PAUL McCARTNEY - Os anos 1980: Solos e duetos

Há menos de um mês para os shows de Paul McCartney no Brasil que terão como cenários asPaul_McCartney_dossiê_1980_à_1989 cidades de São Paulo e Curitiba, vamos relembrar como ele viveu os anos 1980. Momentos distintos com a traumática morte de John Lennon, e os novos rumos musicais, agora em carreira solo.

DOSSIÊ: PAUL McCARTNEY – THE LONG AND WINDING ROAD
CAPÍTULO 5 – Os anos 1980: Solos e duetos
TEXTO: Robert Moura – FOTOS: Divulgação

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A década de 1980 seria de muitas (e antagônicas) emoções para Paul, começando pela prisão no Japão e o assassinato de John Lennon. Entre altos e baixos, ele gravaria álbuns aclamados como “Tug Of War” e “Flowers In The Dirt"; e por outro lado, faria o mal-sucedido filme “Give My Regards To Broad Street”, e o incompreendido disco “Press To Play”. Duetos com Michael Jackson e Stevie Wonder reafirmariam sua importância na cena musical, e em frequente busca por auto-superação, retornaria aos palcos com uma grandiosa turnê mundial. Três décadas depois, ele segue incansável, rodando o planeta com sua música. A próxima parada é no Brasil com shows em São Paulo (26 e 27/3) e Curitiba (30/03). Ingressos à venda em: https://bit.ly/2Danf47. Aproveitando que os anos 1980 estão na moda, vamos relembrar como Paul viveu aquele período. “I'd be happy to show you a bit of what I found!!!”
 
O fim dos Wings e a carreira solo...
McCartney_IIApós a prisão no Japão, Paul McCartney resolveu descansar por um tempo. A pausa, entre outros motivos, acabou resultando na separação dos Wings. Assim, a segunda grande banda de Paul terminava de forma abrupta. Bottom_pela_libertação_de_Paul_McCartney_no_JapãoEle havia gravado um novo álbum solo durante o primeiro semestre de 1979. No entanto, só sairia em 1980, exatos dez anos depois do primeiro. O título não poderia ser outro senão, “McCartney II”. Seguindo a experiência anterior, ele gravou tudo sozinho. Se no primeiro disco solo, os instrumentos acústicos e os elétricos gravados de forma crua prevaleceram, dessa vez, Paul exploraria os eletrônicos e digitais. Ele alugou um gravador de 16 canais e gravou o disco por pura diversão. Pode-se perceber isso em faixas como “Front Parlour”, “Frozen Jap”, “Temporary Secretary”, “Nobody Knows”, “Summer Day’s Song”, “Bogey Music” e “Darkroon”. Por outro lado, temos o blues “On The Way”, e as baladas “Waterfalls” e “One Of These Days” que com um pouquinho mais de esmero, poderiam figurar em qualquer deSingle_Paul_McCartney_Coming_Up seus discos mais sérios, digamos assim. Depois de ouvir as gravações Paul_Mccartney_Estúdio_da_fazenda_na_Escócianuma fita cassete, ele se deu conta que soava como um álbum e resolveu lançá-lo. A foto da capa foi feita, claro, por Linda. Paul cogitou lançar um álbum duplo, porém, o mercado não vivia um bom momento e faixas como “Blue Sway”, “Bogey Wobble”, “Secret Friend”, “Mr. H Atom”/“You Know I’ll Get You Baby” e “All Your Horse Riders” ficariam arquivadas (elas seriam lançadas oficialmente em 2011 numa edição especial). As sessões renderiam o single “Waterfalls”/ “Check My Machine”. A faixa de abertura, “Coming Up” (lançada como single com uma versão ao vivo e “Lunch Box – Odd Sox”), que já vinha sendo tocada em shows pelos Wings, tornou-se o grande sucesso do disco.

Entre os milhões de ouvintes que "Coming Up” conquistou, havia um especial: John Lennon. Foi depois de ouvi-la no rádio que John decidiu voltar a gravar, após uma pausa de cinco anos. As novas canções de John foram lançadas em “Double Fantasy”. O videoclipe ajudou muito em sua divulgação. O formato John_Lennon_Double_Fantasyque já era um padrão no mercado e foi bastante utilizado com os Wings, teve um de seus melhores momentos numa produção de Paul. Ele aproveitou para homenagear outros músicos, aparecendo travestido de Buddy Holly, Hank Marvin, David Gilmour, John Boham, Frank Zappa, Ron Mael. A superbanda que conta a participação de Linda, chama-se Plastic Macs Band, numa referência à Plastic Ono Band e à Jim Mac’s Band do pai de Paul.

