"Música é uma coisa que não pode ter censura"! - ENTREVISTÃO COM HUGO MARIUTTI DO SHAMAN

Após 12 anos e com a formação original, a banda retorna aos palcos com a turnê Shaman SHAMAN_FOTO_Edu_Lawless_DIVULGAÇÃOReunion. A banda passou por São Paulo, Manaus, Fortaleza, Recife e agora é a vez de Brasília (30/11), Belo Horizonte (01/12) e no Rio de Janeiro (02/12). Na capital carioca o show acontece no Espaço HUB RJ, com a banda Rec/All no show de abertura, os ingressos estão a venda. Antes desses shows o guitarrista Hugo Mariutti concedeu entrevista para as Paginas Psicodélicas da ROCK PRESS, mantemos a tradição em convidar músicos para abrilhantar a entrevista com umas perguntas. Com vocês páginas psicodélicas com Hugo Mariutti!

"Música é uma coisa que não pode ter censura!”
ENTREVISTÃO COM HUGO MARIUTTI DA SHAMAN
PÁGINAS PSICODÉLICAS DA ROCK PRESS
ENTREVISTA: Jonildo Dacyony + Convidados - FOTOS: Divulgação.
COLABORARAM: Priscila Rodrigues e Michael Meneses.

Falar sobre a carreira do Shaman é, no mínimo, instigante. Formada originalmente por músicos consagrados no cenário Metal brasileiro e com renome internacional, a banda experimentou o sucesso logo em seu primeiro álbum, "Ritual", que foi lançado em 2002 (e relançado em 2015) e atingiu a marca de meio milhão de cópias vendidas. 

O ano de 2018 marca a volta dessa, que ao lado de nomes como Sepultura e Angra (banda da qual são egressos três de seus quatro membros fundadores), pode ser considerada um dos expoentes da música pesada no país.

Conversamos com o guitarrista Hugo Mariutti, que nos falou sobre a turnê de reunião, na qual a banda executa na íntegra os dois álbuns lançados pela formação original: "Ritual" e "Reason". O músico refletiu sobre aspectos políticos, sociais e é claro, acerca da trajetória da banda e o significado desse reencontro! 

Rock Press/Jonildo Dacyony: Sabemos que a formação original do Shaman é composta por músicos respeitados e queridos pelo público de música pesada, mas os fãs de Rock, pelo menos em parte, se mostram "com um pé atrás" sempre que uma banda volta com a formação clássica para uma turnê comemorativa ou de despedida. Como vocês lidam com essa questão?
HUGO_MARIUTTI_SHAMAN_FOTO_Edu_Lawless_DIVULGAÇÃOHugo Mariutti:
Na verdade, a volta em si, foi muito pela campanha que fizeram na internet. Houve muita mobilização por parte das comunidades, as pessoas mandando e-mails, mensagens pedindo pra gente voltar e a gente decidiu fazer esses shows devido a todos esses pedidos, que foram muitos e não são de agora, eles vêm acontecendo há anos. Nesses últimos tempos, consideramos a possibilidade de tornar isso realidade, porque muita gente que gosta da banda não assistiu a formação original, então a gente parou, pensou, conversou e decidiu fazer.

RP: Vocês disseram que haviam sentado pra conversar e "aparar as arestas" ou coisa que o valha. Como se deu esse encontro?
HM:
Não sentaram os quatro. Não foi uma conversa formal. Cada um encontrava o outro em algum lugar e conversava. Foi indo e quando a gente se decidiu já havíamos conversado praticamente tudo, já não tinha mais aquilo que fez acontecer a separação à época. Nos encontramos em vários lugares e todo mundo refletiu, conversou e resolvemos tocar, como eu disse antes, muito por essa mobilização dos fãs.

RP: E como tem sido a recepção dos fãs, a essa nova turnê? 
HM:
Cara, é muito boa! Os shows têm sido incríveis! Muita gente, várias faixas de idade, muitos que não haviam assistido ao Shaman, mas também muitos que já haviam visto. Uma mistura de públicos diferentes. Todos os shows têm tido uma recepção muito boa. A galera cantando todas as músicas. Doze anos que a gente não fazia um show juntos, mas acho que banda ainda gera uma comoção... Imagino!

