Saideira do Matanza: O último grito de um Monstro eterno! – 27/10/2018 - Circo Voador/RJ

Debaixo dos Arcos da Lapa, Matanza, a maior referencia do countrycore nacional se despediu do público carioca diante de casaMatanza_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIO cheia e apresentação histórica. O show marca o fim do grupo que teve vinte e dois anos de estrada. Pela última vez no palco do Circo Voador, Jimmy e companhia destilaram seus maiores sucessos para uma plateia apaixonada e fiel. A música perde um bastião consagrado do rock nacional. Os palcos do Brasil nunca mais terão tanto carvão, enxofre e salitre explodindo sob essa alcunha: Matanza!

Saideira do Matanza: O último grito de um Monstro eterno! – 27/10/2018 - Circo Voador/RJ
TEXTO: Cadu Oliveira - FOTOS: Carolina Moura

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Matanza_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOSonho de qualquer artista do mundo da música, o palco do Circo Voador foi cenário de uma noite repleta de HC e clima de despedida. Com abertura das bandas Circus Rock e Diabo Verde, o Circo pegou fogo com rodas punk quase ininterruptas, vocais potentes e muita cabeça balançado.
 

O Matanza nasceu em 1996, idealizado por Jimmy e o guitarrista Marcos Donida, até hoje integrante e compositor da banda, mas desde 2008 afastado dos palcos, aparecendo somente como músico de estúdio. O primeiro CD da banda foi gravado em dezembro do ano 2000 e lançado em março do ano seguinte, “Santa Madre Cassino”! De lá pra cá foram sete álbuns, muito sucesso, whisky e doidera.

A prova do fanatismo da galera pelo Matanza fica evidente ao ver o movimento na stand com produtos da banda. “O que mais sai são as camisas masculinas das grandes, tanto que já acabou tudo”, disse Kitia, de 35 anos, atendente na banca. Apesar da grande maioria reclamar sobre a notícia do fim da carreira, houve também quem concordasse: “Achei bom, cara. Uma hora tem que acabar, né?”, questionou Claudio Viola, designer de 47 anos, que foi lá presenciar seu primeiro – e último – show da banda.

Na noite de sábado 27 de outubro, diante de um público uniformizado com as camisas estampadas com álbuns e edições do “MatanzaFest”, Jimmy encerrou o show dizendo “esse foi o Matanza”, jogando a pá de cal sobre um monstro eterno do rock brasileiro. Antes disso, o palco recebeu duas bandas cariocas cheias de energia e posicionamento político. Somando-se ao fato de que era noite de pré-eleição, o clima era despedida e tensão, com pitadas de chuva fina.

Hard-Core de Abertura: Bandas cariocas estreando no Circo!

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Circus_Rock_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOAproximadamente às 23hs a Circus Rock, banda da Zona Norte do Rio, invade a cena com duas guitarras, baixo, batera e um vocal abusado. Apesar de alguns problemas técnicos com os cabos de uma das guitarras, a galera conseguiu sintonizar com o público e até promover o encontro das massas, com a separação entre Lado A e B no salão, pra depois começar a roda.

“Esse som nasceu antes da Circus e fala sobre o sonho de se ter uma banda”, avisou Bernardo Tavares (vocal) antes de lançar o som “Se Levante e Lute”. A levada da banda é hardcore com referências de metal e punk. E na hora de deixar a mensagem sobre o pleito do dia seguinte, o posicionamento ficou bem claro: “Se você é um fiscal de cu, vai tomar no cu! Não tem rock conservador. A gente sempre foi a resistência. O que que aconteceu com essa porra?!”, vocifera o vocalista, enquanto a plateia responde com coro de “#EleNão”.

Apresentação visivelmente emocionada da Circus, com destaque para as canções “Respeito e Liberdade”, “Invencíveis Jovens” e “Tempestade”. À meia noite de um dia histórico para o Brasil, entrou em campo o Diabo Verde. A primeira música do setlist é “Sankalpa”, música ainda não gravada que estará no próximo disco. E na sequência, “Escolhas”, “Levantar e Lutar” e “Nada é Impossível de Mudar”, canção que embalava o sonho da virada.

 

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Inaugurando a comunicação com a plateia, o vocal e guitarrista Paulinho Coruja chama a galera: “E ae, rapaziada, como é que tá? Diabo_Verde_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOQuem gostou faz barulho. O ódio não pode vencer, não... pro cara ficar propagando o ódio ele tem que ser muito filho da puta. E antes que eu me esqueça: Minoria é o caralho, nós somos a maioria”, disse, antes de chamar ao palco a participação especial do guitarrista Fabio Barreto, autor do som “Seus Amigos”, do Serial Killier e imortalizada pelo Planet Hemp.
 
A Diabo Verde aproveitou a noite especial para colher imagens para um novo clipe. Foi a centésima apresentação da banda, logo em um palco sagrado da como o Circo Voador. “Cara, tocar no Circo foi incrivelmente mágico, o lugar ali que a gente cresceu indo assistir show. Só tinha pisado lá pra trabalhar, como rodie e técnico de som (...) agora tocar um show inteiro, não sei nem como descrever, é a realização de um sonho” disse o guitarrista Marcus Iahn, explicando que todo o perrengue vale a pena, quando vê uma casa como aquela lotada, acompanhando e curtindo o som.

Foi uma hora de apresentação com doze músicas executadas. A Diabo Verde aposta em letras politizadas e mensagens positivas. A formação do palco contou também com Fabio Pires no baixo, Bruno Baiano na batera e Felipe Madureira, compondo o time de três guitarras. Vale sublinhar as canções “Senhor do Destino”, “O Mal não pode Triunfar”, “O Prisioneiro” e a última do show, “Saudades do Futuro”.

