GERSON KING COMBO - God Save The King: Salve Gerson King Combo - ENTREVISTÃO!

O mundo do soul se despediu, neste plano, da majestade brasileira da black music, Gerson King GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_ObrigatórioCombo que partiu, no último 22/9/2020, deixando o amor e seus “Mandamentos Black”, como inspiração. Cria de Madureira, na zona norte carioca, e querido por todos, sua obra influenciou músicos de variados gêneros, indo do funk ao rock. Um dos seus últimos registros foi um dueto com a cantora Marysa Alfaia. A Rock Press, presta homenagem Gerson King Combo, com uma reflexão de Alexandre Beckão, um entrevistão disponibilizado por Carlos Lopes e depoimentos de fãs, amigos e músicos.

GERSON KING COMBO
God Save The King: Salve Gerson King Combo

TEXTO:Alexandre Beckão
ENTREVISTÃO:
Carlos Lopes/Tupinambah
ARTE: Jorginho
FOTOS e DEPOIMENTOS:
Michael Meneses

 

 

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"Saber que a cor branca, Brother!
É a cor da bandeira da paz, da pureza!
E esses são os pontos de partida para toda a coisa boa, Brother!
Divina razão pela qual amo você também, Brother!
Eu te amo, Brother!” 

Amor, possivelmente a palavra mais falada e escrita em todo o mundo. Por poucas vezes, essa palavra teve um significado tão forte e verdadeiro, como nesses versos da GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatóriofaixa Mandamento Black de Gerson King Combo. E isso só aconteceu, porque Gerson amou verdadeiramente a tudo e a todos, sua família, seus amigos, e seus fãs. Mas, com a música, esse amor ia para outro patamar. Um nível de refinamento, que só os grandes amantes verdadeiros conseguem atingir, sentir, e principalmente transmitir.

Era tanto amor no coração que ele passou mais de 50 anos cantando e dançando tendo o amor como o seu fio condutor. E por tabela, nos fazendo dançar, cantar e amar junto. Quem o conheceu, sabia que essa energia vinha de suas raízes fortes, um legítimo filho do subúrbio, mais especificamente do bairro de Madureira, na zona norte carioca. Logo, era fácil perceber a origem do seu suingue, negritude, e a sua consciência afinada com o povo da periferia.

Na minha vida, ele chegou meio que de repente. Assim como ele, sou um filho do subúrbio, e minha relação com a música veio de forma precoce durante a minha infância. Antigamente aos domingos, era praxe todas as famílias se reunirem para “O Almoço de Domingo”. Durante esses eventos semanais, costumava-se ouvir muita música, e em cada casa um tipo diferente de som era executado (sempre bem alto!) nos alto-falantes. Sendo criança, tínhamos passe livre para correr de casa em casa, e em cada uma a gente brincava, comia e ouvia muita música. E no meio de muitos discos e K7s de samba, bolero, MPB, baladas orquestradas, e dos hits da parada musical daquela época, sempre havia muita disco music, soul e funk (não, o funk ainda não era carioca!). Naquela época, os “gigantes” ainda andavam na Terra, e astros estrangeiros como: James Brown, Stevie Wonder, Chic, Marvin Gaye, Donna Summer e Jackson 5, se misturavam facilmente aos craques nacionais como: Tim Maia, Waltel Branco, Tony Tornado, Wilson Simonal, Hyldon, Cassiano, Jorge Ben, Banda Black Rio, As Frenéticas, Lady Zu, e obviamente, o grande Gerson King Combo.

Quando se é criança, o ritmo é o que mais importa, as palavras ainda não te ligam ao sentimento impresso nelas, mas o pulsar sincopado do baixo e bateria somado ao ritmo das guitarras, piano e metais, são tudo que você precisa para se sacudir sem parar. E não há nada, que uma criança goste mais do que não ficar parado. Mandamento Black tem tudo isso e muito mais, pois quando você consegue captar e entender a ideia impressa naquelas palavras, a música como um todo ganha um significado e poder, que só se pode usar o Amor para poder se explicar.

Tive o prazer de assisti-lo em ação algumas vezes, e na última (em janeiro GERSON_KING_COMBO_arte_Jorginho_Credito_Obrigatóriode 2019, para a Rock Press LEIA AQUI!). Tive o privilégio e honra de conhecê-lo pessoalmente. E não houve prazer maior para mim, do que descobrir o quão gentil e carinhoso era o Rei. Conversamos por alguns minutos, e fui gentilmente apresentado por ele à sua banda e equipe, membros de sua família, amigos (entre eles, o ilustre DJ Dom Beto, que trabalhou com Big Boy e Ademir Lemos no famoso Baile da Pesada no Canecão/RJ, nos anos 70), e seus fãs que faziam fila para estar com ele. Guardo com muito carinho aquele momento no tempo, como uma das minhas mais felizes memórias. Afinal, não é todo dia que se conhece um verdadeiro Rei.

Hoje, ao final de sua existência física e com nossos corações sob o manto da tristeza e do sentimento de perda, ficam a lembrança, a saudade, a gentileza, a positividade, a consciência elevada, mas acima de tudo o seu som e o seu amor. Porque foi isso que ele trazia, enquanto estava entre nós…

Sua última apresentação seria no último dia 19 de setembro, na edição virtual do Caxias Music Fest, porém, precisou ser internado horas antes do show. Aproximadamente 24 horas depois, ele recebeu alta e retornou para casa, mas infelizmente, faleceu no dia 22 de setembro por problemas decorrentes de uma infecção generalizada e de complicações da diabetes após súbita internação.
Aos familiares, amigos e fãs, nossos mais sinceros sentimentos, e que o tempo possa dar-lhes o consolo que as palavras não podem nesse momento.

