PAUL McCARTNEY - De 1967 a 1970: Uma revolução musical!

Back in Brazil! Não falta muito para Paul McCartney chegar ao país com a Freshen Up Tour, que teráPaul_McCartney_dossiê_1967_à_1970 shows em São Paulo e Curitiba. Rock Press segue com o dossiê sobre sua vida e obra. Neste capítulo, abordaremos do disco “Sgt. Pepper’s” até a conturbada dissolução da banda.

Uma dúvida que começa a rolar na cabeça dos fãs é: será que ele vai tocar a música “Back In Brazil” em seus shows aqui? Até o momento, a canção que faz parte de seu mais recente álbum não entrou nas apresentações. Mas, em se tratando de Paul, é bem possível que ele faça essa reverência ao público brasileiro. Os ingressos para os shows no Allianz Park em São Paulo no dia 27 de março e para o Estádio Couto Pereira no dia 30 seguem à venda: https://bit.ly/2Danf47 (Para a primeira data de São Paulo (26/03), já estão esgotados). Enquanto não chega a hora do encontro com Paul, vamos continuar relembrando sua trajetória nesse terceiro capítulo. “You and I have memories longer than the road that stretches out ahead”.

DOSSIÊ: PAUL McCARTNEY – THE LONG AND WINDING ROAD
CAPÍTULO TRÊS – De 1967 a 1970: Uma revolução musical
TEXTO: Robert Moura – FOTOS: Divulgação

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Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band…
sgt_peppers_sessão_fotograficaCom o final das turnês, especulava-se o fim da banda. Porém, concentrados no estúdio, os Beatles puderam focar no disco que estabeleceria um novo e grande marco na música pop: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O nome vinha de uma ideia de Paul na qual eles se tornariam uma banda fictícia. Daí surgiria o chamado álbum conceitual. Ainda que o conceito original tenha prevalecido apenas nas duas versões da música “Sgt. Pepper” e “With A Little Help From My Friends”, o tratamento dado ao disco faz com que ele não possa deixar de ser considerado ao menos como o embrião do disco conceitual.

“Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” foram as duas primeiras músicas a serem gravadas. No Single_Penny_Lane_Iuguslávia_Japão_Italia_Alemanha_Beatles.jpgentanto, elas se tornariam um single (com duplo lado A) e ficariam fora do álbum. Ambas, tinham letras nostálgicas e davam seguimento aos experimentalismos da banda. “Strawberry Fields” fazia uso de um mellotron e tinha constantes mudanças de compasso. Na mesma pegada, “Penny Lane” tinha um solo de trompete. Pela primeira vez desde “Please Please Me”, um single dos Beatles não chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas ficando em segundo lugar (no entanto, ele alcançou o primeiro posto nos EUA).

John e Paul fizeram “With A Little Help From My Friends” especialmente para a voz de Ringo que no disco sLançamento_do_Album_Sgt_Pepperse torna o personagem Billy Shears. John compôs “Being For The Benefit Of Mr. Kite”, “Good Morning, Good Morning” e “Lucy In The Sky With Diamonds”. Um grande exemplo da contribuição entre Paul e John está em “A Day In The Life” na qual Paul inseriu outra canção na qual vinha trabalhando no meio da composição de John, ainda por terminar. Paul tirou do baú uma velha melodia que havia composto na adolescência no estilo vaudeville que se transformou em “When I’m Sixty-Four”. Ainda na linha de “Eleanor Rigby”, ele fez “She’s Leaving Home” (que tem arranjo orquestral de Mike Leander, uma vez que o ego de Paul não o permitiu esperar que George Martin cumprisse compromissos pré-agendados com a produção de um disco de Cilla Black). Mergulhado na música indiana George canta a sua “Within You Without You” que tem participação de músicos indianos juntamente com um de naipe de cordas. Paul contribuiu ainda com: “Fixing A Hole”, “Getting Better”, “Lovely Rita” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band(Reprise)”.