Denny Laine lançou em dezembro de 1980, “Japanese Tears” que tinha a participação de Paul nas músicas: “Send Me The Heart” (na qual é parceiro e toca o baixo) e; “I Would Only Smile” e “Weep For Love”, ambas com os Wings.

Brother John...
Lennon_and_MccartneyNa manhã de 9 de dezembro, Paul recebeu uma ligação de seu empresário, Steve Shrimpton, que o comunicou que John Lennon havia sido assassinado na noite anterior quando chegava ao Dakota, prédio em que morava em Nova York. Ele fora baleado por um jovem que se dizia seu fã. Nunca foi possível dizer ao certo o que teria motivado o crime. (John retornava do estúdio com Yoko por volta das 23h, ao descer do carro, ouviu alguém lhe chamar. Ele se virou, e um jovem, que Lennon_and_Mccartneyhoras mais cedo havia lhe pedido para autografar uma cópia de “Double Fantasy”, apontava um revólver em sua direção. Ele disparou cinco vezes contra John que caiu no chão. O assassino não tentou fugir, simplesmente sentou-se alguns metros à frente na calçada à espera da polícia. Ele foi condenado à prisão perpétua. Seu nome? Não se faz necessário citar, é melhor denominá-lo usando as palavras de McCartney: “o maior idiota entre os idiotas”). Paul que estava sozinho em casa sentou-se nos degraus da porta, e assim, Linda, que deixara os filhos na escola e acabara de retornar, o encontrou em total estado de desolação e choque. Ele ligou para o irmão Mike, mas não conseguiu falar, e mais tarde recebeu uma ligação de Yoko. Atônito, e sem saber o que fazer, ele decidiu cumprir o compromisso do dia: ir para o estúdio trabalhar. Antes, ele fez uma declaração aos jornalistas que se aglomeravam em frente à sua casa: “No momento, ainda não consigo assimilar isso. John era um grande homem e será lembrado por suas inigualáveis contribuições à arte, à música e à paz mundial”
 
Paul estava gravando com George Martin. Provavelmente, naquele momento não haveria ninguém melhor do que Martin, além de Ringo e George, para Paul dividir a tristeza (George Harrison também passou o dia em um estúdio, e Ringo que estava nas Bahamas foi para Nova York ver Yoko). Assim, como que para se recuperarem do choque, Paul e Martin tentaram mexer em algumas gravações, mas não tiveram uma tarde produtiva. Ao sair do estúdio vários repórteres o aguardavam. Ao responder como estava se sentindo, ele apenas disse: “Isso é uma chatice”. Tudo que ele queria era que eles respeitassem sua privacidade naquele momento. A frase que teve interpretações dúbias na imprensa, na verdade, revelava que assim como na perda da mãe na infância, ele não encontrara palavras para traduzir a dor que sentia. Agora sim, o sonho havia, definitivamente, acabado.
 
Para quem ainda sonhava com reunião dos Beatles, Paul diria numa entrevista, no final da década, que essa possibilidade acabou quando John morreu. Por pouco, eles não estiveram juntos no palco meses antes no Concerto de Kampuchea, quando Paul, George e Ringo aceitaram tocar juntos (mas, não sob o nome de Beatles), porém, John não se interessou em participar do evento. Para Paul, isso não fazia mais diferença, muito além da impossibilidade de reunir os Beatles, ele havia perdido seu grande amigo. Mesmo as diferenças causadas pela ruptura da banda já haviam sido sanadas e apesar de menor grau de intimidade, Paul e Linda visitaram John e Yoko diversas vezes. John diria em 1976: “Eu o vejo sempre que está na cidade. Paul vem me visitar, e simplesmente ficamos sentados sem fazer nada. Bebemos até ficar de porre e relembramos velhas histórias”.

