PAUL McCARTNEY – O grande clássico de volta ao Brasil

Paul McCartney e banda fazem dois shows arrasadores em São PauloPaul_McCartney_FOTO_@MarcosHermes com a “Freshen Up Tour”. Mesmo sem surpresas no repertório que já vinha sendo apresentado na turnê, à exceção de “Back In Brazil” que foi tocada antes apenas no Chile, Paul mantém a magia empolgante de seus concertos. Saiba mais na matéria que segue...

Paul McCartney – O grande clássico de volta ao Brasil!
 Freshen Up Tour – Allianz Park, São Paulo, dias 26 e 27/03/2019
TEXTO: Robert Moura – FOTOS: Marcos Hermes

26 de março – primeira noite...
Paul_McCartney_FOTO_@MarcosHermesUm show de Paul McCartney é como um grande clássico de futebol: ele sempre mobiliza multidões, mesmo quem não está diretamente ligado; e seu impacto pode ser notado antes, durante e depois da realização. Não por acaso, normalmente ele se apresenta em estádios de futebol, ou espaços similares que consigam abarcar a multidão que se reúne para vê-lo. Não foi diferente nos dois shows que ele fez na arena Allianz Park em São Paulo nas noites de 27 e 28 de março. Antes, é claro, tem toda aquela expectativa de alguns meses, desde o anúncio das apresentações, o início da venda dos ingressos, as especulações sobre o repertório, quais serão as novidades, e quais músicas serão cortadas. Quando chega o dia de ver o cara é necessário todo um planejamento de como ir, sair mais cedo do trabalho quando necessário, onde encontrar a turma para fazer as “preliminares”, tomar uma cervejinha, comer alguma coisa para se sustentar durante as quase três horas de show (mais as que o antecedem). Quando chega a hora de ver o cara entrar no gramado... quer dizer, no palco, é aquela explosão. No caso de Paul, uma discotecagem vai preparando o clima, seguido por um vídeo de cerca de 30 minutos que mostra imagens de sua carreira e sempre cumpre com eficiência o papel de deixar todos atentos para sua entrada. Após, alguns acenos para o público, ele dá o pontapé inicial. Na “Freshen Up Tour”, ele tem feito isso com “A Hard Day’s Night”, e seu tonitruante acorde inicial capaz de arrepiar cada pelo do nosso sistema auditivo. O público já se entrega. A vendedora ambulante pede um minutinho ao cliente para poder também registrar o momento em seu celular. Ninguém é indiferente a um show de McCartney. 

Em seguida, ele toca “Save Us”, do álbum “New” (2013), que surpreendeu por não ser muito esperada. Depois dela, ele dá o seu tradicional “boa noitchê” em português e anuncia que irá tocar “canções antigas, novas e algo no meio”, e toca uma das antigas: “All My Loving”. Vem então, “Letting Go” dos Wings que traz a primeira participação do naipe de metais “The Hot City Horns” (formado por Kenji Fenton no sax, Mike Davis no trompete e Paul Burton no trombone) que adicionou muito à banda, deixando o som mais orgânico (normalmente Paul “Wix” Wickens é responsável por reproduzir as partes dos metais nos teclados). Aproveitando a entrada dos metais,Paul_McCartney_FOTO_@MarcosHermes surgem: a nova “Who Cares” (do novo álbum “Egypt Station”, 2018), “Got To Get Into My Life”, certamente uma das que mais se beneficiam com o “City Horns”, e “Come On To Me” (também de “Egypt Station”). Em “Let Me Roll It” que parece ter sido composta para ser tocada ao vivo, Paul troca seu indefectível baixo Höfner pela guitarra e aproveita para saudar o maior guitarrista da história do rock, Jimi Hendrix, emendando com um trecho de “Foxy Lady”. Ela é sucedida por “I’ve Got A Feeling”, em versão com bastante peso nas guitarras (tocadas por Paul e Rusty) e a bateria destruidora de Abe. Para, quem já viu algumas apresentações de Paul com essa banda que toca com ele desde 2002, e conta com Rusty Anderson (guitarra, violão e vocais), Brian Ray (guitarra, violão, baixo e vocais), Paul “Wix” Wickens (teclados, violão e vocais) e Abraham “Abe” Laboriel Jr. (bateria e vocais), a sensação era de estar rolando uma “vibe” extra entre eles, que brincavam muito entre si e demonstravam enorme satisfação de estar ali.

