ARGENTINA: Em tempos de Coronavírus!

O mundo segue atento à questão do Coronavírus, a recomendação continua sendo: #FiqueEmCasa. Mas, como Buenos_Aires_Argentina_em_quarentena_ARTE_Elidiomar_Abril_2020está a situação dos nossos hermanos na America do Sul, em especial na Argentina? Convidamos a bióloga brasileira e residente no país, Danielle Anjos dos Santos para nos contar um pouco da realidade dos nossos vizinhos, além do que vem sendo noticiado nos telejornais brasileiros. 

ARGENTINA:
Em tempos de Coronavírus:
Observações sobre o enfrentamento da pandemia e relato sobre lockdown na Argentina.

TEXTO: Danielle Anjos dos Santos
ARTE: Elidiomar
FOTOS (Buenos Aires): Michele Lilo

Nos últimos meses, a humanidade vem atravessando um processo até então somente visto, por nossa geração, em livros, filmes e séries de ficção científica. Muitos de nós seguramente pensávamos que passar por uma pandemia era algo abstrato ou quase impossível, dado todos os avanços médicos e tecnológicos alcançados. Aí, vem um vírus (SARS-cov2 ou COVID-19 ou simplesmente coronavírus) e “puxa o freio de mão” do nosso cotidiano, nos obrigando a ficar em casa.

Doce ilusão...
Antes da chegada no coronavírus na América Latina, assistíamos de camarote o desenrolar dos fatos na Ásia e depois na Europa, e muitos não entendendo da gravidade da situação que crescia e se acelerava, pensavam: aqui não vai chegar! Seguíamos com nossas rotinas, carnaval, festas, viagens... e o que parecia impossível aconteceu. 

Bem, como o coronavírus está entre nós, o melhor a fazer é tomar medidas de prevenção da sua propagação e aumento do número de contágios, já que não existe medicamento específico para combatê-lo. Como é de conhecimento público, o COVID-19 é altamente contagioso e pode ser transmitido pelo contato com pessoa contaminada, pelo toque ou aperto de mão, gotículas de saliva, tosse ou espirro (para mais informações sobre contágio e prevenção acesse o site da FIOCRUZ AQUI). Apesar da sua baixa taxa de mortalidade, algumas pessoas acometidas pelo vírus podem desenvolver complicações graves, sobretudo aquelas que possuem patologias pré-existentes como hipertensão, asma e diabetes. Já existem vários estudos publicados sobre o assunto e com base neles, e em experiências em epidemias anteriores, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem orientando os procedimentos que devem ser adotados para achatar a curva de contágio e evitar um colapso no sistema de saúde (Mais informações no site da Organización Panamericana de la Salud AQUI!).

Enfrentamento da Pandemia: Brasil X Argentina...
O Brasil teve seu primeiro caso de COVID-19 confirmado pelo Ministério da Saúde em 26 de fevereiro de 2020 e as primeiras medidas de isolamento social foram tomadas mais seriamente por alguns Governos Estaduais. O Governo Federal vive uma dualidade preocupante no que diz respeito ao plano de contingência da pandemia. Por um lado, a ideologia do “salvemos a economia, o Brasil não pode parar” versus “sejamos coerentes, evitemos o caos, decretemos lockdown e salvemos vidas”. A falta de direcionamento, a descrença na ciência e a birra política vem colocando em risco milhares de vidas, não só pelo coronavírus, mas também pela falta de recursos para a subsistência de muitas famílias. Ações sociais por parte do governo federal são fundamentais durante a quarentena e o auxílio prometido ainda não chegou.
 
O povo brasileiro, confuso, se divide entre: os que cumprem o isolamento social com seriedade, pensando em si, nos seus entes queridos e nos demais compatriotas; e os que seguem suas rotinas ignorando qualquer recomendação de prevenção e acreditando em fake news e falas irresponsáveis que minimizam a pandemia ao nível de uma “gripezinha” ou “resfriadinho”. Neste panorama aterrador para a realidade que estamos vivendo, o Brasil tem na linha de frente os profissionais de saúde sem condições mínimas de segurança dentro de um sistema de saúde pública sucateado, e cientistas altamente qualificados sem financiamento para pesquisas essenciais no combate ao COVID-19. Profissionais de diferentes categorias como, por exemplo, biólogos e médicos veterinários estão sendo obrigados a se cadastrarem e realizarem capacitação virtual para atuar, caso seja necessário. Infelizmente, tudo o que vem sendo feito não está sendo suficiente para achatar a curva e os casos confirmados e mortes por complicações crescem dia a dia (para dados confiáveis e atualizados sobre a pandemia no país acesse: Covid-19BR AQUI!).

A Argentina_em_quarentena_FOTO_Michele_LiloArgentina (Fotos: Bairro de Palermo na capital Buenos Aires) teve seu primeiro caso confirmado no dia 3 de março e, mesmo antes da chegada do vírus ao país, os governantes já estavam estudando medidas para conter o avanço do COVID-19 no território nacional. Mesmo atravessando uma grande crise econômica, até o momento, por aqui a prioridade é achatar a curva de contágio e evitar o colapso do sistema de saúde. Um gabinete de crise foi instaurado logo após a COVID-19 ter sido declarada pandemia pela OMS. Neste momento, o país ainda contava com um baixo número de casos (a maioria importados) e algumas mortes. A partir do dia 16 de março foi decretado o fechamento de escolas, universidades e outros locais de aglomeração. Pessoas consideradas grupo de risco foram liberados para trabalhar em suas residências e outras medidas restritivas começaram a ser tomadas. No dia 20 foi decretado lockdown (quarentena obrigatória) em todo o país, fechando também as fronteiras. A circulação dentro e fora das Províncias depende de autorização das autoridades competentes. Cancelaram-se voos comerciais e internacionais, sendo permitida, por um tempo, apenas a repatriação de argentinos e saída de turistas estrangeiros. No princípio, a quarentena seria até o 31 de março, mas foi prolongada até 13 de abril. Outra medida importante tomada por aqui foi garantir a renda mínima das famílias em situação de risco. O auxílio de um pouco mais de R$ 800 já está sendo entregue. Outro fato que chama a atenção é a atuação da sociedade argentina que tem formado redes de colaboração em todos os cantos do país para fabricação de equipamento de proteção individual (EPI) e máscaras que estão sendo distribuídos para os profissionais de saúde, polícia e outros agentes de controle e circulação. Respiradores de baixo custo vêm sendo desenvolvidos em universidades e de maneira voluntária profissionais de área saúde e da pesquisa criaram um cadastro para atuar durante a pandemia.

