Uma noite de catarse - Abraxas Fest/RJ - Jupiterian + Pantanum + Samsara Blues Experiment + Eyehategod - 14/10/18

Seria um domingo típico na cidade, “Praia, sol, caipirinha, água de coco e cervejinha...” e todos aqueles cEyehategod_no_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiralichês típicos do carioca. Mas a chuva do sábado, presentou o domingo com um dia nublado e o céu cinzento; era um prelúdio do que estaria por vir com as apresentações das bandas Jupiterian, Pantanum, os alemães do Samsara Blues Experiment e os americanos do Eyehategod. Só por esses shows a noite já seria uma celebração, contudo o evento marcou os cinco anos de atividades da Abraxas Produções.

 

"Ode Abraxas, uma noite de catarse - Abraxas Fest – 14/10/2018 – Cais da Imperatriz/RJ
Jupiterian + Pantanum + Samsara Blues Experiment + Eyehategod"
TEXTO: Anderson Fino – FOTOS: Marcelo Pereira

Cortei a cidade via trem, zona oeste, norte até a região central, observei pela janela um céu pesado. Poderia ter tombado uma chuva daquelas, mas por sorte não veio. Dá Central do Brasil, ao Cais da Imperatriz, na Praça Mauá, menos de 10 minutos caminhando, a região nos últimos anos passou por um processo de desapropriação e revitalização (situando melhor o leitor, o espaço fica próximo ao Museu do Amanhã e ao local do fatídico episódio em que Magneto roubou as vigas da perimetral, só assim para explicar tal absurdo). 

Jupiterian_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_PereiraPor volta das 17 horas, a casa abriu as portas e as 18:10 a banda JUPITERIAN inicia os trabalhos. Tradicionalmente trajado com suas batinas e mascarados, o quarteto paulistano tocam para um público ainda pequeno na casa, que os assistiu e foi transportado aJupiterian_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereira uma atmosfera escura com a abertura da apresentação com a faixa “Matriarch” do disco “Terrarforming”. O som do Jupiterian é um Doom/Slugde com elementos de Death Metal. A estrutura de som estava impecável (um dos pontos máximos do evento). Quem conhecia a banda batia cabeça e aqueles que conheceram naquele momento observavam estáticos e com olhares curiosos. Após esse início de esferas cósmicas, a banda tocou mais três composições, todas novas, mas que em nenhum momento tirou a fixação do público. Ao encerramento do show, um dos integrantes manifesta-se ao microfone com um grito “#ELENÃO”, referência ao movimento de luta e resistência contra a ascensão do fascismo ao poder. 

Pausa, hora de beber uma gelada, (no decorrer da noite o bar fez a alegria dos sedentos). Ótimos funcionários, atendimento excelente, e principalmente preço justos, com Pantanum_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiraprodutos de qualidade. Fora o ambiente do show, o local possuía uma área para fumantes e a noite estava apenas começando. 

Entre goles e tragos, ouço a passagem de som, era os curitibanos do PANTANUM. O trio começa com peso, Pantanum_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiramostrando um som chupado de fontes “sabbathianas”; quando o vocal entra, fica nítida essa grande influência. Músicas dos discos “Volume I” e do EP “Purple Blaze” reforçam isso. Ao vivo tem uma performance carregadas de psicodelia e riffs para bateção máxima de cabeça, apesar de fazerem um som nada novo sob o sol da escola tradicional do doom com stoner, a apresentação do Pantanum foi bem coesa e arrancou aplausos do público, já em maior número na casa. Porém, senti falta dos teclados marcantes em “Stormbringer”, mas não comprometeu o set.

 

Samsara_Blues_Experiment_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_PereiraChegado o momento dos alemães do SAMSARA BLUES EXPERIMENT, retornando ao Brasil após um ano e novamente Samsara_Blues_Experiment_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiraa convite da Abraxas, nesse tour promovendo o último disco lançado: “One with The Universe”, um álbum recheado pela psicodelia, sonoridades entre o heavy, stoner e elementos do synths marcaram e ambientaram a apresentação do trio, um set bem minimalista, canções como “Vissipana”, “One with the Universe” e “Eastern Sun & Western Moon”, além de faixas dos discos “Shingara”, “Arm of ignorance” e “Hangin’ on the wire”. Muito bom, os ouvidos que estavam mais atentos saíram renovados e cheios de positividade. 

Mas ainda viria a desgraceira, para antagonizar, o grande nome da noite e pelo qual muitos esperavam há anos. Estavam todos muito comportados e atentos às Eyehategod_no_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiraapresentações das bandas anteriores, mas era a última pausa antes do grande show, nada mais nada menos do que “fucking” EYEHATEGOD. Foram 30 anos de espera, que podia ser percebida no público de várias faixas etárias presente; Assisti o show ao lado de um senhor que deveria ter lá seus 50 anos ou mais. Pisa no palco Jimmy Bower, lenda e moldador do estilo Sludge, atencioso, brincalhão e comunicativo com os fãs. O interessante que o palco Eyehategod_no_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_Pereiraera pequeno, não tinha uma barreira tão grande entre público e os artistas. Quem ficou fica na frente assistiu tudo a alguns palmos. O baixista Gary e o baterista Aron se posicionam e logo após entra no palco Mike Willians. As batidas no tom, caixa e pedal aumentavam a ansiedade, e a guitarra entoava os primeiros ruídos e num golpe mortal entre dissonâncias, a banda começa com “Agitation!Propaganda!”, primeira faixa do último disco por eles lançado, em 2014. Era o que o público queria: agito. O mosh pit foi formado e parou por poucas vezes durante todo o show. Clássicos não faltaram: músicas como “Jack ass in the will God”, “Blank/Shoplift”, “Revelation/Revolution”, “Take as needed as for a pain” e “30$ Bag”; pedida aos gritos, mandaram “Sisterfucker” (ahh essa não podia faltar). Foi mais de uma hora de um show intenso, sujo, bruto. Mesmo com toda a dificuldade nos últimos anos do vocalista, que passou por um transplante de fígado, seu vocal estava dilacerador. 

Eyehategod_no_Abraxas_Fest_RJ_FOTO_Marcelo_PereiraNão me contive: entrei no mosh, stage dive e lavei a alma! O show do Eyehategod tinha um ar de expurgo e exorcismo, o futuro é tão incerto que são de momentos assim que precisamos para extravasar. Um conhecido lembrou de um amigo que partiu e o quanto ele curtiria estar ali: Josenilton, o Bahiano (Ex-Baga). Você não foi esquecido, estava conosco, assim como a apresentação catártica do Eyehategod jamais será esquecida! No bis, agradeceram imensamente ao público e por estarem no Brasil. Mike e Jimmy Bower, cumprimentaram os próximos ao palco.

Aproveitamos para parabenizar a Abraxas Produções pelos seus 5 anos de existência, presenteando a cena não somente com esse festival maravilhoso, mas pela resistência em apostar em cultura alternativa em um momento bem difícil para manifestações artísticas no país e na cidade. A parceria do Obscur Produções, a escolha do local foram tiros certeiros, juntamente com equipe de som e back line, que foram o ponto altíssimo do evento, que som! Que venham outras produções e festivais. - Anderson Fino.

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