A Paul_McCartney_FOTO_@MarcosHermesmúsica “Let ‘Em In” conduz Paul pela primeira ao piano. “My Valentine” tem dedicatória especial à musa inspiradora, sua esposa Nancy Shevell. Ainda ao piano, ele toca “Nineteen Hundred Eight Five” e “Maybe I’m Amazed” que mostra que sua garganta “vai bem, obrigado”. O tecladista “Wix” brinca gesticulando que ele vai arrebentar suas pregas vocais cantando aquelas notas agudas com a voz “rasgada”. Para dar um refresco, vem um set acústico com “I’ve Just Seen A Face”, “In Spite Of All The Danger” (composição de Paul e George Harrison, que ele faz questão de lembrar ter sido ela a primeira música gravada pelos Beatles), “From Me To You”, “Dance Tonight” (que Paul toca no bandolim, enquanto Abe leva a plateia ao delírio ao realizar uma divertida coreografia para a dançante música), “Love Me Do”, “Blackbird” (na qual ele lembrou a importância dos direitos humanos. A música composta por ele e lançada no “Álbum Branco” em 1968, foi inspirada na luta das mulheres negras norte-americanas pelos direitos civis), e “Here Today” (que ele compôs em homenagem ao seu “irmão John”, como disse no show). Nessas duas últimas, ele canta sozinho se acompanhando ao violão, e é erguido em um praticável que o deixa alguns metros acima da altura normal do palco. Ele volta ao piano em “Queenie Eye” (também do disco “New”), e “Lady Madonna”, que tem a projeção no telão de mulheres anônimas e famosas de diversas etnias, entre elas a jogadora de futebol, Martha que aparece numa foto em partida realizada entre a seleção brasileira e a inglesa. Talvez, pensando numa sequência temática, ele emenda com outra personagem de sua criação, “Eleanor Rigby”. 

Um momento que vinha sendo esperado por boa parte do público que acompanha a carreira de PaulPaul_McCartney_FOTO_@MarcosHermes mais de perto, era a execução de “Back In Brazil”, música dedicada ao nosso país que ele começou a compor durante uma passagem por aqui. Antes, ele a tocou apenas no Chile, tirando-a do setlist da Argentina. No entanto, a canção não parece ter empolgado muito o público, apesar de algumas pessoas agitarem balões nas cores da bandeira do Brasil. Pode ser também, que ele não tenha gostado da performance, o fato é que a música não foi tocada no show do dia seguinte. Já, a também nova “Fuh You” funcionou muito bem, mesmo também não sendo muito conhecida. O clima sessentista reapareceu com o psicodelismo de “Being For The Benefit Of Mr. Kite!” do histórico álbum, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Com o ukulele que ganhou de presente de George Harrison em punho, Paul inicia “Something” sozinho, e a banda se junta a ele no meio da música, quando Rusty executa o belo solo feito originalmente por George. Um dos momentos mais comoventes da noite. Tão comovente que Paul que também costuma se emocionar nessa, sempre coloca uma música mais agitada na sequência para reanimar o ambiente. Nesse caso foi a divertida “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, que faz todo mundo virar criança novamente. Aliás, tinha uma porção delas por lá, curtindo o show tanto quanto as mães, pais, avós e avôs. “Band On The Run” surge com um espetáculo à parte na iluminação. “Back In The USSR” segue com o clima contagiante, antes de Paul voltar ao piano para a sequência final com “Let It Be” (com o já esperado espetáculo feito pelo público com as Paul_McCartney_FOTO_@MarcosHermeslanternas dos celulares), “Live And Let Die” (com seu show de fogos de artifícios que, infelizmente, teve algum problema na primeira noite, e não foram vistas as explosão espetaculares que acontecem no palco), e a comunhão produzida por “Hey Jude” (a ótima ideia de um grupo de fãs que distribuiu cartazes com a sílaba “Na” para o público levantar ao final da canção no Rio de Janeiro em 2011, tem sido reaproveitada pelos patrocinadores que fizeram o mesmo, porém, sem a espontaneidade original quando Paul e banda foram surpreendidos pelo efeito gerado).

