ENTREVISTÃO IRA! – Mulheres À Frente do Ira!

A banda Ira! lança seu novo álbum com título homônimo. O guitarrista Edgard Scandurra nos concedeu IRA_RJ_2019_Leoni_Foto_VER_Maisuma entrevista na qual falou do atual momento que a banda vive, como tem lidado com a quarentena imposta pela Covid-19, e a forte presença feminina no novo trabalho, seja nas temáticas das canções, principalmente “Mulheres À Frente da Tropa”, cujo clipe homenageia mulheres importantes nas lutas sociais em diferentes momentos da nossa história como Dandara, Sônia Ana Mirim, Preta Ferreira e Marielle Franco, ou através das parcerias nas composições com Silvia Tape, Virginie Boutaud e Bárbara Eugênia
 

 

ENTREVISTÃO 
EDGARD SCANDURRA
Mulheres À Frente do Ira!

ENTREVISTA:
Robert Moura
FOTOS:
Ana Karina Zaratin/Divulgação
Leoni Fotos/ Ver + Fotografias
 

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Em seu novo álbum autointitulado “Ira” (capa), a banda faz um mergulho na sonoridade das bandas inglesas dos anos 60, no pós-punk dos anos 80, e revisita um pouco do IRA_disco_2020som dos seus discos mais clássicos como “Mudança de Comportamento” (1985) e “Vivendo e Não Aprendendo” (1986). Mas, ao mesmo tempo, renova-se no discurso trazendo pautas atuais e buscando novos horizontes, com a inquietação que sempre lhes foi peculiar. A formação atual, além do guitarrista Edgard Scandurra e do vocalista Nasi, conta com os músicos Johnny Boy (baixo) e Evaristo Pádua (bateria). As gravações trazem as participações especiais de Virginie Boutaud (voz), Jorge Pena (percussão) Ana Chamorro e Jonas Moncaio (violoncelos), Cristian Sandu (violino), Semen Grinberg (viola), Silvia Tape, Janine Durand, Kaline Oliveira e Marisol (backing vocals), e o produtor Apollo 9 que também gravou os teclados. 

O disco, como um todo, tem um som bem direto, com poucos efeitos, longe das tendências eletrônicas dos últimos tempos. Temos a sonoridade explosiva e agressiva da banda em “O Amor Também Faz Errar”, “Respostas” e “Você Me Toca”, intercalada de alguns momentos mais delicados, como “A Nossa Amizade”, “Mulheres À Frente da Tropa” e “Efeito Dominó”. Aliás, as duas últimas, são daquelas grandes baladas que só bandas de Rock sabem fazer. Sendo, ainda, que “Mulheres À Frente da Tropa” carrega o grande mote das temáticas do trabalho puxando o foco para uma discussão sobre o feminismo e resgatando também o lado acústico do Ira! de canções como “Flores em Você” (1985) e “Superficial (Como um Espinho)” (2001), reforçado com o álbum “Acústico” (2004), e mais recentemente o projeto “Folk” (2017). Todas as composições são assinadas por Scandurra, sozinho, ou com as parceiras Silvia Tape, Virginie Boutaud e Bárbara Eugênia o que reafirma o lado feminino nesse trabalho da banda. (Ouça o álbum “Ira” AQUI)

Scandurra conversou com a Rock Press e mostrou, que, diferentemente, do verso da canção “Quinze Anos”, lançada pelo Ira!, em 1985, ele está sim, “Vivendo e Aprendendo”.  Aos 58 anos de idade, com muita energia e indignação, o músico expõe hoje, uma rebeldia madura de alguém que está longe de se acomodar. Confira nas Páginas Psicodélicas da Rock Press, nosso papo com esse que é um dos maiores expoentes da guitarra no Brasil.

