DOM PEDRO CASALDÁLIGA: Uma pedra no caminho da tirania

Compositor, escritor e poeta. Sua vida e obra deu origem a filme, livro, musicalDOM_PEDRO_CASALDÁLIGA_arte_Jorginho e um disco com Milton Nascimento. Falamos de Dom Pedro Casaldáliga, o homem que se opôs à tirania e à barbárie em defesa do mais vulneráveis. Dom Pedro morreu no último 8 de agosto, aos 92 anos, em decorrência de problemas respiratórios. Mesmo longevo, passou grande parte de sua trajetória marcado para morrer. Em vida, enfrentou a oligarquia rural, o militarismo e a necropolítica do Estado, sempre se colocando em defesa dos camponeses, dos ribeirinhos e dos povos indígenas. Ameaçado e perseguido, escapou de ser assassinado diversas vezes. Aos 84 anos, já debilitado pela doença de Parkinson, teve que deixar a sua casa, devido às ameaças de pistoleiros.

DOM PEDRO CASALDÁLIGA:
Uma pedra no caminho da tirania

TEXTO: Daniele Rodrigues
ARTE: Jorginho
IMAGENS: Divulgação

Dom Pedro Casaldáliga nasceu em Barcelona, mas nos anos 60, veio para o Brasil como padre e tornou Bispo em 1971, da Prelazia de São Félix do Araguaia/MT. Por conta do seu trabalho humanitário, deram-lhe diversos nomes: “bispo dos pobres”, “bispo do povo”, “pai dos últimos” e “bispo comunista”, mas ele preferia ser chamado de “bispo dos esquecidos”. Ele foi um dos principais alvos da censura durante o regime militar e vítima de tentativas de sua expulsão do país. Se Casaldáliga era o bispo dos esquecidos, dos sem-nome, ele também dizia que seu coração “estava cheio de nomes”:
No final do meu caminho me dirão:
E tu, viveste? Amaste?
E eu, sem dizer nada,
abrirei o coração
cheio de nomes.

 
Atuante em diversos movimentos populares, Fernando Schneider é biólogo, mestre e doutor em agroecologia e Dom_Pedro_Casaldáliga_e_Fenrando_Schneiderdesenvolvimento rural, admirador e amigo pessoal de Dom Pedro, estava na região de São Félix do Araguaia quando o Bispo veio a falecer. Se fez presente todo o tempo no último adeus a Pedro. Ele nos conta um pouco sobre a sua experiência: “Conheci Pedro, a pedra angular da igreja de São Felix do Araguaia, por meio de seus textos sobre a Teologia da Libertação, em 1998, na universidade. Depois, reencontrei Pedro, poeta, no poema: ‘Malditas Sejam as Cercas’. Também nesse mesmo ano, eu fui aluno do professor Francisco Negrini Romero, o Chico, o qual tinha trabalhado na Prelazia de São Félix. Chico era o coordenador do Núcleo de Estudos e Programas de Educação Popular (NEPEP/UNIMEP). Em 2017, por acaso do destino, eu venho trabalhar como agente pastoral da Prelazia de São Félix, na Comissão Pastoral da Terra – CPT Araguaia. A partir da minha vinda para a Prelazia, eu começo a frequentar a casa de Pedro”.
 
Fernando contou que o Bispo foi de uma coerência admirável assim como a sua capacidade de memória admirável e mantinha uma constante preocupação com os povos indígenas, os assentados, os marginalizados e excluídos. Sempre atento, como bom pastor queria sempre saber como estava o povo dos assentamentos que ajudou a criar e que tanto amou e defendeu.
 
O Padre Luís Cláudio, presbítero e agente pastoral da Prelazia São Félix do Araguaia, contou que, enquanto seminarista, foi inspirado pela obra de Dom Pedro: “No primeiro momento, foi pela sua literatura, sua poesia, poesia que se transforma em música, ainda no meu tempo de formação”. Padre Luís Claudio conta que quando chegou, pela primeira vez, acompanhado de um amigo, teve um impacto, pois Pedro, mesmo na sua posição, estava numa das equipes de serviço limpando os banheiros. “Homem profundamente acolhedor, receptivo com todas as pessoas, desde o senhorzinho vizinho dele, desde um pescador que ia visitá-lo, ao morador de rua, até altas autoridades, como ministros do governo que aqui estiveram”.
 
O Anel de Tucum...
Dom_Pedro_Casaldáliga_Anel_de_Tucum“Este anel é feito a partir de uma palmeira da Amazônia. É sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas e as suas consequências. Você toparia usar o anel? Olha, isso compromete, viu? Muitos, por causa deste compromisso foram até a morte”. - Dom Pedro Casaldáliga no documentário “Anel de Tucum” (1994).

 

Para saber um pouco mais:
DISCO:
Missa dos Quilombos -
 Lançado no início dos anos 1980, o álbum contou com composições de Dom Pedro Casaldáliga e do poeta Pedro Tierra. Na voz, ninguém menos que Milton Nascimento, o qual musicou as letras escritas pelos dois Pedros. “Missa dos Quilombos” é como uma continuação da “Missa da Terra sem Males”, que retrata a exploração dos povos indígenas e mais uma vez, faz críticas ao posicionamento da igreja. A primeira vez que o musical Missa dos Quilombos foi encenado, foi em frente à Igreja do Carmo, no Recife/PE, para um público de sete mil pessoas. Local simbólico, onde a cabeça do líder quilombola, Zumbi dos Palmares, foi exposta numa estaca, em 1695, após seu assassinato.- https://www.youtube.com/watch?v=1AnX311uEF8&list=OLAK5uy_lmTfmIkKgBk1AP0eo5tMGBtBYrQlrnVDk