George e Ringo...
Em 1981, Paul, Linda e Denny Laine fariam os backing vocals em “All Those Years Ago” do álbum “Somewhere In England” de GeorgeLivro_Paul_McCartney_Composer_Artist_1981 Harrison, composta em homenagem a John. E o novo disco de Ringo, “Stop And Smell The Roses”, traria duas composições de Paul, “Private Propriety” e “Attention”. Nelas, assim como em “Sure To Fall” (de Carl Perkins), Paul tocou baixo, piano e fez os backing vocals. Paul tocou bateria em “You Can´t Fight The Lightning” de Ringo que não saiu no LP, mas seria lançada futuramente na edição em CD. Paul, George e Ringo se reuniriam novamente no casamento de Ringo e a atriz Barbara Bach. Eles fizeram uma jam que incluiu “I Saw Her Standing In There” e “Twist and Shout”.

Ainda neste ano, foi publicado o livro “Paul McCartney: Composer/Artist” com partituras de 48 de suas músicas e alguns desenhos feitos por ele. Nos anos seguintes, Paul passaria a se dedicar à pintura, inicialmente como um hobby, mas depois levando mais a sério, o que renderia futuras exposições e livros com seus trabalhos nas artes plásticas.

Tug Of War...
Paul_Mccartney_Tug_Of_WarEm 1982, Paul McCartney voltou a contar com a produção de George Martin, no álbum “Tug Of War” (planejado inicialmente para ser gravado com os Wings). Ele traria participações de diversos músicos como Ringo Starr, Stevie Wonder, Carl Perkins, Stanley Clark, Denny Laine, Eric Stewart, Steve Gadd, e Linda colaborando nos vocais (e nas fotos). A faixa-título tem um grandioso arranjo de orquestra escrito por Martin; e os backing vocals de Linda, Paul e Eric Stewart com efeitos de reverberação soam como um coral. “Take It Away” tem uma pegada pop bem característica da época com baterias tocadas por Ringo (aliás, a música havia sido composta originalmente para ele gravar) e Steve Gadd, o baixo de Paul se faz notar logo na introdução e conduz o ritmo pulsante da faixa. Martin toca o piano elétrico (e aparece no clipe). Ela foi lançada em compacto junto com "I’II Give You A Ring”. “Somebody Who Cares” é uma baladinha com uma dose de swing garantida pela cozinha que contou com Stanley Clarke no baixo e Steve Gadd na batera. O solo de violão ficou a cargo de Paul, e Adrian Brett toca panpipes (flautas de bambu). Stevie Wonder aparece em “What’s That You’re Doing?” na qual canta em dueto com Paul e toca sintetizador. Andy Mckay participa tocando lyricon (uma flauta sintetizada). Ela nasceu de uma improvisação de Stevie e Paul quando se reuniram para gravar Single_Paul_McCartney_Ebony_and_Ivory“Ebony and Ivory”, canção que trata do racismo, e foi gravada apenas pelos dois se alternando entre os instrumentos. Paul ficou com o baixo, guitarra, sintetizador, vocais, vocoder, percussão e piano, enquanto Stevie se ocupou do piano elétrico, sintetizador, vocais, bateria e percussão. Lançada como single (com “Rainclouds” no lado B), ela ocupou o topo da parada americana por quase dois meses. “Here Today” é uma singela e comovente homenagem ao amigo John e traz apenas Paul ao violão acompanhado de um quarteto de cordas. Com uma letra confessional e cheia de intimidade, ela tem um dos mais belos “I love you” de toda a história da música. “Ballroom Paul_Mccartney_1983_divulgaçãoDancing” aparece em seguida, com um clima alegre. (Curiosamente, sempre que Paul inclui “HereToday” em seus shows, ele coloca uma música mais agitada na sequência, provavelmente para recobrar os ânimos depois da comoção que ela sempre cria. É possível perceber como ele se emociona a cada vez que a toca, chegando às lágrimas algumas vezes). Com as recentes colaborações entre George, Ringo e Paul, “Wanderlust” teria um solo de guitarra gravado por George, mas a participação acabou não acontecendo. “Get It” é um descontraído rockabilly cantado em dueto por Paul e um de seus ídolos, Carl Perkins. “Be What You See (Link)” é uma vinheta inspirada na gargalhada de Carl Perkins que pode ser ouvida no final de “Get It”. “The Pound Is Sinking” e “Dress Me Up As A Robber” completam o álbum. “Tug Of War” foi bem recebido pela crítica e aclamado como um dos grandes trabalhos de Paul, chegando ao primeiro lugar em vários países. Assim, como “McCartney II”, ele foi planejado como um disco duplo, e algumas das faixas não utilizadas, seriam lançadas futuramente.