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ROBERT MOURA/ROCK PRESS – Chama a atenção o fato de o novo álbum ser intitulado, “Ira”, por ser comum bandas de Rock batizarem seu disco de estreia com título homônimo à banda e vocês nunca tinham usado esse título com exceção do primeiro compacto IRA_compacto_Pobre_Paulista_e_ Gritos_na_Multidão_1983(que trazia “Pobre Paulista” e “Gritos Na Multidão”. capa abaixo). Mas, nesse caso, usar o “Ira” vem por essa associação com a própria essência da palavra e tem a ver com a questão dos atuais discursos de ódio?
EDGARD SCANDURRA –
Eu acho que tem a ver com a essência da palavra. Esse momento que a gente está vivendo, né? É um momento meio que de indignação, de ira mesmo. Tem o fato da gente nunca ter registrado o nomeIRA_RJ_2019_Leoni_Foto_VER e esse é um disco independente da banda. E o período independente do Ira! foi até 84 quando a gente assinava sem exclamação. Então tem esse sentido também de ser um registro independente da gente. Embora o nome da banda continue com exclamação. O nome do disco que é o “Ira” sem exclamação. Mas, é uma referência ao momento independente da banda. 

Rock Press – E qual é o conceito da capa?
Edgard Scandurra –
Essa instalação, é um objeto, não é uma pintura. É a fotografia de objeto feito pela Mayla (Goerisch) que é uma artista plástica que fez a capa. Não só a arte da capa, mas também do encarte, e todos os signos que cada single já teve. Assim, talvez, uma das temáticas mais fortes desse disco, além de estar mostrando o nosso momento de independência, essa coisa sem gravadora, a liberdade que a gente tem nas faixas, é a presença feminina muito forte no disco. Com a canção “Mulheres À Frente da Tropa” é mais evidente isso. As parcerias todas. Tenho três parceiras nesse disco: a Virginie na música “O Efeito Dominó”; a Silvia Tape, eu tenho duas músicas com ela; e uma música com a Bárbara Eugênia. Então, a capa é uma menina também que está fazendo. E o sentido da capa está muito ligado a “Mulheres À Frente da Tropa” (capa). E o sentido dela, eu entendi, quando fui me informar a respeito do trabalho da Mayla... na verdade, fui me informar a respeito de um contrabaixo que ela estava querendo vender, e IRA_Mulheres_à_Frente_da_Tropapesquisando nas fotos dela para ver se encontrava o baixo, descobri que ela é uma artista plástica. Como a gente estava pensando no disco vendo esse protagonismo feminino que já estava pintando muito forte no disco, achei legal que fosse uma capa também feita por mulher. E como a letra dessa música fala “pontas-de-lança da revolução”, essas lanças espetadas assim, me levou a esse sentido subliminar e subjetivo dessa letra. Acho que é uma música bem representativa do disco que combina bem com o nome próprio, com esse nome “Ira” também, sabe? Como se fossem lanças pegadas por pessoas que fossem se manifestar com relação a esse momento difícil que a gente está vivendo. Era uma arte que já existia. Não foi uma coisa feita pro disco. Quando fui pesquisar os trabalhos dela, no Instagram, vi a foto desse objeto, e aí mostrei pro Nasi, e falei – cara, acho que a gente achou a capa do disco. Ele curtiu, entrei em contato com ela, fiz o convite, e ela ficou super feliz em fazer. E aí já juntou com o (Guilherme) Pacola que é o namorado dela que também é artista gráfico e começaram a trabalhar na capa, no encarte, tudo. E foi uma bola muito dentro porque está tudo muito bonito, né? Muito legal, e esse é um disco conceitual também do Ira!. Não é só um punhado de canções, sabe? Acho legal ter essa capa. E é um disco muito pensado no vinil. Eu ouço como se fossem músicas do lado A, músicas do lado B.


Rock Press – Ele tem o vinil? Pelo menos aparece lá no início do clipe (de “Mulheres À Frente da Tropa”). Foi só pro clipe? 
Edgard Scandurra –
É, foi só pro clipe. A gente fez só pro clipe, mas já dando a dica que vai sair IRA_RJ_2019_Leoni_Foto_VERo vinil. 

Rock Press – Aproveitando o gancho de “Mulheres À Frente da Tropa”, mesmo porque ela traz essa questão do feminismo e o próprio disco, como você falou tem várias participações de compositoras, cantoras...
Edgard Scandurra –
Sim, sim, tem uma cellista também. Tem três ou quatro músicas que tem cellos e cordas, e tem uma cellista que é minha amiga de ginásio. O clipe de “Mulheres À Frente da Tropa” é dirigido por uma mulher, a Luciana Sérvulo. Ele é todo protagonizado por mulheres, tem um único menininho que aparece no vídeo.
 