Ao Mestre Gerson…
Um imensurável muito obrigado por TUDO, e esteja em Paz e com muito Amor, Brother! - Alexandre Beckão.

Dueto com a cantora Marysa Alfaia foi um dos seus últimos registros!

POR: Michael Meneses

“Mais uma boa coincidência na trajetória da música”. Assim a cantora Marysa Alfaia definiu sua parceria com Gerson King Combo em um dos seus últimos registros, na música “Eu Parei” (OUÇA AQUI) https://lnk.to/EuParei, com Gerson emprestando sua alegria e voz também no videoclipe (assista aqui). https://youtu.be/hpPS3BIp_U0. Artista do Selo Caravela e com distribuição Warner Music Brasil, Marysa Alfaia, conheceu Gerson King Combo por intermédio de seu irmão, Getúlio Cortes, com quem se apresentava no Beco das Garrafas, em Copacabana, no Rio de Janeiro.   

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Gerson King Combo
ENTREVISTÃO
POR: Carlos Lopes

Entrevista originalmente publicada na Revista Tupinambah  

No final da década de 1990, dei início a um livro - nunca acabado ou lançado - sobre o movimento Black Rio. Comecei Gerson_King_Combo_LP_autografo_de_Carlos_Lopes_Dorsal_Atlânticaentrevistando Gerson King Combo que acaba de desencarnar. O procurei na Prefeitura pelo nome Gerson e me disseram que não havia ninguém com esse nome lá... Então, o cara se tocou: "Ah! O Barry White!" E assim começou nosso relacionamento. Ele autografou meus discos, assisti ao seu primeiro show de retorno na extinta casa Ballroom, no Humaitá, Rio e fui à Câmara dos Vereadores ver o Gerson receber um título. Gostava de ouvi-lo me chamar de "Lopes!" com aquele vozeirão! Figuras como Combo, Tim Maia, Cassiano fizeram parte de minha formação como fã de música e músico. Toquei na década de 2000 com a banda Usina Le Blond porque tinha orgulho de ser tão fã…

Carlos Lopes/Tupinambah - Quem é Gerson e onde nasceu?
Gerson King Combo - 
Nasci em 30 de novembro de 1943 em Madureira, Rio de Janeiro, na rua Andrade Figueira 394, onde está meu GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatório_N412irmão Getúlio Cortês (nota: autor de Negro Gato, entre outras). Nossos antepassados eram mineiros, nós fomos os primeiros cariocas. Éramos 2 casais de filhos, uma irmã é falecida. O início de todo mundo você sabe como é: pobreza, beira de morro. Meu pai era polícia militar, era loucura. Chegava o natal, cada um “vestia” um pé do sapato. Fomos crescendo, estudando, sem sair de Madureira.

Carlos Lopes - Você escutava muita música?
Gerson King Combo - 
Muito, influência do meu irmão que era um dos melhores dançarinos de rock. Você lembra como era o rock antigo? Piruetas, rodopios e eu era um exímio dançarino. Ganhava prêmios e prêmios.

Carlos Lopes - Você participou de algum concurso em clubes?
Gerson King Combo - 
Vários, eu e o “Imperial” (Carlos Imperial, ator, cineasta, apresentador e compositor). Aí começou o programa do Jair de Taumaturgo “Hoje é Dia de Rock” na rádio Mayrink Veiga. Eu trabalhava por ali e vi aquela turma passando, na época era muito topete. Todo sábado quando eu ia trabalhar, fechava por volta de uma hora justamente quando a turma estava indo para a rádio Tupi. Um dia eu os segui para ver onde eles estavam indo. Fiquei extasiado, já tinha conjuntos de mímica, uma loucura danada, aí eu pensei “O que é isso, eu sei dançar. Como é que se inscreve aqui para vir dançar? Ah você tem que pegar um disco…”. Naquela tarde mesmo não entrei porque tinha que pagar ingresso e fiquei de voltar. No meio da semana eu voltei, cheguei lá comecei a ouvir uma música, acho que era Little Richard… aí eu comecei a ensaiar. Fui lá no meio da semana e me inscrevi, me lembro que eu tirei terceiro lugar. Fiquei lá vendo e foi aí que eu vi o interior da coisa, o pessoal dançando no palco. Eu pensava que eu era o bom, mas não teve jeito: tinha uns quatro melhores do que eu, mas tinha uns bailarinos, nem lembro o nome deles, cara, que eram piores do que eu. Tirei em quarto ou quinto lugar. Eu não me dei por convencido, cheguei a Madureira e encontrei no Imperial Basquete Club, na Estrada do Portela, um amigo e perguntei pra ele: “Você conhece aquele programa? Que tal se a gente fizesse uma dupla?” Aí formou uma dupla, um trio…

Carlos Lopes - Qual era o nome desse seu amigo?
Gerson King Combo - 
Juscelino Braga, ele é baixista toca na noite. Começamos um movimento ali em Madureira. Que ninguém vinha pra cá, da zona norte tinha apenas uma turma de Marechal Hermes que vinha.

Carlos Lopes - Isso era no começo dos anos 60?
Gerson King Combo - 1959/1960 por aí, com certeza. Eu era bem menino.