RP: No álbum "Ritual" vocês contaram com algumas participações especiais. No cenário Metal mundial, já há algum tempo, presenciamos uma certa tendência de participações especiais, especialmente de mulheres. A pergunta é: até que ponto esse tipo de tendência pode contribuir positivamente para a musicalidade da banda sem que fique parecendo algo feito só pra atender o mercado?
HM:
É, isso é muito feito, mas acho que não só no Heavy Metal. Na música pop tem muita participação, você pega, por exemplo, uma música da Beyoncé, tem participaçãoHUGO_MARIUTTI_SHAMAN_FOTO_Edu_Lawless_DIVULGAÇÃO de "não sei quem", a  música da Rihanna também tem muita participação. Então, eu acho legal participação, desde que tenha realmente um propósito. Colocar por colocar, acho que não tem muito sentido. No meu disco, eu gostaria de ter uma participação que acrescentasse algo pra música. Por exemplo, no "Ritual", tivemos a participação do Tobias (Sammet, Avantasia). A gente queria ter duas vozes naquela música, então tinha um propósito. Na outra foi o Marcos Vianna, queríamos que tivesse um violino naquela parte, então vamos chamá-lo, é um cara consagrado, vai acrescentar. Não adianta ter participações só pra ter um nome de peso.

RP: O álbum "Reason" foi lançado em 2005. Como vocês analisam a evolução das produções de Heavy Metal no cenário nacional desde então?
HM: Acho que "Reason" é um dos trabalhos mais bem produzidos de Heavy Metal até hoje, porque era uma época na qual a gente ainda tinha um certo dinheiro que podia ser utilizado em gravação analógica, orquestra de verdade... Hoje em dia muitas bandas têm que economizar pra fazer gravações e produções porque não se tem mais uma gravadora que financie isso, pouquíssimas são as que financiam, então, se você tem uma tecnologia maior, você consegue um resultado bom, sem precisar gastar tanto, mas gravar em uma fita faz uma diferença, no geral, depois que todo mundo escuta, você fala: "Putz, realmente faz diferença". Então, acho assim: cada produção no seu tempo. Tem coisas muito boas daquela época e tem coisas muito boas hoje em dia. Eu acho que bom e ruim vai ter sempre, vai do talento em geral.

RP: O André Matos disse recentemente que "tocar um determinado material ao vivo em uma turnê comemorativa, só fica legal se for com as pessoas que criaram o trabalho", ou algo do tipo. Diante disso, há possibilidade dessa reunião gerar algum material novo? Um registro ao vivo ou algo inédito de estúdio?
HM:
Acho que o que ele disse foi que, com certeza seria mais legal se as pessoas que gravaram estivessem juntas fazendo isso novamente, tocar de novo esse álbum. Esse lance de "coisa nova", a gente ainda não conversou. Era pra ser um show só, foram aparecendo outras coisas e a gente tá fazendo. Não sentamos pra conversar sobre isso ainda, estamos pensando passo a passo. Acho que estamos focados nesses shows pra fazermos o melhor pro pessoal que vai assistir. A gente tá muito concentrado só nisso, então talvez por isso não conversamos nada sobre o que pode acontecer daqui pra frente.

Como tradição da ROCK PRESS convidamos músicos e formadores de opinião para fazer perguntas às bandas e músicos que entrevistamos, selecionamos algumas.

RP - Caso haja um álbum de inéditas, haverá uma continuidade na linha de um dos dois discos ou inovariam em uma terceira linha de som? - (Dejair Benjamim, vocalista da banda Tchandala – Aracaju/SE):
HM: Isso é uma coisa que é muito difícil de saber, porque são quatro pessoas diferentes, e tanto tempo depois, não imagino como poderia ser, porque no Shaman a gente sempre fez as coisas de uma maneira muito natural. A gente nunca ficou: "Ah, vamos fazer desse jeito, vamos fazer um som desse tipo".