Rock Press – E tem essas homenagens à Dandara (a personagem histórica, líder do Quilombo dos Palmares), Sônia Ana Mirim (líder da aldeia guarani em SP), Preta Ferreira (militante do MSTC – Movimento Sem-Teto do Centro de SP) e à Marielle Franco (socióloga, defensora dos Direito Humanos e vereadora da cidade do Rio de Janeiro, vítima de cruel assassinato ainda não solucionado). 
Edgard Scandurra – Marielle. Inclusive, entre essas pessoas homenageadas está a Lucinha Turnbull – ela participa do clipe – que é a primeira guitarrista do Brasil. 

Rock Press – E, como você tem visto as manifestações, dessas chamadas “minorias”, colocando “pela primeira vez na história desse país”, o homem branco hetero, um pouco fora do centro, fora dessa posição de senhor da razão? Você até traz os versos “Jovens mulheres, adolescentes/Lutam por todos até os descrentes”. Então é uma luta que é em benefício de todos. E tem que lutar, mesmo por aqueles que não estão acreditando, que não respeitam. 
Edgard Scandurra – É, exatamente. Esses versos são bem, é... eu não saio da canção, né? Sou eu cantando, é um homem que canta essa música “Lutam por todos até os descrentes/Imóveis ficamos sem reação/Somente nos restam os calos nas mãos”. Eu reconheço um momento muito forte onde as mulheres estão tomando a frente em muitos sentidos. Por exemplo, quando a gente fala da Preta Ferreira, tem a Preta, tem a mãe dela que a líder MSTC que é o movimento da ocupação do “9 de Julho”, onde foi filmado o clipe. Tem participando, também, desse clipe, a Sônia Ana Mirim que é uma líder indígena da aldeia guarani aqui da região do Jaraguá, em São Paulo. Minha filha também está lá, tem as adolescentes da letra. Acho que é um momento em que, apesar, dos erros que a gente vem acompanhando, coisas gritantes de racismo, esses atos que aconteceram nas últimas das semanas tanto no Brasil como nos Estados Unidos, coisas que vão pipocando aqui e ali e que todo mundo fica indignado, acho que tem uma evolução nisso tudo. Um reconhecimento das pessoas brancas, do homem branco, quanto ao espaço que tem que ser dado para as minorias, para os pretos, para as mulheres, para os indígenas. Então, quando a gente vê essas tentativas de invasão de áreas indígenas, quando a gente vê essas reações, as polícias entrando em favelas, lugares em que a maioria é preta e atirando, criança sendo assassinada, e as pessoas colocando isso como se fossem números, né? Como se fosse uma coisa normal de uma operação policial morrer alguém por acidente. Ou então essas agressões de transfobia, de lgbtfobia, parece que a sociedade dá um passo à frente numa evolução, e dá depois dois para trás, e assim vai. Eu acho importante uma banda de Rock como o Ira! que tem uma característica muito masculina na nossa atitude, nos nossos discos, na nossa história, a história do Rock é muito machista, né? Acho que é importante partir de nós, de uma banda, esse reconhecimento de saber que é o momento da gente ouvir, prestar atenção, olhar, acompanhar, aprender com as mulheres, com os pretos, com os indígenas, com as minorias, enfim. Acho que é o disco de uma banda madura, eu tenho 58 anos de idade, o Nasi também, a gente tem que aprender alguma coisa na vida, né?
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Rock Press – Certamente. Bacana ouvir isso. Voltando ao disco, em “Efeito Dominó” tem a participação da Virginie Boutaud, né? 
Edgard Scandurra – Aham. 

Rock Press – Eu até achei curioso quando fui conferir porque você fez a letra.
Edgard Scandurra – É, exato, a música é dela. 

Rock Press – E eu fiquei pensando porque você tem um gosto pela música francesa, e a música em si, a melodia já tem uma coisa bem francesa mesmo.  
Edgard Scandurra –
É total, né? Ela mora em Toulouse (risos). Ela nasceu no Brasil, mas os pais são franceses. 