Sgt_Peppers_Musical_RevolutionÀs experimentações musicais e de técnicas de gravação, somou-se a influência de compositores da música clássica de vanguarda como Arnold Schöenberg, Luciano Berio e John Cage. Influências artísticas como pintura, teatro e cinema vinham se agregando ao trabalho dos Beatles, e eles passavam a dar cada vez mais atenção à confecção das capas do disco, sobretudo Paul. Em Sgt. Peppers, a arte da capa ficou sob o encargo do artista plástico Peter Blake que reuniu imagens de personalidades que os Beatles admiravam como os escritores Edgar Allan Poe, Aldous Huxley, Bernard Shaw e Lewis Carroll; os músicos Stockhausen, Bob Dylan; e atores Marlon Brandon, Marylin Monroe e Marlene Dietrich; entre outras personalidades; além das estátuas de cera dos Beatles, o velho parceiro, Stuart Stucliffe, e eles mesmos travestidos de membros da Sgt. Pepper’s Band. Outra inovação do disco foi trazer as letras impressas em sua contracapa. Toda essa arquitetura sonora foi realizada pelos Beatles gravando em apenas quatro canais, nos quais eles, juntamente com George Martin e o engenheiros de som Geoff Emerick se desdobravam em conseguir o melhor resultado possível. A partir de “Sgt. Pepper”, os Beatles definitivamente fariam jus ao apelido de FabFour.

O álbum foi lançado no dia primeiro de junho de 1967, e apenas três dias depois, Jimi Hendrix tocaria a faixa-título pela primeira vez ao vivo no Saville Theatre em Londres tendo os Beatles na plateia.

Linda Eastman...
Quatro dias antes do lançamento de Sgt. Pepper, Paul conheceu a fotógrafa americana Linda Eastman na Boate Bag O' Nails Club. Ela receberia um convite de Brian para a festa de lançamento do disco em sua casa, e causaria uma grande reviravolta na vida de Paul. Após o fim do relacionamento com Jane Asher, Paul começaria a estreitar os laços com Linda Louise Eastman (com que já iniciara um romance), e dois anos depois eles se casariam. Nascida em 1941, seu pai, Lee Eastman, era advogado, tendo representado músicos famosos como Tommy Dorsey e Hoagy Carmichael. A mãe, Louise, era herdeira das Lojas Linder. Ambos eram de origem judia. Louise morreu num desastre de avião, em 1962. No mesmo ano, Linda teria sua primeira filha, Heather Louise, fruto de seu casamento com Melvin See Jr.

Morte de Brian...
Durante um fim de semana no País de Gales para praticar meditação com o Maharishi Mahesh Yogi, os Beatles receberiam a notícia da morte de seu empresário Brian Epstein, em função de uma overdose de remédios. Ele vinha fazendo uso de diversos tipos de pílulas alternadamente, estimulantes e calmantes. Os Beatles ficaram arrasados com a morte do amigo. E, teriam de se desdobrar para administrar sua carreira.

Magical Mystery Tour...
Magical_Mystery_Tour_álbum_BeatlesA primeira realização dos Beatles, após a morte de Brian, foi o filme Magical Mystery Tour. Feito para a TV, ele foi baseado num roteiro idealizado por Paul que não passava de um gráfico com uma sugestão de oito segmentos sem quaisquer detalhes, como enredo ou falas. O filme seria gravado de forma improvisada. O ônibus amarelo com o título do filme pintado era uma das poucas coisas definidas na pré-produção. Inspirado em excursões que existiam no norte da Inglaterra, nas quais as pessoas entravam num ônibus sem saber para onde estavam indo, as chamadas “mystery tours” (quase sempre essas “viagens misteriosas” iam para a praia em Blackpool), eles encheram o ônibus com personagens caricatos e iam inventando as cenas de acordo com as ideias que apareciam. O filme foi ao ar em 26 de dezembro de 1967 na TV BBC como parte da programação natalina. Sem uma narrativa linear e com doses de surrealismo e nonsense, o filme desagradaria ao público e à crítica. Além do mais, cenas com teor psicodélico vistas nos aparelhos de TV em preto e branco (como foi transmitido no canal 1 da BBC) foram completamente arruinadas, e ainda que a versão em cores tenha ido ao ar no dia 5 de janeiro no canal 2 da emissora, o estrago já havia sido feito.

