NEIL PEART - O Adeus ao Professor e os bons momentos da Time Machine Tour no Rio de Janeiro em 2010 

Em 7 de janeiro de 2020, partia desta esfera um dos maiores bateristas do mundo. Tendo sua Neil_Peart_Divulgaçãomorte anunciada apenas três dias depois, o músico canadense se foi tão discretamente quanto demonstrava gostar de (ou, ao menos, desejava) levar a vida. Gigante não apenas na estatura (ele tinha 1,93m), o Professor, como Neil Peart costumava ser chamado, foi uma grande referência para um sem número de bateristas e não apenas fãs do Rush ao longo das últimas quatro décadas. Vamos rever um pouco da trajetória deste grande gênio das baquetas. Aproveitaremos também para lembrar uma das suas passagens pelo Brasil com o Rush em 2010.

NEIL PEART - O Adeus ao Professor! 

TEXTO: Rick Olivieri
FOTOS: Michael Meneses e Divulgação

Rush_in_Rio_2002_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito_obrigatório

Um jovem desajeitado, mas nem tanto...

Neil_Peart_DivulgaçãoNascido no Canadá, em 12 de setembro de 1952, Neil Ellwood Peart ganhou seu primeiro par de baquetas aos treze anos, mas a bateria só viria ao completar quatorze, e dali em diante ele, que costumava ser visto como um garoto estranho e desajeitado perto dos demais, se dedicaria ao instrumento como poucas coisas em sua vida, incluindo sua paixão pelos livros e viagens de motocicleta. 

Tendo largado os estudos para se tornar baterista, Neil passou por diversas bandas em sua adolescência. Fã de Keith Moon (The Who), Gene Krupa e Buddy Rich, foi construindo seu modo todo peculiar de tocar, com influências que iam do Hard Rock ao Jazz e as big bands. 

Até que, em 1974, foi chamado para fazer uma audição para uma banda que havia lançado seu álbum de estreia recentemente e cujo baterista (John Rutsey) precisou deixar o posto por questões de saúde. 

Como todos já devem saber, o nome da tal banda era Rush. O jovem Peart, que deu a impressão ao guitarrista Alex Lifeson e ao baixista/vocalista Geddy Lee, num primeiro momento, de ser uma figura desengonçada e meio pateta, mas logo se mostrou uma espécie de mistura entre Keith Moon e John Bonham, passou muito bem no teste e aquela união de talentos o ajudaria a definir sua trajetória e a escrever seu nome (que, aliás, se lê "Pirt" e não, como muitos imaginam, do mesmo jeito com que se pronuncia o "u" em "Burt") na história da música. 

Escrevendo História (s) ...

E por falar em escrever, logo percebida pelos demais, a sua cultura literária, ele também viria a se tornar o principal letrista do RUSH_Fly_By_Nightgrupo. Assim como para muitas pessoas que padecem de elevada dose de timidez, a leitura e a escrita se constituíram em boas companhias para ele e uma excelente maneira de expressar o que passava pela sua mente movimentada.

Com efeito, em fevereiro de 1975, seria lançado o álbum “Fly By Night” e apesar da sonoridade ainda lembrar a do primeiro trabalho da banda em muitos momentos, era perceptível o caminho sendo pavimentado em direção a algo bem sofisticado e que culminaria num Rock mais Progressivo e, notadamente, as temáticas tiveram um avanço considerável, sob as influências de Neil, abordando elementos de fantasia e ficção científica. 

RUSH_Caress_Of_SteelMesmo contrariando a gravadora, que ansiava por canções mais comercialmente interessantes, logo o trio produziria uma sequência quase interminável de trabalhos que se tornaram verdadeiros clássicos, dignos de um lugar na discoteca básica dos apreciadores tanto do Classic Rock quanto do gênero Progressivo dos anos 1970, como “Caress of Steel”, “2112”, “A Farewell to Kings” e “Hemispheres”

