SERGUEI - Partiu o último hippie!

O rocker mais antigo do país partiu na última sexta-feira, 7 de junho. Aos 85 anos, deixou seu “Templo” paraSerguei_Rock_in_Rio_2013_FOTO_Michael_Meneses florescer por outras galáxias. Sérgio Augusto morreu, mas eternizou um personagem inesquecível do rock nacional: Serguei! Nosso reconhecimento ao alegre músico que ajudou a escrever a história do rock no Brasil segue, e ao final da matéria, depoimentos de músicos, amigos e um caloroso relato de Paulo Sisinno, programador e produtor musical na Fluminense FM na década de 1980 e que naquela época conviveu de perto com Serguei!

Partiu o último hippie: adeus, Serguei!
TEXTO: Cadu Oliveira
DEPOIMENTOS: Michael Meneses
FOTOS: Ale Nogueira + Michael Meneses + Arquivo. 

 

Viveu em nome da liberdade, respirava a contracultura, falava a língua do sexo e psicodelia. Era uma entidade viva do rock Serguei_Rock_in_Rio_2013_FOTO_Michael_Menesesnacional. Após onze dias de internação no Hospital Zilda Arns, em Volta Redonda, o alucinado e eterno “Divino do Rock”, Serguei fez o dropout dessa existência.

Para escrever sobre ele, ou mesmo para ler sobre o tal Sérgio Augusto Bustamante, ou ainda para se mergulhar em busca da compreensão da essência dessa figura, é mesmo imprescindível um pouco de LSD. Porque não? Faz parte da imersão na sequela, na certa letargia, nos tiques e talvez alguma dislexia presente no ídolo, marcas de batalhas severas de noites e dias de tesão e delírio a fio. Sem falar nos cachorros, no museu e na dívida da padaria, em Saquarema.

"A vida é um álbum do Pink Floyd. Você não entende nada, mas acaba embarcando na onda. Aí faz sentido", disse Serguei no Twitter. Por lá, nos últimos anos, conseguiu destilar sua irreverência e deboche quanto ao atual governo e sua caretice. Também pudera, é experiente nisso. Em 1967, durante a ditadura, apareceu na Avenida Rio Branco com um cartaz escrito: “Abaixo o convencionalismo! Viva a alegria, viva a vida!!! Proclamo a autenticidade e o direito de ser jovem e feliz! Chega de guerra, chega de tristeza, chega de medo. A era nova chegou! Viva o Rio! Viva os 'Beatles'! Lanço meu grito de vida e meu protesto jovem”, carregou, vestido de Mao Tse Tung.

Serguei_e_Banda_Pandemonium_ACERVO_Nilson_Jr_Serguei_e_Banda_Pandemonium_FOTO_Ale_NogueiraTaxado como louco, visto como excêntrico e bissexual assumido. Morreu na última sexta-feira, dia 7 de junho, um ser que viveu a sei lá quantos anos à luz de seu tempo. Nascido em 1933, nem mesmo os mais experientes ciganos de Woodstock poderiam prever que, pelo ritmo da carruagem, ela duraria tanto tempo. Com 75 anos de idade esteve frente à frente com Jô Soares, junto com a banda Pandemonium (foto), em entrevista que começa com Serguei dizendo: “continuo com minha epiderme transbordando erotismo”, no que Jô pergunta se isso é doença Serguei_aniversário_de_80_anos_ACERVO_Mary_Vasconcelose ele rebate “não, não é doença. É uma festa na vida, né”.

Filho único nascido no Rio de Janeiro, ganhou o apelido pois tinha um amigo da Rússia que lhe chamava de “Serguei”, o correspondente a “Sérgio” em russo. O nome virou. Com 12 anos foi retirado do terceiro mundo e levado a Nova Iorque, onde viu de perto a efervescência dos movimentos estudantis e contracultura. Cerca de dez anos depois, voltou ao Brasil e teve breves carreiras profissionais. Primeiro no Banco Boavista, onde foi demitido. E depois ganhou os ares, conhecendo boa parte do mundo, como comissário de bordo nas empresas Loyd Aéreo, Cruzeiro do Sul, Panair e Varig, por onde colecionou outras demissões além de muitas histórias.

