O POÇO: Destrinchando O Poço!

Numa boa onda de filmes que mais sugerem e provocam do que dão respostas prontas, ricos em interpretaçõeO_Poço_Netflixs possíveis, cheios de analogias como os sucessos Bacurau e Parasita, O Poço vai ainda além no quesito “final aberto”. E pasmem, sua aceitação perante o grande público tem sido imensa. Com apenas nove dias de lançamento na Netflix, o longa tem se mantido no topo da lista de mais assistidos, batendo apostas mais fáceis como Toy Boy ou Elite. Outra forma de medir o sucesso da obra é verificando o enorme número de textos que discutem o filme em sites especializados e blogs pessoais, além da postagem maciça de youtubers que prometem desvendar os segredos e símbolos da película. Tudo isso sem o suporte do cinema tradicional (se é que ele ainda faz diferença). Rock Press assistiu e desvendou o tão discutido final...

O POÇO:
Destrinchando “O Poço”
Entenda o que o final do filme quer nos dizer

TEXTO: Peter LaRubia
IMAGENS: Divulgação

O sucesso do longa espanhol dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia se deve, em grande parte, à boa sacada da crítica social do poço como metáfora de nossa realidade. Verdade seja dita, essas críticas sociais estão em voga, os filmes Parasita e Coringa que o digam. O que é bom, mas não deixa de ser um fenômeno dos nossos dias que as produtoras perceberam e resolveram investir. Mas a maior razão do boca a boca é o final em aberto que dá margem para a discussão em torno de várias interpretações. Por um lado, é uma surpresa, as pessoas em geral tendem a detestar finais abertos pela simples razão de se verem obrigadas a pensar além do que estão acostumadas. Por outro, não tem nada que renda mais visualizações e comentários nas redes do que uma bela discussão. E, por fim, a presença dos inúmeros símbolos e mistérios a serem desvendados agiu como estímulo à curiosidade e consequente interesse pela obra. Então vamos começar por eles.

Antes, uma visão geral do enredo que, à primeira vista, é bem simples: O Poço é uma espécie de prisão vertical composta por vários níveis em direção ao centro da terra, cada nível é habitado por duas pessoas que estão lá por razões distintas. Diariamente uma plataforma desce pelo poço trazendo os melhores alimentos. Quem está nos primeiros andares come tudo do bom e do melhor, quem está por baixo se contenta com sobras, ou com nada.

O mais óbvio dos símbolos é a comparação do poço com nossa sociedade individualista, resultado de nosso modelo socioeconômico. Os que estão por cima têm acesso ao que há de melhor enquanto os privilégios vão se esgotando conforme se desce na escala social até o nível da miséria total. Além disso, assim como em nosso mundo, quem está por cima pisa em quem está por baixo. E mais, esse mecanismo está dado e não há nada o que ninguém possa fazer para mudá-lo, apenas agir de acordo com suas normas invisíveis. É um mecanismo que nos transforma em seres predatórios e egoístas por mais que tenhamos ideais nobres.

Mas o autor nos prepara o primeiro ponto de virada quando descobrimos que, de mês em mês, e de forma aparentemente aleatória, os prisioneiros são trocados de andar. Então, aquele que estava no andar 171 acorda de repente no 6. Agora o aviltante: se antes ele passou fome vendo todos acima desfrutando de benesses, não seria de esperar que, agora que tem alimento de sobra ele trate quem está por baixo com empatia? É aí que esse experimento sociológico chamado O Poço causa nosso primeiro grande espanto. Quem passou a estar por cima age exatamente como aqueles que estão por cima devem agir, comem até não poder mais e cospem em quem está por baixo. O filme atinge um nível mais profundo (trocadilho cara de pau) de crítica. 

