CHADWICK BOSEMAN - "Pantera Negra Para Sempre!"

Vítima de um câncer de cólon, o ator Chadwick Boseman faleceu em Pantera_Negra_By_Tom_BelandLos Angeles/EUA, na noite da última sexta-feira (28/8/20). O astro do filme Pantera Negra (2018), o herói negro da Marvel, também atuou no teatro e séries de TV como "Parceiros da Vida", "Lei & Ordem", "Plantão Médico", entre outras. No cinema, seus principais trabalhos foram: "42: A História de uma Lenda" (2013), longa sobre Jackie Robinson, primeiro jogador negro de baseball na liga americana; "Get on Up: A História de James Brown" (2014), no qual interpretou James Brown; e "Marshall: Igualdade e Justiça" (2016), filme sobre o juiz Thurgood Marshall, primeiro negro membro da suprema corte americana. Convidamos o artista gráfico, Renato Lima, para escrever sobre a importância do Pantera Negra que vai além dos quadrinhos, inspirando a cultura pop como um todo. Leia na matéria que segue:

 

CHADWICK BOSEMAN
"Pantera Negra Para Sempre!"

TEXTO: Renato Lima
ARTES: 
Tom Beland +
 Renato Lima + Val + Jorginho
DEPOIMENTOS:
Michael Meneses

“Sou eu!"...
Essa é a frase presente em um cartoon que viralizou na época do lançamento do longa-metragem do Pantera Negra, no início de 2018. E essa foi a exclamação que o cartunista Tom Beland, hoje com 57 anos, observou tanto de crianças ao olhar para o cartaz do filme quanto da sua amiga durante a sessão. O longa com o personagem Black_PantherBlack Panther fez parte da Fase 3 de filmes do UCM (Universo Cinematográfico da Marvel), mas seu impacto foi MUITO além do hype de um blockbuster de super-heróis.

Também assisti no cinema ao lado de uma "amiga". E que também saiu encantada com a representação de Wakanda na telona. Essa mesma "amiga" me chamou para ver um ensaio de um bloco de carnaval no Aterro do Flamengo, tempos depois. E ficou hashtag chateada porque comentei que achei o tal bloco "too much white". Simplesmente porque observei que só havia DUAS negras num bloco de ritmo afro. Hoje eu até entendo - de verdade! - que para quem é branco (incluindo a ala "zona sul cirandeira"), algumas questões que enfrentamos diariamente e desde cedo - como entrar num banco, entrar num ônibus, entrar numa loja de marca - são difíceis de serem compreendidas.

Assim como a importância de um filme como o Pantera Negra. Por mais que tenham esse encanto pela causa e pela obra. Porque não entendem como filmes que se passam num colégio americano (alô, Ferris Bueller), uma série que se passa em NY (alô, friends) ou até uma novela que se passa na Bahia (alô, Grobu) tenham um elenco majoritariamente BRANCO.

Não entendem por quê o cineasta Spike Lee sempre bate nessa tecla, desde os anos 90: de ver o seu dia a dia representado no audiovisual. A indústria só "fará a coisa certa" quando chegarmos nesse ponto: Representatividade e Identidade dentro e fora da telona. Criado por Stan Lee e Jack Kirby, o Black Panther é o primeiro super-herói de ascendência africana a aparecer nos quadrinhos americanos convencionais, no final dos agitados anos 60. Em 1964, Martin Luther King ganhou o Prêmio Nobel da Paz por combater o racismo nos Estados Unidos através da resistência não-violenta. O Partido dos Panteras Negras surgiu em outubro de 1966 com o objetivo de monitorar/desafiar o comportamento racista e violento dos oficiais do Departamento de Polícia de Oakland (EUA). Também em 1966, uma atriz negra marcou a televisão para sempre, na cultuada série Star Trek, com Nichelle Nichols interpretando a Tenente Uhura (obs: "Uhuru" é a palavra suaíli para "liberdade"). Em 1968, um filme britânico estrelado por Sidney Poitier, fez sucesso ao retratar questões sociais e raciais numa escola da periferia londrina: "Ao Mestre, Com Carinho". No mesmo ano, Luther King seria assassinado em Memphis... E os desenhos animados ganharam a sua primeira personagem PRETA no início dos anos 70: Valerie Smith, a integrante mais sagaz da banda Josie e as Gatinhas (dos estúdios Hannah Barbera).