Serguei_e_Rodrigo_Santos_Rock_in_Rio_2013_FOTO_Michael_Meneses“Fale tudo que você tem contra o Rock ‘n Roll...”, provocou Antônio Abujamra certa vez, no que ele respondeu, risonho: “Nada. Ele nasceu em berço de ouro, de puro ouro e brilhantes”, e se infelizmente parte desse tesouro não iluminou o baú de Serguei, ele ainda assim soube viver e morrer de cabeça erguida, feito um soldado de sua cultura, batalhando pela manutenção de seu próprio museu: o do rock, o da vida livre, o do sonho hippie. O museu de nós mesmos, se pudéssemos ser um terço do que foi Serguei. Sua casa em Saquarema era considerada um “Templo do Rock”, e o que deve acontecer com esse espaço é uma metáfora do que deve estar acontecendo agora com o Rock. Uma de suas mais famosas histórias é que teve um romance com Janis Joplin. Não importa. O lábio carnudo que lembrava Mick Jagger dizia mesmo o que dava na telha. Não à toa, em seu primeiro compacto ele canta “As alucinações de Serguei”. Gritando e debochando da Jovem Guarda, quebrava tabus em 1966. 

Serguei_e_Banda_Pandemonium_Disco_ACERVO_Nilson_Jr_Serguei_e_Banda_PandemoniumPulando de gravadora em gravadora, viveu de compacto simples até 1984, época que tocava com a banda Cerebelo com quem lançou o EP "Sergei e a Sua Banda Cerebelo ‎– O Roqueiro Maldito". No single “Eu Sou Psicodélico” (1968) canta sem vergonha seu estilo de vida: “A vida para um hippie, é mais vida... o mundo é uma flor”. Em toda sua carreira, apenas um long play desabrochou. Foi o “Coleção de Vícios”, Serguei_Coletânea_2002lançado pela RCA/BMG Ariola em 1991. Já em 2009 com a banda Pandemonium, veio o CD “Bom Selvagem”, álbum gravado no estúdio do Big Joe Manfra na Ilha do Governador/RJ e distribuído pelo selo Blues Time Records. O disco contou releituras de sons antigos do Serguei, sons novos, alguns covers e teve participações de Jefferson Gonçalves (Baseado em Blues) e do próprio Big Joe Manfra. Outra importante dica em CD, é a coletânea: "Serguei" que saiu pela Baratos Afins em 2002 e que faz um apanhado de sons gravados por ele nesses EPs, desde a década de 60 até a fase com a banda Cerebelo nos anos 1980.


Ao longo desse quase um século de história, o cantor que também estudou teatro chegou a atuar no filme “Toda Vida em Quinze Minutos”. Fora isso,Serguei_e_Rodrigo_Santos_Rock_in_Rio_2013_FOTO_Michael_Meneses subiu duas vezes no palco de um dos maiores eventos de Rock do mundo, o Rock in Rio. Ele foi convidado na segunda edição do festival, que aconteceu no mesmo ano de lançamento do seu álbum. E depois, em 2013, dividiu o palco com Rodrigo Santos (foto), do Barão Vermelho, palco de algumas dessas fotos.

Serguei_e_seu ônibus_psicodelico_ACERVO_Mary_VasconcelosÉ claro que uma personalidade única como Serguei virou livro e filme. A obra literária foi publicada em 1997, com o título de “Serguei, o Anjo Maldito”, assinado por João Henrique Schiller, publicado pela CZA Editora. Já o documentário, “Serguei, o Anjo Maldito do Rock Brasileiro”, dirigido pelo cartunista Marcio Baraldi foi lançado em DVD duplo e conta com depoimentos de muita gente importante do rock nacional, amigos, imagens raras e com material disponível na internet. Baraldi também dirigiu um segundo doc, "Na Cama com Serguei". Ambos os filmes podem ser encontrado em lojas especializadas, mas uma dica é a Baratos Afins na Galeria do Rock em São Paulo, que aliás, é uma opção para encontrar seus discos.

Ele se aventurou a cantar algo como samba ou salsa em algum de seus compactos. Também chegou a se lançar político por sua cidade do coração. Mas o que fez de mais legítimo e apaixonado foi vestir a faceta do rock, sem titubear, transformando-se em um exímio representante da porralouquice.

Serguei_Rock_in_Rio_2013_FOTO_Michael_MenesesSerguei morreu. Vai para dentro do caixão, o mais antigo representante do rock nacional. Eu duvido muito que o presidente da república conceda honras em seu nome, como fez atualmente a respeito da morte do Mc Reaça. Mas tudo bem. Sua morte não deve ter tanta cobertura e comoção quanto se fosse o Rei. No entanto, eu consigo imaginar perfeitamente que país viveríamos se, ao invés de Roberto, tivesse Serguei no especial de natal. Pelo menos a prefeitura de Saquarema decretou luto de três dias. Seu “Museu do Rock”, (inaugurado em 29/7/2006, data de aniversário do editor aqui da Rock Press) que era administrado por ele, tem acervo composto por roupas, centenas de discos, premiações, livros, revistas, filmes em VHS e cartazes sobre o cantor e outros ídolos do gênero. O local é tido como ponto turístico da cidade. Ali deve descansar a alma empertigada de Serguei.