Pipes Of Peace...
Paul_Mccartney_Pipes_of_PeaceBoa parte das canções de “Pipes Of Peace” eram sobras de “Tug Of War”. Ele foi produzido novamente por George Martin. A faixa-título tem a linha de canções pacifistas que Paul defendia desde os anos 1960. O clipe da canção teve uma superprodução baseada na trégua na Primeira Grande Guerra entre as Single_Say_Say_Say_Michael_Jackson_and_Paul_McCartneytropas inglesas e alemãs durante o Natal de 1914. “Say, Say, Say”, um dos três duetos gravados com Michael Jackson, geraria um excelente clipe de Paul com o grande mestre dessa arte. O single teve “Ode To A Koala Bear” como lado B. O outro dueto deles no disco, “The Man”, é uma boa canção, mas acabou sendo ofuscada por “Say, Say, Say”; e “The Girl Is Mine” que saiu no álbum, “Thriller”, de Michael no ano anterior. “The Other Me” segue uma linha de baladas com levada soul que Paul vinha gravando nos últimos anos. “So Bad” é toda cantada em falsete por Paul, recurso vocal que ele utilizaria vez por outra, e tem Ringo Starr na bateria. Embora tenha obtido algum êxito, ficou um poucoSingle_The_Girl _Is_Mine_Michael_Jackson_and_Paul_McCartney esquecida em seu repertório. “Keep Under Cover” “Average Person” são mostras de como o artista se adaptava à sonoridade da época. “Sweetest Little Show” seria a última colaboração de Denny Laine que gravou um dos violões. “Hey Hey” é um divertido instrumental feito em parceria com Stanley Clarke. “Through Our Love”, uma balada clássica de Paul fecha o disco em clima ameno. Lançado em 1983, apesar de sua qualidade, “Pipes Of Peace” é um pouco irregular e pagaria o preço por vir na sequência de um trabalho tão celebrado quanto “Tug Of War”.

Give My Regards To Broad Street...
Paul_Mccartney_Broad_StreetO recorrente “namoro” com o cinema fez com que Paul se arriscasse novamente num novo projeto cinematográfico que geraria o filme “Give My Regards To Broad Street” (Mande Lembranças Para Broad Street) dirigido por Peter Webb. O enredo do roteiro, escrito por Paul, foi baseado na história ocorrida com os Sex Pistols, em 1977, quando as fitas das gravações de “Never Mind The Bollocks” foram roubadas antes da masterização. Dias depois a banda recuperaria o material. Paul ficou sabendo do caso através de Chris Thomas produtor do álbum dos Pistols que trabalhou com ele em “Back To The Egg” em 1979. Foram dois anos de labuta, até a estreia em 1984. O filme e a trilha contaram com as participações de Ringo Starr (e sua esposa, a atriz Barbara Bach), Linda McCartney, John Paul Jones, George Martin (que produziu a trilha), Eric Stewart, Steve Lukater, e os atores Bryan Brown, Tracey Ullman e Ralph Richardson. A trilha era baseada em novas gravações de sucessos de Paul de todas suas fases, e trazia as inéditas: “No More Lonely Nights” (com solo de guitarra de David Gilmour na versão balada. Ela também aparece numa versão dance); os rocks “Not Such A Bad Boy” e Videogame_Give_My_Regards_To_Broad_Street_Game_Paul_McCartney“No Values” (ambas com Ringo na bateria); o jazz instrumental “Goodnight Princess”; e a clássica “Eleanor´s Dream” (com tema extraído de "Eleanor Rigby"). Como ocorreu com “Magical Mystery Tour” duas décadas antes, o filme não seria bem recebido pela crítica que apontava a falta de sentido e de personagens consistentes, além do surrealismo em cenas aleatórias. Do mesmo modo, o público parece ter ficado perdido quanto às intenções de Paul que se defenderia dizendo que “no futuro o filme seria apreciado”. (“Give My Regards To Broad Street” rendeu um jogo de videogame em 1985; e um livro com fotos, o roteiro e partituras da trilha).