Outra chave para se ter uma leitura mais completa do longa metragem é entender os símbolos que compõem o personagem O_Poço_Netflixprincipal. Goreng (Ivan Massagué) entra no poço por vontade própria e leva consigo um livro. As pessoas podem escolher qualquer objeto para levar consigo. Normalmente escolhe-se uma arma. Goreng escolhe um livro. Símbolo óbvio do conhecimento ante as mazelas do mundo. Não qualquer livro, mas Dom Quixote de la Mancha. Um ícone da literatura mundial, maior representação de um livro na nossa idade moderna, o mais vendido de todos os tempos (perdendo apenas para a Bíblia – que, aliás, também é fonte fundamental para entender a película) e lembremos, o filme é espanhol!

A própria caracterização de Goreng é feita para que ele se assemelhe ao fidalgo sonhador. Se o poço é o mundo, Goreng é todos nós. O Dom Quixote ingênuo e sonhador que, como ressaltei, por iniciativa própria sai pelo mundo combatendo o mal. O protagonista representa nossas lutas diárias em tentar agir com ética perante um mundo que constantemente mostra sua face insensível, hipócrita e vil.

Como disse antes, a bíblia e as referências cristãs também são fundamentais na trama. A primeira cena do filme retrata a cozinha onde é preparado o alimento que desce pela plataforma do poço. Mais do que o encarceramento é a comida o elemento principal nessa prisão vertical. A luta pela sobrevivência é descrita através da luta pela comida. Quem está nos primeiros níveis a recebe linda, cheirosa, saborosa. Quem está nos andares inferiores fica com o resto, manuseado, pisado, sujo. Quem está no fundo não recebe nada. 

Essa cozinha é um local criteriosamente limpo, arrumado, de um asseio quase tirânico. A preparação dos pratos segue níveis de exigência que deixariam os hotéis e restaurantes mais caros do mundo se achando um boteco de rodoviária. É um local que exala perfeição. Assim como o céu. É de lá que vem o alimento de cada dia. Como se o diretor do filme dissesse: “foi Deus quem criou tudo o que vai servir de subsistência para o homem, tudo que ele necessita foi dado pelo céu: água, verduras, legumes, carne. Tudo o que vocês têm a fazer é pegar sua parte”.

Também vamos descobrir que o poço tem 333 andares. Cada piso tem duas pessoas. Façam as contas. Bem óbvio, não é? Quanto mais se desce, mais próximo do inferno. Os personagens com quem o protagonista esbarra carregam suas próprias simbologias. Vou me concentrar em Trimagasi (Zorion Eguileor), o principal personagem secundário. Esse coadjuvante nada mais é do que um Sancho Pança amargo e cruel. Repetindo o artifício da caracterização usado em Goreng/Dom Quixote, Trimagasi é baixinho e gordinho como o escudeiro do romance de Miguel de Cervantes. O mais importante é a função do personagem e aqui o coadjuvante tem a mesma do livro: mostrar o tempo todo que o idealismo de Goreng/Quixote não vai funcionar na vida real. Ali as coisas seriam duras e cruéis, não haveria espaço para atitudes honradas de cavalaria ou, no caso do filme, esperança e empatia. Tanto que no fim do filme é Trimagasi, já morto, quem vai buscar Goreng, como que repetindo nas entrelinhas a fala daquela irritante motozinha do desenho animado: te disse, não te disse?! Mas isso é assunto para o final desta resenha. Já estamos chegando lá. A partir daqui teremos SPOILERS. Apesar de achar que uma boa obra nunca é estragada por sabermos seus acontecimentos, ainda mais esta com suas simbologias e final tão aberto, o ideal é que você veja o filme antes de ler os próximos parágrafos.

Bem, o que está deixando a galera ouriçada mesmo é desvendar o significado do final do filme. Deixe-me dar um resuminho antes. Goreng traça um plano de descer a bordo da plataforma de comida até o final do poço para depois subir de volta e chegar ao primeiro andar. Ora, por que ninguém nunca fez isso? Um, a descida é perigosíssima, a chance de ser atacado e morto por outros prisioneiros é gigantesca. Dois, a plataforma sobe de volta ao primeiro piso numa velocidade estonteante, qualquer um poderia morrer só com a força do deslocamento.Com a ajuda de um novo companheiro, Goreng começa a jornada. No meio do caminho, ele esbarra com um velho sábio. O homem explica que apenas chegar ao nível superior não adiantaria. Era preciso levar uma mensagem. Chegam à conclusão de que se levarem um doce (uma panacota) intacto até a cozinha, até o nível superior, provarão que lá embaixo há seres humanos de valor, há pessoas assim como eles lá de cima, e não animais.