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Carlos Lopes - Você conheceu o pessoal da Tijuca? Tinha noção do que estava sendo feito por lá, Tim, Erasmo?
Gerson King Combo - 
Comecei a participar do programa na rádio Mayrink Veiga, um tempo depois mudou pra Tupi, mudou de novo para outra rádio e fui começando a levantar junto com essa turma. O astro daquela época era o Marcianita, Sérgio Murilo e não tinha nem Wanderléa. O que existia era os Snakes que era o Tim Maia e o Erasmo. O Roberto, que não tinha vez, aliás, é o padrinho do meu filho. Começamos lá o movimento de “Hoje é Dia de Rock” que foi se alastrando para outros subúrbios. Madureira era um ponto crítico entre a cidade e outros locais, Nova Iguaçu. Todo mundo saltava lá para ir para esses lugares e foi onde eu liderei porque eu morava quase do lado da estação de trem de Madureira. As pessoas que saltavam falavam, (“Esse cara aí já foi na rádio”), então nós fomos juntando vários amigos, Guaraci, Eni, Jorge. Ali, conheci Juscelino Braga que nunca me largou. E eu como exímio dançarino fui fazendo as coreografias. O conjunto se chamava primeiro Imperialista por causa do Imperial Basquete Club que era onde a gente ensaiava. Havia os The Drinkers que eram os bebuns, a turma que estava começando a tomar Cuba Libre. As garotas eram escassas, eu estava me sobressaindo, eu era o mais moreno do grupo, eles eram meio durões, eram sambistas não eram do rock.

Carlos Lopes - Nessa época você tinha interesse pelo samba?GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatório
Gerson King Combo - 
Não, eu nunca tive. Por causa da influência do meu irmão que ouvia rock o dia inteiro eu fui crescendo ouvindo isso. Eu gostava do Império Serrano, sabe, mas, eu tinha um medo porque meu pai e minha mãe falavam “Não vai pra rua que tem uns crioulos do Império Serrano que pegam criança!”. Aquilo me apavorava, então aquele negócio de samba pra mim era um tabu. Quando eu via aquele negão descendo de terno branco e chapéu panamá, eu corria. Ficava com medo, era justamente o bicho-papão que minha mãe falava. Aí, eu ouvia no rádio, a gente não tinha televisão. O bandido Zé da Ilha, eu associava logo com o samba. Passava longe de Escola de Samba. E, nessa coisa, eu fui conhecendo uma turma por morar no centro de Madureira. Tinham os bicheiros, tinha o Natal, que era como um padrinho meu, ele comprou o primeiro time de futebol que eu joguei, eu era um exímio jogador de futebol. Para proteger os bicheiros, a gente gritava: “Sai, sai” quando a polícia vinha. A gente tinha que correr na frente dos policiais pra dar tempo dos caras guardarem tudo. E quem se destacasse na corrida era premiado. Eu nunca deixei ninguém me passar, fiquei quase de titular, o Natal me dava cinco mil reis. Foi aí que começou o The Drinkers, a primeira namorada, cinema, primeira traição também, cheguei lá estava agarrada com outro, foi aí que eu soube o que é ser corneado. Aí, fomos ganhando, ganhando, até que, em 1962, ganhei o melhor individual. Meu irmão, Getúlio, ganhou um prêmio cantando em inglês. Juscelino já aprendendo o baixo. O “Hoje é Dia de Rock” já estava em decadência. Ganhamos o melhor conjunto. Eu vim no trem com quatro troféus. O melhor dançarino, inclusive. Papei quase tudo até que fui proibido de disputar porque eu não tinha mais o que alcançar. Com 17 anos fui me inscrever na pára-quedista e nesse ínterim começou a aparecer Wanderléa, Rosemary, Kátia, Erasmo Carlos, Roberto. Não tinha Jerry, nem Wanderley Cardoso. O Tim Maia não venceu muito porque ele era gordinho e muito feio e tinha uma discriminação de que negão tem que ser bom, ele era muito bom, mas muito briguento. A primeira vez em que ele foi à rádio Mayrink Veiga, levaram a gente para a Boate Plaza, eu já comecei a trabalhar na noite, sem ganhar nada. O Roberto Carlos falava, “Porra, tô trabalhando na Boate Plaza”. Aquilo pra gente era o máximo.

Carlos Lopes - Onde era a Boate Plaza?
Gerson King Combo - Na Prado Júnior em Copacabana. Foi uma das primeiras. Já tinha o movimento Bossa Nova, mas era uma elite. Gente rica elitizada e quem gostava de rock era um infeliz. Se a gente tivesse esses cabelos de vocês naquela época seriamos discriminadíssimos: “Maluco, não tomam banho”. Então fiz a inscrição nos pára-quedistas, por causa de uma namorada. Como o meu irmão já estava nos pára-quedistas, eu tinha que ser o melhor. Fui lá e perguntaram: “Alguém quer ser pára-quedista?” Aí eu levantei o dedo, fui um dos únicos. Nesse primeiro dia, tinha um negro de quase dois metros que me viu e me conheceu da rádio Mayirink Veiga. Aí ele começou a brincar comigo: “Aí topete, eu não gostei, isso aqui é pra homem, topetinho”. Ele já era pára-quedista há muito tempo. Ele me encarnou ele brincava e eu sério. Esse negão se chama Antonio Vianna Gomes, eu o trouxe para tocar no The Drinkers, mas ele era muito alto, um negão que acho que esticava o cabelo. O pessoal logo discriminou: “Pô negão, um crioulo só já basta, ele é muito alto e desengonçado” E eu o trouxe para fazer a primeira inscrição, ensinei a primeira música… Quando o Imperial ouviu (o apresentador Carlos Imperial tinha um programa na TV Continental) então eu fui pra lá com ele e o Carlos Imperial colocou o nome nele de Tony Checker, posteriormente, Tony Tornado. Ele nunca reconheceu que fomos nós que o trouxemos para a vida artística. Mas eu perdôo. A vida dele era sofrida aqui no Rio, o teto caiu na cabeça da mãe dele e ela acabou morrendo. Mas deixa isso pra lá… Eu era muito solicitado, era eu junto com os aqueles artistas todos. O The Drinkers chegava e já era uma coqueluche. E fomos cantando em 1964. O Roberto gravou Splish,Splash, meu irmão Getúlio junto também, tinha o Renato e seus Blue Caps.

