GUTO GOFFI – As Confusões Artísticas e Obras Sonoras do baterista do Barão Vermelho em carreira solo – ENTREVISTA!

Guto Goffi, baterista, compositor e um dos fundadores do Barão Vermelho, chega ao seu terceiro álbum solo, Guto_Goffi_FOTO_Divulgação_01_BXacompanhado pelo Bando do Bem. Intitulado C.A.O.S (Confusões Artísticas e Obras Sonoras), o disco terá show de lançamento na Casa de Cultura Laura Alvim no Rio de Janeiro. A inspiração para a obra surgiu a partir dos trabalhos fotográficos que vêm sendo desenvolvidos pelo artista há quinze anos. Em entrevista para as Páginas Psicodélicas da Rock Press, o músico falou sobre o disco que traz sonoridades e referências múltiplas como o RAP, Samba, Tropicália, e música nordestina, além, é claro, das mais diversas vertentes do Rock'n'Roll, resultantes de sua longa e rica vivência musical.
 

GUTO GOFFI
As Confusões Artísticas e Obras Sonoras do baterista do Barão Vermelho em carreira solo!

ENTREVISTA: Robert Moura
FOTOS:
Marcus Vini/VER+Fotografias e Divulgação

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O disco C.A.O.S, de Guto Goffi, foi produzido pelo guitarrista Nani Dias, e nele, o baterista é acompanhando pelo Bando do Bem, grupo com o qual já toca desde 2016. Guto_Goffi_Barão_Vermelho_FOTO_Marcus_Vini_VER_MAIS_FOTOGRAFIASAtualmente, o Bando do Bem conta com Markus Britto (direção musical e baixo), César Brunnet (percussão), Elir Filho e Nani Dias (guitarras) e Bruno Mendes (no vocal). O trabalho tem ainda participação dos três outros integrantes da formação atual do Barão Vermelho em parcerias nas composições. Em relação às letras, a única não assinada por Guto é a de “Búfalos e Leões”, escrita pelo poeta Xambu. O baterista canta algumas faixas com sua voz grave de barítono, mas em várias delas abre mão da voz principal, evitando o egocentrismo, e ficando por conta da segunda voz ou trechos de poesia declamada, sempre buscando o que é melhor para a canção. Inclusive, mesmo a bateria e os outros instrumentos de percussão em geral são usados sob medida, e ainda que com arranjos muito interessantes, nunca se sobrepõem aos demais instrumentos. (Confira o álbum no Spotify ou no Deezer).

Guto_Goffi_CAOS_Album_SoloC.A.O.S também dá continuidade ao projeto de Guto Goffi de gravar um disco com título iniciado com cada uma das letras do nosso alfabeto. Os antecessores foram “Alimentar” (2011) e “Bem” (2016). O músico vem se dedicado à fotografia há aproximadamente quinze anos, e foi a partir de seus clicks que surgiriam as inspirações para as letras de C.A.O.S. (foto) Esses trabalhos fotográficos devem compor os cenários dos shows. Já, nas apresentações de lançamento do disco nas capitais deve contar com a participação de um artista plástico local expondo suas telas no fundo do palco garantindo cenários diferentes e originais em cada cidade. Guto fará uma temporada de shows, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, com datas entre 12 de março a 2 de abril (confira os detalhes no serviço)

Para quem não sabe, Guto Goffi é um dos compositores (de letras, e alguns casos música e letra) por trás de clássicos do Barão Vermelho como “Torre de Babel”, “Declare Guerra, “Flores do Mal”, “Tão Longe de Tudo”, “Pense e Dance”, “Odeio-te, Meu Amor”, “Meus Bons Amigos”, “Daqui Por Diante”, “Enquanto Ela Não Chegar” e “Puro Êxtase”; além de outras canções que não tiveram muita execução radiofônica, mas ocupam espaço importante entre os lados B do repertório da banda como “Sombras no Escuro”, “Nunca Existiu Pecado”, “Como Um Furacão” ou “A Máquina de Escrever”. Do mais recente disco da banda, “VIVA”, ele assina “Eu Nunca Estou Só” e “A Solidão Te Engole Vivo”, entre outras.

Então, segue abaixo, uma entrevista farta que é um prato cheio para quem curte o trabalho de Guto Goffi, esse grande personagem do Rock e da música brasileira, para além do Barão Vermelho!

Guto_Goffi_CAOS

ROCK PRESS/ROBERT MOURA - O C.A.O.S tem uma grande variedade de sonoridades, desde referências de música brasileira, com sonoridades acústicas nordestinas e rurais, chegando até ao Samba, e pegadas mais Rock que transitam do psicodelismo e progressivo inglês ao Hard Rock. Essa pluralidade foi calculada ou rolou de forma natural à medida que compunha e fazia os arranjos?
Guto Goffi -
A partir do momento que defini que o título do disco seria C.A.O.S., no caso o C.A.O.S do meu CD são as minhas “Confusões Artísticas e Obras Sonoras”, eu comecei a pesquisar também um pouco sobre o caos, e fui parar lá no kaos com “k” que é o kaos da mitologia grega que diz que o kaos é o momento que precede a criação, aquele quarto escuro ali onde vai acontecer alguma coisa. Então, gostei muito dessa senha para levar pro estúdio e para os músicos que iam trabalhar comigo que é a banda que me acompanha, O Bando do Bem. E aí eu falei com eles assim – galera, se é o momento que precede a criação, não existem manuais, não existem regras e a gente vai começar a trabalhar cada música com a liberdade absoluta para chegar num resultado que nós vamos descobrir juntos – porque eu já tinha a intenção de usar a coisa do MIDI, os instrumentos virtuais um pouco mais do que vinha usando. Eu usava de uma forma muito discreta porque tem esse preconceito dos próprios músicos em você gravar um violino sampleado. Mas, pô, eu toco bateria, o meu instrumento é o instrumento mais sampleado do mundo e não fico chorando essa dor de corno, né? Então resolvi realmente abusar um pouco, a gente usou cordas, vibrafone, acordeão, instrumentos virtuais junto com a sonoridade da banda que já tinha uma característica bem do outro disco, O Bando do Bem, que mistura o Rock com música regional, e tinha muito a meta de fazer fronteira com os estilos. Então, ali tem uma liberdade, assim, ninguém faz cara feia se alguém sugerir “ah, vamos dar uma latinizada aqui”, tudo isso é muito bem-vindo naquele grupo de músicos. Qualquer ideia diferente, não que as pessoas já não tenham usado essas formas, mas eu digo sempre que a mistura de músicas é positiva no trabalho d’O Bando do Bem. A gente está ali tocando por amor à música mesmo. O meu trabalho solo tem um tamanho ainda muito pequeno para a gente pode viver disso, então, os músicos, a galera que está comigo está por amor à música mesmo, nessa guerrilha cultural aí, juntos. Mais ou menos isso.