Se a investida deles como cineastas não foi muito bem sucedida, como músicos eles continuavam sendo infalíveis. As canções incluídas na trilha sonora mostravam que a criatividade da banda seguia em alta. A canção “Magical Mystery Tour” foi feita por John e Paul para a abertura do filme. Paul compôs “The Fool On The Hill”, uma inspirada balada apresentada num clipe single_All_you_need_is_love_Japão_Beatlesgravado em Nice, na França. A instrumental “Flying” é assinada pelos quatro. “Blue Jay Way” é o momento solo de George. “Your Mother Should Know”, composta no estilo music hall aparece na cena final com direito aos Beatles realizando uma coreografia e com a participação de membros da companhia de dança Peggy Spencer. “I Am The Walrus”, contundente música de John, fecha o repertório das canções apresentadas no filme. Lançado como um EP duplo na Inglaterra, a trilha sairia como um LP nos EUA com acréscimos das músicas lançadas previamente em singles: “Hello Goodbye”, “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane”, “Baby You’re A Rich Man” e “All You Need Is Love” (que havia sido apresentada pela banda em sua na participação no programa de TV Our World, em 25 de junho de 1967 na primeira transmissão mundial via satélite. Acredita-se que audiência alcançou 400 milhões de telespectadores).
 
A Apple Records...
Apple_Records_Logo_Album_BrancoCom a ideia de tomarem as rédeas dos próprios negócios, e também apoiarem e lançarem outros artistas, em abril de 1967, eles criariam sua própria gravadora, a Apple Records (James Taylor, Mary Hopkin, Modern Jazz Quartet e Badfinger são alguns dos artistas lançados por eles). A maçã do logotipo, veio do quadro “Le jeu de mourre” de René Magritte, pintor que Paul admirava, sendo inclusive proprietário do quadro em questão. A intenção era que arte viesse em primeiro lugar, e os artistas que tivessem uma ideia não precisassem se ajoelhar diante de algum executivo poderoso. A gravadora era uma das divisões da Apple Corps que contava com segmentos específicos para música, filmes, publicações, eletrônicos e uma boutique. Seus velhos parceiros estariam no negócio, entre eles: Neil Aspinall que seria o diretor executivo; Derek Taylor (ex-relações públicas da banda), chefe da assessoria de imprensa; Alistair Taylor (ex-funcionário de Brian) era chefe de escritório; e Mal Evans que seguia como assistente pessoal da banda. 

Em março de 1968, eles lançaram um single com as músicas “Lady Madonna” de Paul e “The Inner Light” Singles_Lady_Madonna_Beatlesde George. Para manter o costume, ele foi primeiro lugar da parada. E em agosto, saiu o compacto “Hey Jude”/“Revolution” inaugurando o selo Apple Records. Após dois anos sem participar de um programa de TV, eles apareceriam no programa de David Frost tocando “Hey Jude”.  A canção com letra terna foi composta para Julian, filho de John, então abatido pela separação dos pais. John, que considerava essa uma das obras-primas de Paul, pensou por algum tempo que a música fosse sobre ele.

Paul colaborou com alguns artistas contratados da Apple. Ele produziu a música “Those Are The Days” para a cantora Mary Hopkin (que ele mesmo contratou após vê-la num programa de TV) que alcançou o primeiro lugar da parada inglesa, e compôs “Goodbye”, com a qual ela chegou ao segundo lugar. Também compôs, arranjou e produziu “Come And Get It” para o Badfinger. Para Cilla Black, ele fez “Step Inside Love”. E, tocou em “Sour Milk Sea” de Jackie Lomax ao lado de Ringo, Clapton e George que a compôs e produziu.