Carlos Lopes - Vocês eram um grupo musical?
GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_ObrigatórioGerson King Combo -
 Era só de mímica. Em 1962, conheci a minha esposa. Eu sou viúvo, ela é a mãe do meu filho, uma negra linda, a mais bonita que estava lá. Começamos a dançar juntos. Nós viajamos com o Zé Trindade, pelo Brasil inteiro fazendo mímica.

Carlos Lopes - Como a dupla se chamava?
Gerson King Combo - 
Gerson e Angélica, inclusive emendavam o nome, chamavam “Gersonangélica”, pensavam que era um só. Em 1964 fizemos um programa só nosso na TV Rio. O Carlos Imperial tinha vários dias e quarta-feira era só nosso. Sucesso! Às seis e meia da tarde. A gente fazia uns esquetes tudo dentro da mímica, mas, às vezes, eu nem sabia o que a música dizia. A música dizia cry (chorar), eu estava rindo, às vezes dizia fly (voar) e eu nadando… (risos). Depois nós tivemos mais consciência. Foi quando pintou no Rio, a Jovem Guarda. Meu irmão, Getúlio Cortes, já estava com um sucesso: “Eu sou um negro gato de arrepiar” ele fez essa primeira música e ficou todo empolgado “vou gravar!” Ele era o carregador dos instrumentos do Renato e Seus Blue Caps, quando eu fazia mímica e coisa e tal. Em 1965, inaugurou, em SP, o programa Jovem Guarda. O Carlos Manga era o produtor geral, o meu irmão, coordenador. O Roberto Carlos sempre foi muito amigo nosso, íntimo, particular desde aquele tempo. Ele convidou meu irmão pra fazer a coordenação geral do programa. Eu carregava os slides do programa. Tinha acabado de nascer meu filho. “O Gersão está duro lá”. Então, comecei a fazer umas dublagens, a gente era muito bom, era programa atrás de programa. Tudo em São Paulo. O Rio tava uma decadência, tinha acabado o Jair de Taumaturgo, em 63.

Carlos Lopes - Você morava em São Paulo?
Gerson King Combo –
 Não, eu só ia pra lá. Em 1965, a Jovem Guarda explodiu no Rio. Então, reuni-se eu, Carlos Manga, Roberto Carlos, o patrocinador. Eles falaram, meu irmão falou, e eu fui o último a falar. Sugeri o nome “Tensão Total” e o meu irmão sugeriu “Alta Tensão” para o programa. O Carlos Manga achou sensacional. Eu adoro o Carlos Manga, não posso nem contar a metade da vida do Manga, senão estamos os dois complicados. Peguei motivos interplanetários, bailarinas. Essas meninas me ajudaram bastante, mas eram duras, os maridões ficavam na porta querendo saber. Eu fiz a parte de coreografia. Tinha que ser limitada, porém, graciosa. Deus me deu o dom de fazer graça, eu, um negão grandão, mas era leve ao mesmo tempo. Nesse mesmo ínterim, tinha o Chacrinha saindo da TV Excelsior. Não existia chacrete ainda. Ele mandou o filho dele lá, nem me lembro qual e ele na ânsia de me agradar disse: “Meu pai quer falar contigo, leva essas meninas lá” O Roberto Carlos e o Manga não deixaram, mas primeiro foram elas, que não podiam fazer dois programas. Foi quando ele (o Chacrinha) me convidou para fazer as primeiras Chacretes, elas me adoravam. Eu era o bendito fruto entre as mulheres.

Carlos Lopes - Quando você gravou?GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatório_N412
Gerson King Combo - 
Gravei um compacto. A música se chamava “Não Volto Mais Aqui”, de Getúlio Cortes, em 1968, no estúdio da CBS com quatro canais e fita de duas polegadas. No outro estúdio, estava o Tim Maia, gravando, cheirando e fumando todas. Ele tinha chegado dos EUA e andava muito revoltado com esse país, sobretudo por causa do Golpe. Dali eu fui convidado pra fazer um show com o Wilson Simonal. Chamado de “Cabral a Simonal” foi sucesso no Brasil e no exterior. Não havia nada igual no Brasil. O Simonal começava o show e no meio a luz enfraquecia ele saía, e eu entrava a luz ia aumentado, e eu ia andando e imitando o Simonal, e depois entrava o Simonal com a mesma roupa cumprimentando o público. A luz ia aumentando em mim também e o público ficava louco achando que era truque, jogo de espelhos. Fomos para a Venezuela, foi a primeira vez que eu saí do país. Com esse show viajei o mundo. O time brasileiro foi usado para promover o governo militar e parece que o Simonal tinha envolvimento com o mesmo governo militar, dedurando os companheiros. O Simonal me jurou mil vezes que não tinha nenhum envolvimento com os militares. O Simonal foi envolvido, tipo intriga. Eu fiz um showzinho com o Simonal na casa do Costa e Silva. Eu estou querendo defender o Simonal, na verdade, ele se achava mais do que ele era. Sabe, eu aconselho aos artistas para não se envolverem. Eu procurei não me envolver com política.

