Show de talentos e teclas: Herbie Hancock ao vivo! - RJ – 19/11/2018

Um monstro consagrado do Jazz passou pelos palcos de Rio de Janeiro e São Paulo. Herbie Hancock tornou-seHerbie_Hancock_In_Rio_19_11_2018_FOTO_Lorena_Brand célebre ao tocar ao lado de Miles Davis em seu quinteto e depois alçou carreira solo, embora tenha também formado a brilhante banda Head Hunterts, ícone do funk e jazz fusion. Em 19 de novembro, o público do KM de Vantagens Hall/RJ viu de perto o pianista desfilar alguns de seus clássicos, acompanhado de banda recheada de grandes talentos.

Show de talentos e teclas: Herbie Hancock ao vivo!
KM de Vantagens Hall – RJ/RJ – 19 de Novembro de 2018
Texto: Cadu Oliveira - Fotos: Lorena Brand

Não é todo dia que você tem a oportunidade de ver um grande nome do Jazz a poucos metros de distância, executando clássicos imortais bem na sua frente, como se fosse simples. Aos 78 anos de idade, Herbie tem gás suficiente para tocar teclado, piano, cantar e ainda destruir no teclado elétrico. Era 21:45h quando Herbie entrou no palco com uma corridinha leve e um amplo sorriso no rosto. Saudou a plateia, que tinha entre os presentes, logo na primeira fila, Marcelo D2, fã do músico há tempos. Logo os integrantes da banda ocuparam seus espaços. A abertura do show veio com sons misteriosos, como que reproduzindo os barulhos de uma floresta. Destaque para o vocal impecável, mesclado a sintetizador e efeitos, encaixando perfeito entre os instrumentos.

Herbie_Hancock_In_Rio_19_11_2018_FOTO_Lorena_BrandA primeira do setlist foi “Overture”, com execução longa de mais de dez minutos. A canção contou com Herbie tocando e dançando no piano enquanto o gaitista pulava ao lado, de tanta empolgação. Na sequência, a música começa à capela e logo mostra, na linha do baixo, ser o grande clássico da banda HeadHunters, a vibrante e dançante “Chameleon”. No entanto a desconstrução do som foi variando entre outras sonoridades, chegando a contar com vocalização na linha de “Ponta de Areia”, clássico de Milton Nascimento, o que arrancou aplauso geral. No final desta, Herbie se volta para a plateia e lança um simpático “obrigado”, em português.

Depois seguiu em inglês brincado com alguém entre o público: “Eu tenho água aqui, e você tem cerveja. Mas essa é melhor”, disse, levantando a garrafinha em sua mão. Nem todos na plateia devem saber sobre o histórico de problemas com drogas enfrentado por Herbie. Em seu livro de memórias, o lendário pianista relata como foi difícil se livrar do crack. Hoje ele está há pelo menos 18 anos longe do vício.

Antes do terceiro som ele apresenta toda a banda: “Esses são os melhores músicos! No incrível vocal está Michael Mayo”, cantando com a alma e fazendo improvisações, o talentoso cantor de apenas 25 anos. Logo após ele apresenta o baterista Justin Brown, um brilhante destaque da noite. Ao apresentar o gaitista, Herbie fez piada com o tamanho do instrumento: “Ele toca isso! É mágica. Eu já tentei colocar o piano no bolso e não deu”, no que retirou riso da plateia. “Ninguém no mundo toca como ele, e ele não é de Chicago, é suíço”, disse, apresentando Gregoire Maret. Quem pilotou o baixo potente foi James Genus, músico que trabalha com Herbie há 12 anos. “Ainda bem que hoje não é sábado, senão ele não poderia estar aqui, afinal, ele é o baixista do programa Saturday Night Live”, brinca a atração da noite, finalizando a apresentação da banda. Pra terminar o discurso, avisa que vai tocar “Actual Proof”, uma música que, segundo ele, “foi composta quando ainda era jovem e fazia parte da banda HeadHunters”, ou seja, mais uma pedrada daquelas. Nessa música cada um dos membros da banda tem espaço para solar. Começa pelo vocal, que brinca entre notas e tons sem perder a musicalidade. Depois é a vez do baixo, com dedos ágeis marcando as notas e expressão de delícia ao solar. A voz faz pequeno interlúdio e então a bateria entra em ação, castigando severamente e levando o público ao delírio. A gaita também tem seu espaço, todos muito aplaudidos ao término de cada solo.

Depois foi a vez de “Secret Source”. Nessa Herbie além de batucar nas teclas do piano também assume os vocais. Junto com os efeitos e ao vocalista, os dois produzem a sonoridade como de um coral inteiro. A execução é bem aceita. Destaque máximo para o duelo entre a gaita cromática e o piano elétrico, intermediado pelo vocal. Ao fim, o pianista disse, com essas palavras: “Muito obrigado. It was fun, it was hard”, referindo-se ao calor da disputa e à excelência da atuação.

Herbie_Hancock_In_Rio_19_11_2018_FOTO_Lorena_BrandEra aproximadamente 23:10 quando todos os músicos saíram do palco, mas antes Herbie avisa: “Agora ele vai fazer uma coisa sozinho e, quando acabar, vocês vão se perguntar: foi só um cara?”, e deixa o jovem Michael Mayo com a responsabilidade no microfone. Numa apresentação com gravações e loop de vozes ele apresenta um incrível cover de Chet Baker, com a canção “Alone Together”. Nessa hora inúmeros celulares apontaram para o cantor para registrar o que, de fato, parecia inacreditável fazer sozinho.

Após onze minutos todos voltam ao palco e Herbie arrisca mais uma frase em português: “É a última”. E puxaram, para felicidade da galera, “Cantaloupe Island”. No fim, ele apresenta novamente a banda e sai, para voltar com o piano elétrico no pescoço para, aí sim, tocar o som final. O bis ficou por conta da repetição de uma de suas canções mais aclamadas pelo público, a “Chameleon”, dessa vez reproduzida com outra pegada. Depois de seis minutos tocando e curtindo o momento com os presentes, ele volta ao teclado normal para teclar o fim do show.

Faltava apenas dez minutos para a meia noite quando de fato nenhum membro da banda ocupava mais o palco. Na plateia, repleta de gringos, idosos, jovens instrumentistas e fãs de boa música, dava para ver a expressão de felicidade em terem presenciado uma grande apresentação, mesmo que apenas com seis músicas no setlist. Apesar de estar beirando a casa dos 80 anos, Herbie Hancock inicia uma turnê nos EUA a partir de fevereiro e promete lançar um novo álbum. O disco deve contar com participações do rapper Kendrick Lamar e de jazzistas da nova geração como Kamasi Washington e Thundercat, além do DJ Flying Lotus.

Com a perspicácia de estar cercado de excelentes músicos, Herbie promoveu um show de talentos para apreciador de Jazz nenhum botar defeito. Resta agradecer a todos os envolvidos por trazer um nome como esse para os palcos do Brasil, desejar vida longa ao mestre do piano e, por fim, aguardar pelos novos trabalhos. - Texto: Cadu Oliveira - Fotos: Lorena Brand.

Postado por Michael Meneses segunda-feira, 26 de novembro de 2018 19:12:00 Categories: Chet Baker DJ Flying Lotus Funk Fusion Head Hunterts Herbie Hancock Jazz Kendrick Lamar Km de Vantagens Hall - RJ Marcelo D2 Miles Davis Show
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