Lockdown: como está sendo o dia a dia aqui na Argentina...
Estou vivendo a experiência da quarentena obrigatória em uma pacata cidade com cerca de 50 mil habitantes na Província de Chubut, há 2.000 km de Buenos Aires, 280 km ao sul de Bariloche e 60 km de um passo fronteiriço com o Chile. Chubut é uma província petroleira que está quebrada, não tem dinheiro para pagar sequer seus funcionários em dia e convivemos com greves na educação, saúde e outros setores há pelo menos 3 anos. Aqui, a quarentena tem sido bem estrita, apenas supermercados, farmácias, padaria, loja de ferragens, mercadinhos e vendinhas podem abrir, seguindo as normativas da Província e do Município e em horário reduzido. Alguns comércios adotaram o sistema de delivery, e podem funcionar assim, sempre e quando cumpram as normas de segurança e higiene. No começo, além de todas as medidas já citadas, foram fechados nossos principais atrativos turísticos, proibida a pesca esportiva (em plena temporada) e houve uma verdadeira “caça” aos turistas estrangeiros (muitos foram colocados em quarentena compulsória por 14 dias antes de seguir viagem). A província decretou um sistema para organizar as compras conforme o dígito final do DNI (documento nacional de identidade argentino). Eu, por exemplo, só posso sair para compras às terças, quinta e sábados. Aos domingos agora voltaram a não restringir acesso por documento. Às 19h30 há toque de recolher e das 20h até as 7h do dia seguinte está proibida a circulação de pessoas e veículos sem autorização. Contamos com o maior hospital da zona de cordilheira de Chubut que também atende a vários povoados chubutenses. O hospital Zonal conta com 12 respiradores (parece muito, mas não é) e passou a realizar testes para coronavírus. Os postos de saúde foram organizados para atender aos pacientes segundo seus sintomas: verdes para casos sem febre e tosse, vermelho para os que apresentam sintomas compatíveis com coronavírus. A comissão de crise do município tem assistido as famílias mais vulneráveis sempre em busca de soluções para a crise econômica que vem se agravando com a quarentena. O povo esquelense Buenos_Aires_Argentina_em_quarentena_FOTO_Michele_Liloé bem solidário e vem acatando as medidas. Óbvio que nem todos estão de acordo e pensam que é um exagero o que estamos vivendo, mas podemos ver os resultados. Chubut, até o momento que escrevo este texto (5/4/2020), não possui casos confirmados.

Afinal, isolamento social funciona?
Do ponto de vista da minha experiência, sim, funciona. Isso não quer dizer que estamos livres do contágio, apenas é a melhor forma comprovadamente eficiente que achata a curva e evita o salto de casos que colapsa o sistema de saúde. Sabemos que o vírus vai chegar, mas enquanto isso, ao praticar o hábito de lavar frequentemente as mãos com água e sabão e evitar contato e aglomerações, estamos dando tempo para que os cientistas que busquem por medicamentos e vacinas, e para a ampliação do número de leitos para os casos que requeiram atenção hospitalar. A Argentina está demostrando que é possível se organizar e colocar em prática o isolamento social. Cabe a cada chefe de estado agir como seu cargo corresponde, e ao povo, a consciência de que ele é o principal agente para frear o avanço da pandemia.

Que futuro nos espera?
Uma frase que tenho visto ultimamente é “o mundo que conhecíamos já não existe”. Uma verdade nua e crua a qual nos teremos que acostumar. Este momento de confinamento nos geram medos e incertezas, mas também deve ser momento de reflexão sobre que mundo queremos? Circulam nas redes sociais imagens de animais circulando livremente enquanto estamos enclausurados, e da diminuição das emissões de gases poluentes e melhoria da qualidade do ar e das águas. Parece loucura, mas foi preciso que um novo vírus se disseminasse pelo mundo para que pudéssemos ver o quão daninhos somos para o planeta. Esta é apenas uma das várias visões e lições que podemos tirar desta pandemia. Repensar atitudes e ações daqui para frente são essenciais para a sobrevivência das futuras gerações. Sejamos rebeldes, lutemos contra as adversidades e pensemos de forma positiva que “¡todo vá a estar bien!”. - Danielle Anjos dos Santos.

 

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Danielle Anjos dos Santos – é bióloga, mestre em Biologia Animal (UFRRJ), doutora em Zoologia (Museu Nacional / UFRJ) e amante da natureza. Nascida em Duque de Caxias, RJ, reside na Argentina há 8 anos, onde é Pesquisadora Assistente CONICET-Argentina, desenvolvendo pesquisas em sistemática e diversidade de insetos aquáticos Neotropicais e Andino-patagônicos. Também atua como docente na Universidad Nacional de la Patagonia San Juan Bosco, como corpo editorial do Boletim da Sociedad(e) de Odonatología Latinoamericana – SOL e da revista EntomoBrasilis, além de atividades de popularização e divulgação da ciência.

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