Certa vez, no programa Provocações, foi questionado: “O que você pretende encontrar ao morrer, além do imenso e silencioso nada?”. Respondeu: “Espero encontrar o rei do rock n' roll do Brasil, Sérgio Murilo e Celly Campelo, que juntos dominaram toda geração dos anos 50 e são, até hoje, incomparáveis”, disse. Quer dizer, não bateu saudade do Jimi nem da Janis... primeira gig no além vai ser nacional, provavelmente ao som de “Broto Legal”, dando boas-vindas a Serguei no céu, ou onde quer que esteja. Certamente, no limbo eterno entre símbolo da loucura e simulacro da psicodelia. Morreu o último hippie. E talvez tenha se extinguido a espécie, pelo menos no mainstrem.

A morte não é necessariamente ruim. Diferente de tantos ícones do Rock, Serguei viveu em abundância – se não financeira, sim de saúde e experimentações. Seu sucesso pessoal era intrínseco à postura de rockstar. Já muito velho e muito louco, devia dar trabalho na UTI, de onde fechou os olhos para sair da vida e entrar na história. Eternizado não só na obra musical, mas pelo estilo incompreendido. Não só nas canções, mas também em entrevistas memoráveis, cheias de humor e relatos de sexo. Pelos próximos meses e anos, num processo de decomposição em fractais, a terra há de comer uma refeição rara, repleta de inconformismo e iconoclastia. Dessa fertilização alucinógena, há de brotar flores analgésicas por cada canto onde um careta assobiar o hino nacional. Indo pelos lençóis freáticos, gotas de seu sangue lisérgico, hão de alcançar o centro da Terra. Lá, borbulhar por séculos, até numa erupção mágica de um solo de guitarra ou gozo na árvore, outra vez nascer Serguei. - Cadu Oliveira*.

DEPOIMENTOS:
Serguei_eNilson_Jr_ACERVO_Nilson_Jr_Serguei_e_Banda_PandemoniumNilson Jr. (Baixista da banda Pandemonium) - “O start para tocarmos juntos se deu no Circo Voador. Éramos a banda de apoio da Festa de Ploc e o Serguei, em meio à plateia e gritando “PARA TUDO, PARA TUDO...” pediu que todos sentassem, e cantou “Love of my life” do Queen. Fiquei impressionado é que em 1991 eu estava no Rock in Rio II com todo mundo interagindo. Tocar com ele era sempre um mistério, sabíamos quando começava uma música, mas na hora de terminar... cheio de energia ele dava as loucuras dele, mudava as músicas e a banda tinha que se virar para acompanhar, mas com o tempo fomos pegando as manias dele. Aqui no Rio, a receptividade era mais tranquila, talvez por ser local, mas quando viajávamos para Minas, Brasília, Espírito Santo... Era, todo mundo pedindo autógrafo, fotos... não conseguíamos nem andar direito em aeroportos e nas ruas, parecia um rockstar. Impressionante!”

Mary Vasconcelos (Amiga de Saquarema/RJ) – Por morar em Saquarema, sou maravilhada em ter conhecido o Serguei, um cara muito receptivo com as pessoas e com Serguei_e_Mary_Vasconcelos_ACERVO_Mary_Vasconcelosseus cachorros. Era o máximo estar sempre perto dele, era como estar perto dos meus grandes ídolos do rock and roll, sempre contava suas histórias, viagens, países que visitou, quem ele conheceu e tocou, o encontro dele com a Janis... Era muito bom ir a casa dele, e ouvir as mesmas histórias e eu não me cansava de ouvir, ele me recebia super bem e era muito gostoso de ouvir sua história, sentia que ele tinha uma necessidade de falar e reviver aquilo tudo. Ele tinha um amor platônico pelo meu filho mais novo, quando falávamos do meu filho os olhos dele brilhavam e ele até me dava uns conselhos para ficar de olho nele, com quem e onde ele andava... até brincava com ele dizendo: “Você daria uma boa nora!” e ele dava gargalhadas em ouvir isso (Risos). Serguei deixou altos legados por amar três coisas, uma é a cidade Saquarema, onde ele tocava e dava entrevistas ele falava da cidade, outra foram os cachorros, ele era vidrado e se ele pudesse ele pegava todos os cachorros que encontrasse na rua e o rock and roll, ele amava tocar, dar entrevistas, recebendo as pessoas em sua casa, que, aliás, ele também amava aquela casa com todo aquele acervo de quadros, revistas, jornais, bibelôs... Ele era muito receptivo e eu amava está ao lado dele e por já ter o beijado dizia: “Não foi só a Janis que você beijou, você também beijou, eu a Mary”! (Risos )”.

