Rato no Rio 2018 - O Submundo voltando a ser melhor!

Pensar em domingo no Rio de Janeiro, é dar vida ao inconsciente coletivo de praias, Cristo-RRato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereiraedentor, Maracanã, Samba e outras tradições. Mas e o Rock?! Bom, o Rock sempre esteve presente em dezenas de shows que acontecem em clubes da cidade, da Baixada Fluminense e do Grande-Rio. Um desses é o lendário Rato no Rio, festival que fez história na primeira metade desse milênio na Zona Oeste Carioca e que volta a acontecer, agora no histórico Mackenzie no Méier na Zona Norte com as bandas Maya, Cara de Porco, Dark Tower e Tamuya Thrash Tribe.

Rato no Rio 2018 - O Submundo voltando a ser melhor!
Maya + Cara de Porco + Dark Tower + Tamuya Thrash Tribe
Clube Mackenzie – Méier/RJ - 9 de Dezembro - 2018
TEXTO Michael Meneses
FOTOS: Marcelo Pereira e Michael Meneses (Arquivo)

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA...
Público_no_Primeiro_Rato_no_Rio_em_2001_FOTO_Michael_MenesesNos primeiros meses de 2001, a juventude carioca ainda no clima da terceira edição do Rock in Rio, porém desanimada com o underground no subúrbio, poucas eram as opções de shows. De bom, apenas um memorável show do Ratos de Porão em Campo Grande que contou com abertura da Gangrena Gasosa que fazia ali seu último show no Brasil antes de seguir em turnê pelo velho continente. Foi nesse clima que Marcelo Mendes (Vocal da Cara de Porco) e Valcimar Lucas (na época autor do Zine MUZO-RJ - Movimento Underground da Zona Oeste/RJ e hoje vocal do Ataque Periférico), tiveram uma ideia mais ou menos assim: “Fazer um festival para movimentar o Rock na zona oeste e o subúrbio” afinal: “Quem não tem dinheiro para ir ao Rock In Rio são os ‘ratos’, então esse é o ‘Rato No Rio’”. Esse era o foco e no melhor estilo “Faça Você Mesmo” o festival surgiu com o nome em paródia ao Rock in Rio que naquele ano defendeu: “Rock in Rio - Por um Mundo Melhor”. 

Na primeira edição, os ingressos custaram 2 Reais para homens (ratinhos) e entrada gratuita para mulheres (ratinhas). A divulgação foi feita na base das centenas de pequenos flyers xerocados espalhados em lojas e nos raros eventos culturais da região, em especial o Conversa Afiada, que acontecia às quartas-feiras na Lona Cultural Hermeto Pascoal em Bangu. Ainda se popularizando, a divulgação via internet se limitou nas redes sociais, que naqueles tempos se resumiam em salas de bate-papo e ao ICQ (o Messenger da época), alias, foi por meio do ICQ que soube do Rato no Rio.

Tudo simples, porém feito na RAÇA e no AMOR, carregado de AMADORISMO, contudo forte pelo ideal do “FAÇA VOCÊ MESMO”. AssimGangrena_Gasosa_Rato_no_Rio_3_Ano_2001_primeiro_show_depois_da_Europa_FOTO_Michael_Meneses_CREDITO_OBRIGATORIO foi o primeiro Rato no Rio, um evento que além da equipe técnica e músicos a produção estimava um público de cerca de 100 RATINHOS (AS), mas teve um pequeno (louvável) erro de cálculo, afinal foram cerca de 400 RATÕES. Com o resultado acima do esperado, o estoque de bebidas se esgotou, coube à produção ir a um depósito de bebidas próximo renovar o estoque, que novamente se esgotou. E sim, a clássica batata-frita suburbana também não foi suficiente. Daquele domingo, a única coisa que não esgotou foi saudosismo e o reconhecimento que o Rato no Rio foi um divisor de águas na cultura alternativa carioca e sem dúvida o primeiro importante evento underground do Rio de Janeiro deste milênio.

Oito bandas tocaram naquele primeiro Rato no Rio, entre elas Freakanoise, Fokismo, Metal Hands, Cara de Porco e a Sexo Bloody & Mary que foi a primeira banda a tocar no evento. Com o sucesso, o festival passou a acontecer a cada dois meses, sempre no Salão Lumiar (Bangu) e melhorando a estrutura dentro do possível. A divulgação “boca-a-boca” de um show underground, eclético e reunindo cerca de 600 pessoas, despertou a atenção de bandas e publico de varias partes do Rio e de municípios como São Gonçalo, Niterói, Caxias, Nova Iguaçu, São João de Meriti, entre outros... 