Guto_Goffi_e_Bando_do_Bem_FOTO_Divulgação

ROCK PRESS – Essa questão das cordas é interessante porque no “Cérebros e Cabeças” e “Búfalos e Leões” tem uns arranjos de cordas e eles soam muito convincentes. Como foram gravados e de quem são os arranjos? 
Guto Goffi -
“Mil Nadas”, por exemplo, toco nas cordas naquele “B”, “no sono colorido”, aquele lance de cordas, estou fazendo junto com o Elir. Já no “Cérebros e Cabeças” é o Nani, meu produtor que gravou as cordas. Infelizmente, você ainda não tem acesso à ficha técnica. Mas, o disco vai sair em CD e está bem detalhado o que cada um tocou.

ROCK PRESS – “A Queda” também tem um arranjo de cordas muito bonito...
Guto Goffi –
Isso foi muito da sonoridade que o Nani Dias, o produtor do disco, trouxe. Ele toca comigo n’Os Britos (N.d.A.: banda que se dedica ao repertório dos Beatles), e conhecia o trabalho dele de estúdio porque ele fazia muita publicidade, ele está acostumado a resolver as coisas sozinho, programar bateria, tocar piano, fazer as cordas, não sei o quê... então, ele trouxe essa expertise dele pro Bando do Bem, além da criatividade dele. Ele é DJ também, está sempre ligado nas sonoridades mais modernas que estão rolando, e essa atualização d’O Bando do Bem foi muito proveitosa para todo mundo porque a gente acabou se descobrindo diante dessa liberdade combinada da qual a gente iria em busca do novo. Ficou um caminho muito gostoso de se encontrar, de ficar no estúdio, permanecer ali resolvendo as questões. O Bando do Bem me dá muito prazer nesse sentido. Tem uma convivência muito harmoniosa de estar gostando do que a gente está fazendo, todo mundo na mesma vibe, na mesma direção mesmo.

ROCK PRESS – A faixa de abertura, “Decassílablues”, traz essa referência direta à poesia. E começa com um verso bem forte “Todos os imortais estão mortos”. Você escreveu a letra “Flores do Mal”, inspirada no livro homônimo do Charles Baudelaire, e também adaptou o poema, “Suave mari magno”, do Machado de Assis juntamente com o George Israel em “Rock do Cachorro Morto”.  Quais poetas e escritores te influenciaram?
Guto_Goffi_Barão_Vermelho_FOTO_Marcus_Vini_VER_MAIS_FOTOGRAFIASGuto Goffi –
Eu curto poesia, mas o cara que me jogou na poesia mesmo foi o Cazuza. Eu tinha, sei lá, dezessete anos quando conheci o Cazuza e foi quando comecei a valorizar a coisa da poesia porque tinha um poeta ali do meu lado saboreando cada palavra, cada frase, mostrando a importância do conteúdo das letras. Depois que entrei nesse desbunde, comecei a gostar muito mais de poesia e descobri esses caras também, os clássicos. E aí é que pintou de fazer a adaptação do poema do Machado. Eu já tinha visto, por exemplo, o Cazuza fazer da Clarice Lispector com o “Que Deus Venha”, tinha visto o Frejat musicar um poema do E.E. Cummings que o Ezequiel separou para ele e que tem a música num disco do Barão (N.d.A.: a música é “Completamente Nova”, presente no álbum “Rock’n Geral”). Não é que eu tenha descoberto assim, vi músicas muito bacanas serem feitas dessa forma, e comecei a ficar mais atento ao texto dos outros. Tem uma música que fiz com o Frejat que a letra é do Ghiaroni que era um cara roteirista da Rádio Nacional e peguei no JB antigo, é muito bonita, chama “A Máquina de Escrever”. E o Ghiaroni não era considerado poeta, era considerado cronista. Eu estou sempre atento a um bom texto e venho desenvolvendo essa coisa de escrever letras desde que o Cazuza saiu do Barão. Primeiro eu curtia, achava o máximo o que ele escrevia, quando ele pulou fora do Barão, tive que começar a me jogar para esse lado um pouco. As minhas primeiras letras foram com o Ezequiel que são “Torre de Babel” e “Declare Guerra”. Ele me ajudou tipo um guia de cego, me puxando... e depois comecei a fazer sozinho a partir de 87. Inclusive, agora, estou com a intenção de fazer um livro junto com esse material do “C.A.O.S” que vai sair encartado num boxzinho com os meus três CDs (“Alimentar”, “Bem” e “C.A.O.S.”) para quem quiser comprar todos. E vou também lançar um livrinho que não sei se posso chamar de poemas ou letras. Eu sei que são os textos meus que vêm desde 87 que viraram música. A maioria foram musicadas como esse que você citou, “As Flores do Mal”, essa letra faz parte do livro também. Selecionei em torno de quarenta letras, poemas que fiz sozinho. Não botei letras que fiz com parceiros, para deixar bem explícito como é o Guto Goffi letrista. E tudo isso, na verdade, eu estou fazendo para dar um algo a mais novo para quem gosta de mim, entendeu? Tem gente que me conhece do papel no Barão Vermelho, baterista de Rock’n’Roll, e eu já ultrapassei algumas fronteiras depois disso. Não que eu não goste de ser baterista de Rock’n’Roll, eu adoro. Foi o que escolhi pra minha vida. Mas, eu também fui um pouco além, né? Fazendo esse som autoral com O Bando do Bem que é bem diferente das coisas do Barão. Por isso que meu trabalho solo também é autoral, por ser diferente do Barão Vermelho. Vou fazer esse livro das letras e vou produzir algumas imagens também que eu usei como inspiradoras do CD. No show que vou fazer agora, no Rio, quatro quintas-feiras seguidas, na Casa de Cultura Laura Alvim, vou expor alguns desses trabalhos meus no fundo do palco. E, depois, quando conseguir ir a outras cidades, pretendo convidar um artista plástico local para levar seu material e expor atrás do palco no show para também ter um show que o cenário vai mudando. Cada cidade vai ser um cenário diferente. Eu acho que isso vai dar uma coisa bem legal. Além de novidade, vai trazer uma integração bacana do público de música com o público de artes plásticas.