Carlos Lopes - Esse show que você fazia com o Simonal foi até que ano?
Gerson King Combo - 
De 1969 até 1973, quando eu vim de lá pra começar o movimento Black Rio.

Carlos Lopes - O Tim Maia nessa época já tinha estourado?
Gerson King Combo -
 Tinha e tinha acabado. O Tim foi sucesso em 70. Nessa época, ele começou a fazer as bagunças dele e até foi preso, ele bateu na mulher em 1975. Ele ficou 3 anos preso. Ele tinha muitos problemas.

Carlos Lopes - Você já vestia roupas espalhafatosas?Gerson_King_Combo_Gerson_Cortez_compacto
Gerson King Combo - Fui eu quem trouxe essas roupas, e os cabelos crescidos. A gente via muito isso em Nova Iorque, aqui ainda não existia. Quando eu e o Simonal deixamos o cabelo crescer, a gente usava uns pentes de ferro. A gente estava em Los Angeles, fomos a um clube, o César Camargo Mariano entrou nesse clube que se chamava Square ou algo assim. Fiquei abismado com os negros de lá com uns carros muito feios, cor de rosa. Nós entramos nesse clube e fomos olhados de baixo a cima, não havia brancos e o César era branco. Fomos convidados a nos retirar. O Simonal já tinha ido a esse clube da outra vez que ele foi a L.A. Ele entrou lá querendo dar uma canja, e não deixaram. Nós fomos convidados a sair sem sutileza, a maior discriminação. Eles eram negros com muito preconceito e muito feios também.

Carlos Lopes - Depois que você chegou de viagem com o Wilson Simonal, em 1973, o que rolou?
Gerson King Combo - 
Chegamos aqui, trouxemos uns discos, eu troquei uns discos com o Big Boy, ele estava com um programa de muito sucesso na rádio Mundial. Ele me disse que estava com uma ideia: “Porque você não faz uma banda Gerson King Combo?” Nós fizemos o primeiro Baile da Pesada no Canecão, em 1973
.

Carlos Lopes - Que tipo de pessoas iam ao Baile?
Gerson King Combo - 
Era o negro da Zona Sul, das comunidades Cruzada, Rocinha, Chapéu, muita gente de Botafogo. O baile era domingo à tarde. O Black veio resgatar os negões 15 anos depois. Nós começamos o baile da pesada e o Big Boy botava cada som, James Brown.

Gerson_King_Combo_Quando_a_Cidade_Acorda_me_dar_mais_um_cigarroCarlos Lopes - Esse público de 1973 já estava usando as roupas iguais as dos americanos?
Gerson King Combo - 
Já estavam usando, não passava na TV, mas o jornalismo divulgava. A equipe de som era um toca-discos e as caixas que traziam de casa. Em 74, o baile foi sucesso total, formavam-se filas e filas na porta do Canecão. Começamos a trazer atrações, começou a dança do negro. As festas eram feitas só com as caixinhas. Foi o Big Boy que começou com dois pratos junto com o know-how que eu trouxe dos EUA.

Carlos Lopes - Por que isso aconteceu no Canecão na área mais rica da cidade e não no subúrbio? 
Gerson King Combo - Porque no subúrbio era muito pobre, muito carente. O negro da Zona Sul já tinha uma graninha a mais. Já usavam aqueles sapatos altos. Nos bailes do Canecão nós fomos trazendo as equipes. Começou a ser criado o movimento no Rio de Janeiro. Foi crescendo daí.

Carlos Lopes - Qual foi a primeira equipe do Rio? E quem a coordenava?
Gerson King Combo - Foi a Soul Gran Prix e quem coordenava era o Dom Filó.

Carlos Lopes - Tocava musica brasileira?
Gerson King Combo - 
Não. Só música negra. O Filó (de filósofo) era um estudioso da cultura negra. Até tem livros publicados. Existia também a Black Power, só subúrbio. Quem mandava na Zona Sul éramos nós. Aí, crescemos com a Furacão 2000, que já era sucesso, foi ele (Rômulo Costa) que criou essas caixas todas, ele era engenheiro. O movimento black foi crescendo, começou o sapato alto vermelho e preto, a cabeleira, eu andava na Rio Branco pra lá e pra cá com aquele cabelão, tirando fotos para promoção. As pessoas pensavam que eu era americano.

Carlos Lopes - Quantos shows você fazia? Era playback ou você levava os músicos?GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatório
Gerson King Combo - A maioria dos shows eu levava a banda. No auge eu fazia dois, às vezes playback, ficava muito caro pra levar a banda. A produção não pagava pra sobrar mais dinheiro pra eles. Às vezes, eles não tinham o dinheiro e me pagavam com um carro. Já cheguei a ter oito carros aqui em casa.

Carlos Lopes - Você se lembra quanto era o seu cachê, atualizado?
Gerson King Combo - Uns três a quarto mil dólares por show. Eu tirava uns mil e oitocentos e o resto eu dividia entre a banda.

Carlos Lopes - Você era o único artista brasileiro que se paramentava?
Gerson King Combo – 
Sim, eu era o único. Os blacks também se vestiam assim. Eu exportei pra São Paulo. Os blacks de lá vinham pra cá ver, investigar.

Carlos Lopes - Você afirma que o movimento black paulista não existiria sem o carioca?
Gerson King Combo - 
Positivamente, não existia em SP. A Chick Show uma rapaziada de lá fazia show, levavam artistas bons. Eu inaugurei o Black Sampa, uma cópia das equipes do Rio de Janeiro.