Rock Press – E no caso, a minha curiosidade é a seguinte, como ela foi feita? Veio a letra primeiro ou a música? E a própria letra, você começou em francês ou português? 
Edgard Scandurra – Alguns anos atrás, eu não sei dizer exatamente quando, vi que teve um retorno do Metrô, a banda... 

Rock Press – Sim...  (N.d.A.: Virginie era a vocalista da banda Metrô).
Edgard Scandurra – Eles tocaram na Virada Cultural aqui em São Paulo, fizeram alguns shows, e a Silvia Tape que é minha namorada falou: “puxa, eu quero ver um show, se tiver algum em São Paulo. Você conhece o pessoal do Metrô?”, e eu falei, conheço, claro, é da minha geração, total. Ela disse: “quando tiver show em São Paulo, dá um toque para a gente ver se consegue o ingresso para assistir o show e tal”. Aí, mandei uma mensagem para a Virginie, pelo Instagram, falando isso. A gente começou a trocar umas figurinhas. Acho que o Metrô não foi muito para frente, né? Não seguiu. E ela falou que estava com a ideia de uma música que ela só tinha um único verso que era “não posso mais ficar”. Ela me mandou a música e fiquei com esse verso na cabeça. Fiquei com a música mais ou menos uma semana aqui. Não sou como o Arnaldo Antunes. O Arnaldo, você manda para ele e duas horas depois ele te dá a música, a letra, pronta. Então, ela me mandou a música e depois de um cinco dias, mandei para ela a minha versão, a letra que fiz em cima da música que ela tinha composto. Ela adorou, curtiu muito. Aí, mandou para mim a versão da música em francês, em inglês e espanhol (risos). Para você ver que ela ficou bem animada, curtiu bastante. Eu falei, puxa, Virginie, o Ira! está entrando no estúdio para gravar e essa música vai ficar maravilhosa com o Nasi, com você cantando a segunda parte em francês, vai ser uma coisa muito chique, muito elegante. 

Rock Press – E soou muito bem em francês.
Edgard Scandurra –
Eu amo a música francesa há muito anos já. Tenho projetos tocando Serge Gainsbourg. Inclusive, viajei com a Virginie, acabei fazendo um projeto com ela em Luanda/Angola, na África, tocando músicas do Gainsbourg e do Boris Vian que é outro compositor francês. Já com essa IRA_Efeito_Dominóviagem do “Efeito Dominó” (capa), uma parte em português e outra em francês porque lá é uma comunidade de língua portuguesa. E ficou lindona, né? A música é longa, a versão oficial do disco tem sete minutos. Não sei se você viu o clipe também. 

Rock Press – Vi sim. Inclusive, belíssimo solo no final. 
Edgard Scandurra – Muito obrigado. Ficou legal. Esse disco eu estou achando muito inspirado. A gente fez num gás muito legal com o Apollo 9 que é o produtor.

Rock Press – E agora, aquela curiosidade de guitarrista: nesse solo você está usando a famosa Fender verdinha, mas você chega a fazer uma parte do solo com outra guitarra?
Edgard Scandurra – Não, eu não usei a Fender, viu? 

Rock Press – Não?! 
IRA_o Amor_Também_Faz_ErrarEdgard Scandurra – Eu acho que talvez tenha usado em alguma música, usei muito uma Rickenbacker que está bem evidente na primeira música, “O Amor Também Faz Errar” (capa), o som é muito característico dela.

Rock Press – Sim, sim...
Edgard Scandurra – Usei minha Giannini Supersonic, usei uma guitarra Vox, aquela Teardrop que parece um pingo que o Brian Jones usava nos Stones. Eu já tive essa guitarra e vendi pro produtor, pro Apollo. Já tinha sido dele, ele me vendeu, eu vendi de volta, e agora está lá no estúdio, e acabei usando. Uma Telecaster que era do estúdio que me emprestaram, usei algumas guitarras, né? Usei também uma guitarra Ampeg que é uma guitarra de acrílico que tem um puta de um som também. Não fiquei preso só na verdinha, ela é maravilhosa, Fender Stratocaster, né? 