Então, em 1969, o Pantera Negra surgia na revista “The Fantastic Four”. Como o cartoon de 2018, a dupla Pantera_Negra_Representadinâmica da Marvel Comics estava atenta ao que acontecia nas ruas e no mundo nesse período. Se hoje zapeamos pela TV e nos deparamos com "Todo Mundo Odeia o Chris", "Eu, a Patroa e as Crianças", "Arnold", "Raven", "Super Choque", "Raio Negro", "Luke Cage", "Black-Ish" e tantos filmes, documentários e séries com protagonismo PRETO, não podemos nos esquecer de como foi difícil chegar até esse ponto. Ponto que ainda não é o ideal dentro de um cenário notadamente impregnado de preconceitos, de machismo, de racismo, de misoginia. O mercado só reconheceu e abraçou o "black money" respondendo a esse movimento de décadas.

Provavelmente, o Pantera Negra foi o primeiro longa a conseguir reunir tudo nesse processo que vem sendo batalhado há anos dentro e fora do campo do entretenimento: equipe, elenco, distribuição, super-heróis, alcance global, reconhecimento da crítica, sucesso de público. Levou 3 Oscars das 6 indicações que obteve: Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Design de Produção. Além de ser o primeiro do gênero super-herói a receber uma indicação de Melhor Filme. Um feito histórico. Um marco que estará para sempre ligado ao ator Chadwick Boseman.

Em tempos nos quais policiais brancos continuam a descarregar violência e racismo pelas ruas (não só nos States, óbvio), num retrocesso de todos os direitos civis e humanos conquistados até aqui, o legado de um ícone como Boseman faz ainda mais sentido. Se ele representou um super-herói na tela, fora dela também foi super-humano. Pois, como agora se tornou conhecido, lutou silenciosamente contra o câncer durante anos, incluindo o período das gravações do longa-metragem. "Na minha cultura, a morte não é o fim. É mais um ponto de partida".

O menino nerd de Guadalupe, no subúrbio carioca, que eu ainda sou - que passou a colecionar revistas de super-heróis porque entre eles havia um que era negro e tão empolgante quanto os demais que estrelavam aquela Superaventuras Marvel 8 - chorou ao saber da passagem desse grande ator para outro plano. Mas, a porta que ele abriu jamais será fechada novamente.

Quem sabe veremos um protagonismo feminino na sequência de Pantera Negra (estrelado pela Shuri)? E, se alguém ainda tinha dúvidas sobre a importância do filme, a comoção provocada pelo falecimento precoce do astro está aí para dizer: "Sim, somos nós!". Nós somos esse futuro poderoso e orgulhoso de sua ancestralidade. Somos essa nação fictícia que ousou reunir todas as representações pretas mundo afora. Onde cada vida negra importa. Wakanda Forever. Wakanda para sempre. #RIPChadwickBoseman - Renato Lima.


Renato Lima - Cresceu nos subúrbios cariocas de Magalhães Bastos e Guadalupe. Onde lia HQs de super-heróis, Tintin, Asterix, Heavy Metal, Circo, Animal e Níquel Náusea. Atualmente reside no Grajaú e trabalha com quadrinhos, ilustração e storyboards para Cinema e TV. Além de bancar o DJ em festas alternativas, indo do Post Punk ao Pop Rock e estará discotecando como convidado na festa Noramusique no próximo sábado (05/09 a partir das 19h), prestigiem AQUI. No momento, Renato Lima está desenhando os storyboards do próximo Especial de Natal do Porta dos Fundos (Netflix). Você pode acompanhar o trabalho dele nas redes sociais:
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DEPOIMENTOS:
Pantera_Negra_30_08_2020 _arte_JorginhoJorginho (Coletive Arts / Rock Press) Porto Alegre/RS) -
 O herói que o mundo precisava - Chocado com a morte prematura de Chadwick Boseman. Tínhamos a mesma idade, e quando isso acontece, sempre nos toca de uma maneira diferente. Porém, o que me deixa mais triste é o vazio que ele deixa, justamente em um momento em que o racismo explode de modo tão escancarado. Chadwick interpretou, entre outros, o Pantera Negra, com o desejo de dar representação ao povo negro e pela igualdade dos direitos civis. Sua interpretação em Pantera Negra foi tão forte que crianças negras saíam do cinema felizes e dizendo “que agora sabiam como uma criança branca sentia-se quando via um filme de super-herói”. Moro no estado mais racista do Brasil, o Rio Grande do Sul, e é triste ver pessoas ligadas a grupos de cosplayers tentando dizer que “Pantera Negra” não tinha nada de político e era apenas um filme de super-herói, inclusive, “fraco” (adivinha em quem esses retardados votaram?). Mas, também foi maravilhoso ver crianças e adultos negros vestidos com camisetas estampadas com Boseman como Pantera. Quando soube do seu falecimento fiquei muito triste, mas ainda ao ver o silêncio de cosplayers, um silêncio que fala muito mais do que se possa imaginar.