Na sequência, Paul lançou um single (produzido por Martin) com “We All Standing Together” feita para a trilha sonora do filme de animação infantil “Rupert And The Frog Song”. Creditado a Paul e The Frog Chorus, o “coro de sapos” era na verdade os King´s Singers e o coral da St. Paul’s Cathedral. A renomada flautista Elena Durán faz o solo.Single_We_All_Stand_Together_Paul_Mccartney A história do ursinho Rupert foi escrita por Paul, Linda e o diretor Geoff Dunbar.

Sempre na ativa, Paul fez a canção “On The Wings Of A Nightingale” para os Everly Brothers, e no final do ano, participou da campanha contra a fome na África tocando baixo e fazendo backings vocals no single “Do They Know It´s Christmas?” com diversos artistas, entre eles: Sting, Phill Collins, Boy George, Bono Vox, Bob Geldof, George Michael, Paul Young, Simon LeBon.

Os direitos autorais de Lennon/McCartney...
Em 1985, A ATV resolveu vender a Northern Songs (empresa que continha o catálogo da dupla Lennon/McCartney). O preço: vinte milhões de libras. Paul finalmente poderia realizar o sonho de se tornar dono de sua obra, mas considerou que o mais certo seria comprar em sociedade com Yoko, por ela ser viúva do criador de metade das canções. Yoko concordou, e tomou frente das negociações, acreditando que conseguiriam adquirir por um preço menor. No entanto, outro investidor fecharia o negócio: Michael Jackson. Paul e Yoko ficaram enfurecidos. Além da amizade com Paul, Michael tinha contato com Yoko, sendo que o filho Sean Lennon havia inclusive passado as últimas férias com ele (Sean figuraria no filme “Moonwalker” de Michael). John Branca, empresário de Michael teria entrado em contato com Paul e Yoko para checar o interesse de ambos na compra, e obteve a resposta de que eles não estavam interessados. Talvez, fosse uma estratégia, mas, o fato é que com as afirmações de Yoko e John Eastman (o irmão de Linda e advogado de Paul) que eles não pretendiam comprar devido ao alto preço, Michael sentiu-se à vontade para realizar o investimento. Anos depois, uma mudança na lei dos direitos autorais nos EUA faria com que o herdeiro dos direitos passasse a ter posse da obra ao completar 28 anos sendo beneficiado com o usufruto dos mesmos por mais 28 anos. Assim, Yoko acabaria tendo o controle dos 50% de John, e Paul seria o único prejudicado. A graça da história consiste no fato de que Paul vinha investido na compra de direitos autorais já há algum tempo, e durante um dos encontros com Michael em 1981, o aconselhara a investir nesse campo. Michael respondeu: “eu vou comprar os direitos dos Beatles!”. Paul riu, e ele repetiu a frase, que o velho Macca mais uma vez não levou a sério. Michael acreditara que estava apenas fazendo um ótimo investimento, porém, o ato esfriaria um pouco a amizade entre os dois. Em 2016, sete anos após a morte de Michael Jackson, os responsáveis por seu patrimônio venderiam os direitos para a Sony/ATV por 750 milhões de dólares. De acordo com as leis norte-americanas, o autor tem direito sobre as obras escritas antes de 1978 após 56 anos do lançamento. Assim, Paul poderá ter suas canções com os Beatles sob seu controle gradualmente a partir de 2019 até 2026.

Trilhas sonoras... e o Live Aid...
Paul fez várias colaborações com o cinema ao longo da década de 1980. Em 1985, ele compôs “Spies Like Us” (no Brasil, “Os Espiões Que Entraram Numa Fria”) e “Twice In A Lifetime” (“Duas Vezes Na Vida”) que foram temas dos dois filmes homônimos. (“My Carnival”, gravada com os Wings em 1975, sairia no lado B do single “Spies Like Us”). Antes, em 1983, ele havia composto o tema de “The Honorary Consul” (O Cônsul Honorário) que foi gravado pelo violonista clássico John Williams.

Live_Aid_1985Bob Geldof organizou, em Londres, o concerto beneficente Live Aid, realizado em 13 de julho, contra a fome na Etiópia. Paul participou cantando “Let It Be” acompanhado dos demais artistas (Queen, Sting, Dire Straits, U2, David Bowie, Elton John, Elvis Costello, entre outros) no encerramento do espetáculo. A experiência foi um pouco traumática, pois um roadie do Queen (que havia se apresentado antes), desplugou, acidentalmente, um cabo do microfone de Paul de forma que o público não podia ouvir sua voz. Paul demorou um pouco para entender o que se passava. Somente depois da metade da música os problemas foram sanados e ele receberia a saudação calorosa da plateia.