Carlos Lopes - Qual era a média de público?
Gerson King Combo -
 Dez mil em SP e no Rio de cinco a oito mil.

Carlos Lopes - Por que hoje em dia existem em torno de 300 bailes no Rio com uma media de três mil pessoas por baile nos fins de semana? De onde que surgiu esse público?
Gerson King Combo - Falta de opção, e outra geração. Hoje há mais facilidade. Naquela época as pessoas tinham menos dinheiro. E hoje há outras facilidades, mulher não paga, se chegar até tal hora não paga ou paga menos.

Carlos Lopes - E a violência?
Gerson King Combo - 
A violência naquela época não existia. A gente separava as brigas, eu pulava no meio. Nem lá fora tinha briga. Os únicos clubes violentos eram em Bangu e em Rocha Miranda. Tinha, mas muito pouco.

Carlos Lopes - Você ouviu falar que algum movimento de esquerda naquela época dentro do movimento negro tipo os Panteras Negras?
Gerson King Combo - Existiu sim. Era um pessoal de esquerda do PT, uma coisa paulista de sindicato. Era uma maneira de eles tentarem se infiltrar na massa. Eles vinham com bandeiras, isso foi no final dos anos 70, mas não deu certo, ninguém queria saber de nada.

Carlos Lopes - O período que você encontrou com as Supremes foi o período Simonal?
Gerson King Combo -
 Foi durante esse período. Eu só sabia falar brother e baby. Conheci a negrada da banda do James Brown também. Foi no mesmo show das Supremes, em Porto Rico, que eu conheci o Brown.

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Carlos Lopes - O seu nome artístico já era King Combo?
Gerson King Combo - 
Eu era Combo, Gerson Combo. King foi depois do disco, foi o James Brown que me chamou de King.

Carlos Lopes - Onde você encontrou o Stevie Wonder?
Gerson King Combo - Aqui no Brasil. Ele veio visitar a gravadora que lançava os discos dele aqui, por volta de 72, por causa da inauguração de um estúdio.

Carlos Lopes - Onde se localizava o estúdio?
Gerson King Combo - 
Na Avenida Brasil. Eram oito canais e isso era muito para a época. O Stevie Wonder me chamava de Thunder Boy por causa do meu vozeirão, ele ficava me imitando. O Wonder chegou a enxergar!

Carlos Lopes - Você tem um compacto simples gravado em 1966…
Gerson King Combo - 
Esse compacto foi gravado na Avenida Rio Branco. A música é “É Quente” e “Centauros”, do Getúlio Cortes. O nome da gravadora é Equipe.

Carlos Lopes - Depois deste compacto você gravou um LP chamado Gerson Combo Brazilian Soul em 1968. De onde veio esta palavra Combo?
Gerson_King-Combo_e_a_turma_do_soul_vinilGerson King Combo - 
De quando eu fiz o primeiro conjunto, o Fórmula 7, quando acabou a Jovem Guarda, eu, o Márcio Montarroyos, o Hélio Delmiro. A gente tocava aquele tipo de som com pistão (trompete). Eu era o crooner. Depois formei o Gerson Combo, que é uma palavra da língua bantu que significa grupo de cinco ou mais pessoas. Vi Combo em um livro, minha vó falava bantu, ela contava que quando os escravos se reuniam para rezar se chamava Combo. Combo era a reunião para a magia do terreiro. Os meus bisavôs eram escravos.

Carlos Lopes - Me conta sobre esse Gerson Combo Brazilian Soul.
Gerson King Combo - 
Eu já tinha mexido com soul. Só que a dança não existia, não tinha nada. Em 1967, teve a Turma da Pilantragem que imitava Chris Montez com músicas já conhecidas. Eles fizeram sucesso com “Primavera”, do Cassiano. Eu já gravava soul, já cantava soul, um soul brasileiro. Eu era o único que cantava esse estilo. Quando disseram que o Tim Maia era o rei do soul, aí eu dei uma entrevista para o Jornal do Brasil dizendo que eu o adorava, mas ele não era o rei do soul, afinal, fui eu que iniciei o soul aqui. Tanto é que o disco esta aí.

Carlos Lopes - Houve alguma interpretação errônea em relação à faixa “Mandamentos Black”?
Gerson_King-Combo_vinilGerson King Combo - Claro que houve, mesmo eu cantando “a cor da pureza”. O crítico Tinhorão participava de uma mesa redonda no programa Aroldo de Andrade no rádio. Eu não entendia direito porque ele me acusava. Eu estava em São Paulo, me ligaram dizendo que meu filho estava chorando porque estavam falando no rádio que eu estava levando uma bandeira negra aqui nesse país e pessoas como eu, deveriam ser crucificadas. Eu não entendi nada, por que têm que ser crucificadas? Eu fiquei muito magoado na época, o Tinhorão era meu amigo. Como não teve muito repercussão, foi tudo balela. Na verdade, eu nem ouvi o programa.

Carlos Lopes - Em São Paulo, você notou que o movimento era de alguma forma diferente do carioca que por natureza é mais brincalhão?
Gerson King Combo - Os negros paulistas levavam tudo a sério, não eram como os cariocas, lá já teve outra conotação. As equipes láGerson_King_Combo_Jingle_Black_Compacto começaram a dizer que o negro pobre era “sub”. Eu fui lá realmente pra amenizar a situação. O Tornado foi lá, ele era o ídolo deles lá e eu era o ídolo aqui. Ele falava a língua deles lá porque queria se dar bem, foi preso lá, inclusive. O Tony é inteligente, mas é uma pessoa sem cultura.

