STEVE HOGHART – Simpático, encantador e batendo um Bolão!

Em um show intimista e esbanjando simpatia, Steve Hoghart levou um público fiel ao Theatro Net Rio,STEVE_HOGHART_Theatro_Net_Rio_Copacabana_Brasil_FOTO_Luciana_Kani_Rock_Press e mostrou que é possível empolgar fãs do rock apenas com piano e voz.

STEVE HOGHART – Simpático, encantador e batendo um Bolão! 
Theatro Net Rio – 2 de Julho 2019 – Copacabana/RJ
TEXTO: Fabiano Soares – FOTOS: Luciana Kani

Era uma terça-feira à noite. Em qualquer lugar do Brasil, a televisão estava ligada e a cervejinha gelada, só nos preparativos para assistir Brasil e Argentina em uma semifinal de Copa América. Como ligo tanto para futebol quanto para saber o que o Caetano foi fazer ao atravessar a Rua no Leblon, me mandei para Copacabana, onde no charmoso Theatro Net Rio veria algo bem melhor: Steve Hoghart, vocalista do Marillion desde 1989, em show solo.

Chegando à galeria onde fica a casa de shows, resolvi entrar no mercado para um “comes & bebes”. Ao sair, dou de cara com um baixinho de jaqueta de couro sendo assediado por diversos transeuntes que pediam selfies; sim, era o Steve Hoghart. Ele parava, dava um sorriso e continuava, simpático. Contive minha vontade, mas admirei o comportamento do artista.

STEVE_HOGHART_Theatro_Net_Rio_Copacabana_Brasil_FOTO_Luciana_Kani_Rock_PressJá sentadinho, aguardei o aviso do teatro de que o espetáculo começaria, e pontualmente teve início. As cortinas abriram-se e Steve apareceu, sorridente. Deu uma observada no público e sentou-se ao piano. Brincalhão, mandou um “E aí, o que faremos?”. Não deixou nem o público rir, e já mandou uma versão de “Easter”, para arrepiar os pelos e fazer até o mais fanático por futebol saber que havia feito a escolha correta. A iluminação do palco era primorosa, e ajudava no clima de isolamento do cantor; uma experiência gratificante até para quem não está acostumado a assistir a shows sentados.

Em seguida, tocou “Hollow Man”, muito mais fácil de imaginar para quem não foi ao show, já que versão original tem a base piano e voz como principal. Mas não só de músicas do Marillion ou do Steve seriam o show: “Instant Karma”, do John Lennon, foi a próxima, mostrando influências que falaria mais tarde em um papo informal com a plateia.

Aliás, em “Season’s End”, o público vibrou bastante e não sei se por causa disso ou já programado, Steve parou um pouco e mandou um “perguntem-me algo”. Nessa conversa, alguém falou sobre os 30 anos da entrada dele no Marillion, o qual ele respondeu surpreso, e disse que o tempo era algo estranho, e realmente passa depressa sem percebermos, exemplificando com os 10 anos da morte de Michael Jackson. Ao ser perguntado quando o Marillion se apresentaria no Rio de Janeiro, e na lata Steve rebateu com ironia dizendo que o teatro não tinha muitas pessoas. “Não é culpa sua. Você veio”, disse, para amenizar, mas mostrando que não é de esperar um retorno tão cedo da banda a palcos cariocas. Falou também sobre o Rio de Janeiro, que ele do avião adora ver quando está chegando à cidade. E que desde a primeira vinda ao Rio, em 1990 para o Hollywood Rock Festival, ainda estava se recuperando (riu e fez rir bastante nessa parte). E alguém gritou “Brasil ou Argentina?”, e explicaram que o jogo estava acontecendo naquele momento. Steve saiu-se bem: cruzando os dedos disse que estava realmente torcendo pelo Brasil, mas que tocaria no dia seguinte na Argentina, e lá, diria que torceu por eles. Após essas risadas, ironicamente, ele anunciou “The Great Escape”, outra onde a voz do cantor emociona, com a interpretação magnífica e cheia de mudanças, seguida de “Runaway”, outra música de temática pesada.