Rock Press – Eu achei super strato o timbre do finalzinho ali do solo. Bem no final. 
Edgard Scandurra – É, pode ser. O slide, né? Eu acho que fiz com ela sim, acho que você tem razão. O solo é com ela. 

Rock Press – É o finalzinho mesmo. 
Edgard Scandurra –
É
.

Rock Press – Bem Clapton, até. 
Edgard Scandurra –
Nessa música a guitarra só entra no final mesmo. Ela é toda violão e piano. 

Rock Press – Isso. É sensacional. 
Edgard Scandurra – Que legal. É, ficou um solo bem legal. A gente mandou ver. Esse disco a gente estava muito à vontade. É bom trabalhar à maneira independente.

Rock Press – Tem o tamanho das músicas também. Não tem aquela exigência (de limite de tempo).
Edgard Scandurra – Isso. Essa liberdade toda. Eu queria mostrar dentro desse projeto do disco que a gente é uma banda, não uma banda de Pop-Rock como as pessoas falam, sabe? Tivemos nossos sucessos, tivemos nossas músicas que tocaram em rádio bastante. Mas, a gente sempre foi uma banda de Rock’n’Roll, um grupo de Rock. Então a gente tem os conceitos de cada disco. Eu não quis depois de 13 anos sem gravar um disco, fazer um disco com um punhado de canções. Cada música tem uma razão de ser. A questão dos lados. Por isso que eu penso muito no vinil para esse disco. Porque tem o lado B, o lado A, aí você conhece, né? O disco tem um conceito, o vinil permite isso. As pessoas ouvem o álbum. O CD também. Essa é a intenção, que as pessoas possam pegar esse disco e ouvir uma música atrás da outra.

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Rock Press – Eu, na verdade, achei que já vinha com o vinil pelo clipe, e no próprio release está escrito lado A e B, né?
Edgard Scandurra – É (risos), exatamente. Já dá para as pessoas saberem do que se trata. É um álbum. 

Rock Press – Em relação às parcerias com a Silvia Tape, as duas músicas vocês já tinham ou fizeram especificamente pensando no conceito desse disco? Porque você falou que tem esse lado temático, conceitual.
Edgard Scandurra –
Não, essas duas músicas a gente já tinha, mas não foram registradas. Eu tinha um projeto com ela chamado EST que foi o último disco que lancei, em 2014. E essas músicas começaram a aparecer depois. “Respostas” é uma música que a princípio era do meu projeto Benzina, era uma música eletrônica, não era tocada com guitarra, com banda. Mas, eu transportei o riff dela para a guita. A Silvia fez a letra. Ela é mais ou menos de 2016, 2017.

Rock Press – Acabou tendo esse cruzamento, porque ela faz uma coisa bem suave, com a pegada mais agressiva do Ira!
Edgard Scandurra – Isso, e aí tem também a outra música com ela que é “Você Me Toca” que é um pouquinho mais antiga. Na verdade, não era nem pro nosso projeto, a gente estava compondo junto, nem chegamos a tocar em lugar nenhum, ficou guardada. Tem algumas músicas que ficaram guardadas. Essa música “Você Me Toca” é recente, mas estava esperando o momento para ser registrada. E no caso, foi pro Ira!. Tem “A Nossa Amizade”, a letra é de 1992, a música é recente, mas a letra é bem antiga. Vez ou outra essa letra vinha para mim, mas não encaixava em nenhuma música, e pintou essa melodia e ficou perfeita. E tem as coisas mais atuais, “Mulheres À Frente da Tropa”, “A Torre”. Quando o Ira! voltou, em 2014, a gente viu que era necessário a banda ter um registro dessa formação nova, com os novos integrantes e aí começou essa elaboração. O trabalho é o resultado de seis anos para cá, mais ou menos. Começamos a preparar com calma até chegar a ter esse material legal para registrar.