Carlos Lopes - Qual foi seu maior sucesso, entre todos?
Gerson King Combo - 
Foi o primeiro LP, vendeu 200.000 cópias, foi disco de ouro. Eu vendi muito um compacto, quase 400.000, com uma música de natal chamada “Jingle Black”.

Carlos Lopes - Como era a União Black?
GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_ObrigatórioGerson King Combo - A União Black foi uma banda que eu criei, mas que não teve grande projeção.

Carlos Lopes - Como o movimento black acabou no Rio?
Gerson King Combo - 
Com o advento da discothèque. A minha geração tinha crescido, mas não engolia a discothèque, dançar bonitinho. As boates da Zona Sul só tocavam isso. Sobreviveu por uns cinco anos. Começou em 82 e o movimento definitivamente acabou em 1983. Acabaram-se os bailes, foram ficando fracos. Em 85, já não se falava mais. O Rômulo da Furacão viajou muito pelo Brasil e resistiu. Depois disso veio o Rock in Rio, começou a fase do rock brasileiro.

Carlos Lopes - Teus antigos empresários te enganavam? Eles estão bem hoje em dia, ou já saíram da cena?
Gerson King Combo - Eles continuam. O Rômulo Costa também me explorou. Me dava uma merreca e eu ainda tinha que pagar a banda. Não havia essa estrutura de hoje.

Carlos Lopes - O Tim Maia passou para posteridade como um artista popular, que a elite conhece, sabe quem é. O Gerson King Combo, não. O Gerson é um artista popular, das massas, que não passou pra posteridade. Por que isso? Você ficou muito preso a um movimento?
Gerson King Combo - O Tim Maia foi pra Globo, eu fiquei preso ao movimento, às idéias, à coisa social. O Tim Maia fez um disco em 70 que ficou pra prosperidade. Eu não fiz esse disco. Se eu tivesse feito a metade das bagunças que o Tim Maia fez eu estaria mal.
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DEPOIMENTOS:

Negra Rose - (Backing vocal da banda de Gerson King Combo, rapper, e publicitária) - Gerson King, era um homem generoso, amável, sincero, meu tio, padrinho,  e o vovô da minha filha Maria Antônia. Assumiu o lugar de pai, assim que o meu pai faleceu, me trouxe para o Rio e me deu oportunidades de poder dividir o palco com ele por diversas vezes! Almoçamos, GERSON_KING_COMBO_foto_MICHAEL_MENESES_Rock_Press_Credito_Obrigatóriojantamos sempre ao som de uma boa música, gravamos juntos uma canção em homenagem ao Rapper Dexter do 509-E. Um mês antes de falecer, ele me ligou e disse: "Filhinha, vou compor um rap para você”.  Fiquei muito feliz, pois ele era também um grande admirador do meu trabalho musical na área de RAP. Ele me protegia, éramos um grude um com outro! Sempre que ele escrevia alguma música, me chamava na casa dele e cantava para mim! Era mágico, cheio de swing e uma voz única, ele cantava e encantava todos os que estavam ao seu redor! Lembro que um dia fiquei bastante doente, ele me levou para casa dele e fez um almoço delicioso, e para me alegrar, cantou “Funk Brother Soul”! Ele dançava, era lindo de viver! Passamos várias horas falando das produções musicais brasileiras, ele como bom crítico dizia que estávamos indo de mal a pior! Gerson era respeitoso, atencioso com cada músico, com quem o convidava para fazer participações especiais em seus trabalhos. Ele era simplesmente um gênio! Fui backing vocal do projeto Live Gerson King Combo, produzido pelo grande amigo e produtor DJ Ronaldo Pereira. Só posso dizer que meu pai, tio, vovô da minha filha Maria Antônia está fazendo falta!

Ronaldo Groove – (Empresário e produtor do Gerson King Combo desde 2009. Ao lado do King, formou em 2011, o projeto Gerson King Combo Live, tocando teclados e produzindo as bases) - Gerson King Combo é um ícone da cultura negra brasileira. Seu legado é imenso. Suas músicas são o seu cartão de visita. O que o King fez para o movimento negro brasileiro em menos de uma década, nos anos 70, teve um efeito bombástico na auto-estima e no próprio reconhecimento do negro no Brasil. Nunca antes dele, um jovem negro poderia não cortar seu cabelo, vestir as roupas que quisesse e ir dançar em um baile onde só tocava o seu som. Existe coisa + libertadora que essa?

Robert Moura – (Músico, professor e fundador da Alaúde Escola de Música) – A morte de uma importante figura como é a de Gerson King Combo é daquelas que nos trazem um sentimento de que toda uma Era está morrendo junto com o personagem. Um dos precursores da Black Music no Brasil, além do soul e do funk, ele também teve um pé no rock, chegando a ser vocalista da banda Renato e Seus Blue Caps (cujo guitarrista Renato Barros também nos deixou recentemente) em shows por um período no final dos anos 1960. Gerson também realizou um importante trabalho com a banda Fórmula 7 que contava com músicos como Luizão Maia, Hélio Delmiro, Márcio Montarroyos, Hugo Bellard e Sérgio Herval, entre outros. Com origem no jazz, posteriormente, a banda incorporaria a soul music ao seu estilo. Entretanto, o nome de King Combo estará mesmo sempre marcado em nossa história ao lado de seus brothers Cassiano, Tim Maia, Hyldon, Carlos Dafé, Tony Tornado, Wilson Simonal e da Banda Black Rio. Aliás, no dia seguinte ao da morte de Gerson, Hyldon o homenageou de forma emocionada na “Live Improvisada” que vem realizando diariamente em seu perfil no Instagram. Fato é que o nome de Gérson Rodrigues Côrtes (assim como o de seu irmão, o compositor e cantor Getúlio Côrtes) está marcado em nossa história, e ainda que uma Era esteja passando, as sementes plantadas por artistas como ele seguem e seguirão fecundas na música do nosso País! Um grande salve para o brother Gerson King Combo! (Obs.: escrevo esse depoimento na noite de 28/09/2020, dia em que Tim Maia completaria 78 anos de idade. Hyldon também acaba de homenageá-lo em sua Live).

