O Império eterno de Wilson das Neves

Por Maristani Fernandes

Cultuado por músicos de todos os estilos incluindo o rock o músico Wilson das Neves homenageado na Feira do Vinil RJ em Julho de 2016Wilson das Neves foi fazer um som em outro plano no ultimo sábado, 26 de agosto. Wilson das Neves, ao longo da vida deixou sua marca em mais 600 gravações em mais de 60 anos de carreira.

“Das Neves” (para os íntimos), era um artista que colecionava dons e talentos, foi baterista, compositor, cantor, percussionista, sambista e também um divertido contador de piadas. Lutava contra um câncer e mesmo assim se manteve na ativa e tocando em vários projetos. Entre seus diversos trabalhos um que lhe deu grande visibilidade foi tocar bateria no grupo que acompanha Chico Buarque. 

Respeitado por todos no Samba e em sua escola, o Imperio Serano 

Wilson das Neves e Cuiqueiros da Imperio Serrano FOTO Guilheme Almeida

Como todo sambista nato, tinha sua escola de samba de coração, o GRES Império Serrano onde tocou tamborim por anos e por 13 anos foi padrinho da bateria desta tradicional agremiação do bairro de Madureira na Zona Norte do Rio de Janeiro. Na Praça da Apoteose, Wilson das Neves também era “Apoteose”, desfilava sempre na frente dos ritmistas, suas observações e opiniões eram sempre acolhidas pelos mestres de bateria, pois Wilson das Neves era mestre dos mestres.

Wilson das Neves FOTO Salisa OliveiraHá inúmeras feitos assinados por Wilson das Neves na música, mas um dos destaques foi seu trabalho e técnica na bateria. Não importa o ritmo, a pegada nas baquetas de “Das Neves” influenciava bateristas e percursionistas que vão do Samba à MPB, do Jazz ao Soul, do Blues ao Heavy Metal. Todos buscavam conhecer e estudar a técnica do músico. Além disso, por várias vezes o estilo e o próprio Wilson das Neves foi tema de pesquisas acadêmica em diversas universidades especialmente em dissertações ou teses sobre a bateria e instrumentos de percussão. Falando nisso, como a arte de inspirar também está em aprender. Ainda adolescente Wilson das Neves estudou música com Joaquim Naegele  e com Darci Barbosa e foi através do ritmista Edgard Nunes Rocca, o "Bituca", que foi tocar na Escola Flor do Ritmo, no bairro do Méier (Também da Zona Noite Carioca). Anos mais tarde, deu inicio a sua carreira como baterista profissional na Orquestra de Permínio Gonçalves.

 

Transitando pelo Samba na sua maior e melhor essência, tornou-se conceituado por músicos nacionais e internacionais como B’Negão e Emicida, Sarah Vaughan e Sean Lennon. Também possuía assunto de sobra para uma boa prosa com qualquer pessoa, ser dono de temperamento divertido e o seu conhecimento musical, Das Neves era sempre reverenciado por muitos, conquistando sempre novos fãs que reconheciam a riqueza musical e sua simpatia.

Intitulado "Se Me Chamar, Ô Sorte" foi seu último CD foi lançado em 2013 e em julho de 2016 o musico foi homenageado pela Feira do Vinil do Rio de Janeiro, no mesmo ano foi lançada a biografia "Ô Sorte! Memórias De Um Imperador" em comemoração aos seus 80 anos e de autoria do Professor Guilherme Almeida. Recentemente ao menos duas equipes de cinemas fizeram algumas das ultimas registros em vídeo de Wilson das Neves, um deles é o “Samba é o Meu Dom” de Cristiano Abud, da Abuzza Filmes, documentário sobre a vida de Wilson das Neves. O musico também gravou entrevista em julho último pela equipe do documentário “Menino de 47 – A Resistencia do Samba”, filme sobre a história da Império Serrano de Edy Monteiro e Elber Xavier.

Wilson das Neves faleceu na noite de 26 de agosto de 2017, aos 81 anos, no Hospital da Ilha do Governador/RJ, onde estava internado, após lutar contra um câncer durante alguns anos.

Para ele que viveu pela bateria e música, há muito a ser tido sobre Wilson das Neves e seu legado já faz parte da história. Seu bordão foi e sempre será a essência dele, que dizia ser agradecimento por tudo que aconteceu de bom. “ÔH SORTE!” 

Portal Rock Press colheu depoimentos de pessoas que conviveram com ele e/ou tiverem a habilidade dele como influencia. Segue: 

