CONTRAPONTOS – Uma biografia de Augusto Licks

Em 2019, um capítulo fundamental da história do Rock Nacional foi preenchido com o lançamento da biografia de Contrapontos_Biografia_de_Augusto_Licks_Editora_Belas_LetrasAugusto Licks pela Editora Belas Letras. O livro, “Contrapontos”, foi escrito por Silvia Remaso e Fabricio Mazocco, e fala sobre a vida e a obra de um dos mais importantes guitarristas da geração Rock Brasil 80.

CONTRAPONTOS – Uma biografia de Augusto Licks

 TEXTO: Robert Moura
FOTOS: Divulgação

Para um país que possui um baixo índice de leitura, não é surpresa o fato de que o mercado editorial lance poucas publicações direcionadas à área musical, especialmente considerando o fato de que os próprios músicos também não pareçam cultivar muito o hábito da leitura. No entanto, há alguns anos, livros Contrapontos_Biografia_de_Augusto_Licks_Editora_Belas_Letrassobre música, sejam de material teórico ou histórico, incluindo biografias de músicos vêm se tornando mais frequentes no Brasil. Inclusive, as bandas de Rock da “Geração 80” começaram a ser contempladas. E, uma das lacunas que foram preenchidas, em 2019, se deu com o livro “Contrapontos: Uma Biografia de Augusto Licks”, escrito pelos jornalistas Fabricio Mazocco e Silvia Remaso, lançado pela Editora Belas Letras. O trabalho aborda vida e obra do guitarrista conhecido principalmente por ter sido integrante fundamental do período de auge que viveu a banda Engenheiros do Hawaii. Antes, porém, Augusto Licks tocou com diversos artistas gaúchos como Bebeto Alves, Kleiton & Kledir, e Nei Lisboa com quem estabeleceu importante parceria deixando sua marca na obra do cantor e compositor porto-alegrense.

Nascido de origem humilde, na cidade de Montenegro, interior do Rio Grande do Sul, ele foi batizado como Augustinho Moacir Licks, numa lógica inversa em que o nome no diminutivo perderia o sufixo à medida que o menino crescia. A iniciação musical deu-se através do irmão, José Rogério, que também se tornaria músico profissional (José Rogério é violonista clássico, e vive na Alemanha. Em 2017, os irmãos iniciaram o projeto “Licks Blues”, um recital em duo no qual eles tocam e cantam músicas que foram marcantes em seus percursos musicais)

A trajetória narrada no livro nos revela um espírito aventureiro, distante da imagem de quieto que Augusto Licks sempre teve publicamente. De mochila nas costas e acompanhado de amigos, ele rodou o Brasil e outros países da América do Sul, viajando de carona, e até mesmo dormindo nas ruas quando não havia opção. Outra revelação é o Augustinho jogador amador de futebol e treinador de um time feminino durante o intercâmbio que fez nos EUA, no início dos anos 1970. A experiência foi de grande valia para ele que teve contato com o ambiente acadêmico norte-americano assistindo palestras, e também novos ares culturais, tendo oportunidade de ver shows de Bob Dylan & The Band, Mahavishnu Orchestra, Grateful Dead, e Sonny Terry & Brownie McGhee.

Formado em jornalismo, Augusto trabalhou na Rádio Guaíba, onde foi editor de esportes. O velho amigo Mauro Borba, também radialista é quem assina o prefácio do volume (foi Borba quem lançou os Engenheiros do Hawaii no rádio, tocando a fita demo da música “Segurança”, ainda antes da entrada de Licks na banda). No final dos anos 1970, começou sua importante parceria com o cantor e compositor Nei Lisboa com quem ele fez shows em duo (em especial o “Deu Pra Ti, Anos 70” que inclusive inspirou o filme homônimo), várias canções, e também participou das gravações de seus três primeiros discos solos. A parceria só foi interrompida quando Augusto ingressou nos Engenheiros do Hawaii. Antes da entrada para a banda, ele também se enveredou pelo teatro compondo algumas trilhas.

A partir de 1987, Augusto Licks adicionaria sua guitarra personalíssima aos Engenheiros do Hawaii (foto) Augusto_Licks_e Engenheiros_do Hawai_FOTO_DIVULGAÇÃOfazendo com que o som da banda se tornasse reconhecido ao primeiro acorde, algo muito recorrente com as grandes bandas internacionais, mas raro por aqui. Na necessidade de trabalhar numa nova linguagem, Licks se reinventaria como guitarrista dando uma contribuição essencial à banda, não só nos arranjos, mas também composições e na produção dos discos, outra atividade na qual ele acumulava bastante experiência.

Depois de sua lamentável e polêmica saída dos Engenheiros, em 1993, Augusto preferiu se isolar. Ele nunca comentou sobre o assunto por não acreditar que houvesse um contexto para falar sobre a ruptura. Muitas informações desencontradas circularam durante esses anos, mas, agora, o livro traz à tona a versão mais provável de como os fatos se deram. Logo nos anos seguintes à sua saída da banda, Augusto voltou a dedicar-se ao jornalismo de forma anônima cobrindo futebol, e mais tarde às trilhas sonoras para teatro e cinema. Desde 2008, Licks tem realizado o “Workshop – Do Quarto Para O Mundo” que já passou por algumas cidades do país, e nesse ano ele iniciou apresentações do projeto “Tranz it”, um duo com o músico Edu Prestes, fruto de uma reunião caseira que eles já realizam há alguns anos.

Escrita por dois jornalistas, a biografia tem uma narrativa bastante direta e informativa, como podia se esperar. Silvia Remaso é responsável pela primeira parte do livro (o Lado A) que aborda a infância, as primeiras experiências musicais, o intercâmbio nos EUA e o trabalho no rádio, deixando a segunda parte (o Lado B) para Fabricio Mazocco que responde pelo caminho trilhado por Augustinho junto aos Engenheiros do Hawaii até seus dias atuais. A obra faz jus à trajetória de Augusto Licks trazendo uma visão bastante honesta e equilibrada de sua vida e carreira. Como acorde final, o livro traz um emotivo depoimento de sua filha, Laura Jakubiak Licks. - Robert Moura*.
 

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.