BACALHAU – (Músico das bandas Planet Hemp, Autoramas entre outras, e hoje toca nas bandas Albaca, Elétrico Vesúvio) - A primeira vez que ouvi o nome Gerson King Combo foi com a Mêlo do Hulk e posteriormente pesquisando e mergulhando em toda a sua obra percebi que ele antes de ser o Black Soul Brother ele foi crooner, canário, cantor do Renato e seus Blue Caps, Banda Veneno, Os Diagonais e União Black, ele sempre se destacou. Na sua carreira solo se destaca com canções do quilate “Mandamento Black”, “Andando nos Trilhos”, “Esse é o nosso Black Brother”, “Funk Soul Brother”, “Goodbye” e “Meu Nome É”, essa bem autobiográfica, está no Olimpo das melhores da música brasileira, em minha opinião. A música perde mais um grande mestre deixando saudades, mas estamos aqui para passar a novas gerações que temos grandes compositores, cantores e ir contra essa amnésia programada a qual somos todos afligidos. Viva Gerson King Combo, Viva a música!

ELIS MELO (Fotografa) – No ano de 2018, tive o privilégio de conhecer e fotografar essa pessoa incrível, o rei do soul Gerson King Combo. Ele gostava muito de conversar, contar como ele começou sua carreira. Era muito conhecido, principalmente em Madureira, onde morou por muito tempo. A primeira vez que o fotografei foi cantando ao lado do seu irmão, Getúlio Côrtes, no Teatro Rival, na Cinelândia/RJ. Depois, ele me convidou para acompanhá-lo ao programa da Fátima Bernades, ele dizia que eu seria a fotógrafa dele dali para frente. (risos). Foi pouco tempo de convivência, mas foi muito gratificante poder conhecer um cara muito, simpático e um cantor incrível.

Cadu Oliveira – (Editor do site Hempadão e colaborador da Rock Press) - Partiu o autor dos “Mandamentos Black”. Gerson é o rei da música negra brasileira. Deixou a vida, mas está dançando eternamente na história. Uma lenda de Madureira para o mundo. Pelos trabalhos prestados ao soul e a identidade afro, um bando de anjos dançando break o aguardaram no céu. Quando Gerson chegou, cantaram felizes em coro: “Eu te amo brother”.

Marcelo Saci (Banda Cara de Porco e produtor do Rato no Rio) – Conheci o trabalho do Gerson King Combo ainda moleque, meu pai tinha um disco dele, se não me engano o que ele lançou em 1977. Mais tarde, o conheci pessoalmente nas festas da galera do Clube do Soul, que eram realizadas pelo amigo Aldemar Matias (Sir Dema Senhor Soul). Gerson, sempre foi uma referência musical, estive com ele novamente ano passado, na Arena Fernando Torres, onde agradeci a influência e falei sobre a música "Caranguejo não tem Pescoço" (OUÇA) que tem uma referência a seu trabalho. Foi uma perda imensa para cultura brasileira.

Michael Meneses – (Editor Rock Press e criador do Selo Cultural Parayba Records) – Ser suburbano no Rio de Janeiro é ter contato com personalidades da cultura brasileira a todo momento. Cedo ou tarde, você encontra alguém do samba, da MPB, do futebol, do cinema, da literatura... Trabalho em Madureira, terra do samba da Império Serrano e da Portela, do Jongo da Serrinha, do comércio popular... Sempre ouvia dizer que Gerson King Combo morava perto do Viaduto Negrão de Lima, onde fica situada a sede da CUFA (Central Única de Favelas) e o palco do famoso Baile Chame de Madureira. Conhecer essas personalidades é só questão de tempo. Foi assim que conheci Gerson King Combo, em 2019, ao ser apresentado pela fotografa Elis Melo. Fomos à casa dele ali mesmo ao lado do viaduto, e passamos uma tarde conversando sobre música, nomes como Elis Regina, Roberto Carlos, James Brown e tantos outros não ficaram de fora da prosa, ele, inclusive, lembrou da entrevista que concedeu à revista Rock Press nos anos 1990. Gerson, era um cara cheio de memórias. Dias depois, assisti e cliquei seu último show em Madureira, mais especificamente no palco da Arena Carioca Fernando Torres (outra lenda da região), no Parque de Madureira. No ano passado (2019), ajudando na curadoria da Feira de Vinil de Bangu na zona oeste carioca, o indiquei como personalidade a ser homenageada em uma das edições do evento, porém, a agenda de ambos não permitiu tal homenagem. E justamente, por reconhecer o quanto Gerson King Combo foi importante para a cultura de Madureira e região, que lanço a sugestão as autoridades: Que Gerson King Combo seja homenageado com o nome de alguma rua, praça, quadra, palco... Afinal, sua história e legado devem seguir eternizados com carinho, seja no subúrbio, seja no Mundo!


Alexandre Beckão é: Carioca, Aquariano, Seguidor dos Mandamentos Black, e devotado de forma irreversível à Música. Paz & Música!!! Namastê!!!

 

 

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