WANDA VAGAMENTE – WANDA SÁ

A cantora Wanda Sá faz show dentro da Série “Discos Históricos da MPB” com apresentação na íntegra do repertório do Wanda_Sá_WANDA_VAGAMENTE_capaseu álbum “Wanda Vagamente”. Lançado em 1964, o disco é considerado um dos álbuns mais emblemáticos da bossa nova. Nossa dica; escute o álbum e assistam ao espetáculo que acontece dia 10 de novembro na Sala Baden Powell no Rio de Janeiro.

WANDA VAGAMENTE – WANDA SÁ
TEXTO: Robert Moura – FOTOS: Divulgação

O cenário é a cidade de Salvador. O ano, 1964. Em cena, um jovem apaixonado por música que começava a esboçar suas primeiras composições e uma menina com anseios de tornar-se cantora. Duas figuras tímidas que acabavam de se conhecer. Além do gosto pela música, eles dividiam a convicção de que João Gilberto era o maior cantor do Brasil. Na conversa, a menina mostrava-se ainda mais inibida que o rapaz. O fato de já tê-lo visto na TV em um programa de música no qual mostrara algumas de suas canções, deixava-a mais retraída e quase sem conseguir falar. Ela só começaria a sentir-se à vontade mesmo quando se acompanhando de um violão começou a cantar. A música escolhida foi Vagamente, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, gravada por Wanda Sá naquele mesmo ano.

Ah, os personagens da cena? 

Um certo Caetano de sobrenome Veloso, e uma tal de Maria da Graça, apelidada pelos amigos de Gal.


Wanda_Sa_DIVULGAÇÃO_ANOS_60A música "Vagamente" também dava título ao primeiro e icônico LP lançado pela cantora Wanda Sá. Caso raro, em que o primeiro disco de um artista torna-se o mais representativo de sua carreira. Na lista de compositores figuravam os nomes de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Francis Hime, Maurício Einhorn, e do produtor do trabalho, Roberto Menescal, que além de tocar violão também assinou alguns arranjos. O disco contou também com músicos como Eumir Deodato, Luiz Carlos Vinhas e Tenório Jr. ao piano (os três também ficando a cargo dos arranjos, divididos com Menescal), Sérgio Barroso e Manuel Gusmão no contrabaixo, os bateristas Edison Machado e João Palma, Ugo Marotta no vibrafone e o percussionista Dom Um Romão. Cantora de voz doce e suave, quase sussurrada e muito bem colocada, Wanda Sá conquistou a admiração do público e dos artistas bossa-novistas.

Aliás, reside aí, um desafio para todos que se atreveram atuar no estilo musical criado por João Gilberto – senhor absoluto da música que conhecemos como bossa nova. Através de sua interpretação, impostação e divisões rítmicas vocais; aliados ao seu personalíssimo violão com uma nova e original batida, ele se apropriaria de qualquer canção que interpretasse tornando-a sua, tornando-a bossa nova: fosse um samba da nova ou da velha guarda, um baião, um bolero, uma valsa. Como intérprete, João Gilberto sozinho, e só ele, era (é) a bossa nova. Talvez, cientes disso, os artistas que se aventuraram a copiar-lhe o estilo tenham logo desistido e procuraram agregar outras referências. Alguns direcionaram para as raízes da música brasileira, outros para aWanda_Sa_DIVULGAÇÃO_ANOS_1960 música pop, e os que acreditavam se distanciar menos buscaram apoio no jazz. E é exatamente essa influência jazzística que aparece no disco de Wanda Sá, mais pelos músicos e compositores presentes no trabalho que flertavam com essa vertente do que por ela.