White Álbum...
Encarte_do_Álbum_Branco_BeatlesUm dos primeiros álbuns duplos na história do rock (antes Dylan havia lançado “Blonde On Blonde” e Hendrix, “Eletric Ladyland”), também marcou o maior distanciamento da dupla Lennon/McCartney. Foi nesse período que o clima de ressentimento começou a se criar no ambiente da banda, e eles passaram a trabalhar separados em estúdio. Era comum que John estivesse numa sala, enquanto Paul gravava em outra, trabalhando em músicas diferentes. Atuando de forma mais independente, muitas vezes, as músicas parecem ser faixas solos de quem compôs, com o acompanhamento dos outros. E de fato, as contribuições de cada um dão pistas dos caminhos que eles seguiriam em suas carreiras solos. (Achando que não estava tocando bem, e desanimado com o clima entre os companheiros, Ringo abandonou a banda. Ele retornou, dias depois, encontrando sua bateria coberta de flores e ganhando novo ânimo).

Mosaico de estilos musicais, o disco apresentaria nada menos que 30(!) novas canções. Várias delas foram compostas durante o período john_e_paul_na_Índia_paul_saltzmanem que foram experimentar a meditação transcendental do Maharishi Mahesh Yogi em Rishikesh, na Índia (George e John ficariam dois meses, Ringo não resistiu mais que duas semanas e Paul permaneceu por um mês). “Back In The USSR”, feita por Paul, parodiava “Back In USA” de Chuck Berry e os vocais dos Beach Boys. Suas contribuições no disco incluíram uma leva de rocks mais pesados passando por “Why Don’t We Do It In The Road?”, “Birthday”, até desembocar na raivosa “Helter Skelter” (considerada uma das percussoras do heavy metal, ela nasceu do desejo de Paul superar a gravação da música “I Can See For Miles” do The Who, que o guitarrista Pete Townshend havia classificado como música mais pesada já feita até então); o reggae “Ob-La-Di, Ob-La-Da” (composta a partir da “frase-clichê” usada pelo percussionista nigeriano Jimmy Scott, amigo de Paul); as jazzísticas “Martha My Dear” e “Honey Pie” (nas quais Paul se destaca ao piano); e as baladas acústicas “Blackbird” (inspirada no bourrée da suíte BWV 996 de Bach e com letra em favor da luta das mulheres negras americanas pelos direitos civis), "Rocky Raccoon”, “I Will” (em que a linha do baixo é cantada por Paul), “Mother Nature’s Son” e a experimental “Wild Honey Pie”. John viria com “Glass Onion”, “The Continuing Story Of Bungalow Bill”, “Happiness Is A Warm Gun”, “I´m So Tired”, “Julia”, “Yer Blues”, “Everybody’s Got Something To Hide Except Me And My Monkey”, “Sexy Sadie” e “Dear Prudence”, “Revolution 1”, “Cry Baby Cry” (que trazia no final a faixa escondida “Can You Take Me Back” de Paul) e “Revolution 9”. George emplacou quatro músicas, “While My Guitar Gently Weeps” (com participação especial de Eric Clapton na guitarra), “Piggies”, “Long Long Long” e “Savoy Truffle”. E, até Ringo aparece como compositor em “Don´t Pass Me By”, além de cantar “Good Night” de John. (A criatividade deles parecia não ter fim,Mad_Day_Out_1968 pois, várias músicas ficaram fora do disco, sendo aproveitadas futuramente em trabalhos solos ou da banda como “Junk” de Paul, “Child Nature”, “Polythene Pam”, “Mean Mr. Mustard”, de John e “Not Guilty”, e “Circles” de George. Algumas ainda permanecem inéditas).

A capa,Álbum_Branco_Beatles criada por Richard Hamilton, surpreendeu por ser toda branca, e trazer como único detalhe o nome da banda escrito em relevo (o que rendeu ao disco o apelido de “Álbum Branco”, pois, oficialmente ele se chama “The Beatles”). O encarte contava com um pôster de recortes com as letras impressas atrás e uma foto individual de cada beatle. A contracapa também era toda branca e nas partes internas apenas os títulos das músicas e as mesmas fotos individuais em tamanho reduzido completavam o design minimalista.