ROCK PRESS – O livro também virá com esse trabalho de fotografia? Você pretende incluir junto com os poemas?
Guto Goffi –
Eu não sei, porque tenho um designer gráfico que é um cara maravilhoso chamado Felipe Taborda, ele fez a capa do CD novo e está criando todas as minhas peças publicitárias de divulgação do disco, banner, cartaz e flyer. Então, dependo muito da decisão dele, se ele quer colocar isso. Se ele tiver interesse em colocar, não há problema. O que eu tenho definido para mim é que é um livro que já tenho um título e quatro subtítulos que vão ser, na verdade, capítulos. Eu vou dividir o livro em quatro fases de letras e poemas. E eu pedi à minha mãe hoje – ela tem 87 anos e veio aqui em casa almoçar – se ela faria pra mim pequenas ilustrações de cada poema para colocar no rodapé das páginas ou no alto, no cantinho, uma coisa que seja um objeto que ela desenhe que represente um pouco aquele poema. Conversei com ela hoje e ela aceitou. Ela desenhava muito bem e tal. Então, vai ser uma forma de eu ter alguma coisa com ela, olha que bacana.

ROCK PRESS – Muito bacana! E esse título do livro, você já pode falar ou está guardando ainda?
Guto Goffi –
Olha, eu não falei para ninguém. É um segredo ainda. Mas, o que mais me deu tranquilidade é que tinha vinte títulos. Aí, saí agora, há dois ou três dias atrás, para tomar um chopp com uma amiga que é uma pessoa de leitura, que gosta de livros, sempre leu, cada vez quer ler mais, daquelas pessoas que entendem o que é um livro, e ela viu os nomes e foi tirando vários, ficaram cinco bons. E ela falou: “por que você não faz subtítulos também?” Na hora em que ela falou isso, cara, eu já peguei o melhor como título e os outros nomes como capítulos. Ela arrumou a casa, sabe como é que é? E passei pro meu designer que falou que o título é ótimo e tem como fazer uma grande capa que vai arrebentar. Eu acho legal porque eu posso estar um dia também numa livraria vendendo meu livro, o box com os três CDs, reproduções das fotos que eu fiz a partir do C.A.O.S, e tudo isso é um pouco do Guto Goffi. A minha preocupação foi fazer coisas para as pessoas que gostam de mim poderem consumir coisas que eu faço, na minha visão, né? A intenção principal é que a pessoa que me curte poder ter um pouco mais de mim, além da música.

ROCK PRESS – Ainda sobre esses lançamentos, li que para você, talvez, esse seja seu último disco físico, e estava observando a arte da capa que é muito bonita, e a primeira coisa que me veio à cabeça é que ela pedia uma edição em LP.
Guto Goffi –
Pode crer.

ROCK PRESS – Não entrou no projeto, né? 
Guto Goffi – Não está no projeto da KICKANTE, por enquanto, mas isso foi cogitado. Vou te falar porque, Robert. Porque quando a gente terminou de gravar as dez músicas que comecei a escolher a ordem das músicas, cara, na hora, eu e Nani conversando ali, ficou claro pra gente que parecia um LP antigo. A gente separou as músicas, e o fato da música 6, que, no caso, vai abrir o lado B ser aquele instrumental (“Mais Feliz”) dá uma mudada de cara no disco, e aí vem aquela parte que eu canto mais, “A Travessia”, “Búfalos e Leões” e o “Samba do Adeus”, ficou muito claro que a gente tinha assim o lado A e o lado B. E ficou a vontade de fazer, e eu estou pegando preço já com o cara que está fazendo os CDs para a minha caixa. Deve sair uma tiragenzinha pequena em LP também.

ROCK PRESS – Inclusive, o tempo de duração é 33 minutos...
Guto Goffi – Ah, é mesmo, e está dando quanto? 31 e pouco, né?

ROCK PRESS – Não, deu 33.
Guto Goffi –
E o LP é até quanto, hein, cara?

ROCK PRESS – O LP, 45 que era o limite padrão.
Guto Goffi – Porque a partir daí fica o som comprometido.

ROCK PRESS – Na verdade, 45 minutos é o padrão dos últimos LPs, antes de surgir o CD. Porque o CD já oferece 70 minutos. Mas, é curioso porque nos últimos tempos, vários lançamentos estão vindo com esse tempo limite de LP.
Guto Goffi – Que legal.