Paulo Sisinno – (Programador e Produtor Musical especializado em Rock e Heavy Metal na Rádio Fluminense FM, de 1982 a 1987, Ex-editor da Revista Metal e Professor) - Tendo trabalhado na Rádio Fluminense FM, a “Maldita”, no começo dos anos 80, tive a oportunidade de conhecer o histórico roqueiro Seguei, Paulo_Sisinno_e_Serguei_no_Lançamento_do_filme_da_Fluminense_FMe não apenas isso. O fato é que, naquela época, Serguei andava completamente esquecido, não só do grande público, mas até mesmo dos fãs de rock. E a Maldita FM teve um papel essencial na volta do grande roqueiro ao cenário musical. Como a Fluminense FM era uma estação alternativa, não comercial (só quem a ouviu na época tem uma ideia exata de como ela era), nós tínhamos a liberdade de escolher o que quiséssemos tocar, totalmente livres das músicas impostas por grandes gravadoras e pelas “paradas de sucessos” que sempre foram a camisa-de-força que aprisionava todas as outras estações de rádio do dial no RJ (e, no resto do país também, pelo que me consta). Nós, os programadores e produtores musicais da rádio Maldita, tocávamos de tudo (e não só Rock, como depois a rádio ficou mais conhecida): desde Blues e Fusion (Jazz-Rock), passando por MPB, até Hard Rock, Heavy Metal, Punk Rock e, claro, muito Rock brasileiro. Até por causa disso, a Maldita ficou muito conhecida, com toda justiça, como a principal plataforma de lançamento dos (na época) novos grupos de Rock nacional. Os músicos jovens ouviam a programação da rádio, que resgatava as joias do Rock brasileiro dos anos 60 e 70 (Mutantes, O Terço, A Bolha, Casa das Máquinas, Joelho de Porco, etc) e se animavam para ir nos levar os seus trabalhos, para nós lançarmos nas ondas do rádio. Daí nasceram as carreiras de, entre tantos outros, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Legião Urbana, Blitz, Celso Blues Boy e muitos mais. Esta história, aliás, está bem documentada em um livro que eu recomendo a todos: “Rádio Fluminense FM: A porta de entrada do rock brasileiro nos anos 80”, da jornalista Maria Estrella (Editora Outras Letras).
Sergei_O_Roqueiro Maldito_e_a_Sua_Banda_CerebeloAcontece que, lá na Maldita FM, nós não apenas lançamos os grupos novos da ‘Geração 80’, mas também resgatamos a obra musical de muitos roqueiros antigos, como Rita Lee e Raul Seixas, por exemplo, que também estavam meio esquecidos naquela época. Foi isso que animou Serguei a ir visitar a rádio e nos levar o primeiro compacto musical gravado por ele, na década de 60, “As alucinações de Sergei”. E nós voltamos a tocar este disco do roqueiro, o que fez com que o público voltasse a lembrar e falar dele e da sua importância histórica. Mais bacana ainda é que esta repercussão abriu as portas para que Serguei voltasse a fazer shows e fosse convidado para gravar de novo. E assim que saiu seu novo disco naquela época, “Hells Angels” (gravado com a boa banda Cerebelo), nós o tocamos muito na programação da Maldita. Isto ocasionou um verdadeiro renascimento e uma explosão na carreira musical de Serguei, que passou a apresentar-se no Circo Voador e, posteriormente, foi convidado para o Rock in Rio II, em 1991.
NãoSerguei_Coleção_de_Vícios_1991 é à toa que Serguei era profundamente grato à Maldita FM, tornando-se amigo dos programadores e produtores musicais, como eu. A propósito, também vale muito assistir ao filme-documentário “A Maldita”, sobre a Fluminense FM, dirigido pela cineasta Tetê Mattos, onde Serguei tem uma participação importante, dando um depoimento sobre a rádio e sua importância para o Rock brasileiro.
Por tudo isso, o falecimento de Serguei neste mês de junho representou não apenas a despedida do roqueiro histórico, um dos mais antigos e simbólicos do Brasil, mas também um amigo querido e uma pessoa que eu admirava demais.


 

Cadu Oliveira, é jornalista, colecionador de vinil e editor do Site Hempadão, o maior veículo especializado em canabis do Brasil. Acesse: https://hempadao.com/

Portal Rock Press