A influência do jazz pode ser ouvida logo na primeira faixa, "Adriana" de autoria de Menescal e Luiz Fernando Freire que apresenta um compasso 5/4 recorrente no estilo norte-americano, foi inspirada na música “Take Five” de Dave Brubeck & Paul Desmond. "E vem o sol" dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle apresenta uma série de rápidas modulações nas quais Wanda Sá passeia com naturalidade. Em "Encontro", a cantora aparece como compositora em parceria com Nelson Motta. Curiosamente, a música lembra muito a ingenuidade de algumas baladas no estilo da Jovem Guarda (ainda que o nome só viesse a surgir no ano seguinte com o lançamento do programa de TV, alguns cantores que participariam do hoje considerado movimento já faziam algum sucesso nas rádios) como as gravadas pela cantora Wanderléa. "Só Me Fez Bem" de Edu Lobo e Vinícius de Moraes segue a mesma tônica do balanço de samba estilizado com instrumental calcado no jazz com versos característicos do poetinha: “É melhor viver do que ser feliz”. "Mar Azul" de Francis Hime e João Vitório trazem novo colorido timbrístico ao álbum com a presença marcante de órgão e vibrafone. Wanda não se perde nas sinuosas curvas melódicas da canção. De Carlos Lyra e Vinícius de Moraes é "Também, Quem Mandou" com uma leve visita à dor de cotovelo sempre presente na música brasileira. "Tristeza De Nós Dois" de Durval Ferreira, Maurício Einhorn e Bebeto emula uma antiga modinha. Da principal dupla de compositores da bossa nova, Tom Jobim e Vinícius de Moraes são as canções, "Vivo Sonhando" e "Inútil Paisagem", ambas interpretadas de forma convincente por Wanda. A primeira tem um solo de trompete que chega mesmo a lembrar, algumas das primeiras gravações de Wanda_Sa_DIVULGAÇÃO_Série_Discos_Histórico_da_MPBFrank Sinatra. A segunda, "Inútil Paisagem", em seu primeiro e histórico registro fonográfico tem acompanhamento quase exclusivo da guitarra semi-acústica de Menescal à la Joe Pass, com uma leve presença do contrabaixo de Sérgio Barroso. Sem dúvidas, um dos maiores momentos do disco. "Sem Mais Adeus" de Francis Hime, traz outra letra assinada por Vinícius, o compositor mais presente no disco. De Luís Roberto e Geraldo Vandré é a balada "Tristeza de Amar". Cabe à faixa-título encerrar a audição e nos levar a identificar a sonoridade do disco com a bela arte da capa que mostra Wanda Sá com um vestido de listras coloridas caminhando descalça sobre a areia da praia carregando um violão (instrumento símbolo da bossa nova e que a cantora tocava, tendo sido aluna do onipresente Menescal). Diferente dos boêmios que carregariam o violão sobre o ombro, ela o arrasta quase como se o instrumento a seguisse. A despeito do dia ensolarado, o clima é levemente melancólico e triste. Mas, de uma tristeza blasé que não se desespera, que sente, mas não chora.

Não se assuste se ao ouvir o disco pela primeira vez, ele soar mais familiar do que poderia parecer, muito do que foi feito antes e depois na música brasileira está presente nas doze faixas do álbum. Méritos para a cantora que conseguiu em seu primeiro disco, gravado aos 19 anos de idade, realizar um trabalho que viria a se tornar referência para outros importantes músicos do país e do exterior, justamente naquele estilo estranho a qualquer um que não seja João Gilberto. - Robert Moura.

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

SERVIÇO: Série “Discos Históricos da MPB”
SHOW: 
Wanda Sá, com “Wanda Vagamente” 
LOCAL: Sala Municipal Baden Powell -  Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360 – Copacabana/RJ  
DATA: 10 de Novembro de 2018, sábado, às 20h
INGRESSOS:  
Bilheteria: 
De 4ª a domingo, das 15h às 21h
No Site: https://riocultura.superingresso.com.br/#!/home
DIREÇÃO: Arnaldo DeSouteiro
PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS: Ugo Marotta e Roberto Menescal
CLASSIFICAÇÃO: Livre.
CAPACIDADE: 469 lugares