ROCK PRESS – Está rolando uma mudança...
Guto Goffi – Você sabe que eu acho que o meu próprio disco, que está bacana, que as músicas vêm em ordem crescente de empolgação, você vai se envolvendo com o disco, naquela hora que entra o instrumental, eu botei aquilo para dar uma quebrada também, pro cara dar uma relaxada, entendeu, Robert? Tem muita letra, muita coisa... daqui a pouco a pessoa fala – pô, me dá um refresco aí – (risos), não estou conseguindo respirar!

ROCK PRESS – É tipo aquela baladinha no meio do show.
Guto Goffi – É, cara, porque é muita informação. E na época do Barão com o Ezequiel Neves, ele estava sempre falando para deixar um sabor de quero mais, não passa do ponto não porque às vezes a pessoa está no paraíso te ouvindo, você erra duas músicas ali e destrói aquele sentimento que o cara estava em êxtase e você consegue estragar por dar mais. Sempre fui a favor de shows mais rápidos. O Barão, no início, tocava 45 minutos. Quando saía do palco, as pessoas estavam histéricas, gritavam “volta!” delirando, porque era muito rápido e falavam: “caralho, já acabou o show? Os caras saíram”. Eu acho que esse disco é isso. Eu já o ouvi demais, sabe? Então, já nem tenho muita certeza das coisas que estou falando (risos). Porque já passei por tantos sentimentos ouvindo o disco que eu, às vezes, fico na dúvida do que estou dizendo mesmo (risos).

ROCK PRESS – Eu achei curioso que essa música instrumental chama “Mais Feliz” e é o nome do último disco do Zeca Pagodinho, não sei se você sabe que ele lançou no ano passado...
Guto Goffi – Ah, não sabia não, cara...

ROCK PRESS – Fiquei pensando em quem mais, no momento que estamos vivendo poderia fazer um disco chamado “Mais Feliz” (risos) e ainda conseguir passar essa sensação pro ouvinte. Aí vem o “Decassílablues” que acho que tem um cavaquinho ali no fundo, se não me engano.
Guto Goffi – Tem um cavaco. Isso.

ROCK PRESS – E depois, você vem com o “Samba do Adeus” que é um samba bem gafieira, e achei o vocal na linha do Martinho da Vila.
Guto Goffi – Total, cara! Sou maior fã do Martinho. O primeiro disco que eu comprei com meu dinheiro foi dele. Aí na hora que fui gravar a voz, eu falei – porra, vou dar uma caída aqui pro lado do Martinho pra dizer que sou maior fã. Até brincando com aquele jeito que ele canta, maneiríssimo, né? Com uma malemolência única. Maneiríssimo!

ROCK PRESS – Sim!
Guto Goffi – Mas, eu gosto de tudo cara. Eu sou maior fã de música brasileira. O próprio “Mil Nadas” tem muita influência do Caetano Veloso. De letra, talvez, e melodia também porque na época estava ouvindo muito aquele CD “Cinema Transcendental” que tinha “Cajuína”. Aquelas melodias ficaram. Eu faço muita coisa nessa linha nordestina, e não sou nordestino, sou carioca. Mas, também tenho a coisa do samba. E o samba e o baião são quase a mesma coisa. Então, ficou muita coisa dessa herança dos discos que a gente ouviu. Beatles também. Essas coisas vão ficando e uma hora você puxa, está ali no seu jogo de cartas – ah, vou puxar esse ás porque isso aqui é bom pacas – vai lá e bota na feijoada, né?

ROCK PRESS – E tem aquele momento que sai até mesmo inconsciente como se fosse um sotaque. Então, você faz e depois que percebe que soou parecido.
Guto Goffi – Exatamente, cara. Você vai fazendo e depois que você consegue encontrar a relação ou que referência foi aquela. Acho que para o artista tudo vira referência. Uma frase que você escuta no metrô o cara falando com a mulher, um casal se desentendendo ou super apaixonado. Tudo isso vira uma outra coisa. É aquela coisa do instante em que você capta o negócio e leva aquilo pra dentro. Aí ferrou. Uma hora aquilo vai brotar, pode ficar ali dez anos, mas uma hora aquilo vai vir pra fora em alguma música, alguma ideia.

ROCK PRESS – Falando nisso, no “Samba do Adeus” a letra é sobre rompimento de amizade ou também poderia sugerir um caso de amor. Ela tem uma questão biográfica ou alguma relação com o momento que a gente tem vivido no país?
Guto Goffi – Ela é uma letra verdadeira minha de rompimento com um grande amigo que perdi. Ela é biográfica nesse sentido, mas ela serve para qualquer pessoa que tenha perdido um amigo. Ou se você quiser pensar num companheiro, sei lá. Mas, no caso aí é amizade de homem mesmo, homem com homem. O homem só briga por mulher e dinheiro, né? A verdade é essa (risos).

ROCK PRESS – Lembrei de “Invejo os Bichos”.
Guto Goffi – “Invejo os Bichos”? Ah é, “que só brigam por comida e sexo”. É mesmo, então olha o homem aí! O homem é igual, só briga dinheiro e mulher. E os bichos por comida e sexo (risos).

ROCK PRESS – Eu achei o C.A.O.S muito radiofônico. Eu digo radiofônico, no melhor sentido, de uma época em que as rádios tocavam boa parte do melhor da produção da nossa música. E a gente não tem mais as rádios. Você sente falta do rádio?
Guto Goffi – Ah, eu sinto bastante. Primeiro porque é uma emoção enorme você ouvir uma música tua se tornar sucesso no rádio. Eu me lembro da experiência do “Pro Dia Nascer Feliz”, em 83. Quando começou a tocar nas rádios foi uma alegria. Aquilo te traz tanto sentimento bom de você ouvir a tua música ecoando pelo Brasil, numa época também em que as rádios tocavam música porque gostavam de tocar música. Quando o Barão começou foi bem antes do jabá instituído, aquela coisa de dar dinheiro para ter espaço. Você ia a uma rádio, por exemplo, com 50 camisetas do Barão e o cara da Rádio Cidade ficava amarradão. Ele – pô, eu vou sortear 50 camisetas do Barão agora, os caras estão aqui, olha aqui a música – pá, ele tocava a tua música. Hoje em dia, se eu aparecer num lugar com 50 camisetas vão mandar me matar, né? (risos). Imagina 50 camisetas do C.A.O.S pro cara sortear? Vai mandar me fuzilar.

