LUIZ MELODIA: Melodia para ler, ver e ouvir!

Luiz Melodia é celebrado em trabalhos literário, cinematográfico e premiação. Falecido Luiz_Melodia_fotoem 2017, ele é retratado no livro “Meu nome é ébano: vida e obra de Luiz Melodia”, de Toninho Vaz, e no documentário “Todas as Melodias”, de Marco Abujamra, e será o homenageado do Troféu Raça Negra 2020 que ocorre hoje (19/11) com transmissão online, e exibição pela TV Cultura, amanhã (20/11), Dia Nacional da Consciência Negra. 

LUIZ MELODIA:
Melodia para ler, ver e ouvir!

TEXTO: Robert Moura
FOTOS: Divulgação

Luiz_Melodia_Discos

Esse ano, o legado de Luiz Melodia ganhou dois importantes lançamentos, a biografia “Meu nome é ébano: A vida e obra de Luiz Melodia”, de Toninho Vaz, e o documentário “Todas as Melodias”, de Marco Abujamra. Luiz Melodia foi, sem dúvidas, um dos mais originais e talentosos nomes da música brasileira. Entretanto, essas mesmas qualidades lhe custaram restrições na carreira. Sua originalidade fez com que a indústria tivesse dificuldades em encaixá-lo com facilidade em qualquer prateleira. Quiseram empurrá-lo para o samba. Ele não era só samba. O pop, quem sabe? Também não cabia. Havia muito da essência da música brasileira em sua obra. Ele percorreu o samba, o choro, o baião, mas também tinha o blues, o jazz e o reggae correndo em suas veias, assim como a primeira encarnação do pop e do rock brasileiro, através da Jovem Guarda. Podemos incluir, ainda, a salsa e o mambo cubanos como parte da música latina que também se manifesta em seus trabalhos. O seu talento, do qual ele era absolutamente ciente, fazia com que não aceitasse qualquer violação em sua arte como era sugerido por produtores musicais e de TV. Assim, ele se recusaria a gravar canções ou fazer vídeos que não estivessem de acordo com seu senso estético. Em um País no qual é comum que se lamba as migalhas que são jogadas pela indústria fonográfica e televisiva, é óbvio que ele sofreria retaliações. Mas, estas parecem terem ido muito além dos embates criativos. A desculpa de indisciplina nunca colou. Se fosse assim, vários nomes da música brasileira, não teriam o espaço e destaque que lhes foi dado. Talvez, houvesse algo mais em Luiz Melodia que incomodasse. Alguém arriscaria um palpite? 

Apesar de tudo, ele jamais se curvou. Afinal, seu nome também era Ébano, e seu biógrafo Toninho Vaz, lembra muito bem que ébano é uma árvore do gênero Diospyros de madeira nobre, geralmente muito escura. Acrescento que ela é uma madeira utilizada para a construção de escala para violões. Para quem não sabe, a escala do violão é exatamente onde os dedos prendem as cordas para produzir as notas, melodias e harmonias. Por propiciar sustentação e beleza ao timbre dos instrumentos, o ébano também é usado em guitarras, contrabaixos, cavaquinhos, violinos, entre outros instrumentos como clarinete, oboé, bem como nas teclas pretas do piano. Vale observar que, por ser cara e cada vez mais rara, ela está presente apenas em instrumentos de maior qualidade. Há que se dizer, ainda, que o ébano é uma madeira de origem africana, muito resistente, e além de sua qualidade sonora, a sua escolha para a construção de instrumentos musicais deve-se ao fato dela não empenar ou entortar. O ébano não se curva. E o nome de Luiz Melodia, nunca é demais lembrar, também era (é) Ébano! 

Para ler...
Escrita porLuiz_Melodia_Meu_Nome_é_Ébano_livro_biografia Toninho Vaz e publicada pela Editora Tordesilhas, a biografia “Meu nome é ébano: A vida e obra de Luiz Melodia” rememora de forma cronológica os caminhos de Luiz Carlos dos Santos. Começando por seu nascimento no Morro do São Carlos, no Rio de Janeiro, em 7 de janeiro de 1951, entremeando sua vida com seus discos, shows e composições, dando um panorama de sua trajetória até o dia 4 de agosto de 2017, quando nos deixou vítima de um câncer. A cuidadosa narrativa ressalta detalhes das produções de todos seus álbuns, entre os quais estão “Pérola Negra” (de 1973, que acaba de ser relançado em vinil pela Revista Noize), “Maravilhas Contemporâneas” (de 1976, relançado em vinil pela Polysom, em 2018), “Mico de Circo” (1978) e “Pintando o Sete” (1991). O texto também revela os bastidores de shows marcantes que ele realizou no Teatro Rival, no Circo Voador, e em turnês internacionais que incluíram apresentações no Montreux Jazz Festival, na Suíça, em 2008 e 2012.