“Nos contatos telefônicos com a equipe, ele procurava ser o mais rápido e direto possível.  Não que estivesse querendo nos evitar, mas o telefone não parecia ser o mais querido dos meios de comunicação do senhor Wilson, que era como o tratávamos, até o dia em que eleWilson das Neves e equipe do Filme Menino 47 nos recebeu em sua casa. Logo pediu para que não o chamássemos de senhor, evocando uma informalidade passada por seu pai - "Se eu sou o seu senhor, você também pode ser meu senhor". E foi nesse espírito que passamos a manhã desfrutando do aconchego da casa de Wilson. Muitas fotos com diversos músicos, muitas reportagens com a sua trajetória, chapéus, muitos chapéus, os únicos que rivalizavam em quantidade com os brasões do Império Serrano, eram muitos, todos devidamente emoldurados. E foi a escola da serrinha a responsável pelo nosso encontro, pois estamos gravando um documentário sobre os setenta anos desta escola de samba, e como grande imperiano, Wilson das Neves não poderia ficar de fora, e não foi uma simples participação. Por muitas vezes emocionado Wilson relatou desde a sua infância ate os dias de hoje uma gama de relatos e impressões sobre sua amada escola e também sobre o carnaval, ao qual não recebeu as mesmas palavras suaves que o seu amado Império Serrano recebeu. Suave foi a impressão que Wilson nos passou, não estava apenas no seu estilo de tocar, mas também no de se relacionar, e nosso encontro terminou com um pedido desta pessoa magnífica, ele gostaria de tirar uma foto conosco, ai foi nossa vez de mostrar um sorriso suave. Parafraseando o mestre eterno, "O Sorte!".Edy Monteiro - Diretor do Documentário “Menino de 47 – A Resistencia do Samba”

“No primeiro semestre de 2016, a Feira de Vinil do Rio de Janeiro decide entregar o troféu do evento a este grande músico, decisão estaWilson das Neves autografando na Feira do Vinil em Julho de 2016 que não foi difícil já que seu nome era um dos mais pedidos e esperados. Desde o início mostrou-se solícito e feliz com o convite, e posteriormente honrado por ter sido escolhido. Na ocasião do evento, confidenciou que devia muito ao LP, mas mostrou-se também uma pessoa e um músico que soube atravessar as épocas adaptando-se aos novos mercados e mídias sem nunca perder a qualidade evidentemente. Durante a entrega do troféu foi extremamente atencioso e simpático com os fãs e admiradores, dando autógrafos, tirando fotos, e contando um pouco da infinidade de Histórias que somente uma lenda da MPB poderia amealhar. Fica aqui registrado a Felicidade de ter aceitado nosso convite e a certeza que o troféu estava nas mãos não só de um grande músico, mas também de um grande Homem. Seu Wilson, que seu exemplo de profissionalismo, dedicação e caráter possam servir de exemplo para aqueles que estão pensando em começar a estudar a Bateria, ou qualquer outro instrumento. Vai na paz e na fé, e “Ô Sorte” de quem ouve seus discos, conviveu com o senhor, e aprendeu com seu exemplo e suas Histórias.” - Marcello Almeida Maldonado, Produtor executivo da Feira de Vinil do Rio de Janeiro.

“Era véspera de carnaval na capital carioca e a Orquestra Imperial iria reinar no Circo Voador naquela noite; partimos pra lá, eu e minha noiva, em busca de alegria, ritmos, harmonia e brasileirices mil. Mestre das Neves adentra ao palco com a aquela enorme trupe musical; o clima é de carnaval, de festa, de anárquica alegria. Durante pouco mais de duas horas não conseguimos desfazer o sorriso do rosto e muito menos desembalar nossos corpos da ”pista de dança” que se tornou o Circo; era tanta alegria que até a Fernanda Abreu veio fazer passinho com a gente e em seguida ser chamada para cantar algumas canções. Foi à terceira vez que fui ao baile da Orquestra e foi à partir daquele combo, que me interessei em pesquisar a obra extensa de um dos músicos mais carismáticos e influentes de nosso país; Tudo, absolutamente tudo, ao seu redor, era harmonioso, respeitoso, gostoso, amoroso... - Maurício Porão Fotojornalista

“Exímio baterista da melhor qualidade, dono de um talento inegável, tinha um swing sobrenatural na mão direita; o clássico “telecoteco” de seu aro de caixa tinha “molho”. Fazia do seu instrumento uma extensão do seu coração, tocando com amor, sambas imortalizados. Wilson das Neves repetia aos quatros cantos o seu clássico bordão, “Oh Sorte”, sorte foi a nossa, mestre Wilson das Neves, de poder te ouvir e que o Céu se encha de ritmo, swing e simpatia. Obrigado!”Vitor Cruz, Publicitário, Baterista da Noite Carioca, e Ex-Netinhos da Dona Lazara.Wilson das Neves e Maristani Fernandes

“Uma de suas famosas frases foi: "A melhor coisa do mundo é ser lembrado".  E sentirei saudades de meu padrinho... Ô Sorte a minha de ter convivido com ele. Tive muitas conversas com ele, algumas momentos antes de entramos na Av. Certa vez, pronta para entrar na avenida e tremia de nervoso, estava um dia quente e eu estava com a mão gelada e ele me falou: "Tá nervosa por que? Você não ensaiou? Então faz o que você sabe!” Nunca mais esqueci isso e sempre falo essa orientação do Wilson das Neves aos colegas quanto estes vão tocar e não se sentem seguros! – Maristani Fernandes autora do texto.

MARISTANI FERNANDES é Professora de música, ritmista da Bateria do GRES Império Serrano e Heavy Metal de Carteirinha.
Depoimentos colhidos por Michael Meneses

Postado por Michael Meneses domingo, 3 de setembro de 2017 14:43:00
Portal Rock Press

Comentários

segunda-feira, 4 de setembro de 2017 09:17:16

re: O Império eterno de Wilson das Neves

linda matéria!

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