarto e eu só queria contar a história dela. Quando fiz a história em quadrinhos, não estava pensando em pioneirismo. Ela aprovou tudo o que escrevi e dei a ela os originais acabados assim que foram impressos. Lamento dizer que Sandy morreu jovem, mas seu filho tem as páginas.

4 - Rock Press:  Por falar em feminismo e no movimento LGBTQ+, como você acha que um homem hetero pode contribuir para essas causas?
Trina Robbins:
 Qualquer pessoa pode contribuir apenas sendo e compreendendo o ser humano.

5 - Rock Press: Como foi trabalhar em Vampirella?
Trina Robbins:
 Eu realmente não "trabalhei em Vampirella" - apenas desenhei seu traje.

6 - Rock Press: O que significou para você trabalhar com a temática feminina e juvenil no projeto “Misty” com a Marvel? Como foi a experiência de trabalhar com essa editora?
Trina Robbins:
 Foi um prazer trabalhar com a Marvel. Na época, não existia nada em quadrinhos para meninas, e os editores diziam que as meninas não liam quadrinhos, mas é claro que não liam quadrinhos porque não havia quadrinhos para elas lerem. Sei por todos os e-mails que recebi que as garotas adoravam "Misty", mas as lojas de quadrinhos não vendiam, então falhou depois de seis edições. Se você não consegue encontrar um quadrinho, obviamente não vai vender.

07- Rock Press: Sobre a Mulher Maravilha: como foi ser a primeira mulher a desenhar a princesa amazona dos quadrinhos? Sabemos que você não gostou da versão do brasileiro Mike Deodato para ela na época, pois havia uma hipersexualização da personagem. Qual a sua opinião sobre a abordagem da Mulher Maravilha feita pelos artistas hoje? O que você achou da versão cinematográfica interpretada por Gal Gadot?
Trina Robbins: Mais uma vez, não estava pensando em pioneirismo quando desenhei a Mulher Maravilha. Hoje ela está sendo desenhada lindamente e eu amei o filme e mal posso esperar para ver o próximo.

08 - Rock Press: Você acha que chegamos a um novo patamar ao sair de velhos estereótipos, no que diz respeito à sexualização e banalização das mulheres nos quadrinhos?
Trina Robbins:
Claro que sim!

09 - Rock Press: Por ter se tornado referência na pesquisa de quadrinhos, você poderia nos contar um pouco sobre seu trabalho de resgate da história das cartunistas norte-americanas? Quantas publicações já existem? Como está indo a pesquisa? Ainda há muito material a ser publicado?
TRINA_ROBBINS_The_Flapper_QueensTrina Robbins: Eu escrevi pelo menos 5 histórias de várias cartunistas mulheres do início do século 20, e tenho um novo livro saindo em janeiro. Meu livro mais recente é "The Flapper Queens", com foco nas mulheres que desenhavam quadrinhos na Era do Jazz. Foi lançado no início deste ano. Confira!

10 - Rock Press: Como pioneira no trabalho com cartum, você acredita que hoje temos uma representação maior de cartunistas? Quais novos nomes você destacaria? E qual a sua opinião sobre a cartunista Alison Brechdel que já contribuiu para a Comix de Wimmen e cujo objetivo é trazer visibilidade lésbica à cultura dos quadrinhos; algo que você provavelmente se identifica.
Trina Robbins:
Alison é incrível! Há tantas cartunistas contemporâneas hoje em dia - mais do que nunca - que não sei por onde começar.

11 - Rock Press: Para finalizar, quais são seus projetos para 2021?
Trina Robbins: Tenho um novo livro saindo em janeiro: "Gladys Parker, a Life in Comics, a Passion for Fashion". Gladys Parker era uma mulher incrível que parecia exatamente com a sua personagem de desenho animado, Mopsy, que ela desenhou por mais de 30 anos. Ela também foi designer de roupas nos anos 1930 e 40, desenhando roupas para estrelas de cinema como Barbara Stanwyk e Hedy Lamarr.

Ícone...
Trina Robbins tem obras fantásticas e fundamentais, que merecem serem publicadas no Brasil. Então vamos lá pessoal, não podemos deixar passar essa oportunidade. Trina estará presente no Artist Valley da CCXP Worlds, o maior evento GEEK do mundo. A CCXP vai ser virtual este ano e (dias 4, 5 e 6 de dezembro), e contará com muitas atrações, entre elas, Bill Sienkwickz, Neil Gaiman, Kevin Eastman, Margaux MotinDenilson ReisChristopher Kastensmidt e muito mais. Fiquem atentos à programação, a Rock Press segue na cobertura do evento  (LEIA AQUI) trazendo muitas informações para vocês. – Jorginho.

 
JORGINHO escreveu esse texto/entrevista ao som de “Riders on The Storm!”, música presente no álbum L. A. Woman, do The Doors, lançado em 1971. O mesmo está louco para ler as obras de Trina Robbins editadas em português. Jorginho é filósofo, educador social, agitador cultural, administrador do ColetiveArts (grupo de artistas e escritores de Porto Alegre/RS), acadêmico de pedagogia, torcedor do Grêmio, mas não gosta de futebol, gosta é do Grêmio. Trabalha como ilustrador, criador de conteúdo e tudo que seja relacionado ao desenho, incluindo participações em exposições nacionais e internacionais na área de cartuns, quadrinhos, charges e desenho em geral. Já ilustrou inúmeros livros infantis, também foi autor pela plataforma Elefante Letrado. Trabalha com oficinas de desenho, ilustrações e fanzines. Também é produtor e apresentador do Programa Psycho Killer na Rádio Rota 220 (OUÇA AQUI).

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