O capítulo final ficou reservado para depoimentos de amigos e parceiros musicais, sendo que o primeiro da fila não poderia ser outro que não, Renato Piau, o guitarrista e compositor que esteve ao seu lado durante quase toda a sua carreira e com quem realizou diversas apresentações em duo. Para quem acompanhou o trabalho de Luiz dos anos 1980 em diante, é quase impossível dissociar as duas figuras. O cantor e compositor Hyldon e a cantora e atriz Zezé Motta também não poderiam faltar, sendo que ela foi a cantora que mais gravou canções de Luiz Melodia. O livro traz duas ótimas seções de fotos. O único “porém” fica por conta da discografia que traz os créditos de autoria das canções errados em sua quase totalidade, citando Luiz Melodia como autor de canções que não são de sua lavra, bem como omitindo parcerias. Acredito que isso se deu devido a uma consulta nas plataformas digitais e não nos discos físicos. Ironicamente, esses dados seriam de grande serventia exatamente por, nesse momento, boa parte das audições serem realizadas através dessas plataformas que oferecem poucas e incompletas informações. Inclusive, as fichas técnicas seriam muito bem-vindas, mesmo que o trabalho não pretenda ser, exatamente, um guia. Outro deslize em relação à autoria acontece ao longo do texto quando a canção “Parei... Olhei”, do repertório de Roberto Carlos é atribuída a ele, mas a composição, na verdade, é de Rossini Pinto. Aliás, poderia se incluir na seção da discografia a listagem de gravações que outros artistas fizeram de sua obra, uma vez que boa parte já aparece no corpo do texto, bem como as participações de Luiz Melodia em discos alheios. Uma de suas últimas gravações, realizada em 2016, "Samba é Sacerdócio" (Gileno Felix/Paulo Mutti), em dueto com a cantora baiana Aiace para seu CD “Dentro Ali” (2017), por exemplo, não foi citada no livro. Valeria muito a pena isso ser revisto para uma segunda (e merecida!) edição. Esses detalhes não tiram o brilhantismo do trabalho de Toninho Vaz, que com serenidade e muito equilíbrio presta um belo e merecido tributo ao homem, ao artista e à sua obra.
  
Para ver e ouvir...
Luiz_Melodia_Todas_as_melodias_papo_cartazJá, o documentário “Todas as Melodias”, dirigido por Marco Abujamra, estreou na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e pode ser visto online (AQUI) no site do festival. A montagem foge da narrativa mais linear e cronológica para apresentar um retrato, digamos assim, mais poético de Luiz Melodia. É possível que roteiro e direção tenham sido inspirados nas próprias letras e músicas de Luiz Melodia, com cortes menos usuais e bastante contrastantes. O filme chega a ser até mais artístico do que documental, o que é muito bem-vindo nesse caso, mas sem perder a realidade dos fatos. Jane Reis, viúva de Luiz Melodia é personagem fundamental no documentário, assim como foi na vida e na carreira do marido, chegando mesmo a assumir seu empresariamento. Também estão presentes duas de suas três irmãs, Raquel e Vânia (Marize, homenageada no álbum “Zerima” de 2014, faleceu em 2009) e os filhos Hiran e Mahal. Destaque para as participações de Jards Macalé, Zezé Motta e Wally Salomão que contribuiu imensamente com a carreira de Luiz Melodia ao incluir “Pérola Negra” no repertório do show que resultou no álbum ao vivo “Fa-tal: Gal a Todo Vapor” (1971), de Gal Costa. Em dado momento, a cantora surge interpretando a canção, a partir da faixa extraída de seu DVD “Estratosférica” (2017). Os depoimentos de Arnaldo Antunes, Céu e Liniker incluem performances musicais a capella.

É também a capella que se ouve Luiz Melodia em “Estácio, Holly Estácio”, na DVD_Luiz_Melodia_Ao_Vivo_Convidaversão lançada em seu DVD “Ao Vivo Convida” (2003) (foto). O cantor aparece, relativamente, pouco em depoimentos. Os outros falam por ele. Sua música fala por si. A presença da voz de Luiz se dá em outras canções como, “Negro Gato” (Getúlio Côrtes), e algumas de suas criações como “Juventude Transviada”, “Ébano” e “Magrelinha”, esta última em um final pungente e sublime. O filme apresenta uma seleção de imagens arrebatadoras da carreira profissional e de arquivo pessoal. Em alguns momentos, as fotos chegam mesmo a sugerir uma exposição de arte. Quanto à trilha sonora, percebe-se um uso inteligente das pausas. Definitivamente, um filme poético e musical. Trabalhos como “Todas as Melodias” e “Meu nome é ébano” exercem a importante função de ajudar a colocar algumas coisas no lugar, como um pouco do devido reconhecimento que uma obra e uma vida merecem ter. 

Para completar, Luiz MelodiaLuiz_Melodia_foto será o homenageado do Troféu Raça Negra 2020 que ocorre nesta quinta-feira (19/11), às 19h com transmissão online ao vivo através do site Virada da Consciência 2020. Essa é a 18ª edição da premiação organizada pela Universidade Zumbi dos Palmares e a ONG Afrobras que contemplará 15 personalidades que tenham se destacado na luta pela igualdade racial. A atriz Maria Gal e o rapper Thaíde serão os mestres de cerimônia. Entre as atrações musicais que vão prestar seu tributo a Luiz Melodia, estão, seu filho, Mahal Reis, Simoninha e Paula Lima. O evento será retransmitido pela TV Cultura, na sexta-feira, Dia Nacional da Consciência Negra, às 22h15. – Robert Moura.

 

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira, mas, em suas “veias corre samba a batucar” também, assim como nas do poeta do Estácio, Luiz Melodia. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

 

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