Press To Play...
Paul_Mccartney_Press_to_PlayLançado em agosto de 1986, o álbum “Press To Play” teve uma produção um tanto quanto conturbada de Hugh Padgham (que produziu Police, Genesis, entre outros). O trabalho apresentaria um novo parceiro de Paul nas composições: Eric Stewart. O ex-guitarrista da banda 10cc que vinha se firmando, desde “Tug Of War”, como guitarrista nas gravações de Paul, assinou a co-autoria de seis canções. No entanto, Stewart abandonaria o trabalho antes de sua conclusão, pois a princípio, Paul o havia convidado para também produzi-lo, e com a chegada de Padgham sem um aviso prévio, e o direcionamento que as gravações estavam tomando, ele resolveu abandonar o barco. Paul, outra vez, arriscaria-se por novos rumos musicais. “Stranglehold” tem riffs de guitarra e linha de baixo com base no rockabilly, e a bateria tocada por Jerry Marotta tem um ritmo bastante quebrado estabelecendo um interessante contraponto que foge da obviedade para a qual a ela poderia caminhar. “Good Times Coming/Feel The Sun” é uma junção de duas canções distintas, algo recorrente nos trabalhos de Paul. A primeira é um reggae e a segunda é o refrão de uma composição antiga reaproveitada por ele, e traz a participação do guitarrista Carlos Alomar. “Pretty Little Head” é muito bem construída com diversas mudanças rítmicas e ganhou um videoclipe igualmente bem produzido. Apesar da presença marcante do violão solo e percussão, a balada “Footsprints” tem acompanhamento baseado nos teclados e sintetizadores com a inconfundível sonoridade oitentista. Nessa mesma pegada, temos Single_Paul_McCartney_Press“Press” (lançada em diversas versões em singles), “Talk More Talk” e “Move Over The Busker”. Já, “Angry”, com participação de Phill Collins na bateria e Pete Townshend na guitarra, retoma um pouco do punk-rock com o qual Paul flertou em “Back To The Egg”. Com um trabalho que fugia de sua sonoridade e estilo mais característicos, Paul incluiu “Only Love Remais”  para os fãs mais tradicionais. E de fato, “Press Press_To Play_cartaz_divulgaçãoTo Play” não pegou o público à primeira audição, e permanece nas estantes à espera do ouvinte lhe dar uma chance de se conhecerem melhor. A foto de Paul e Linda na capa foi feita pelo consagrado fotógrafo George Hurrell com a mesma câmera que ele usava em Hollywood nos anos 1930, sendo responsável por imagens glamorosas dos astros do cinema desse período. A elegante arte, no entanto, não tem muita consonância com o conteúdo sonoro, e provavelmente ajudou no estranhamento causado pelo álbum.

As sobras “It´s Not True”, “Write Away”, “Tough On A Trightrope” e “Hanglide” apareceriam nos diversos singles lançados por Paul em 1986, assim como versões diferentes de “Press”, “Pretty Little Head”, “Angry” e “Only Love Remais”. “Simple As A That” (com Linda e os filhos James, Mary e Stella nos backing vocals) foi incluída no álbum beneficente “It´s A Live-In World” do The Anti-Heroin Project com participação de outros artistas. “Press” renderia o vídeo (em VHS), “A Portrait Special”, com clipes e uma entrevista sobre carreira e os bastidores das gravações.

Paul participou do concerto beneficente All-Star Rock em Wembley, organizado pela instituição “The Prince’s Trust” do Príncipe Charles, dividindo o palco com Eric Clapton, Tina Turner, Mark Knopfler, Sting, Phill Collins, Elton John, entre outros. Ele cantou “I Saw Her Standing There”, “Long Tall Sally” e “Get Back”. Transmitido pela TV BBC2 em junho de 1986, o show sairia em LP (1987) e DVD (em 1999). Já, em março de 1987, Paul participou de uma regravação de “Let It Be” com Mark Knopfler, Kate Bush, Gary Moore, Boy George, Maxi Priest, Suzi Quatro, Edwin Starr, entre outros, para o Ferry Aid, organizado pelo jornal The Sun, em favor das famílias das vítimas do barco Herald of Free Interprise que afundou na Bélgica, matando 193 pessoas.

