Viva o Brasil Globalizado – Incêndio do Museu Nacional, O Preço do Descaso!

No popular, se diz que Agosto é o mês do “Desgosto”, dessa vez o desgosto chegou com atraso, Viva_o Brasil_Globalizado_CHARGE_Robson_Granado_P_20180904_161729_1mais precisamente na noite de 2 de Setembro, com o incêndio no Museu Nacional/RJ. Falando assim, pode soar que esperávamos por aquelas chamas. É claro que nunca iremos desejar algo tão triste, porém tendo em vista o blecaute artístico que vivemos, sobretudo nos últimos anos era de se espera que cedo ou tarde algo devastador ocorresse em algum espaço cultural Brasileiro. Infelizmente não foi o primeiro, e cabe apenas desejar, mesmo sem muita esperança que seja o último, afinal não é fácil ter perspectiva por dias menos cinzentos, ao lembramos que não aprendemos com as lições vividas com os incêndios da Boate Kiss em Santa Maria/RS e do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo/SP! Rock Press convidou o sempre presente quando o tema é arte Robson Granado, que fez seu desabafo, não apenas sobre o ocorrido, assim como o descaso cultural nacional. Quem também escreve é a Entomóloga, Doutora em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ Danielle Anjos dos Santos que vivenciou por anos o abandono com o nosso querido e eterno em nossas memórias museu.

“Viva o Brasil Globalizado”
TEXTO e CHARGE: Robson Granado

Este é um dos piores momentos que já vivi em nosso país, superado apenas pelos chamados “Anos de Chumbo”, período da ditadura militar em que mais se perseguiu, torturou e matou aqueles que se opunham ao regime. Agora, a besta mídia está solta e por toda parte, disseminando ódio, valorizando preconceitos, exaltando a ignorância e tornando a perversidade mais que aceitável, desejável. Este Brasil estúpido, cruel e cheio de ódio se sobrepõe ao país que sempre nos inspirou e acalentou com sua cultura, sua criatividade, sua fé em um futuro melhor. É este país que a gente não reconhece mais que está sendo devorado pela globalização pervertida, que destrói culturas, massacra direitos, transfere para potências imperialistas todas as riquezas das demais nações. Coloco a minha indignação contra tudo que temos presenciado nestes tempos, que teve um ponto crucial no incêndio que destruiu nosso Museu Nacional, nesta charge e no texto que a acompanha.

Precisamos de ciência, arte, petróleo, defesa, educação e coisas parecidas? A resposta óbvia é SIM. Mas o NÃO parece ser a resposta explicitada nas políticas públicas neoliberais. Não, porque podemos consumir o que outros produzem. Temos Hollywood, Harvard, Chevron, as forças armadas dos Estados Unidos e muito mais. Por isso, não precisamos das nossas porque a dos outros é melhor. Abaixo os museus, abaixo a petrolífera estatal, abaixo o SUS, a Fiocruz, a Embraer, a Eletrobrás, Furnas. Abaixo a nossa arte, nossa cultura, nosso passado, nosso povo. Não precisamos disso.

Vamos começar uma nação toda nova, globalizada, submetida, miserável, incapaz de tudo, sem passado e sem futuro. 
Vamos nos tornar NADA, contanto que aqueles que nos roubaram nossa dignidade mantenham seus benefícios. – Robson Granado.

“Incêndio do Museu Nacional, O Preço do Descaso!”
TEXTO: Danielle Anjos dos Santos - FOTOS: Acervo pessoal

No ano do seu bicentenário, o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro teve parte de seu acervo consumido por um incêndio, que levou consigo momentos de nossa história, memória, cultura e pesquisa.

Fundado por D. João VI em 06 de junho de 1818 como Museu Real, estava sediado no Campo de Sant’Ana e tinha como finalidade atender aos interesses de promoção do progresso cultural e econômico do país. Em 1892 foi transferido para o Palácio de São Cristóvão na Quinta da Boa Vista, antiga residência da família real portuguesa. Em Pesquisa_no_Museu_Nacional_Danielle_Anjos_dos_Santos1946 foi incorporado a Universidade Federal do Rio de Janeiro e é considerado a mais antiga Instituição Científica do Brasil e um dos maiores museus do gênero das Américas. Célebres brasileiros trabalharam como pesquisadores e docentes do Museu Nacional, como por exemplo: Bertha Lutz, bióloga, ativista do feminismo e da educação do Brasil no século XX; José Cândido de Melo Carvalho, zoólogo, entomólogo e grande conhecedor da fauna brasileira; Edgard Roquette Pinto, médico legista, antropólogo, etnólogo, escritor e arqueólogo. Por lá também passaram visitantes ilustres como Albert Einsten, Marie Curie e Alberto Santos Dumont.