ROCK PRESS – Pode mandar para a Rock Press que a gente vai ter o prazer em sortear, hein?!Barão_Vermelho_EP_Bete_Balanço
Guto Goffi – Ah é? Então eu vou fazer contigo. Vai ser contigo, Robert. Vou te falar uma parada, hoje em dia, eles falam que está tudo segmentado. Tem a rádio que é pra criança, tem a rádio que é adulto contemporâneo, tem a rádio que é erudito, separou tudo, então, jamais você vai ter uma música que faça o que o “Bete Balanço” fez, né? Que era tocar em tudo que é rádio FM e AM, entrava no supermercado estava tocando, entrava nas Lojas Americanas estava tocando, pegava o bondinho do Pão de Açúcar estava tocando. Pô, isso aí nunca mais. A gente deu muita sorte de ter vivido naquela época. E foi assim que o repertório da Geração 80 se perpetuou no inconsciente coletivo das pessoas. Porque tocou muito no rádio. E é um dos meios de comunicação mais fantásticos, fabulosos... e o filho de um amigo meu agora que tem 11 anos falou assim com o pai: “Pai, pra quê que serve rádio, hein?”. Olha só que pergunta.

ROCK PRESS – Pois é. Eu dou aula de música e conversando uma vez com uma aluna de 12 ou 13 anos, ela me disse que nunca tinha ouvido rádio. Ela nunca tinha usado o rádio para ouvir música. E era curioso porque ela gostava de Raul Seixas e outras músicas que eram radiofônicas dos anos 90 para trás. Ela ia ouvindo no YouTube, e achei interessante porque ela foi descobrindo um repertório radiofônico dessa época. Você pega músicas como “Bete Balanço” e outros clássicos do Barão ou de outras bandas que continuam sendo tocados e se tornando conhecidos mesmo fora da mídia. Talvez, por influência dos pais, ou as pessoas vão descobrindo por essas outras fontes como a internet porque mesmo as pessoas mais jovens estão ouvindo.
Guto Goffi – O cara pesquisa o conteúdo que interesse a ele. Não está mais ali passivo para descobrir uma coisa. É muito difícil. Ele vai ver uma coisa que o outro falou para ele ver ou que ele viu num lugar que é bom. Está um momento diferente para a música, mas acho que o mais importante para o músico é estar fazendo música. Independente deGuto_Goffi_Barão_Vermelho_FOTO_Marcus_Vini_VER_MAIS_FOTOGRAFIAS o mercado estar bom ou ruim. Porque quem está na música porque gosta, no caso, você falou que é professor de música, e ser músico, você sabe bem o que é isso, é a gente que tem que alimentar a nossa chama mesmo e ter o nosso prazer fazendo o que a gente pode fazer com a nossa inspiração mesmo que isso não consiga chegar a toda àquela gente que você sonhava que chegasse, mas o importante é fazer pra deixar isso aí pra sempre. Eu estou a fim de fazer 26 discos antes de morrer. É um desafio muito brabo. Mas, eu vou correr. Tem dois CDs prontos que vou lançar logo que o C.A.O.S. der aquela abaixada de bola. Vou lançar um CD instrumental que gravei com dois amigos, um trio. E em 2022, pretendo lançar um que gravei com o Robertinho Silva e o Waldir de Oliveira que é um amigo que faleceu já. Eu gravei um disco de tambor brasileiro com eles que ficou muito bacana. Estou combinando com o Robertinho porque ele vai estar com 80 anos e vou estar com 60, em 2022. A gente está combinando para lançar esse disco e fazer uma turnê juntos tocando bateria e percussão.

ROCK PRESS – Você está com o intuito de tempo entre os discos? São os 26 discos, um começando com cada letra do alfabeto que você tinha falado.
Guto Goffi –
Estou sentindo que eu vou ter que apelar, o “VIVA” do Barão ficar pra letra “v” (risos), vou ter que pegar tudo que eu participar que tenha música minha e que eu esteja de frente no projeto. Vou ter que considerar como um disco desses que eu prometi. Mas, aí eu vou pulando de letra. O letra “D” e o letra “E” já estão prontos.

ROCK PRESS – O “D” é o “Declare Guerra”, então?
Guto Goffi – Não, não, esses do Barão não contam não. Barão_Vermelho_Declare_Guerra

ROCK PRESS – É que você falou do “VIVA” e achei que você ia usar o “Declare Guerra”.
Guto Goffi – Ah, se precisar, eu vou ter que apelar (risos), tem “Maior Abandonado”, tem “Declare Guerra”, tem “Carnaval”, aliás, “Carnaval” não...

ROCK PRESS – Letra “C” já foi.
Guto Goffi – Já era, mas está tudo certo. O que quero dizer com essa brincadeira é para você não perder a vontade de estar produzindo. Eu não tenho medo da solidão. Se estiver na solidão, pego meu violão e vou fazer uma música. Você tem que levar a vida como é mesmo. A vida tem sempre razão. Então tem que aproveitar o momento de saúde e de vontade pra fazer o máximo que der. Para a gente como artista, acho que é o que vai nos manter vivos.

ROCK PRESS – Certamente. Voltando ao disco, o riff de “Mais Perfeito” foi uma citação proposital em relação ao “Tão Longe de Tudo”?
Guto Goffi – Você acha parecido a batida?

ROCK PRESS – Eu achei o riff similar e fiquei em dúvida se foi uma citação que você quis fazer.
Guto Goffi – Na verdade, se você for analisar mais a fundo, é uma mistura do “Tão Longe de Tudo” e talvez do “Política Voz”.
 