O melhor de Paul...
Paul_Mccartney_All_The_BestNo final do ano, “All The Best!”, um álbum duplo foi lançado com sucessos de Paul solo e com os Wings. Ele incluía a inédita “Once Upon A Long Ago” (que fora composta especialmente para ser gravada em dueto com Freddie Mercury. A participação do vocalista não aconteceu devido a compromissos com o Queen). Ela foi lançada em single com “Back On My Feet”, composta com Elvis Costello, com quem ele desenvolveria Home_Video_Once_Upon_A_Video_Paul McCartneyuma prolífica parceria. Com o mercado de videoclipe e VHS se tornando consistente, seria lançado “Once Upon A Video”, uma fita que trazia clipes recentes de Paul: “Once Upon A Long Ago”, “Stranglehold”, “Pretty Little Head” e “We All Standing Together”.

Beatles pra sempre!... e novas parcerias...
A possibilidade de Ringo, George e Paul se reunirem para tocar publicamente foi novamente cogitada para o início do ano de 1988 quando a banda seria incluída no Rock’n’Roll Hall Of Fame. No entanto, Paul não compareceria à cerimônia. Em um comunicado distribuído à imprensa, ele alegara que ainda havia diferenças comerciais entre os Beatles e que ele se sentiria um hipócrita em ficar acenando e sorrindo com eles numa falsa reunião.

A EMI aproveitou para atualizar o catálogo dos Beatles e lançou os álbuns “Past Masters 1 e 2” com músicas que constavam nos singles e que não estavam disponibilizadas em LPs e CDs. E, Paul fez novas parcerias: no disco “Waters From The Wells Of Home” de Johnny Cash, ele canta e toca baixo em “New Moon Of Jamaica”, e Linda participa dos vocais. A canção foi escrita pelos dois e o escritor, compositor e cantor Tom T. Hall; ele tocou piano e fez backing vocals em “T-Shirt” lançada pelos Crickets, antigo grupo de Buddy Holly (vale lembrar que nos anos 1970, Paul comprou o catálogo de músicas de seu ídolo Buddy Holly, essa gravação, assim como o disco-tributo que produziu de Denny Laine, ajudavam a trazer sua obra à tona novamente); e produziu (o lado A) e tocou baixo nas duas versões do single do Spirit Of Play, “Children In Need” (composta para o programa de caridade da TV BBC).