RP - Como tem sido a perspectiva dos músicos, sobre o Brasil, nos dois períodos de atividade da banda em relação a cena metal nacional? - (Eduardo Lira, Guitarrista da banda Katharsiis – Juiz de Fora/MG):
HM:
Naquela época, quando a gente lançou o disco (Ritual), teve um "boom" do Heavy Metal e foi uma coisa muito grande. O Shaman tomou HUGO_MARIUTTI_SHAMAN_FOTO_DIVULGAÇÃOproporções muito grandes em pouco espaço de tempo que foi assustador, ninguém esperava. Pela experiência que eu tenho em shows, vejo sempre lugares cheios, mas o problema é que hoje a gente tem muita quantidade de show, coisa que não tinha naquela época com tanta frequência, então o que acontece é que as pessoas acabam reservando dinheiro para aquelas atrações que elas gostam mais. Não é uma coisa, tipo: "Ah, eu vou porque faz parte da cena". Ninguém consegue pagar tantos shows com preços caros, são muitos shows e a pessoa acaba escolhendo. Continua tendo uma cena, mas ela está mais espalhada, pelo fato de haverem muitas bandas tocando ao mesmo tempo.

RP - Qual o set up você tá usando nessa turnê: guitarras, pedais, amps cordas e quais afinações? - (João Jr, músico - Aracaju/SE):
HM:
É basicamente o que usava antigamente. O amplificador é um Mesa Boogie Rectifier, com caixas Marshall. Quanto às guitarras, tô usando uma Gibson Flying V, duas Gibson SG, uma Gibson Firebird, e às vezes, uma Fender Stratocaster. Os pedais são muitos (risos), se for falar aqui... A distorção, eu uso do amplificador mesmo, mas os pedais uso Delay Fyiat, Reverb... Tem muita coisa... Oitavador, Tremolo... Tem muita coisa que tinha no disco que eu tento reproduzir o melhor possível ao vivo. As cordas, uso as comuns A01 da Elixir e uso algumas afinações que usava nos discos. Tem algumas que são Drop Head e tem umas meio malucas que eu fiz na época do "Reason"... Eu nem sei... Se eu for ficar falando vai confundir mais ainda. Tem muita coisa, mas são as afinações que eu usava nos discos mesmo.

RP: Nos últimos tempos, vivemos uma polarização política no Brasil. Presenciamos um crescimento muito grande do conservadorismo, culminando na eleição de um presidente com ideias de extrema direita. A questão é pertinente porque, se o Rock em sua essência, sempre foi contestador, o Heavy Metal talvez seja sua derivação mais rebelde. No entanto, vemos posicionamentos extremamente conservadores, tanto por parte de fãs do gênero, quanto por parte de músicos consagrados, e isso no cenário internacional. Na sua visão, qual a responsabilidade do ídolo ao se posicionar politicamente, tanto em letras quanto em declarações fora do contexto musical?
HM: Cara, eu acho totalmente válido. Por exemplo, o que aconteceu com Roger Waters aqui. Independente da posição política, cada um tem que ter a liberdade de expressão e a música é uma coisa que não pode ter censura. Acho que cada um deve se expressar da maneira que acha melhor. O que não pode é essa intolerância, onde você fala uma coisa de um lado e é massacrado por causa de sua opinião. Cada um tem a sua opinião e tem que ser respeitado. O respeito é a coisa mais importante que tem, a opinião da outra pessoa. Sou totalmente a favor de que as pessoas tenham liberdade de falar o que elas pensam. Mesmo que sejam artistas, é somente uma opinião, não é uma verdade absoluta. A minha opinião não é uma verdade absoluta, nem a de outra pessoa!  Tem que haver liberdade. A pessoa pode gostar ou não, acontece. As pessoas estão ficando muito agressivas por coisas que, às vezes, não há nem como comprovar os fatos.

RP: Vocês já falaram sobre a relação do ser humano com o divino, de uma forma ampla no álbum "Ritual". Hoje, no Brasil, testemunhamos muitos líderes religiosos manipulando e cooptando fiéis de acordo com seus interesses políticos. Se "Ritual" fosse escrito hoje, o quanto o cenário político atual influenciaria nas composições?
HM:
Acho que você já falou tudo na pergunta. Realmente poderia influenciar bastante nas SHAMAN_FOTO_Edu_Lawless_DIVULGAÇÃOcomposições, na parte das letras principalmente. É uma coisa difícil de tratar, porque respeito as pessoas que acreditam, as pessoas que vão às igrejas e tal. Elas têm uma forma de pensar a vida, de pensar o que existe e etc. Só acho que tem muita gente oportunista no alto escalão que acaba fazendo esse tipo de coisa, lavagem cerebral, a gente sabe que isso acontece, mas acho que não é de hoje, é uma coisa que já vem acontecendo há bastante tempo. É que hoje em dia a gente tem um mundo informações com a internet, então acho que fica mais evidente. Mesmo nos EUA, há muito isso acontece. Não só lá, mas em outros lugares também. É que corremos o risco de julgar o que as pessoas acreditam, esse é o problema. 