ROCK PRESS – É!
Guto Goffi – É uma mistura das duas que são músicas que abriam aquele disco “Na Calada da Noite”. Quando fiz, eu compus essa música pro Barão, mas como ela não foi escolhida para estar no disco “VIVA”, ela acabou ficando pro meu disco mesmo. Mas, quando compus, estava achando a cara do Barão.

ROCK PRESS – Achei que foi mesmo proposital, “Tão Longe de Tudo” é até só sua, letra e música também...
Guto Goffi –
Exatamente.

ROCK PRESS – E tem um trechinho da letra de “Mil Nadas” que parece uma citação ao “Pense e Dance”.
Guto Goffi – Pode ter, mas ali eu não tinha pensado no “Pense e Dance” não. Tinha pensado numa coisa mais Hip-Hop mesmo. Uma mistura daqueles pops europeus que tem negão misturado com louro, faz aquela confusão danada, né? Acho mais um pop de Black Eyed Peas que é essa onda que nunca ouvi direito, na verdade. Ouvi uma vez, então posso estar falando alguma besteira.

ROCK PRESS – Mas, tem a ver.
Guto Goffi – Mas, eu achava que era tipo Black Eyed Peas.

ROCK PRESS – No disco tem alguns outros trechos que você faz mais falados, na linha do RAP.
Guto Goffi –
Ah tem, no “Mais Perfeito”. Eu tenho muita curiosidade em aproximar um pouco dessa linguagem do RAP e do Hip-Hop nos meus trabalhos futuros. Vou te dizer por quê. Para mim a rebeldia do Rock’n’Roll migrou pro RAP e pro Hip-Hop. A juventude que está gostando de Hip-Hop e RAP é a juventude rebelde que me interessa, entendeu? E o Rock ficou com uma coisa mais conservadora, né? As bandas de Rock estão cada vez soando mais caretas. As letras são sempre muito tatibitati. 

ROCK PRESS – As temáticas das bandas de Rock pós-Anos 90 fugiram muito desse lado mais social. E o pessoal do RAP e do Hip-Hop que tem trazido de novo esses assuntos à pauta mesmo.
Guto Goffi – E o Rock Brasileiro é muito uma música de classe média alta. Ainda tem essa. Quantos filhos de deputados, de ministros têm no Rock, embaixador? Uma galera da elite brasileira, né? Se bem que os filmes de esquerda todos são de filhos de família de direita (risos). Engraçado isso também.

ROCK PRESS – Acho que o Rock dos Anos 80 tem essa origem, mas ainda tinha esse intercâmbio porque as músicas tocavam, então, você pegava ao mesmo tempo um cara pobre da favela que podia estar ouvindo uma banda de Rock desse mainstream, mas ao mesmo tempo um burguês da zona sul podia estar ouvindo um Almir Guineto no rádio porque também tocava. Ou Martinho da Vila, enfim...
Guto Goffi –
Rico também faz churrasco (risos).

ROCK PRESS – Nossa, ia citar Chiquinho Scarpa: “Não existe festa chique no Brasil”. (Mais risos). Voltando ao disco, o Barão é uma banda em que todo mundo compõe. No seu caso, não é normalmente comum o baterista compor. O Peninha que era percussionista também compunha. E esse trabalho surge dessa sua necessidade de mostrar esse outro lado também, coisas que às vezes não cabem num disco do Barão. Eu entrevistei o Fernando (Magalhães) para o lançamento do “VIVA” (LEIA AQUI!), e ele falou que vocês tinham feito cerca de 50 canções pro disco. E essas parcerias que tem no “C.A.O.S” com eles, uma com o Suricato (“Na Hora de Rezar”), uma com o Maurício (“Cérebros e Cabeças”) e uma com o Fernando (“A Travessia”) foram feitas já para o “C.A.O.S” ou foram sobras do “VIVA”?Barão_Vermelho_VIVA
Guto Goffi – A do Suricato, “Na Hora de Rezar”, a letra é de 2010. É uma letra antiga que dei para ele fazer a música para o disco do Barão. “A Travessia” eu fiz com o Fernando também e ofereci lá no cardápio pro “VIVA” (foto). E o “Cérebros e Cabeças” é a única música que não tinha feito ainda antes de gravar o disco. As outras tinha oferecido na nossa reunião de escolha de repertório. Aí o meu disco ia ter uma música com o Suricato, uma com o Fernando, e não ia ter uma música com o Maurício. Aí eu falei - porra, Maurício, você me desculpa, mas você é o meu amigo de colégio, o fundador do Barão comigo, todo mundo tem música comigo no disco e você não tem uma música comigo pra botar no disco? Chamei pra fazer essa música. Só que essa letra eu tinha dado pra ele há um ano e ele tinha me devolvido. Ele não tinha gostado (risos). Aí falei assim ó, mas vai ser aquela que te mandei, ‘tá lembrado? Eu já tinha feito o começo da melodia, o chamei aqui em casa e terminamos a música juntos. Ficou bacana pra caramba.

ROCK PRESS – Pô, e é uma melodia linda.
Guto Goffi – Gosto demais da música. E tem um lance do Maurício, muito da influência que ele tem das bandas inglesas, um lance meio Oasis, meio Beatles.

ROCK PRESS – Isso! Eu estava com receio de falar, me lembrou um pouco o Verve também.
Guto Goffi – Ah, o Verve. O Maurício adora o Verve!