Entre as apresentações, DJ Fester comandou o som mecânico com clássicos nacionais e internacionais de HC, indie e afins. A produção precisou de meia hora para arrumar o palco e cenário, deixando tudo pronto para uma apresentação inesquecível.

O Fim sem Sarjeta do Clube dos Canalhas – Adeus, Matanza!

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Para entrada da banda principal o cenário ganhou caracterização e o espaço do público foi ficando cada vez mais entupido. O primeiro som, “O Chamado do Bar”, foi Matanza_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOcantado em coro absoluto, assim como boa parte do repertório, composto por indiscutíveis hits. “Uma puta sacanagem. Pra mim era a melhor banda de rock brasileira, não tinha que acabar”, disseram Hugo Suzuki e Gabriela Leal, de 21 e 18 anos, vendo juntos o quarto show da banda.

No palco a organização dos músicos é Dony Escobar no baixo, Jonas lá atrás na bateria, Jimmy London isolado nos falantes e Maurício Nogueira na guitarra, do lado direito. Apesar do entrosamento perfeito, os integrantes muito pouco interagiram no palco. Já o público não estava nem aí pra isso e balançava punho cerrado e cabelo ao vento, ao som de “Meio Psicopata”, “Country Core Funeral” e “O último Bar”, que teve canto coletivo do público geral.

Já eram uma e meia da manhã quando a casa foi abaixo com a execução de “Eu não Gosto de Ninguém”. Entre um som e outro, a plateia repetia o coro de “Hey, Jimmy, vai tomar no cu”, ouvido desde o início da apresentação. Com as luzes acessas, o vocalista fala com público: “Já passei muito aniversário no Circo Voador, já fiz muito Matanza Fest aqui, mas nunca vi nada assim”, reconhecendo o calor da galera.

Na sequência a banda ataca com “Santa Madre Cassino” e a roda se torna imensa. Logo em seguida vem a Matanza_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOmenos conhecida “A Sua Assinatura”, do disco mais recente, Pior Cenário Possível, de 2015. As próximas são para exalar e exaltar a violência visceral dos versos da banda, “Pé na Porta, Soco na Cara”, “Odiosa Natureza Humana” e “Tudo Errado”.

Após a décima música, Jimmy pede licença e diz “hoje eu vou ter que falar um pouquinho. Quero pedir palmas pra esses quatro malandros. Quatro malandros que nos fazem parecer profissionais, e não somos. Palmas, pois eles fazem parte de um puta clube, vocês sabem qual é?”, anunciou, sendo grato ao time, e chamando o “Clube dos Canalhas”.

Depois disso vieram as quatro arrebatadoras do psicológico humano: “Ela não me Perdoou”, “Conforme Disseram as Vozes”, “Remédios Demais” e “Mesa de Saloon”. Jimmy enfim fala sobre política, embora sem se posicionar: “Todo mundo sabe o que vai fazer amanhã? Não vai fazer merda que vocês já sabem... o que tá feito, tá feito”, avisou!

A combinação explosiva de canções faz a plateia ir ao delírio. “Mulher Diabo” e “Carvão Enxofre e Salitre” vem junto com “Interceptor V-6” e “Ressaca sem Fim”. Mais uma do álbum “Música para Beber e Brigar”, a vigésima canção do show é “Maldito Hippie Sujo”, sucedida das faixas títulos de álbum “A Arte do Insulto” e “Pior Cenário Possível”.

Na reta final do show, foi possível ouvir o primeiro coro dizendo “#EleNão”, no que a bateria veio junto, embalando. “Vocês acham que vou influenciar alguém? Nem fudendo”, disse Jimmy no mic. O setlist prossegue com “Todo ódio da Vingança de Jack Buffalo Head”, “Matanza em Idaho”, do álbum demo “Terror em Dashville”, e “Tempo Ruim”.

Provando seu eterno caráter de embriaguez, a banda avança com “Whisky para um Condenado”, “Rio de Whisky” e clássica “Eu Não Bebo Mais”. Outro ponto alto do show é a execução em coro de “Ela Roubou meu Caminhão”, com Jimmy a vontade comandando as rodas com o dedo indicador em riste.

Pra Matanza_no_Circo_Voador_27_10_2018_FOTO_Carolina_Moura_CRÉDITO_OBRIGATÓRIOterminar, “Estamos todos Bêbados” é introduzida como num ritual e “Bom é quando Faz Mal” encerra a história da banda em solo carioca. Aos gritos repetidos de “Matanza” o vocalista emblemático se despede sozinho do público, tira a camisa e doa a uma fã da grade. Após Jimmy sair do palco, os músicos entram e também se despedem timidamente.

A apresentação terminou às 2:55 da madruga e uma fila enorme já se formava em direção aos camarins. Às 4 da manhã ainda era possível ver Jimmy tirando foto com os fãs, numa despedida que, graças aos deuses do Rock, não significa o fim da carreira pessoal dos integrantes nem do ídolo da banda.

Como divulgado no perfil oficial do grupo no Instagram: “Encerramos com a certeza de um trabalho digno e honesto, e fechamos essa porta com a cabeça erguida. Muito obrigado a todos” publicaram em 29/10/18. Mas quem tem a agradecer somos nós. Matanza provou que é possível alcançar o sucesso sendo sujo, autêntico, provocativo. Mostrou que no Brasil também há espaço para rock de qualidade. Agressivo, divertido e escrachado, o grupo carioca dá adeus aos palcos, mas marca, com suor, sangue e whisky, seu capítulo no eterno livro de memórias do rock nacional. - Cadu Oliveira.

Postado por Michael Meneses quinta-feira, 1 de novembro de 2018 19:43:00 Categories: Circo Voador Circus Rock Diabo Verde Lapa/RJ Matanza
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