Rock Press – Você falou do lado eletrônico que você gosta, e esse disco não tem, né? Tá um som bem direto, teve essa intenção de dar essa guinada, voltar a essa sonoridade mais crua que vocês tinham do Punk, do Rock Inglês?
Edgard Scandurra – Olha, não tem nada de eletrônico, mas tem uma essência nele que é uma coisa que eu via na cena eletrônica, nos festivais que participei com o Benzina ou que eu ia para assistir mesmo, que a grande massa que frequentava essa cena, não ia aos shows, ao contrário de muita gente que vai aos shows de Rock, para ouvir as músicas que conhece, sabe? Às vezes, as pessoas vão para dançar coisas que nunca ouviram antes. Inclusive, os DJs fazem questão de deixar o rótulo em branco do vinil para não mostrar, para esconder qual artista é aquele que eles estão tocando. Tinha muito essa coisa da novidade das músicas que os DJs tocavam nos festivais de música eletrônica que acho que me inspiraram nesse disco do Ira! de a gente ter esse desafio, sei lá sabe Deus quando puder ter shows, a gente tocar essas músicas inéditas e novas, e elas serem tão instigantes, cativantes, prenderem tanto a atenção das pessoas quanto os clássicos que a banda tem. Por isso que elas são músicas longas, acho que isso é uma coisa da música eletrônica também. São poucos sons de música eletrônica que tem menos de cinco minutos. É uma música que precisa de um tempo para ela mostrar o que está acontecendo nela. Não tem esse formato pop de dois minutos e meio e tal. Então, é um Rock que a gente pegou, resgatando essa pegada bem básica da banda que é baixo, guitarra e bateria e voz. Tem alguns elementos que acrescentam, que só dão mais gás nisso, pelos tímpanos que é uma coisa de música erudita que foram usados em três músicas, as cordas que também estão aí, algumas cordas, violino, cellos, em algumas músicas. Mas, o grosso mesmo está na coisa das cordas mesmo, violão, guitarra, baixo. E o desafio maior desse disco é prender a atenção das pessoas. Que curtam esse disco tanto quanto as músicas que elas já conhecem. Que seja um disco que tenha a força que os grandes discos do Ira! do passado tiveram. É um desafio para uma banda de quase quarenta anos, mas acho que não teria razão da gente fazer um disco que não fosse assim. 

Rock Press – E faz querer continuar também, né? Aproveitando esse detalhe de vocês estarem lançando o disco e não poder sair em turnê agora, como tem sido para você tanto lançar o disco e não poder fazer turnê? Imagino que seja a primeira vez. E a questão da quarentena também, embora vocês tenham gravado e o disco já estar finalizado em fevereiro.
Edgard Scandurra –
A gente acabou esse disco um pouquinho antes da pandemia chegar no Brasil.
 
Rock Press – Pois é, e a letra IRA_Chuto_Pedras_e_Assobiode “Chuto Pedras e Assobio” tem a frase “Estou bem acompanhado do meu eu sozinho” (risos).
Edgard Scandurra – (Risos). É profético. Tem algumas letras proféticas. Eu acho que o “meu eu sozinho” até em um momento fala assim “Vem ficar comigo/Vai que o mundo acaba/Vai que a gente some”. Tem uma coisa engraçada, chega a ser cômico porque a gente não sabe o dia de amanhã. E tem também a música “A Nossa Amizade” que fala meio sobre isso “Deixemos assim alguns metros de distância/Agora é assim atrás das paredes de concreto”. Letras meio proféticas, né? Isso é uma coisa que acontece muito com o Ira!. Geralmente, fala sobre a nossa própria vida. Acho que ao invés de eu escrever um livro sobre a minha vida, é só pegar as letras da banda e colocar do lado da outra e montar esse quebra cabeça porque tem muitas letras que são proféticas.

Rock Press – Já é o próprio audiobook (risos), não precisa fazer, já está ali. 
Edgard Scandurra – É! (risos). Exatamente, muita coisa está ali e depois de algum tempo a gente se reencontra. As letras se encontram com a realidade. Às vezes levaIRA_RJ_2019_Leoni_Foto_VER um ano, dois, dez. A briga do Ira! parece que tem muita letra que estava falando sobre ela. Por exemplo, “O Amor Também Faz Errar” também é uma letra que faz uma referência, não ao momento em que a gente está, mas à briga do Ira! também. O fato de acreditar em algumas coisas, não só o meu relacionamento com o Nasi de tantos anos. Depois da briga, a gente retornou. Então, saber que nas coisas feitas com paixão, a gente se joga, e às vezes pode se enganar, pode errar, pode acertar. Essa é a vida. 