ROCK PRESS – Ah ‘tá! As cordas também.
Guto Goffi – Essas referências assim que estão no “Cérebros e Cabeças”, fora a parte bem Mutantes que eu também gostava, mas essa referência inglesa é muito do Maurício. E ficou legal porque é uma coisa que não tenho e que talvez eu não tivesse no meu disco, se não fosse por ele. Então, ele foi ao estúdio, ensaiou com a gente, mostrou pro Bruno como cantava a divisão e foi maneiríssimo, foi uma tarde maravilhosa. E fiquei feliz dele estar no disco também. O Maurício é o meu brother 001 da época de escola, do Rock, a gente começou a ser músico no mesmo dia. Aquelas juras adolescentes – vamos nos tornar músicos, agora, nós somos músicos! – o Maurício é muito importante na história da minha vida mesmo. E foi um cara muito dedicado na coisa do Rock. O pai dele era gerente de promoções do jornal O Globo. Ele fazia aqueles concertos todos do Projeto Aquarius, ele trouxe o “Rick Wakerman e a Viagem ao Centro da Terra” pro Brasil, show do Genesis (N.d.A.: A Rock Press já publicou uma matéria sobre esse show histórico. LEIA AQUI). Então, a gente sempre teve na infância, de alguma forma, ligado a essas produções internacionais. Na casa do pai do Maurício tinha um Rock já diferente. E é uma coisa rara no Brasil, para a maioria das bandas a referência é dos Sex Pistols pra frente. E no Barão não. A gente pegou Genesis, Yes, muita coisa legal e conseguiu misturar com outras referências.

ROCK PRESS – A Black Music também, né? O Blues, o Soul...
Guto Goffi – É, o Blues, Hendrix, Janis Joplin, Woodstock, o Dylan com The Band. O Barão já curtia tudo isso. É muita música para você fingir que não ouviu.

ROCK PRESS – Sim, sim. Agora falando sobre outro trabalho seu, você tem também a Escola de Música Maracatu Brasil...
Guto Goffi – A Maracatu Brasil vai completar 20 anos em dezembro e foi uma coisa essencial para ser o artista Guto_Goffi_Barão_Vermelho_FOTO_Marcus_Vini_VER_MAIS_FOTOGRAFIASque sou hoje. Porque ali foi a forma de enxergar outras coisas além do meu umbigo. Fui para ali em 2000, eu estava saindo com o Barão naquela turnê do “Balada MTV” no Rock In Rio, e sempre fui muito voltado para dentro da banda. As coisas diferentes que me eram apresentadas, eram muito através do Peninha que já tinha tocado com a Gal Costa, Sivuca, outros músicos que passaram muita coisa legal de ritmo. Mas, a partir da Maracatu, em 1998, quando a ficha caiu pra mim, no “Puro Êxtase” ainda, eu falei - cara, eu quero abrir uma loja -, eu comprei uma caixa de corda de maracatu, comprei uma alfaia e fiquei conhecendo o Maureliano que é o cara que fábrica os tambores de maracatu melhores do Recife. Ali, descobri o Brasil, descobri o artesão brasileiro, descobri o mestre popular e comecei a curtir demais os ritmos populares. E aí fui aprender bateria de escola de samba com meu amigo, o mestre Odilon que me ensinou isso. Hoje dou aula de bateria na Comunidade da Maré, ensinando ritmos brasileiros com instrumentação de Escola de Samba. Posso dar aula de batucada. Faço isso muito na Maracatu com os turistas. Uma vez 30 franceses que estavam chegando para o Carnaval no Rio fizeram uma aula de batucada lá comigo. Estou nessa parada junto com a Prefeitura aqui do Rio. A minha ação na Maracatu hoje é mais cultural do que administrativa. Quem está tocando os negócios é o meu filho, o André. E sou um dos caras que colabora nas aulas, no espaço, e atraio meus amigos também para darem aula, para fazer alguma coisa e ajudar na preservação da cultura brasileira. Uma ferramenta que está presente defendendo esse quinhão da arte. É um lugar muito importante político. Os músicos já não têm mais lugar para ir, né?

ROCK PRESS – Exatamente. E você tem um projeto na Maracatu que é o Rock Balbúrdia que também tem esse lado.
Guto Goffi – O Rock Balbúrdia é uma festa com uns amigos que são de música, cinema e teatro. São três caras, um leva o grupo, um leva o cinema, e o outro leva os sketches teatrais e poesia. Eles me chamaram para tocar, e eu vou tocar pela segunda vez. São manifestos artísticos. Eu acho importante. Bater papo, trocar ideias. Na Maracatu tinha também a Disco Zeca que eu fazia. Era uma festa em homenagem ao Ezequiel Neves e eu usava o acervo dele de vinil que está lá na Maracatu. Eu abria o armário, tinha show também. A gente fazia muito a Disco Zeca, mas agora está rolando o Rock Balbúrdia com esses amigos.

ROCK PRESS – Que tem esse lado da resistência, de manifestação contra o massacre que a nossa cultura tem vivido...
Guto Goffi –
Na verdade, é uma manifestação até a favor, né? Que é para mostrar como é legal a pessoa poder ir se divertir numa noite dessa e sair de lá e falar – pô, que lugar agradável, estive aqui o tempo todo com vários artistas, ouvi boa música, poesia e teatro, e foi uma noite boa que ganhei alguma coisa. Não sai só pra beber e rebolar em qualquer show – mas, isso é uma coisa também de qualidade da idade em que as pessoas vão querendo ter mais qualidade no seu divertimento.

