A Fundição Progresso (Lapa/RJ), recebeu em 11 de abril, o Cidade Negra com a turnê “De Agora em Diante” que revisita um repertório que atravessa gerações. Contando com um público diverso, a noite se construiu entre expectativa, atraso e entrega, revelando um espetáculo que alternou momentos de celebração coletiva e introspecção, guiado por uma ideia central de conexão, memória e fluxo. Rock Press Conferiu!
CIDADE NEGRA
Fundição Progresso – Lapa – Rio de Janeiro/RJ
Sábado, 11 de Abril de 2026

TEXTO: Alex Dusky
FOTOS: Ivan Lee
As estradas e as histórias não costumam ser uma linha reta e tranquila. Pelo contrário, são feitas de curvas, de trechos irregulares, de eventos em constante movimento. A vida imita a arte, a arte imita a vida, e ambas seguem. Talvez por isso, um show ao vivo nunca aconteça em linha reta.

O show do Cidade Negra na Fundição Progresso, marcado para às 23h, começou com o DJ ativando o aço e o concreto da casa, preparando o ambiente antes da chegada do público, mas a banda não entrou em cena no horário previsto e, com o passar do tempo, a expectativa foi se acumulando. Veio então o anúncio de um “imprevisto”, mas a banda já estaria pronta.
E então, quase sem transição, “Eu Fui” abriu a noite. Nos primeiros acordes, ainda havia um resquício da espera. Mas bastaram alguns instantes para que o público se reorganizasse. Os aplausos vieram, os corpos se aproximaram do palco, e a energia, que antes parecia suspensa, encontrou seu lugar.
Na sequência, “Minha Irmã” aprofundou essa conexão. O que antes era resposta se transformou em entrega. Já não havia mais distância entre palco e plateia, havia reconhecimento. Mas foi com “Querem Meu Sangue” que o show encontrou outra camada. A intensidade cresceu. O público já não reagia apenas, participava. Havia mais força, mais presença, como se a música atravessasse não só o momento, mas também a memória coletiva que sustentava aquela noite.

“Mucama” trouxe o show para um território mais denso. Foi nesse ponto que Toni Garrido conduziu um discurso que atravessava temas como energia, frequência e amor, uma pausa que não interrompia o show, mas o redirecionava.
“A gente está aqui por frequência. É isso que acontece em um show de reggae, ou de uma banda que gosta de reggae, ou que é atravessada por ele. No fundo, qualquer artista trabalha com frequência. No nosso caso, é a frequência do amor, da tranquilidade, da reflexão, da lembrança, da memória, da infância, do carinho, dos amigos. Esse é o nosso lance.” Disse Toni Garrido (foto ao lado), antes de “Perto de Deus” que veio como desdobramento direto desse momento. A atmosfera se transformou. Havia ali um convite mais introspectivo, e o público respondeu com escuta, como se o show abrisse um espaço de respiração dentro da própria intensidade.
Na sequência, “O Erê” e “Firmamento” ampliaram esse estado. Formou-se ali um bloco com ares quase divinos, de busca de conexão entre banda e público, um movimento de ida e volta, sustentado mais pela presença do que pela explosão. É nesse tipo de transição que um show ao vivo revela sua construção. O setlist não se desenrola de forma linear. Ele se organiza em camadas, criando momentos distintos dentro de um mesmo espetáculo.
A clássica “Onde Você Mora?”, marcou a transição desse estado para algo mais terreno. A música atravessou a casa com naturalidade, como se já não pertencesse apenas à banda, mas ao próprio público. “Ponto de Mutação” trouxe um clima leve e envolvente que rapidamente se espalhou pela casa. Foi nesse momento que Toni Garrido desceu do palco, ultrapassou a grade e avançou para o meio do público, cercado por braços erguidos e telas acesas, enquanto a música seguia conduzindo aquele encontro direto entre artista e plateia.

É nesse ponto que o show deixa de se organizar apenas em momentos isolados e entra em um estado mais orgânico. A partir dali, o que se forma é quase um “modo baile”. Uma dinâmica que remete, em alguma medida, aos bailes charme sob o Viaduto de Madureira, não como referência direta, mas como sensação de corpo coletivo em movimento. A ideia se aproxima da provocação da banda paulista Fellini: “Pegue a garota ao lado e dance, meu rapaz”.
Resumindo: virou baile. Aquele momento em que casais se abraçam, se beijam, onde os solteiros revisitam lembranças, e uma série de pequenas histórias acontecem ao mesmo tempo, atravessadas pela música, pela luz e pelas emoções que ela evoca.
Dentro desse clima, o repertório seguiu se desdobrando entre memória e novidade. Em meio aos clássicos, a banda apresentou uma música nova, com a já conhecida dificuldade de apresentar material novo a um público ansioso por sucessos. Um gesto que aponta para continuidade, como se, mesmo diante de uma trajetória consolidada, ainda houvesse espaço para o que está por vir.

“Já Foi” surgiu como um desses momentos em que o público assume a condução. Cantada por muitos pulmões, a música deixou de pertencer apenas ao palco e se espalhou pela casa, exorcizando fantasmas e reafirmando a força coletiva que atravessa a história do Cidade Negra.
“A Lua e Eu” trouxe uma mudança mais silenciosa. A letra de Cassiano, “Estou ficando velho e acabado”, me atravessou sem pedir licença. O tempo aparece ali sem metáfora e não parecia ser apenas uma impressão pessoal, mas uma reflexão sobre a própria banda.
Depois de tanta intensidade, era como se o público fosse convidado a desacelerar. Não exatamente um descanso, mas um instante de reflexão dentro do fluxo. O show, naquele ponto, deixava de ser apenas celebração e se aproximava de algo mais íntimo. “Podes Crer” apareceu em outra chave. Executada com a banda completa, diferente da versão acústica mais conhecida, ganhou corpo, peso e presença, como se revelasse uma nova camada dentro de algo já tão familiar.
E talvez seja isso que permanece. Não uma sequência exata de músicas ou momentos, mas a sensação de que, como as estradas e as histórias, o show também se construiu em movimento. Entre desvios, encontros e pequenas suspensões, encontrou seu próprio caminho, compartilhado, vivido e, de alguma forma, contínuo mesmo depois do último acorde.


RECOMENDAMOS…
Para quem quiser seguir esse fluxo para além da noite no Rio de Janeiro, a turnê “De Agora em Diante” do Cidade Negra continua percorrendo o Brasil ao longo de 2026, passando por Curitiba (18/04), Salvador (25/04), Goiânia (01/05), Brasília (02/05), Porto Alegre (11/05) e Belo Horizonte/MG (22/08), outras datas podem ser confirmadas. Mais do que uma sequência de shows, trata se de um movimento contínuo que mistura clássicos, releituras e músicas inéditas, reafirmando a conexão da banda com diferentes gerações e expandindo, a cada apresentação, essa mesma experiência de encontro que se constrói em movimento. #Recomendamos! — Alex Dusky.
Alex Dusky – A música é meu grande amor, o cinema minha formação e escrever, uma necessidade constante. Flamenguista, nascido analógico, post punk, criador e ex guitarrista da banda alternativa Sex Noise.