THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE – Axis: Bold As Love (1967)

Nessa sexta-feira, dia 18 de setembro, completam-se 50 anos da morte de THE_JIMI_HENDRIX_EXPERIENCE_Axis_Bold_As_Love_capaJimi Hendrix, músico celebrado como o maior guitarrista da História do Rock, falecido, em 1970, aos 27 anos de idade. Para marcar essa data, a Rock Press mergulhou em um dos seus álbuns, “Axis: Bold As Love”, incluindo-o na nossa seleta coluna Discão. Lançado em dezembro de 1967, o segundo álbum da Jimi Hendrix Experience continua sendo redescoberto geração após geração e aqui vamos tentar entender um pouco o porquê. Outra prova da permanência do artista é a novidade discográfica com o lançamento de documentário inédito e shows em Blu-ray que incluem boxs em vinil triplo e CD duplo com apresentações de Jimi, em Maui. A coleção já se encontra em pré-venda e sairá oficialmente em novembro. Antes disso, o público brasileiro pode conferir outra performance histórica,  no especial “50 Anos sem Jimi Hendrix – Live At Woodstock” que vai ao ar no Canal Bis, sexta-feira (18/9), às 21h. 

THE JIMI HENDRIX EXPERIENCE – Axis: Bold As Love (1967) 

TEXTO: Robert Moura
FOTOS: Divulgação
ARTE: Jorginho

Rótulos exigem simplificações. Para se vender um produto é necessário embalá-lo de forma sedutora para que ele seja o mais chamativo THE_JIMI_HENDRIX_EXPERIENCE_Axis_Bold_As_Love_posterpossível, indo direto ao ponto, apresentando o mínimo de informação. A indústria da música, assim como outra qualquer, jamais abdicaria de seus rótulos. Assim, foi natural que Jimi Hendrix fosse visto (e vendido), sobretudo como um guitarrista genial. O que de fato ele era. A forma como ele reinventou o instrumento quase esgotando suas possibilidades em uma curtíssima carreira e toda a mitologia criada a partir disso com suas performances arrasadoras que, além da música, incluíam “truques” como tocar com os dentes, quebrar ou pôr fogo na guitarra no palco foram fortes marcas da imagem que foi estabelecida sobre o músico. Mas, isso seria muito pouco para definir sua obra. Consciente dessa imagem que se formava, e que embora tenha sido importante para ajudar a projetar seu trabalho, Hendrix abandonou esse estilo, passando a focar na música. Aliás, ele mesmo não gostava desses atos que via como superficiais. Como era de esperar, houve reações negativas do público. Em uma entrevista para a TV, o baterista Mitch Mitchell relatou  que, de repente, as pessoas começaram a reclamar do fato do guitarrista estar oferecendo “apenas” música em seus shows e nada das cenas impactantes que elas estavam acostumadas ou haviam tomado conhecimento na medida em que o mito ia se criando. 

Voltando aos rótulos, não podemos esquecer que eles,JIMI_HENDRIX_Jorginho_17_09_2020 em muitos casos, envolvem produtos que são acompanhados de bulas ou manuais de instruções mais detalhadas no interior da embalagem. No caso de Hendrix, a força do rótulo criado sobre aquele que é considerado o maior guitarrista da História do Rock’n’Roll, algo reconhecido por praticamente todos os seus pares, faz com que pouco se fale de sua obra fora do âmbito da performance. Esquecem do compositor (seu conteúdo como letrista então quase nunca é abordado), do cantor e do grande artista que ele foi de maneira geral. É que normalmente, as pessoas vêem o rótulo, mas não lêem a bula ou o manual de instruções. Rótulos costumam ocultar os detalhes, e a intenção aqui é jogar algumas luzes sobre eles. Então, relembremos esse que é um dos grandes clássicos da História do Rock’n’Roll e da Música: “Axis: Bold As Love”, do Jimi Hendrix Experience. 