Na noite de 02 de setembro o Museu Nacional foi consumido pelas chamas e grande parte dos cerca de 20 milhões de itens que abrigava foi perdido e jamais será recuperado. Esse acervo magnífico de ciências naturais e antropológicas era um legado que nos ajudava a entender o passado, viver o presente e pensar no futuro. Suas exposições permanentes e temporárias tinham o poder de mexer com o imaginário, transportando seus visitantes a outros lugares e épocas. Quem teve a oportunidade de visita-lo na infância, com certeza ficou impressionado com as múmias ou com os dinossauros. Muitos se deslumbraram com a diversidade da vida, com a cultura dos povos originários do Brasil e das Américas, e com nossa história contada em cada pedaço do Palácio. Ai vem a pergunta: Como um museu tão importante se incendiou assim? A resposta é simples: Descaso! Há anos o Museu Nacional não recebia de nossos governantes a devida atenção. Infelizmente a educação e cultura no nosso país são vistos como gastos e não como investimento, e todos nós sofremos as consequências desse abandono. Nos últimos anos, por falta de verbas para limpeza e segurança, o Museu fechou suas portas ao público. Em outro caso, para abrir uma exposição, os funcionários fizeram uma “vaquinha” virtual na internet. Por sorte, o Museu conta com uma comunidade entusiasta e Danielle_Anjos_dos_Santos_Entomóloga_Doutora_em_Zoologia_pelo_Museu_Nacional_UFRJapaixonada que o mantém vivo e ativo. 

Os governantes também ignoram o perfil acadêmico e científico da Instituição que é reconhecida internacionalmente. Seus 89 professores, 215 servidores públicos e cerca de 500 alunos distribuídos nos Programas de Pós-Graduação de Botânica, Zoologia, Antropologia Social, Arqueologia, Linguística e Geologia do Quaternário, lutam, incansavelmente, contra todas as adversidades para manter, em grau de excelência, o ensino e a pesquisa do país. Muitos mestre e doutores formados pelo Museu Nacional atuam ou atuaram em Universidades e Centros de Pesquisas do Brasil e do exterior.

Para os pesquisadores e técnicos do Museu que dedicaram anos de sua vida em trabalhos de campo, laboratório e manutenção das Coleções, vê-las virarem cinzas é devastador. Perdem-se para sempre objetos, registros originais e exemplares únicos que não podem ser substituídos. Esse patrimônio científico foi construído com o esforço de gerações e eram base de muitas pesquisas em desenvolvimento, cujos frutos se revestiriam para a Sociedade. Como_Ajudar_O_Museu_Nacional_UFRJA comunidade científica nacional e internacional está consternada e lamenta essa perda imensurável, mas infelizmente, grande parte dos brasileiros não faz ideia do que perdemos e não se importa com um “simples museu”. Esse pensamento demonstra o desprezo com nossas memórias e explica muito do que estamos vivendo na atualidade. 

Então é isso? Foi o fim? Não, não foi o fim. Foi apenas um dos piores momentos da existência desse museu bicentenário e que, agora, reescreve sua história. Houve luto, tristeza e lágrimas por tudo que foi perdido, mas o Museu Nacional está vivo e segue em luta. Esse patrimônio histórico, cultural e científico pertence a todos os brasileiros, mesmo que muitos nem liguem para isso. Há pessoas dispostas a seguir, a reconstruir, a reiniciar acervos e que precisam de solidariedade. Fica o convite, informe-se sobre como ajudar, seja voluntário. Lutemos juntos pela memória e educação do país. 

Termino citando a historiadora brasileira Emília Violli da Costa (1928-2017): “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado." - Danielle Anjos dos Santos*.

* Robson Granado é jornalista, artista plástico e professor universitário.
* Danielle Anjos dos Santos é Entomóloga, Doutora em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ, realizou diversas pesquisas no Museu Nacional. Hoje residi na Argentina onde continua realizando suas pesquisas e lutando pela educação.

 

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Postado por Michael Meneses segunda-feira, 24 de setembro de 2018 20:41:00 Categories: Ações Culturais Arte Contemporânea Artes Artes Plásticas Cultura estética Fotografia História História do Brasil Museu Nacional UFRJ