Rock Press – Você dedicou a música “Eu Desconfio de Mim” ao Andy Gill (ex-guitarrista do Gang Of Four, falecido em fevereiro de 2020), como foi a influência dele para você como guitarrista? 
Edgard Scandurra –
Cara, o Andy Gill apareceu em 82 mais ou menos para mim e para uma cena toda do pós-punk de São Paulo, Brasil. E essa linguagem dele de uma guitarra mais cortada, uma guitarra menos virtuose, uma guitarra que não vinha tanto do Blues como a maioria dos guitarristas vêm. Uma coisa ruidosa. Talvez, Tom Verlaine tinha isso um pouco também. Uma linguagem muito interessante, desconstruindo mitos do que é um guitarrista daquela coisa de velocidade, de técnica. Às vezes a guitarra ficava só largada na mão dele dando as microfonias, aquele som, né? Então foi muito importante para mim numa fase do Ira!. Dessa fase do Ira sem exclamação, inclusive, era muito forte isso na banda. Não só no Ira!, mas, outros projetos que eu toquei como Mercenárias tinha muita influência do Andy Gill. O Smack que é outra banda que eu tocava tem muita influência. Bandas nas quais o Nasi cantava, como os Voluntários da Pátria que é uma banda que foi até 84, tinham essa coisa das guitarras cortantes, estranhas e menos previsíveis. E durante a gravação desse no disco, um dia eu estava indo pro estúdio e tive a notícia que o Andy Gill tinha falecido. Um ano antes, em 2018, acho ele fez um show aqui em São Paulo, no Sesc Pompeia. E eu tive a oportunidade de tirar uma foto e falar para ele – cara, você tem ideia da influência que você teve no Rock aqui do Brasil dos anos 80? Ele ficou todo meio sem graça. Mas, realmente, ele foi muito importante. Teve a volta da Legião Urbana e ele foi convidado para participar. Era a terceira vez do Gang Of Four aqui no Brasil, né? Maravilhoso, uma perda, uma pena ele ter ido embora. Muito influente para mim, muito, muito. 
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Rock Press – Beleza, Edgard! Prazerão falar contigo. E como é de praxe das nossas entrevistas, gostaria de pedir para que você deixasse um recado para os nossos leitores. 
Edgard Scandurra – Pô, cara, então eu queria mandar um abraço pros leitores, todo mundo que trabalha aí no Portal Rock Press. Sigam firmes e fortes aí nesse momento difícil que a gente está vivendo. E vamos trabalhar para fazer com que o Rock volte a ter um lugar de destaque não só na música brasileira, mas na música mundial porque é uma música muito importante. É um estilo que para você tocar, a guitarra tem que estar alta, o vocal tem que ser alto, a bateria tem que ser tocada com força, e nesse momento de muita indignação que a gente está vivendo, é uma música que ganha muita relevância porque é o melhor ritmo para gente se revoltar contra esse sistema filho da ponte. – Robert Moura.

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Conheça o trabalho da artísta plástica Mayla Goerisch que assina a arte da capa do álbum Ira: 
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Confira outros trabalhos musicais de:
SCANDURRA:
EST – c/Silvia Tape:
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Pequeno Cidadão: https://www.pequenocidadao.com/
Smack: https://www.youtube.com/watch?v=34zPGJOz3_s 
Mercenárias: https://www.youtube.com/watch?v=6W1y_yPsIKQ

NASI:
Nasi:
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Voluntários da Pátria: https://www.youtube.com/watch?v=T1cXh6LNBk8
Nasi & Os Irmãos do Blues: https://www.youtube.com/watch?v=Tc14T62CQkw

 

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira, e teve o prazer de ouvir o Ira! tocar “Prisão das Ruas”, sua música predileta da banda, num show em Betim/MG, no longínquo ano 2000. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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