“Axis: Bold As Love” foi o segundo álbum de Hendrix. Lançado no dia primeiro de dezembro de 1967, apenas sete meses após “Are You Experienced”, o primeiro disco do Jimi Hendrix Experience, e exatamente seis meses após o não menos icônico “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles. Esses são daqueles álbuns que certamente foram ainda mais impactantes para quem os ouviu na época de lançamento, sem todas as informações musicais que vieram depois deles. Pode-se verificar isso ao ler as críticas da época com reações entre a admiração e o espanto. Com o lendário Eddie Kramer responsável pela engenharia de som, o disco tem produção de Chas Chandler, baixista da banda The Animals, que foi o “descobridor” e empresário de Hendrix. Chandler levou o músico norte-americano para a Inglaterra lançando-o lá,  prestando assim um enorme serviço à música de todos os tempos, uma vez que Jimi ainda não havia encontrado espaço para sua arte nos EUA.  

O contrabaixo de Noel Redding THE_JIMI_HENDRIX_EXPERIENCE_Up_From_The_Skies_e_One_Rainy_Wish_singleexecutando uma breve frase de chamada com notas em harmônicos e ligaduras é o primeiro instrumento a se ouvir no disco. Trata-se da faixa de abertura, “EXP”, que é uma vinheta na qual um apresentador (narrado pelo baterista Mitch Mitchell) de uma rádio fictícia chamada EXP entrevista o também personagem, Paul Caruso (narrado por Jimi). O convidado responde a uma pergunta sobre a existência ou não de discos voadores, OVNIs e seres extraterrestres. Hendrix (ou Caruso) que acreditava na existência dos mesmos e apreciava muito ficção científica se esquiva deixando a resposta no ar como se ele mesmo fosse um desses seres extraterrestres (e quem poderia provar que não?). Sua voz muda de tom, ele se desculpa e vai saindo às pressas, enquanto o radialista se assusta ao ver Caruso (Hendrix) se transmutar na sua frente e partir. A guitarra surge simulando sons dessa transmutação e da nave espacial que levará os ouvintes para a experiência sonora que virá em seguida. Ligando o tema, os versos de “Up From The Skies” dizem “I just wanna talk to you/I won't do you no harm/I just wanna know about your different lives on this here people farm” (“Eu só quero falar com você/Eu não vou machucar/Eu só quero saber sobre suas vidas diferentes aqui nesta fazenda de gente”). A música tem algo da influência jazzística de Hendrix, e a bateria de Mitch Mitchell adiciona uma levada não muito comum ao pop de então (vale registrar que quando escrevo pop aqui, refiro-me ao contexto de uma música popular capaz de alcançar o grande público, e não no sentido do pop como um gênero THE_JIMI_HENDRIX_EXPERIENCE_Burning_of_the_Midnight_Lampmusical em si. Não podemos esquecer que a raiz da música de Jimi estava baseada, principalmente, no blues). Hendrix cria uma base harmônica utilizando um pedal de wah-wah que se sustenta durante toda a canção (um uso ainda muito original para esse efeito que se tornaria uma das grandes marcas de sua sonoridade e que ele havia explorado anteriormente no single “Burning Of The Midnight Lamp”). 

“Spanish Castle Magic” apresenta um de seus riffs mais marcantes, e outra das bases não usuais de Hendrix que junto com a bateria de Mitch Mitchell e o baixo de Noel Redding definiram muito do que viria a ser a sonoridade dos powers-trios, e das bandas de hard rock e heavy metal. Aliás, é exatamente em suas bases de guitarra que reside uma das grandes contribuições e inovações de Hendrix no instrumento. Seus acompanhamentos criados em riffs fundem-se com solos em diversos momentos gerando arranjos únicos, explorando ao máximo as possibilidades harmônicas e melódicas da guitarra. “Wait Until Tomorrow”, outro de seus clássicos tem uma guitarra com um swing funk que depois seria extremamente recorrente na música pop, mas que, talvez, também ainda não se tivesse ouvido antes de Hendrix em uma gravação de rock. “Ain’t No Telling” com seu ritmo “quebrado” e passagens inesperadas, é mais uma das músicas de Hendrix que reforçam as palavras de Eric Clapton quando disse que Jimi fazia tudo diferente. 