ROCK PRESS – Tem casos que são independentes da idade, não é uma regra, mas é uma tendência mesmo. Voltando ao C.A.O.S, gostaria que você falasse sobre essa temporada de lançamento que você vai fazer na Casa Cultural Laura Alvim, como está o show, o repertório...
Guto Goffi – Legal, Robert. Estou muito animado com o lançamento do “C.A.O.S”, o lugar em que vou atuar é uma sala pequena que cabem 60 pessoas, e é uma caixa pretaGuto_Goffi_Bem_Album_Solo retangular, exatamente como eu imagino que seja o kaos que preceda a criação. A gente vai fazer 4 espetáculos lá, sempre às quintas-feiras. O começo do show são as 5 primeiras músicas do disco. O show do “C.A.O.S.” vai começar exatamente igual ao CD com as 5 primeiras músicas uma atrás da outra, antes de dar o boa noite. Eu vou tocar algumas músicas do “Bem”(foto) com arranjo acústico. Eu peguei “Tudo de Bem”, “Bom Que Seja Assim” e “Flores Raras”. Vou tocar essas em formato acústico e nessa parte do show vou tocar violão. A rapaziada vai tocar violão também, bandolim, cavaco, e a gente vai fazer uma coisa diferente. E depois volto para a parte elétrica tocando também músicas do primeiro disco, como “O Último Beijo”, vou tocar um baião chamado “Jamais” que ficou na parte da internet do disco “Alimentar”. Eu gravei dez no CD e doze tinham só na internet. Eu não sei seGuto_Goffi_Album_solo_Alimentar você já ouviu esse material. Vou tocar “Zé Carioca”, vou tocar muita coisa. Esse disco as pessoas não conhecem muito, apesar dele ter quatro clipes no YouTube. As pessoas conhecem pouco porque lancei o CD com dez músicas e lancei doze músicas a mais na internet. Era um disco duplo. Inclusive devo subir esse ano para o Spotify também porque o único que não está ainda é o “Alimentar” (fofo).

ROCK PRESS – Você falou que vai tocar violão no show. Normalmente seu instrumento de composição é o violão mesmo?
Guto Goffi – É. O instrumento principal meu para compor é o violão. Não que não possa ter uma ideia sem instrumento. Às vezes faço uma coisa de boca e gravo no celular, mas depois corro pro violão. E a coisa rítmica, por causa da bateria eu acho que sou um compositor que os meus lados principais são o ritmo e a melodia. A harmonia é uma coisa que preciso estudar mais para não acabar me repetindo naquele quadrante que já faço no violão. Eu preciso fazer umas aulas de harmonia para dar uma variada também no meu estilo de composição. Mas, defendo que com o ritmo e a melodia, você já tem a música. Eu sei que quem toca guitarra e piano fica puto com essa visão radical minha, mas é o que falo, meu amigo, se eu chegar para você e assobiar (ele assobia o Hino Nacional Brasileiro), pô, tu já vai saber que é o Hino Nacional, eu não preciso tocar, saber se é ré maior ou ré menor, ré com sétima, a melodia e a divisão rítmica da melodia definem já o que é a música. Harmonizando dá para levá-la para mil caminhos diferentes porque a harmonização faz isso também. Ela consegue até disfarçar uma música que a pessoa conheça, se você harmonizar de uma forma sacana, você consegue deixar a pessoa em dúvida. Eu sei que a harmonia é uma coisa muito rica, mas eu defendo mais o ritmo e a melodia mesmo. Talvez, por ser a área que eu tenha mais segurança para lidar. Então, está na hora de eu estudar harmonia. A verdade é essa (risos).

ROCK PRESS – O primeiro elemento, na verdade, é o ritmo, né? Porque é o único que existe sem os outros. A melodia não vai existir sem o ritmo. Uma harmonia também já tem melodias embutidas e divisão. Pode falar isso para deixar os caras mais putos então (risos).
Guto Goffi – Boa! Obrigado pelo adendo aí. Você é professor e já me ajudou. Botou mais uma das boas (mais risos).

ROCK PRESS – E você chega a compor criando uma levada antes que depois possa te induzir a uma musica?
Guto Goffi -
Eu não tenho regra para começar alguma coisa. Eu vou atrás da primeira centelha, se for uma jogada de ritmo eu pego, se for uma palavra ou uma frase eu pego, se for uma melodia eu pego. O primeiro start é na hora que sinto que aquilo vai me levar para realizar alguma coisa, então sigo aquilo. Mas, eu já sei que é uma abstração e se eu quiser pegar, tenho que me esforçar pra pegar. É tipo um pescador pegando um peixe. O cara sabe pescar, está ali na beira do lago, viu o peixe, está com o negócio, aí tem que saber a hora de trazer aquilo. Para mim o grande desafio é esse. A hora em que vou pegar e falo – pô, peguei, está aqui, a música é minha, botei meu nome – eu consegui entender aquele momento ali que estava passando e transformar numa música.

ROCK PRESS – O Keith Richards fala algo um pouco similar que não sei se você já ouviu. Mas, ele fala que as músicas estão no ar e são de quem pegar primeiro, você tem as inspirações o tempo todo e depende de você conectar na hora e pegar aquela informação.
Guto Goffi – E se você na hora deixar, tipo “ah, não vou pegar agora não”, passou, perdeu, cara. Ou você vai e registra ali ou você perde mesmo. A não ser que seja uma coisa que você está pensando que vai botando um acorde por dia, por semana. Você pode construir uma música também assim. Mas eu faço muito instantâneo, quando eu pego o negócio sai inteiro, música e letra, melodia, costumo fazer direto, sabe?

ROCK PRESS – Obrigado pela entrevista, Guto! Para fechar, por favor, deixe sua mensagem para as leitoras e leitores da Rock Press.
Guto Goffi –
Pô, dizer que é um prazer ter essa oportunidade de falar sobre meu trabalho individual no Rock Press. Meu nome é Guto Goffi, estou lançando o disco C.A.O.S. e muito obrigado, Robert, por me dar essa oportunidade de estar com vocês. – Robert Moura


SERVIÇO:
BANDA:
Guto Goffi & O Bando do Bem, lançando: C.A.O.S - Confusões Artísticas e Obras Sonoras
DATAS: 12, 19 e 26 de março e no dia 2 de abril às 20h30
LOCAL: Casa de Cultura Laura Alvim - Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema - Rio de Janeiro - RJ - Telefone: (21) 2332-2016
KICKANTE: C.A.O.S - Guto Goffi e o Bando do Bem: https://www.kickante.com.br/campanhas/caos-guto-goffi-bando-do-bem
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ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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