APOIO: ROCK PRESS - Fotografei sem compromisso uns shows do primeiro Rato No Rio. Na época, iniciava meu estagio na Rock Press e durante o set da Freakanoise (Banda dos meus amigos de bairro e pioneira no HC-Melódico no subúrbio), fui apresentado como fotografo da revista. No dia seguinte a produção entrou em contato com a redação, surgia à parceria entre Rock Press e o Rato no Rio e já na edição seguinte os flyers anunciavam: “Distribuição de Revista Rock Press aos 200 Primeiros”. A promoção durou meses.

Correndo por fora, a cena suburbana se fortalecia, sugiram novos points como o Espaço Cultural 911 (Bento Ribeiro), Leo's Bar (Mal. Hermes), Casa da Zorra (Engenho de Dentro), Florença Rock Clube (Vicente de Carvalho) e outros. As Lonas Culturais que sempre foram uma referência artística no subúrbio também deram pautas ao rock, com direito a Ratos de Porão com Varukers na Lona Cultural Gilberto Gil em Realengo. Tempos depois, novos eventos deram cria, destaque para: Rio Metal Works (Méier), Full Metal (Campo Grande), Tomarock (Duque de Caxias), Noise Fest (Nova Iguaçu), isso só para citar alguns e até esse que escreve fez o Parayba Rock Fest (Bento Ribeiro).

Com a cena rock cheia de fôlego, novas bandas surgiram e todo fim de semana algum show acontecia no subúrbio. Em paralelo ressurge a moda das bandas e festivais covers. Era tanto show acontecendo que os eventos aconteciam no mesmo dia e horário, uma prática comum até hoje, mas que independente do estilo das bandas, sempre acaba por dividir o público, deixando os shows vazios. Quanto ao Rato no Rio, ele seguiu forte ao menos pelos três anos seguintes, com público que por vezes passou de 1000 pagantes, reza a lenda que Rogerio_Skalab_Festival_Rato_no_Rio_Bangu_2002_FOTO_Michael_Meneses_CREDITO_OBRIGATORIOaté a cantora Anita frequentou o evento no inicio de sua adolescência. Porém com o excesso de shows ocorrendo por todo Rio de Janeiro, repetição de bandas e a inclusão de bandas covers quebrando a essência do Rato No Rio (que sempre foi ter bandas autorais), o festival começou se esgotar. Tempos depois, o evento se tornou itinerante, saindo de Bangu e tendo edições em bairros como Campo Grande e Guadalupe.

Alem dos nomes citados, muitas bandas tocaram no Rato no Rio; A Kombi que Pega Criança, Netinhos de Dona Lazara, Coisa Ruim, Raiva HC, Setor Bronx, Facção Lertal, Pablo Verde, Filhotes, Gangrena Gasosa (Foto), Jason, Ataque Periférico, Leela, Uzomi, Matanza, Rogério Skalab(Foto), Statik Majik, Sociedade Armada (Santos/SP), Os Legais (Joinville/SC) entre outras, e ao menos dois shows internacionais aconteceram no evento Mogoth (HOL) e Chibuku (ALE).

A história (resumida) acima pode nem parecer, mas teve inicio há quase 20 anos, e mesmo que o evento tenha sido persistente por vários anos uma hora ele parou. Mas, “A Cutia deu Cria” e o RATO NO RIO VOLTOU!

RATO NO RIO 2018

Em uma parceria de Marcelo Mendes (Rato no Rio), com Fashion Produções, produtora lMacelinho_e_Debora_o_Casal_Rato_no_Rioiderada por Emilson Borges, veterano na produção de shows e pela Rio Metal Works e que na década de 2000 produziu shows memoráveis. O Rato no Rio retornou a animar as tardes de domingo no subúrbio carioca, o evento também marcou os 19 anos de atividade da banda Cara de Porco uma referência do rock bem humorado no Rio do Janeiro! Além da Cara de Porco, as bandas Maya, Dark Tower e Tamuya Thrash Tribe abrilhantaram o retorno do Rato no Rio. A produção também acertou na iluminação e sonorização que estavam prefeitos, e como não reconhecer a atuação do DJ Andre Luiz Cult da Rádio Cult que em meio a um show e outro preparou uma seleção de sons supimpas, indo de Dead Kennedys à Metamophose. Mas vamos aos shows...