Uma de suas mais belas melodias, senão a mais bela de todas é “Little Wing”, canção que em pouco menos de dois minutos e meio de duração consegue condensar a melodia a arranjos geniais de guitarra (a começar pela marcante introdução), unidos a timbres singulares e um solo curto, mas de intensidade única. O glockenspiel ajuda a realçar sua identidade sonora bastante original. E não podemos esquecer que Jimi também sabia dar o recado nos vocais e a letra de “Little Wing”, impregnada de lirismo com imagens de nuvens, borboletas, zebras, raios de lua e contos de fadas, fornece o clima ideal para realizar também uma de suas melhores interpretações vocais. “If Six was Nine” tem uma contundente e individualista letra escrita bem no meio de toda a questão hippie: “Now if six turned out to be nine/I don't mind, I don't mind/Alright, if all the hippies cut off all their hair/I don't care, I don't care/Dig, 'cos I got my own world to live through/And I ain't gonna copy you” (“Agora, se seis acabasse por ser nove/Eu não me importaria, eu não me importaria/Certo, se todos os hippies cortassem todos os seus cabelos/Eu não me importaria, eu não me importaria/Sabe, porque eu tenho o meu próprio mundo para viver/E eu não vou copiar você”). Algo do tipo “seja você mesmo”, ou “seja seu próprio herói” como diria Lennon, que provavelmente deve ter agradado à mente do beatle. No solo e no final da canção, surge toda aquela sonoridade caótica de Hendrix que denunciava que o mundo não vivia tão em “paz e amor”.

“You Got Me Floatin” inicia o lado B do disco com um riff rascante com distorção na medida certa, e a mesma loucura sonora que fecha o lado A. “Castle Made of Sand” tem em sua introdução mais uma das sacadas simples e geniais de Hendrix com acordes ascendentes e descendentes passeando pela escala da guitarra e depois um turnaround ainda na onda de “Little Wing” com aquele timbre estalado característico das guitarras Fender Stratocaster. Junto aos versos, frases de guitarra invertida, inovação trazida pelos Beatles um ano antes no álbum Revolver (vide as músicas “I’m Only Sleeping” e “Tomorrow Never Knows”). Além do som, Hendrix revela-se um bom cronista na letra em que fala de forma cinematográfica de uma recorrente briga de casal: “Down the street you can hear her scream: "you're a disgrace” /As she slams the door in his drunken face/And now he stands outside and all the neighbours start to gossip and drool” (“Descendo a rua, você pode escutar o grito dela: "você é um desgraçado"/Enquanto bate a porta na cara embriagada dele/E ele fica na rua/ enquanto os vizinhos começam a fofocar e conversar”). Triste pensar que o casal que teria inspirado a poesia da letra era composto por sua mãe Lucille e seu pai Al Hendrix. Inclusive, a garota na cadeira de rodas também citada na letra seria Lucille, pois foi nessa situação que Jimi viu a mãe pela última vez antes que ela falecesse quando ele tinha apenas 17 anos. 

“Shes´s so fine” é a única música do disco não composta por Hendrix. O baixista Noel Redding a assina e faz o vocal principal da faixa que lembra muito o Cream em músicas como “Strange Brew”. “One Rainy Wish” é mais uma variante da sonoridade clássica de Hendrix com uma levada inicial meio arrastada que é atropelada no meio da canção por uma crescente agressividade e frases hipnóticas de guitarra. “Little Miss Lover” tem uma levada de bateria que depois seria muito presente em músicas do Led Zeppelin, como “Heartbreaker” ou “The Song Remais The Same”, por exemplo. “Bold As Love” nomeia e fecha o álbum com um solo brilhante de guitarra. A canção apresente outra grande melodia de Hendrix, quase nunca lembrado por esse seu lado compositor. Ele sempre manifestava em suas entrevistas o seu foco na composição, inclusive revelando o desejo de saber escrever música, em especial para cordas, e citando sua admiração pela obra de Bach. 