RP: Temos observado muitas pessoas que não  eram nascidas ou eram muito pequenas na época de lançamento de "Ritual" e até mesmo de "Reason", portanto, aquela clássica mensagem final, gostaríamos que vocês mandassem para os fãs mais jovens.
HM:
Primeiro, agradecer o espaço, muito obrigado! E a mensagem que eu passo é um convite: se eles puderem assistir aos shows, porque, como foi dito, muita gente não pôde acompanhar essa formação e gostaríamos de contar com a presença delas e que continuem a se interessar por música, de uma forma geral, não se prendendo a um estilo. Acho que música é uma coisa que faz bem pra todo mundo, é cultura e o conselho que eu dou, no geral, é que as pessoas sejam mais tolerantes umas com as outras. Que possamos ter um ano novo feliz e de paz, que é o que a gente precisa. Esse ódio todo que está aí espalhado é algo que dá um pouco de medo, não é saudável. Por: Jonildo Dacyony.

SHAMAN REUNION TOUR 2018 - Próximos shows:
BRASILIA/DF
LOCAL:
Toinha Brasil Show – Brasilia/DF
DATA: 30 de novembro, sexta às 20hs
INGRESSOS: https://bit.ly/2NhY9UY
EVENTO: https://bit.ly/2RfUGrL

BELO HORIZONTE/MG
DATA:
Sábado 1 de Dezembro às 20hs.
LOCAL: City Hall – AV. Tereza Cristina, 179 Prado, Belo Horizonte/MG
INGRESSOS: https://bit.ly/2Ayqq4q
EVENTO: https://bit.ly/2QvE0j3

RIO DE JANEIRO/RJ
SHAMAN_Show_Rio_de_Janeiro_2_12_2018DATA:
02/12/2018 (domingo) às 16hs.
LOCAL: HUB RJ - Av. Professor Pereira Reis, 50, Porto Maravilha. Próx. à Rodoviária Novo Rio. -  https://www.hubrj.com
SHOW DE ABERTURA: Rec/All - https://bit.ly/2TP6qDg
INGRESSOS:
Pontos de Venda Antecipado:

Blizzard Rock: Rua Pedro Lessa, Box 8 - Cinelândia/Centro;
Hard'n Heavy: Rua Marquês de Abrantes, 177, Loja 106 – Flamengo.
Headbanger: Rua Conde de Bonfim, 346, Lojas 213 e 214 – Tijuca.
Inside Rock: Av. Amaro Cavalcanti, 157 – Méier.
Underground Rock Wear: Av. de Santa Cruz, 4396 – Bangu.
Requiem Rock Store: Mercado Popular Galeria B, Box 170 - Campo Grande.
No Class Agency: R. das Acácias, 73 – Gávea - Tel: (21) 99939-0460 (Ligar antes para confirmar horário).
Sotero Hostel: R. Penaforte, 335 - Freguesia/Jacarepaguá - Tel: (21) 3432-4065 / (21) 98363-1719 (Ligar antes para confirmar horário).
Kasamata: Rua da Conceição, 101, Sobreloja 55 - Centro – Niterói/RJ.
Vendas Online: https://bit.ly/2KD5Unx
EVENTO: https://bit.ly/2rbyB2d
CLASSIFICAÇÃO: 18 anos. Maiores de 14 anos somente acompanhados de um responsável maior de 21 anos, mediante documento original e assinatura de termo de responsabilidade na entrada do evento.

Postado por Michael Meneses terça-feira, 27 de novembro de 2018 20:38:00 Categories: Angra Destaque Heavy Metal Katharsiis Rec/All Rock Roger Waters Sepultura Shaman Shaman Reunion Show Tchandala Viper