MAYA – Formada por Gimmy (Vocal e Guitarra), Thiago Alves (Bateria), Renan Weignater (Baixo) e Gabriel Ferraz (Teclados), a banda Maya_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereirapromoveu o álbum Egophilia, cuja faixa título acabou de ganhar um clipe, a banda Maya deu a largada nesse novo momento do Rato no Rio. A banda não poupa esforços em apresentam tudo com bom gosto e não é diferente Maya_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereirano palco e estava segura de si, ao apresentar um som que funde influências dos anos 1970 com elementos dos anos 1990, mas cientes que o resultado tem que ser algo atual. Fizeram bonito e no futuro serão lembrados como a banda que abriu os trabalhos a nova versão Rato no Rio, assim como a Sexo Bloody & Mary até hoje é lembrada por ter feito o primeiro show da história do festival. Um dos pontos altos do set do Maya foi quando Renan Weignater fez uso de um Chapman Stick, (instrumento criado nos anos 1970 e mescla guitarra e baixo em um só), provando mais uma vez que todas as possibilidades estão abertas ao heavy metal.

CARA DE PORCO – Sabe aquela piada boba, mas que nunca perde a graça? Então, esse é o Cara de Porco! Perto de completar 20 anos Cara_de_Porco_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereirade zoeira a banda continua com seu humor ácido e arrancando sorriso, incluindo o mais trevoso fã de Black Metal. Não à toa, o show foi no formato “100% Black Metal”. Impossível olhar para osCara_de_Porco_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereira músicos e não rir deles usando um visual Corpse Paint a lá Secos & Molhados. Ao longo desses anos a banda deu vida a sons que estão no cancioneiro do underground popular carioca, como “O Padre Faz Meinha”, “Atirei Pedra na Cruz”, “Iron Maiden”... Mas, como toda piada precisa de renovação, tocaram sons do disco novo e que está no forno, o já intitulado “Cada Cão que Lamba sua Caceta”. Abriram o set com uma versão para “O Vira” do Secos & Molhados e com direito ao vocalista Redy Marinho (são dois vocais na banda) em visual “Ney Mato Gordo” e encerraram com seu hino “Quem tá no Rock é Prá se Fuder”.

DARK TOWER – Com a experiência de quem já rodou pelo Brasil, America Latina com shows sempre cheios de energia a banda Dark_Tower_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereiraapresentou seu Black/Death de força intensa. Fez um desses shows que dá gosto assistir. O set foi curto, com apenas seis sons, mas o suficiente para agradar aDark_Tower_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereira todos, sobretudo pelo fato dos músicos estarem literalmente em casa e com público nas mãos, em especial em “Dawn of Darkened Times” que contou com uma bela roda do público em resposta ao massacre que a banda executava. Vale lembrar que há alguns anos no mesmo palco a banda venceu a etapa carioca do W.O.A: Metal Battle. A nós damos a dica: Bandas o que o Dark Tower apresentou neste show é um exemplo a ser seguido, independente de estilos.

TAMUYA THRASH TRIBE – Em atividade desde 2010, o Tamuya vem conquistando seu espaço na cena heavy carioca, a formação conta Tamuya_Thrash_Tribe_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereiracom Luciano Vassan (Vocal e Guitarra), Leonardo Emmanoel (Guitarra), J.P. Mugrabi (Baixo), J.P. Rodrigues (Bateria) e a percussionista Paula Perez. A banda consegue fazer de forma natural à fusão de elementos da cultura Tamuya_Thrash_Tribe_Rato_No_Rio_9_12_2018_FOTO_Marcelo_Pereiranegra e indígena ao seu Thrash e o som tribal do Tamuya faz deles umas das bandas mais originais dos últimos anos no Rio de Janeiro. E se tem elementos afros e indígenas nas letras e no som, tem que ter um pensamento consciente no conjunto da obra. Logo, a banda não economizou em discursos anti-fascismo e no pedido bem claro do vocalista Luciano Vassan; “A Cena Tem que se unir e Pau no Cu do Bolsonaro”. O show ainda teve espaço para citações ao Nação Zumbi e para o “Canto das Três Raças” da imortal Clara Nunes que introduziu “Senzala/Favela” música da banda em parceria com o Rapper Marcelo D2 e que sem dúvida foi o ponto alto do show, mas se fosse possível a banda estaria no palco até agora, pois pique eles ainda tinham. 

E assim foi a volta do Rato no Rio ao circuito de eventos undergrounds do Rio. Com essa nova edição foi possível viajar no tempo. Desejamos vida longa ao festival e sugerimos ao público que prestigiem esses e outros eventos, pois no final a história será de todos nós, a história será da cena! – Michael Meneses!

Postado por Michael Meneses quarta-feira, 19 de dezembro de 2018 11:05:00 Categories: Cara de Porco Dark Tower Fashion Produções Maya Rato no Rio Festival Rio Metal Works Rock Brasil Rock Carioca Show Tamuya Thrash Tribe
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