Após a produção do “Álbum Branco”, John anunciou que queria o divórcio. Paul foi quem mais sentiu o choque. Além, de não desejar o fim da banda, era necessário considerar que estavam iniciando com a Apple, e sem os Beatles, a empresa perderia sua principal base de sustentação.

Get Back...
Get_Back_Beatles_EstúdioEm janeiro de 1969, eles iniciam novo projeto com o nome de “Get Back”, mais uma ideia de Paul, cuja intenção era fazer um filme que mostraria a banda compondo, arranjando e ensaiando novas canções que seriam gravadas num concerto ao vivo, mais do que isso, seria um retorno às sonoridades básicas. A direção do documentário ficaria por conta de Michael Lindsay-Hogg. Eles começaram trabalhando no estúdio Twickenham, mais tarde mudariam para o estúdio da Apple. Glyn Johns que havia assumido a produção musical (após Martin se cansar do clima ruim do ambiente) foi dispensando e George Martin reassumiria seu posto. Além de novas canções, eles também ensaiaram alguns números antigos como “Love Me Do” e “Every Little Thing”; e covers dos tempos de Liverpool: “Memphis, Tennesse” e “You Really Got A Hold On Me”.

O planejado show virou uma jam que ficou conhecida como Rooftop Concert, com os Beatles no terraço da Apple tocando as músicasRooftop_Beatles_Concert_Terraço_da_AppleGet Back”, “One After 909”, “Don´t Let Me Down”, “I’ve Got A Feeling” e “Dig A Pony”. Interrompidos pela polícia em razão do pequeno caos que começava a se formar nas ruas ao redor, John terminou a apresentação com as palavras: “agradeço em nome do grupo e espero que tenhamos passado na audição”. Foi a última vez que eles tocaram ao vivo. No geral, as gravações foram realizadas em ambiente bastante conturbado, e só melhoraram quando o tecladista Billy Preston foi trazido por George Harrison para participar de algumas faixas, pois, segundo George: “as pessoas costumam se comportar diante das visitas”. No período mais tenso, como Ringo já havia feito, George abandonou o grupo após uma discussão com Paul (na ocasião, John, talvez por brincadeira, simplesmente sugeriu chamar Eric Clapton para tocar a guitarra). Quando George voltou, eles ouviram as gravações, e como não gostaram, o projeto ficou engavetado...

Allen Klein...
As finanças da Apple começaram a apresentar problemas com grande evasão de dinheiro da companhia. Como solução, John sugeriu Allen Klein, que fora agente dos Rolling Stones, para tomar frente dos negócios (De acordo com Paul, John lhe disse que a escolha do empresário era pelo fato de ter sido o único do qual Yoko gostou, e já havia acertado para que ele tomasse conta de suas finanças pessoais). George e Ringo não se opuseram. No entanto, Paul havia ouvido falar da fama de desonesto do empresário, e seus modos rudes, também não o agradaram. Além do mais, Paul sugeriu a competente e respeitada firma Eastman & Eastman (do pai e irmão de Linda) para agenciá-los. Os outros três não viram com bons olhos a intenção de Paul colocar os parentes de sua namorada para administrar os negócios do grupo. No fim das contas, John Eastman foi contratado como advogado, e Allen Klein assumiu a direção da Apple, e passou a ser o empresário de Ringo, John e George. Com o intuito de dar uma limpa na empresa e conter gastos, ele chegou a demitir até Alistair Taylor, ex-assistente de Brian Epstein durante todo o período que ele empresariou os Beatles, tendo, inclusive acompanhado Brian naquela tarde em que ele foi ver a banda no Cavern Club pela primeira vez. Apesar da fama de ter uma má índole, Klein parecia saber fazer dinheiro. Ele conseguiu fechar bons acordos para os Beatles, incluindo a renegociação do contrato com a EMI/Capitol, que fizeram com que eles ganhassem mais dinheiro em dezoito meses com ele do que em todo período de Brian Epstein como empresário. No entanto, o tempo mostraria que foi um erro ter apostado nele.