Goreng chega ao último andar. Mas chegando lá, descobre a criança que todos só ouviram falar e que estaria perdida no poço. Brigam quase até a morte (ou seria até a morte de fato?) com os dois prisioneiros que já estavam naquele nível. A criança, apesar de limpa e de feições saudáveis, só pode estar faminta, isolada ali no último nível. Goreng fica na dúvida entre mandar a panacota na plataforma ou alimentar a criança. Acaba sacrificando o doce, alimentando a criança e mandando o infante sozinho de volta na plataforma. Essa pequena menina, bonita e inocente, representaria a mensagem de pureza e esperança que seria dada aos habitantes do nível superior, da elite, do céu.

Desvendando o final...

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Então, vocês que já assistiram, lembram a cena em que o chefe de cozinha briga com os cozinheiros porque há um fio de cabelo no doce (uma panacota – ó, que coincidência, senhor roteirista?). O diretor é muito esperto e joga essa cena como quem não quer nada, você na hora não entende o porquê dela e depois acaba esquecendo de sua existência. Essa cena é mostrada na segunda metade do filme. Só que ela aconteceu, na verdade, no fim da história! Não foi a menina quem subiu na plataforma, a menina foi uma ilusão criada pelo protagonista, que assim como Dom Quixote era um idealista e fantasiava sempre uma esperança.

O que subiu na plataforma foi o doce, a panacota.
Mas a sobremesa chegou lá em cima com um fio de cabelo. E a reação do chefe mostra que o pessoal da cozinha, o pessoal lá de cima, tem uma visão totalmente distorcida e idealizada da realidade que ocorre com o pessoal do poço. No final das contas, a mensagem que a panacota devia dar, de que os habitantes do poço apesar da miséria em que vivem poderiam mostrar civilidade, foi totalmente mal interpretada. O cozinheiro achou que o pessoal lá embaixo devolveu a panacota porque ela estava com um fio de cabelo. Na cabeça do pessoal lá de cima, todos no poço comem cada um seu prato preferido e por isso vivem bem (lembram que a pessoa é perguntada sobre seu prato predileto antes de entrar no poço?), vide o cuidado escrupuloso com que preparam a comida. E a panacota voltando foi interpretada como devolução por causa de um descuido, um detalhe, um fio de cabelo.

Temos aí uma provocação e uma metáfora. Religiosa, pois é como se o céu não soubesse do que a gente sofre aqui na terra e achasse que a gente tem tudo que a natureza nos dá e, portanto, deveríamos viver felizes (o que não deixa de ter sua porção de verdade). Social, porque a elite lá em cima, que também não tem a menor ideia do que o pobre sofre, acha que deveríamos estar felizes e agradecidos com as migalhas que nos dão. O protagonista morreu em vão e a criança nunca existiu. - Peter LaRubia.


Ficha técnica: O poço (El hoyo)
Direção: Galder Gaztelu-Urrutia
Produção e distribuição: Netflix
Duração: 94 minutos
Ano de produção: 2019
Estreia: 20/03/2020
Gênero: suspense
País de origem: Espanha

 

Peter_LaRubia_Escritor_MúsicoPeter LaRubia é autor dos livros Terra do nunca e F.ú.r.i.a. Cyberpunk. Nascido e criado no Hell de Janeiro tem 17 anos desde 1995. Pode ser encontrado em http://www.peterlarubia.com.br/

 

 

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Posted by Michael Meneses Monday, March 30, 2020 8:56:00 PM Categories: Cinema Cinema Espanhol Cyberpunk El hoyo Film Art Galder Gaztelu-Urrutia Netflix O poço Peter LaRubia