Um show de Paul nunca acaba sem bis (assim como os acréscimos no futebol), e ele voltou com a grande surpresa da noite que não foi nenhuma música que ele tocou, mas sim, uma que ele deixou de tocar, “Yesterday”. Como de costume, Paul sobe ao palco com a bandeira do país em que estão tocando, e os músicos se alternam tremulando uma bandeira do Reino Unido e outra do movimento LGBT. O bis se deu com “Hi, Hi, Hi”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”, “Helter Skelter” (que ele continua cantando de forma impecável após duas horas e meia de apresentação), e “Golden Slumbers/Carry The Weight/The End”. Um “gran finale” perfeito que deixou a sensação de termos visto um grande jogo, no qual todos saíram campeões!

27 de março – segunda noite...
A expectativa para as possíveis variações no repertório no segundo dia que se cumpriram em parte. “A Hard Day’s Night” foi mantida na abertura, apesar de especulações de uma troca por “Magical Mystery Tour”. No lugar de “Save Us”, entrou “Junior’s Farm”; “All My Loving” foi substituída por “Can’t Buy Me Love”; “I’ve JPaul_McCartney_FOTO_@MarcosHermesust Seen A Face” saiu para a entrada de “We Can Work It Out”; e como não precisava seguir a Regra Três do futebol, uma quarta alteração foi feita: “Hi, Hi, Hi” foi trocada por “Birthday” (dedicada à Wix, o aniversariante do dia. Antes dela, ainda rolou uma versão improvisada de “Happy Birthday To You”. Aliás, com a entrada do naipe de metais, a responsabilidade de Wix diminuiu um pouco, e ele parece tocar bem mais solto, e se divertindo mais).

Algo levou Paul às lágrimas em “Let ‘Em In”, muito provavelmente, a reação da plateia. No final da canção, ele falou com a voz embargada e dedicou “My Valentine” novamente a Nancy, e enxugou mais uma lágrima quando ela terminou. Em “Here Today”, como é até comum, ele pareceu tomado da mesma emoção. Mas, o clima era de alegria, e em determinado momento ele mandou até um “tamô junto” arrancando gargalhadas de aprovação das pessoas. No final de “Back In The USSR”, o público continuou cantando os vocais do coro (aquele “uh uh uh” agudinho), e Paul, que se dirigia ao piano, acompanhou tocando alguns acordes. Mesmo num espetáculo dessas proporções, devidamente ensaiado, ele se permite improvisar, não esquecendo que essa é uma das características básicas do Rock’n’Roll. 

Apesar de apenas uma música a menos, “Back In Brazil” (que ele voltaria a tocar no showPaul_McCartney_FOTO_@MarcosHermes de Curitiba), a sensação é que o segundo show passou bem mais rápido que o anterior. Quando se aproximava do fim não parecia ter mais de duas horas que Paul estava no palco. Mesmo o bis, parece ter ocorrido num estalar de dedos, ainda que tenham sido novamente com cinco músicas. Dos fãs aficionados a quem foi ao show por curiosidade ou apenas como acompanhante, àqueles que estavam lá por trabalho, eu desafio que se encontre alguém que tenha ido embora insatisfeito ou triste para casa (assim como desafio alguém a escrever uma resenha sobre um show desse cara sem usar superlativos). Foram noites mágicas na companhia do Sir James Paul McCartney. A passagem da “Freshen Up Tour” pelo Brasil foi uma vitória por goleada com direito a gols de placa! – Robert Moura.


Durante os dois últimos meses a Rock Press publicou um dossiê sobre Paul McCartney, que pode ser conferido em: http://portalrockpress.com.br/dossies

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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