E, abrindo os anos 1980, “Permanent Waves” e “Moving Pictures” chegariam com um som um pouco mais direto, RUSH_Moving_Picturesnum período em que o punk começava a dar espaço ao pós-Punk e ao New Wave/Reggae do The Police. Não por acaso, a faixa "Vital Signs", deste último (e até hoje, mais vendido álbum do Rush), já dava sinais (com perdão do trocadilho) de que os tempos estavam mudando. A batida de "Tom Sawyer", também do “Moving Pictures”, se tornou marcante para os brasileiros devido à sua utilização como tema da série “Profissão: Perigo” (MacGyver)

Naquele ponto, o Rush já era um dos maiores grupos do planeta. Mas como o objetivo aqui não é tratar da trajetória da banda e, sim, daquele trabalhador sério que gostava mais de ficar ao fundo, dando sua contribuição ao espetáculo, usando suas baquetas como um escultor que lapida exatamente o que enxerga, tanto no hemisfério criativo quanto no técnico do seu cérebro, então, voltemos a ele.

Durante seus 40 anos em atividade com a banda, apesar de muitos comentários a respeito de que Neil seria um sujeito antipático e avesso a dar autógrafos e coisas do tipo, de forma alguma se tratava de querer esnobar uma legião de fãs. Em entrevistas, ele sempre tinha, frequentemente, de explicar o fato de ser uma pessoa reservada e que jamais havia buscado o estrelato e os holofotes como diversos artistas fazem. Mas que só queria ser reconhecido como um bom músico. Isso ficava claro ao analisarmos trechos da letra de "Limelight":

RUSH_Limelight"Viver sob o foco de uma lente
Pego pelo olho da câmera
Eu não tenho coragem para mentir
Não posso fingir que um estranho
É um amigo há muito tempo aguardado

O mundo é de fato um palco
E nós somos meros músicos
Artistas e fotógrafos
De um público ao outro
Fora da gaiola dourada..."

Considerado um dos melhores de todos os tempos no comando das baquetas, tendo sido eleito o Melhor Baterista deLivros_do_Neil_Peart_Editora_Belas_Letras_FOTOS_DIVULGAÇÃO Rock pela NME de 1980 a 1986, 2006 e 2008, e que, ainda assim, buscou aprender depois que julgavam que já tivesse dominado tudo o que podia no seu instrumento, Peart era um brilhante letrista. Além disso, foi também escritor de vários livros: “Traveling Music: The Soundtrack to My Life and Times” (2004), “Roadshow: Landscape With Drums, A Concert Tour by Motorcycle” (2006), “Far and Near: On Days Like These” (2014), “O Ciclista Mascarado – Uma Aventura pela África Ocidental” (1996), “Ghost Rider: A Estrada da Cura” (2002) e “Longe e Distante” (2011), estes últimos, ganharam edições no Brasil pela Editora Belas Letras, que também lançou “Os Anjos do Tempo”, um livro de ficção inspirado nas obras do Rush, escrita pelo respeitado autor do gênero steampunk, Kevin J. Anderson, e em coautoria com Neil Peart.

Seu gosto pela narrativa (literária e musical) o levou a fazer associações pouco usuais entre o papel de cada tipo de prato, peles, bumbo, sinos e os sujeitos e predicados, substantivos e verbos, advérbios, adjetivos presentes nas letras dos álbuns.

Quadro comovente - Deixando os palcos...

Rush_in_Rio_2002_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito_obrigatórioEm cada show, se acostumou a dar tudo o que podia. Mesmo com sua personalidade retraída, ele se doou 100%. E, em 2015, parou quando viu que não podia mais prosseguir daquele jeito.

Neil já havia passado anteriormente por uma fase bastante ruim, com a trágica morte de sua primeira filha em um acidente de carro e, meses depois, com a perda de sua esposa para o câncer. Porém, conseguiu dar a volta por cima e retornar aos palcos. Só que agora era diferente...

Quando a tendinite crônica e um problema no ombro mostraram que não dariam trégua e que não poderia mais dar 100%, ele decidiu que era a hora de parar. Mas a banda só foi anunciar o encerramento de suas atividades em janeiro de 2018. Neil Peart manteve o quanto foi possível de discrição sobre sua vida até o fim. Na sexta-feira, dia 10 de janeiro de 2020, foi anunciado que o músico falecera na terça-feira anterior, aos 67 anos, vítima de um câncer no cérebro (Glioblastoma), diagnosticado três anos antes. 