Yellow Submarine...
Yellow_Submarine_FilmeA trilha do filme de animação “Yellow Submarine” saiu em fevereiro de 1969, trazendo no lado A músicas já lançadas previamente pelos Beatles (a faixa-título e “All You Need Is Love”) e as inéditas “Hey Bulldog” de John, “All Together Now” de Paul, e duas de George: “Only A Northern Song” e “It's All Too Much”. O lado B apresentava exclusivamente composiçõesYellow_Submarine_álbum_Beatles orquestrais de George Martin inseridas na trilha incidental que incluía também colagens musicais citando desde música indiana à obra de Bach e Stravinsky. Martin alcança alguns momentos de puro lirismo, como no tema “Pepperland”. A princípio o desenho foi menosprezado pelos Beatles que não se envolveram na produção, nem quiseram dublar suas vozes. Porém, ao verem o filme pronto, se entusiasmaram e participaram atuando nas últimas cenas.

"A Balada de Paul e Linda"...
Paul se casou com Linda em 12 de março de 1969 numa cerimônia civil simples, após a qual reuniu alguns Casamento_Paul_e_Linda_McCartneyamigos mais íntimos para um almoço (George e sua esposa Patti compareceriam apenas para o jantar, por terem passado o dia detidos, após uma batida em sua casa na qual a polícia encontrara entorpecentes). A notícia do casamento vazou na imprensa e uma multidão se concentrou na rua para ver os noivos, reavivando ecos da Beatlemania. Oito dias depois, John se casaria, em Gilbratar, com Yoko, artista plástica japonesa com quem já vivia há algum tempo (eles haviam se conhecido em 1966 numa exposição de Yoko). Durante a lua-de-mel em Amsterdã, eles fizeram o manifesto pela paz, Bed-In, no qual os dois permaneceram de pijamas na cama recebendo jornalistas para exporem seus ideais. “Give Peace A Chance” foi gravada nessa ocasião. O casamento também rendeu a música “The Ballad Of John e Yoko” (lançada como single com “Old Brown Shoe” de George no lado B) que teve apenas John e Paul na gravação, o primeiro ficou com as guitarras e o segundo com o baixo, piano, maracas e a bateria (na sessão de gravação que teve um ótimo clima Paul e John se trataram como Ringo e George, pelo fato do primeiro tocar a bateria e o segundo a guitarra solo). Yoko sempre foi apresentada como um dos pivôs da separação dos Beatles. Ela e John passaram a conviver todo o tempo junto, o que incluía sua presença em reuniões de negócios e mesmo durante as sessões de gravação da banda, o que desagradou não só aos outros Beatles, como ao próprio produtor George Martin e técnicos de estúdio, uma vez, que Yoko não se limitando apenas à sua presença, passara a palpitar sobre as gravações, chegando mesmo a se sentar à mesa de mixagem ao lado de Martin. O ponto culminante foi quando ela adoeceu, e John mandou instalar uma cama no estúdio, e ela recebeu um microfone para continuar comentando.

Ainda em março, Dick James vendeu os direitos das canções dos Beatles para Lew Grade da ATV. Anteriormente, John Eastman havia orientado os Beatles para que comprassem as cotas de Dick James, se tornando donos dos seus direitos autorais. Isso não era comum na época, e ele não foi ouvido.