MUSICAL:
Missa dos Quilombos - Companhia Ensaio Aberto
https://www.youtube.com/watch?v=LM7fmPerZLM
Missa da Terras Sem Males - https://www.youtube.com/watch?v=pBNqtK-VF5g 

FILMES:
Anel De Tucum - (Verbo Filmes, 1994) -
O ator João Signorelli faz o papel de um repórter que entrevista Dom Pedro Casaldáliga sobre o significado do anel de tucum. O Bispo do Araguaia fez o resgate desse símbolo e lhe responde com a seguinte afirmação: “Anel de Tucum é sinal da aliança com a causa indígena e com as causas populares. Quem carrega esse anel significa que assumiu essas causas. E, as suas consequências”. Dizendo isto, lança o convite: “Você toparia levar um anel? Topa?”.
Elenco: João Signorelli, Cíntia Grillo, Luiz Carlos de Moraes, Marlene França.
ASSISTA: https://www.youtube.com/watch?v=e0RiYpUFjC8

Descalço Sobre a Terra Vermelha - Biografia de Dom Pedro Casaldáliga, escrito por Francesc Escribano, teve sua primeira edição em 1999.
Elenco: Eduardo Fernandez, Pablo Derqui, Clara Segura, Babu Santana, Mario Gas, Marcel Borràs, Eduardo Magalhaes, Georgina Castro.
ASSISTA: https://www.youtube.com/watch?v=NavTc94jYBw

LIVRO:
Descalço sobre A Terra Vermelha - O filme de codinome ao livro, foi lançado em 2014, numa produção entre Espanha e Brasil, com direção de Oriol Ferrer. A obra foi premiada no Festival de Seul e pelo New York International TV & Film Awards.

Resistir...
Em momentos tensos como os dias atuais, seja no Brasil ou no mundo, a história de humanos como Dom Pedro Casaldáliga, que sabemos que vai muito além dessas linhas, reforça, e principalmente inspira que, devemos seguir na resistência em prol “dos esquecidos”. - Daniele Rodrigues.

"Missa dos Quilombos"
Milton Nascimento, Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra 

(Ariola – 1982)
POR: André Teixeira

DOM_PEDRO_CASALDÁLIGA_Disco com_Milton_NascimentoO Atlas da Violência no Brasil de 2020 (IPEA) aponta que dos 57.956 mortos, 75,7% eram negros. Voltamos no tempo e vemos números parecidos ano a ano. Esse estado de extermínio do povo negro é uma das denúncias cantadas por Milton Nascimento, nas palavras de Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, condensados no LP "A Missa dos Quilombos". Lançado num longínquo-mas-tão-presente 1982, a exploração secular da mão de obra escravizada é igualmente denunciada por seus autores.

Casaldáliga e Tierra foram parceiros em "Missa da Terra sem Males", apresentada no Recife, no ano de 1979, onde denunciavam a perene violência contra o povo indígena. Nesse meio nasceu a semente do projeto "Missa dos Quilombos", plantado por Dom Helder Câmara e desenvolvida pelos dois Pedros para confessar essa culpa cristã. Com música e arranjos do Maestro Bituca, coube ao Mazzola captar o som ao vivo no Convento do Caraça, em março de 1982, na cidade mineira de Catas Altas. 

Com eles participam do disco Robertinho Silva, Flávio Venturini, coro e cia. O disco foi igualmente lançado em Portugal e França, e seria lançado em CD a partir de 1989. Para além de suas funções estéticas, traz em sua poética a explícita necessidade de se enxergar e "inventariar o passado para se fazer presente e futuros mais justos". Em texto à guisa de prefácio Fernando Brant dá a pista sobre o disco, que não é apenas "um grito revoltado, triste e consciente contra a violência sofrida pelos negros em nosso país, ao longo da história e nos dias de hoje", mas também é "um canto de esperança, uma convocação a luta pela mudança". Quase quarenta anos após sua primeira edição, "Missa dos Quilombos" permanece um disco urgente. E, mesmo ausente, Casaldáliga continuará a instigar um convite a olharmos a história com outros olhos. - André Teixeira.


SOBRE OS AUTORES DESSA MATÉRIA:
Daniele Rodrigues – É professora, pedagoga e indigenista, atuante no Rio de Janeiro, (capital e interior), promovendo cultura, por meio de atividades de áudio visual, em salas de aulas e tribos pelo Brasil.

André Teixeira – A Feira de Discos – A Cena do vinil em AracajuÉ jornalista de formação, fotógrafo por vocação e vendedor de discos por paixão. Autor de “A Feira de Discos – A Cena do vinil em Aracaju, de Sr. Quirino ao João dos Discos, da Freedom à Distúrbio Sonoros”, livro que documenta o comércio de discos na capital sergipana. Seus sebos, livrarias, vendedores, clientes, feiras, garimpos e personagens dessa história. O livro está disponível AQUI! 
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JORGINHO é: Filósofo, educador social, agitador cultural, administrador do ColetiveArts (grupo de artistas e escritores de Porto Alegre/RS), acadêmico de pedagogia torcedor do Grêmio, mas não gosta de futebol, gosta é do Grêmio. Trabalha como ilustrador, criador de conteúdo e tudo que seja relacionado ao desenho, incluindo participações em exposições nacionais e internacionais na área de cartuns, quadrinhos, charges e desenho em geral. Já ilustrou inúmeros livros infantis, também foi autor pela plataforma Elefante Letrado. Trabalha com oficinas de desenho, ilustrações e fanzines.
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