Com o Rush, Neil Peart esteve duas vezes no Brasil. Em 2002, ocasião em que a banda gravou o disco "Rush in Rio", no Estádio do Maracanã, e em 2010 quando a banda se apresentou na Praça da Apoteose (leia abaixo) com a Time Machine Tour. Uma perda irreparável para todos os fãs e músicos influenciados por ele ao redor deste imenso palco que é o mundo! - Rick Olivieri.

Rush - Time Machine Tour 

Praça da Apoteose - Rio de Janeiro/RJ - 10/10/2010
Texto e Fotos: Michael Meneses!

Rush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatório

Não poderia ter sido em data melhor para o Rio de Janeiro acolher novamente um show do Rush. Se no geral shows da banda são sinônimos de perfeição, desta vez até Rush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatóriomesmo a data do show caiu bem, tendo em vista a passagem da “Time Machine Tour”, aconteceu numa data cabalística. Coincidências à parte, a data certamente se tornou memorável para as cercas de 20 mil pessoas que estiveram na Praça da Apoteose em 10 de outubro de 2010, pois participaram de uma celebração histórica que a máquina do tempo já se encarregou de eternizar na mente de quem assistiu à segunda passagem do Rush pelo Rio e pelo Brasil. 
 
O domingo nublado no Rio de Janeiro quebrava aquele rótulo que todo domingo faz sol forte e calor intenso na cidade maravilhosa. Algumas pessoas estavam roucas e exaustas por conta do show do Bon Jovi que havia acontecido há menos de 48 horas na mesma Apoteose. Outros marcaram presença na 2º Edição da Feira de Vinil do Rio de Janeiro que contou com stands, distribuidoras, lojistas, sebos, músicos, DJs, imprensa, colecionadores e de amantes do vinil que de forma eufórica e produtiva lotaram o Clube Israelita em Copacabana. O evento mostrou que existe um público consumidor sedento por LPs e afins. Afinal, se Bon Jovi deu o ponta pé inicial na sexta (8/10) e a Feira de Vinil foi um manjar dos deuses aos aficionados por discos, coube aos canadenses do Rush fechar com gol de placa o final de semana Rock no Rio e deixar a bola clicando para o Cranberries (12/10) e ao Green Day (15/10) continuar fazendo o Rock rolar no Rio de Janeiro. 

Como era de se esperar o show começou praticamente sem atraso e por volta das 20h, teve início a exibição deRush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatório um curta-metragem inspirado no seriado “Os Três Patetas”, que se passa em um bar e narra uma “suposta” fase inicial do Rush, onde uma “Máquina do Tempo” dá o tom e o ritmo para a banda, enquanto os atores do filmes fazem suas críticas ao som da versão “Power Trio Pateta”, até que um dos atores acionam o botão “Time Machine” e eis que o “Verdadeiro Rush” surge no palco ao som “The Spirit of Radio”, inicialmente o som parecia estranho e o vocal de Geddy Lee parecia rouco, abafado, mas logo tudo foi resolvido, seguindo com “Time Stand Still”, “Presto” e só então Lee conversa com o público, antes de continuar com "Stick It Out", a quarta do espetáculo.
 
O Power Trio mais popular do mundo na atualidade e umas das poucas bandas que não tiveram mudanças ao longo dos anos, apenas o baterista original (John Rutsey) saiu da banda, por problemas de saúde, e assim sua formação segue, e não aparentando ter quatro décadas de história. Geddy Lee com seu baixo e Alex Lifeson, na guitarra se movimentavam de forma precisa no palco enquanto Neil Peart massacrava a bateria. Quem assistia ao show da arquibancada percebia com clareza à sintonia de banda e o público da pista. 