Abbey Road...
Abbey_RoadLançado em setembro de 1969, não foi dito que esse seria o último álbum gravado dos Beatles, mas de alguma forma isso parecia subentendido por eles durante sua produção. E para tanto, sentiram que precisavam fechar com chave de ouro. Com receio do péssimo clima das últimas gravações, George Martin só aceitou participar do disco se tudo fosse feito como nos velhos tempos. O resultado é que desde “Sgt. Pepper”, eles não fariam um trabalho tão colaborativo. Canto do cisne é o lugar comum para se falar de “Abbey Road”. Cada um dos quatro trouxe algumas de suas melhores colaborações na história da banda. George criou dois clássicos “Here Comes The Sun” e “Something” (que seria o primeiro single com uma música sua como lado A).  Ringo compôs “Octopus’s Garden” (com uma pequena ajudinha de seu amigo, George). John fez “Come Together”, “I Want You (She’s So Heavy)”, “Sun King”, “Mean Mr. Mustard”, “Polythene Pam” (as duas últimas começaram a ser trabalhadas para o “Álbum Branco”), e “Because” (com outro arrebatador arranjo a três vozes cantado por ele, Paul e George, e provavelmente uma contribuição de Yoko em sua composição). Paul apresentou: “Maxwell’s Silver Hammer”,Abbey_Road_Fotos_Alternativas_The_Beatles “Oh! Darling”, “You Never Give Me Your Money”, e a suíte final (ou maratona como ele chamou) com “She Came in Through The Bathroon Window”, “Golden Slubers”, “Carry The Weight”, e “The End” (que não poderia encerrar de forma melhor o disco, além do duelo de guitarra feito por George, John e Paul, e o único solo de bateria gravado por Ringo, seus versos anunciavam diziam: “e no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá). Nos últimos sulcos do disco surge “Her Majesty”, uma vinheta composta por Paul que seria excluída do disco e introduzida ali acidentalmente pelo técnico de gravação, mas que acabou agradando e foi mantida.

“Paul is dead”...
Michigan_Daily_Paul_McCarteney_DeadA foto da capa na qual eles aparecem andando sobre a faixa de pedestre na Rua Abbey em frente ao estúdio foi feita pelo fotógrafo Iain Macmillian. O click reacenderia a história sobre “a morte de Paul” que circulou a partir de 1966. Um boato deu conta que ele havia morrido num acidente de carro, e vinha sendo substituído pelo sósia escocês William Campbell. O auge foi quando o jornalista Fred LaBour recebeu um telefonema de um homem dizendo que Paul estava morto, e resolveu ele mesmo “matá-lo”, por pura diversão. Ele publicou um artigo no Michigan Daily com as “evidências” que já haviam circulado e criando outras a partir das letras e discos. Baseado na capa de Abbey Road, ele criou “fatos” como: Paul estar descalço indicar que homens mortos não usam sapatos; os Beatles andavam em fila simulando uma marcha fúnebre, na qual Ringo seria um padre, John por causa de barba seria Jesus (outras versões davam conta que ele seria o médico legista por sua roupa branca, e Ringo um agente funerário), e George era o coveiro por sua roupa de brim. Às invenções de LaBour foram adicionadas outras como: Paul está de olhos fechados, e com o passo trocado em relação aos outros, o carro preto estacionado seria da funerária, a placa do fusca “IF28”, indica que “se” (“if” em inglês) estivesse vivo, ele teria 28 anos. Enfim, uma criatividade que até se assemelhava à dos Beatles ao criarem suas músicas. A história teve forte repercussão e acabou gerando boas vendas de Abbey Road e dos outros discos. Paul tiraria um sarro dessa história em “Paul Is Live”, lançado em 1993.

A separação...
John manifestou o desejo de sair dos Beatles, e Ringo assentiu por achar que não tinha mais como manter a banda unida. George também já não se sentia estimulado a seguir. Ele passou um tempo tocando na banda Delaney & Bonnie com Billy Preston e Eric Clapton. Paul insistiu que a banda deveria continuar, mas não obteve sucesso. A separação não foi tornada pública no primeiro momento a pedido de Allen Klein que ainda pretendia negociar alguns contratos com a EMI e isso poderia prejudicar.

Paul se isolaria um tempo em sua fazenda na Escócia com Linda, e as filhas Heather e a recém-nascida Mary. Ele se questionava se conseguiria continuar cantando e compondo. Finalmente, ele começou a fazer gravações caseiras, pensando em montar uma nova banda, embora considerasse difícil igualar aos Beatles. Por fim, ele lançou seu primeiro disco solo, “McCartney”, em 17 de abril. Ele chegou a brigar com Ringo quando este foi à sua casa tentar convencê-lo a mudar a data de lançamento do disco porque o filme Let It Be seria lançado duas semanas depois. Paul manteve a data, e aproveitou o lançamento do disco para anunciar sua saída dos Beatles, o que, segundo ele, irritou a John por querer ser o primeiro a dar a notícia.