Outra música externa veio: “Model”, do Kraftwerk, em uma versão no mínimo inusitada para caber no formato do show. E logo após tocou “No One Can”, pesando o clima de vez, e para aliviar, nova pausa para conversas, sempre de bom humor. Perguntado sobre suas influências, falou de Beatles, Kinks, um pouco de Rolling Stones, o vício em Yes e Genesis na juventude, mas que foi The Who que mudou ele. Disse que aprendeu muito com o primeiro show do The Who que viu, pois era muito mais do queSTEVE_HOGHART_Theatro_Net_Rio_Copacabana_Brasil_FOTO_Luciana_Kani_Rock_Press entretenimento, a atitude no palco e o som dos caras o fizeram pirar. Um sujeito que pedia sempre a mesma música, foi rebatido por ele, com sarcasmo: “Agora não. Se você puder esperar… Pergunte-me algo, a cor da minha cueca…”. Perguntado sobre bandas brasileiras e novas bandas, não soube responder, disse não conhecer música brasileira, e sobre novas bandas, não lembrava algo relevante, e voltou às inspirações: Joni Mitchell, Blue Nile, Peter Gabriel e Massive Attack. Depois, lembrou-se do Radiohead, e disse que se refere ao Marillion como um filho entre o Pink Floyd e o Radiohead, arrancado risos gerais.

Acabando o papo, voltou ao piano e mandou uma versão de “Maybe I’m Amazed”, do The Wings, confirmando a influência musical dos Beatles mais uma vez. Mais duas músicas do Marillion (“Hard as Love” e “Beyond You”), e uma de sua carreira solo, “Cage”, todas aplaudidas por uma plateia comportada, com aquela interação controlada. Então, Steve pediu atenção a alguém da equipe e fez rodar o som programado de seu Macbook, usado com essa finalidade a primeira vez no show: uma batida meio synth pop e cantou uma música, sem utilizar o piano. Qual a música? Não faço ideia. Mas era animada, e ele dançou sentado no ritmo da batida enquanto não começava a cantar. Continuou usando o computador, mas dessa vez a batida foi acompanhada do piano para cantar “House”, também de sua banda.

Voltando apenas ao piano, tocou “The Sky Above the Rain”, e a essa altura do campeonato já estava mais acostumado com o formato do show, um pouco lento, mas bem visceral, com o vocal de Hoghart ganhando muito mais destaque em algumas músicas. Veio então a música com a maior participação do público até então: “80 Days” foi cantada por grande parte dos fãs, e em dado momento, Hoghart pediu palmas para o público e continuou cantando, até que parou de cantar e deixou a galera soltar o gogó e fazer aquele coro desafinado, mas de coração, que agrada a qualquer compositor.

Então em o que identifiquei como uma brincadeira, ele tocou no piano um início de “Delilah”, do Tom Jones, e emendou com “Cloudbusting”, da Kate Bush. E foi nessa confusão que, ele se despediu e saiu do palco, com a mesma simpatia contida que entrou. Pouco depois, retornou com um sorriso daqueles, e o público avisado que poderia fotografar no Bis. Começou logo com o quê? “Beautiful”, e aquele coro desafinado brigando com o vozeirão foda do Steve Hoghart. É uma sensação estranha: você quer ouvi-lo esticando o vocal, e a tiazinha do seu lado “biiiiuurifuuuuuuuul”. Enfim, triste, mas sobrevive-se.

Emendou com “Fantastic Place” e “Afraid of Sunlight”, do Marillion, e em seguida, disse: “Quando eu era mais novo, costumava tocar isso”, e mandou uma música bonita, STEVE_HOGHART_Theatro_Net_Rio_Copacabana_Brasil_FOTO_Luciana_Kani_Rock_Pressque falava “the grass grows where the factory was”, uma frase que me fez pensar bastante, e nisso pensei em como um formato desses permite a gente pensar enquanto assiste ao show. E fechou com “Neverland”, do Marillion, despedindo-se em português em um tímido “Muito obrigado, Rio”.

O show acabou depois de duas horas, em um clima bem “esse show é especial para você!”, bem intimista mesmo; mas você foi correndo pra casa? Nem eu! O poço de simpatia chamado Steve Hoghart dispôs-se a autografar e papear com todos que tivessem disponibilidade para esperar vinte minutos (afinal, que ele pudesse se recompor). Pude conversar rapidamente com ele sobre um show do Marillion que assisti em 2014, em Buenos Aires, e falei que ele estava bem fanfarrão no show, fazendo muitas piadas. “Eu provavelmente estava ‘alto’”, brincou, e ao tomar uma bronca da garota que organizava a fila e tirava as fotos para o pessoal, pedindo que fosse mais para o lado, cochichou zoando “Nossa, ela é mandona…”. E sorrindo, agradeceu a presença (!) e continuou com sorrisos para receber o próximo da fila.

Uma noite memorável não só pelas músicas e pela voz incrível de Hoghart, mas também por um show de simpatia do artista. Um monstro do rock! Fui para casa, e ainda não descobri quem ganhou o jogo. Brasil ou Argentina? Pra mim, deu Steve Hoghart na cabeça! - Fabiano Soares.

Posted by Michael Meneses Monday, July 8, 2019 12:15:00 PM Categories: Classic Rock Copa América Marillion Prog Rock Progressivo Show Steve Hoghart Theatro Net Rio
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