Apesar do lugar-comum e de todos os clichês que exaltam apenas o Hendrix guitarrista, é bom lembrar que mais do que o instrumentista fora de série, ele era um grande músico no conceito mais amplo do termo. As faixas desse álbum mostram isso, seja pelas suas composições, seja pela concepção dos arranjos, ou ainda o cuidado com timbres e com todo o processo de gravação. Não esquecendo que suas letras também merecem respeito, principalmente se pensarmos que os compositores de rock norte-americanos (em detrimento dos ingleses) nunca foram dos melhores letristas, com algumas exceções óbvias, como Dylan.

Assim como a música contida no disco, a capa (rótulo) de “Axis: Bold As Love” também se tornou um ícone da contracultura dos anos 1960. Seu design é de David King e a ilustração de Roger Law. Ela apresenta Hendrix, Redding e Mitchell como divindades hindus. Jimi não teria gostado, pois preferia que ela evocasse indígenas americanos, até porque ele era neto de uma cherokee. De qualquer forma, essa se tornou uma das imagens mais clássicas e difundidas de Hendrix.

Jimi Hendrix Experience: Live In Maui

THE_EXPERIENCE_Live_In_MauiEm tempo: está sendo lançado um novo álbum ao vivo do músico em parceria da Experience Hendrix L.L.C. com a Legacy Recordings/Sony Music. Batizado simplesmente de “Jimi Hendrix Experience: Live In Maui”, ele terá duas versões em boxs, uma com vinil triplo e outra com CD duplo, sendo que ambas incluem um Blu-ray com dois shows e o documentário “Music, Money, Madness... Jimi Hendrix In Maui”. O vídeo traz na íntegra as duas apresentações do Experience realizadas na tarde do dia 30 de julho de 1970, na ilha havaiana. Elas foram filmadas originalmente para serem incluídas no filme “Rainbow Bridge”, produzido por Michael Jeffery, mas apenas uma parte, aproximadamente 17 minutos, foi utilizada. O documentário inclui imagens inéditas e novas entrevistas. A restauração e mixagem ficaram por conta de Eddie Kramer. Na ocasião, além, de Hendrix e Mitch Mitchell na bateria, a banda contava com Billy Cox no contrabaixo, depois da saída de Noel Redding. Já em pré-venda, o novo material será lançado oficialmente no dia 20 de novembro. Para maiores detalhes acesse o site oficial AQUI.

Jimi Hendrix: Live At Woodstock

JIMI_HENDRIX_Live_At_WoodstockEnquanto o material novo não sai, a dica é ver (ou rever, até porque nunca é demais) a histórica apresentação de Hendrix no Festival de Woodstock, em 1969. O show será exibido no especial “50 Anos sem Jimi Hendrix – Jimi Hendrix – Live At Woodstock”, no  Canal Bis nessa sexta-feira (18/9), às 21h, dia em que se completa o cinquentenário da morte de Jimi. – Robert Moura.

 


ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira, e teve um dos maiores impactos musicais de sua vida ao assistir ao vídeo do show de Jimi Hendrix na Ilha de Wigth. A situação se repetiria com o show de Woodstock, e novamente ao ouvir suas gravações de estúdio. Atualmente, seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

JORGINHO é: Filósofo, educador social, agitador cultural, administrador do ColetiveArts (grupo de artistas e escritores de Porto Alegre/RS), acadêmico de pedagogia torcedor do Grêmio, mas não gosta de futebol, gosta é do Grêmio. Trabalha como ilustrador, criador de conteúdo e tudo que seja relacionado ao desenho, incluindo participações em exposições nacionais e internacionais na área de cartuns, quadrinhos, charges e desenho em geral. Já ilustrou inúmeros livros infantis, também foi autor pela plataforma Elefante Letrado. Trabalha com oficinas de desenho, ilustrações e fanzines.
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