1970 Let It Be...
Let_it_be_Album_BeatlesO disco e o filme documentário “Let It Be” foram lançados em maio de 1970. O filme acabaria por registrar o fim da banda, com as discussões, em especial entre Paul e George, o distanciamento de John, e a tristeza de Ringo. As gravações feitas para “Get Back” foram trabalhadas pelo produtor Phil Spector, por sugestão de John, e sem consultarem Paul. Phil remixou os tapes e colocou arranjos adicionais, como a orquestra e o coro na música “The Long And Winding Road” que desagradaram muito a Paul. De qualquer forma, as intervenções do produtor, não apagaram o brilho, dessa que é uma das maiores criações de Paul (lançada como single, ela foi primeiro lugar nos EUA). George Martin também não gostou nada do trabalho de Phil no disco, porém, Ringo, George e John se mostraram mais favoráveis. De Paul, também são: “Two Of Us”, “Get Back” e “Let It Be” (que compôs em memória de sua mãe Mary). “I´ve Got A Feeling” resgata os bons momentos de colaboração entre ele e John que inseriu um trecho da música “Everybody Have A Hard Year”, composta previamente por ele à canção de Paul. “One After 909”, é uma música dos primeiros dias de parceria resgatada por John e Paul para o projeto. São de John: “Dig A Pony”, “Across The Universe” e “Dig It”; e de George: “For You Blue” e “I Me Mine” (que foi gravada em janeiro de 1970 na última sessão de gravação da banda, sem com a participação de John). “Maggie Mae” é uma velha canção tradicional inglesa com um arranjo assinado pelos quatro. O material dessas gravações ainda renderia a música “Don’t Let Me Down” lançada como lado B do single “Get Back”. Já o ultimo single lançado por eles, “Let It Be”, traz a inédita, “You Know My Name (Look Up The Number”).

"The End"...
Desde seus primeiros anos, os Beatles demonstravam talento, criatividade e originalidade. As frequentes mudanças de direcionamento procurando não repetir fórmulas fizeram com que a banda desenvolvesse uma obra grande e plural. Assim, como recebiam influências de artistas dos mais diversos estilos, eles replicaram a influência de volta. É um grande desafio encontrar músicos que não sejam influenciados direto ou indiretamente pelos Fab Four. A longevidade de seus trabalhos parece não ter fim, basta ver o interesse geral a cada novo lançamento com uma ou outra novidade, versões alternativas de canções, como tem ocorrido com a série “Anthology”, “Live At BBC”, ou as novas versões dos velhos discos, como mais recentemente o “Álbum Branco”. A força da obra Beatles_última_sessão_de_fotos“Monstro de Quatro Cabeças” (como eles mesmos se apelidaram) não se limitou à música, encontrando lugar nas outras artes como o cinema ou a literatura. Era natural que depois de terem construído tantas coisas juntos, seus interesses se tornassem diferentes e mesmo conflitantes. Para George, eles haviam se tornado individualmente maior do que os Beatles. John sentia-se limitado para realizar suas ideias, e muito do que eles vinham fazendo já não o interessava. Anos depois, Paul diria: “Não importa quando nos separamos, nós ainda somos muito ligados. Nós somos as únicas quatro pessoas que viram toda a beatlemania de dentro para fora, portanto estamos atados para sempre, aconteça o que acontecer”.

Quanto aos motivos da separação dos Beatles poderem ter sido: a morte de Brian Epstein; a presença de Yoko Ono; a intervenção de Allen Klein; ou uma natural saturação por um trabalho tão intenso e desejo de partirem para outros caminhos; ou soma de tudo isso reunida a fatos que não se tornaram públicos, já não importa. O que importa é o que fizeram enquanto juntos. E, definitivamente, os Beatles unidos resultavam numa soma maior do que as partes. – Robert Moura.

No próximo capítulo, os primeiros trabalhos solos de Paul e sua nova banda, Wings, com a qual ele se manteria no topo das paradas.

 

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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