“O Álbum Russo”...
Paul_Mccartney_Album_Russo_Choba_B_CCCPCHOBA B CCCP (Back In The USSR), disco com releituras de clássicos do rock dos anos 1950, foi lançado em outubro de 1988, exclusivamente na União Soviética (atual Rússia), por isso ele ficou mais conhecido pelo apelido de “Álbum Russo”. O lançamento, no momento em que o mercado do país se abria à cultura “ocidental” foi bem-sucedido, chegando logo ao primeiro lugar da parada. A banda de apoio contou com Mick Green (guitarra), Mickey Gallagher (piano) e Chris Whitten (bateria). Gravado em apenas dois dias, ele trazia alguns dos rocks prediletos de Paul como “Kansas City”, “Twenty Flight Rock”, “Lucille”, “That’s All Right Mama” e “Ain’t That A Shame”, entre outras. Somente em 1991, ele sairia no mercado ocidental. O disco nascera acidentalmente. Nas primeiras reuniões com os músicos, a ideia era apenas tocar e se divertir um pouco. Num segundo momento, Paul planejou gravar e lançar como se fosse um LP pirata, fazendo algumas cópias e vendendo-os em embalagem tosca. O projeto, obviamente, foi recusado pela EMI. Pensando no momento que a União Soviética vivia com a Perestroika, num processo de abertura econômica, Paul fez a ideia (que também trazia uma mensagem de amizade) chegar à gravadora russa, Melodyia que o lançou em parceria com a EMI. Ele venderia 400 mil cópias chegando ao primeiro lugar da parada russa.Flowers In The Dirt... e a World Tour...
Paul_Mccartney_Flowers_in_the_DirtLançado em 1989, o álbum “Flowers In The Dirt” teria importante papel na carreira de Paul: ele faria parte do projeto de seu retorno aos palcos com a “World Tour”. Dessa vez, Paul não se furtaria a incluir canções dos Beatles no setlist, muitas delas tocadas pela primeira vez ao vivo como “Good Day WORLD_TOUR_1989_Paul_McCartney_Live_FrankfurtSunshine”, “Things We Said Today”, “Eleanor Rigby”, “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, “Back In The USSR”, “Golden Slumbers”/“Carry The Weight”/“The End” e “Get Back”. Em Liverpool, ele incluiu no repertório o medley “Strawberry Fields Forever”/“Help”/“Give Peace A Chance” em homenagem ao amigo John. Seriam mais de 100 apresentações que trariam Paul ao Brasil pela primeira vez. Outro detalhe: Paul voltaria a empunhar seu famoso baixo Höfner nos palcos (ele também adotaria um baixo Wal de cinco cordas nessa fase). A banda formada para os shows estaria no disco (com eventuais contribuições de outros músicos): Robbie McIntosh (guitarra, violão e vocais), Hamish Stuart (baixo, guitarra, violão e vocais), Chris Whitten (bateria e vocais), Paul “Wix” Wickens (teclados, percussão e vocais. Wix entrou na fase final das gravações e participou de faixas que apareceriam apenas nos singles), além de Paul (voz, baixo, guitarra, violão, teclado  e piano) e Linda (teclados e vocais). “My Brave Face” é uma das mais perfeitas “canções beatles” gravadas por Paul na carreira solo, desde a rica variação melódica entre primeira e  segunda partes, as harmonias vocais, a rítmica da linha de baixo, a bateria econômica e eficiente, um solo curto, mas direto ao ponto, e até a guitarra Rickenbacker de 12 cordas estaria presente. A música seria uma das quatro compostas em parceria com Elvis Costello no disco (outras canções da dupla seriam lançadas em trabalhos solos de ambos). “Rough Ride” é marcada pela levada funk. Em “You Want Her Too”, Costello faz um dueto com Macca, também composta pelos dois. “Distractions”, segundo o próprio autor, tem influência da bossa nova. Para tanto, ele, inclusive, realiza um solo no violão de nylon. “We Got Married” traz nova contribuição de David Gilmour na guitarra solo (gravada em 1984). “Put It There” (com arranjo e produção de George Martin) é a balada ao violão que não costuma faltar em seus álbuns, enquanto a energética “Figure Of Eight” é um dos maiores rocks gravados por Paul. Na introdução de “This One” (que se destacou nas rádios e ganhou um clipe), ele reaproveita o “truque” usado em “Glasses” do disco “McCartney” se valendo dos sons obtidos por taças de vinho ao passar os dedos por suas WORLD_TOUR_1989_Paul_McCartney_e_Bandabordas. “Don’t Be Careless Love”, “That Day Is Done” seguem a sonoridade da época, embebidas com a inventividade melódica de Paul e Costello (parceiro em ambas). O reggae (estilo favorito de Linda) “How Many People” foi dedicado ao brasileiro Chico Mendes, seringueiro e ativista ambiental acriano (ou acreano com a letra “e” como prefere a população do Acre) que fora assassinado por fazendeiros da região amazônica. A suave “Motor Of Love” encerra o álbum de forma repousante.

Sempre presente, Linda responde pela foto da capa. A versão em cassete incluía a faixa bônus “Où Est Le Soleil?”, enquanto, “Flying To My Home”, “The First Stone” (parceria com Hamish Stuart) e “Party Party” também gravadas durante as sessões de “Flowers” figurariam em singles, assim como “Mama’s Little Girl” (sobra de “Wild Life” dos Wings) e “I Wanna Cry” (única música autoral gravada nas sessões do “Álbum Russo”). O processo de produção seria focado no vídeo “Put It There” que foi transmitido pela TV BBC1 em 10 de junho e comercializado em VHS.

“Spike”, álbum lançado por Elvis Costello no mesmo ano, traria “Veronica” e “Pads, Paws and Claws” escritas em parceria com Paul que também toca baixo em “Veronica” “... This Town...”.

Apesar dos inevitáveis altos e baixos, Paul fecharia a década de 1980 revigorado e em plena atividade com uma nova turnê mundial de sucesso absoluto que o traria ao Brasil em 1990. – Robert Moura.

No capítulo seis: “Paul in Rio”, as causas ecológicas, e a perda de Linda.
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ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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