PJ Kaiowá - "Sem dúvidas a passagem de Chadwick Boseman foi meteórica no nosso meio. Não só pelo tempo, curto, infelizmente, mas principalmente pelo impacto, era o tipo de cara que sabia da sua missão e do seu lugar. Esse foi o maior exemplo que ele me deixou, saber seu lugar no mundo, e por isso se tornou rei e agora imortal".

Vini Duarte Blues - (Músico e apresentador do programa Meu Blues é Vegano) - "Foi o melhor filme de super-herói que já assisti na vida, e desde então o Pantera Negra tem sido meu super-herói favorito. Quando soube que o meu herói morreu, chorei como se tivesse perdido um parente."

Fábio Maia – (Redator, DJ e Mestre em Economia Criativa - @fabiomaia76
) - Aprendi a ler com quadrinhos de super-heróis. Aprendi até sobre mitologia nórdica. Mas não sobre Orixás. Com super-heróis, exercitei a minha imaginação reproduzindo as cores da bandeira dos Estados Unidos. Mas não a cultura dos meus ancestrais. Nas cenas de luta, até ninja eu queria ser, mas não um lutador de capoeira. Trabalhei minha criatividade. Mas não a minha identidade. Fico imaginando o poder de uma criança que viu no cinema um super-herói negro, africano, guerreiro e rei. O poder de se reconhecer. O poder de se aceitar. O poder de se afirmar. Não tem superpoder maior do que esse. Obrigado, Chadwick Boseman. Wakanda Forever.   

Alexandre Magalhães (Ilustrador, Designer e Produtor Gráfico de Departamento de arte em Audiovisual) - "Por incrível que pareça, o que me trás grande emoção no longa Pantera Negra é a cena final, quando T'challa retorna a Oakland com Shuri onde seu Tio foi morto pelo Pai e provavelmente “nasce" Killmonger… Ali um menino, com o mesmo penteado do “vilão”, questiona ao Soberano de Wakanda: “Quem é você?”. Todas às vezes choro neste momento (vi e vejo sempre que tenho oportunidade…), hoje sei a causa da emoção: A pergunta é para mim! E é para várias crianças negras que amam ou amaram quadrinhos e nunca tiveram uma representação heróica sem nenhum estereótipo depreciativo, um herói nobre interpretado por um ator nobre! Saber que o tão falado “Nós por nós” surtiu efeito é de uma satisfação incrível. O filme é um corpo que vem sendo formado por décadas, com muita luta social, muitas conquistas e baixas! Mas ele não será o “Topo da montanha”, é  ainda um dos vários apontamentos para um futuro de esperança."

Rick Olivieri - (Músico e colaborador da Rock Press) - Fora das telas, Chadwick foi um herói da vida real, travando uma batalha contra o câncer de cólon por anos e produzindo quase sem descansar. Como Pantera Negra, foi  uma espécie de contrapartida ao Superman de Cristopher Reeve, levando milhões de crianças ao redor do mundo a se verem também representadas por ele. Wakanda forever!

 

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Posted by Michael Meneses Tuesday, September 1, 2020 1:16:00 AM Categories: #wakandaforever Arte Chadwick Boseman Cinema ColetiveArts Cultura POP Gibi HQ Marvel Marvel Comics Pantera Negra Série de TV Spike Lee Stan Lee
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