Fazia oito anos que a banda não vinha ao Brasil. A primeira vez foi em novembro de 2002 com shows no Estádio do Morumbi, em São Paulo, e no Rio de Janeiro, na ocasião em que gravaram, não muito longe da Praça da Apoteose, no Estádio do Maracanã, o CD/DVD Rush in Rio. O diferencial entre esses shows, é que em 2010 a banda estava solta, ligaram o foda-se, e fizeram uso de improvisos e elementos de outros estilos como o reggae, mas sem perder seu peso característico, como em “BU2B” uma música nova e que juntamente com “Caravan” (tocada na segunda parte do set) fará parte do próximo álbum que deve se chamar "Clockwork Angels", e tem previsão de lançamento para 2011. Ambas mostram que o Rush se mantém atual e ao mesmo tempo fiel à sua identidade Rock/Hard/Prog.
 
A primeira parte do set ainda presenteou o público com “Freewill”, “Marathon” e “Subdivisions” que fechou com estilo a etapa inicial. A banda pede uma pausa e o público aproveita para curtir o clima de paz e ar fresco que envolvia o outrora Sambódromo.

E a Máquina do Tempo nos leva ao Moving Pictures

A segunda etapa do show tem início com um cronômetro anual que contando a partir dos anos 70 vai mudando Rush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatórioa cada minuto de ano, até chegar em 1981, ano de lançamento de “Moving Pictures” o álbum mais famoso do Rush e que vem sendo tocado na íntegra nesta turnê. “Moving Pictures” é muito mais que o álbum que contém “Tom Sawyer”, música que, só no Brasil, foi tema do seriado “Profissão Perigo”. É neste álbum que encontramos “Red Barchetta”, a instrumental “YYZ” e que mesmo sendo uma música instrumental e logicamente sem letra, tem sua melodia cantada pela plateia de maneira tão envolvente que a própria banda parece se questionar sobre tal fato! É também em “Moving Pictures” que temos “Limelight”, “The Camera Eye”, “Witch Hunt” e “Vital Signs”, e todas essas músicas têm vida própria. Enfim, é o álbum indispensável na coleção de um fã da banda e o mais recomendável para aqueles que por ventura ainda não conhecem o Rush. 
 
Passado o deleite dos fãs que realizaram o sonho de ver um set do Rush só com Rush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatóriomúsicas do “Moving Pictures”. Geddy Lee anuncia a nova, “Caravan”, e ao final desta, dão espaço aos nove minutos de solo brutal e em alguns momentos tribal de Neil Peart em uma bateria giratória e mostrando aos iniciantes porque é visto como um dos maiores bateristas do mundo. Neste momento o telão principal destacava o movimento dos pés de Neil Peart.
 
Rush_in_Rio_10_10_2010_FOTO_MICHAEL_MENESES_credito obrigatórioA banda se une a Peart com Alex Lifeson portando um violão e dando início a bela “Closer To The Heart”, na sequência “2112 Overture/Temples of Syrinx” e “Far Cry” que encerra a segunda parte do set.
 
O pedido de bis era inevitável e o retorno da banda ao palco foi rápido e triunfal com “La Villa Strangiato” e “Working Man”. Ao todo foram cerca de 2h30, com 25 sons e somados aos curtas exibidos o show teve umas três horas de uma verdadeira história de rock, ou melhor, da “Verdadeira História do Rush”. - Michael Meneses! – michaelmeneses@portalrockpress.com.br
 
Primeira parte do Show:
1 - Intro - Filme

2 - The Spirit of Radio
3 - Time Stand Still
4 - Presto
5 - Stick It Out
6 - Workin’ Them Angels
7 - Leave That Thing Alone!
8 - Faithless
9 - BU2B (Brought Up to Believe)
10 - Freewill
11 - Marathon
12 - Subdivisions

Segunda parte do Show:
Intro - Filme

13 - Tom Sawyer
14 - Red Barchetta
15 - YYZ
16 - Limelight
17 - The Camera Eye
18 - Witch Hunt
19 - Vital Signs
20 - Caravan
21 - Solo de bateria
22 - Closer to the Heart
22 - 2112 Overture/Temples of Syrinx
23 - Far Cry
Bis
24 -
La Villa Strangiato
25 - Working Man
Filme Final

Portal Rock Press - Shows que marcaram época