LEGIÃO - Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá: Perpetuando a Legião Urbana! - Fundição Progresso/RJ- 2/2/19

Ex-integrantes da Legião fazem show memorável na Fundição Progresso no Rio de Janeiro com à turnê "Legião UrbanaAndré_Frateschi_Legião_Urbana_Fundição_Progresso_RJ_2_2_19_Foto_Antonio_Carlos_Paes XXX Anos", tocando mais do mesmo (não era isso o que você queria ouvir?) e mostrando que, certamente, não foi um tempo perdido.

 

LEGIÃO - Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá: Perpetuando a Legião Urbana!
Fundição Progresso/RJ- 2/2/2019.
TEXTO: Rick Olivieri – FOTOS: Antonio Carlos Paes.

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Muito Mais que Duas Tribos...
Alguém que passasse olhando rapidamente para o público que se aglomerava em frente à Fundição Progresso, tradicional casa de espetáculos que fica ao lado do Circo Voador, nos Arcos da Lapa/RJ sem ver o banner contendo uma foto de Dado e Marcelo, mais acima, e que anunciava o show daquela noite, provavelmente, saberia de cara que se tratava de um show de Rock. 
 
Mas talvez não tivesse ideia de que artista ou banda iria se apresentar ali dentro de algumas horas. Era possível ver pessoas de várias idades: crianças, adolescentes, adultos e senhores já passando dos 50. Também não dava pra adivinhar pelo visual, pois havia desde aqueles que pareciam fãs de Pop Rock, até os que poderiam muito bem estar à espera de um evento de Heavy Metal. E isso ajuda a exemplificar bem o que foi (e é) o fenômeno Legião Urbana ao longo de sua trajetória. O grupo capitaneado por Renato Russo sempre reuniu (e dividiu também) um público formado por diversas tribos, do Punk ao Progressivo, passando pela música eletrônica, Reggae, Rockabilly etc.
 
Há Tempos - Uma Breve Retrospectiva da Geração Coca–Cola...
Uma pequena digressão se faz necessária para contextualizar as coisas: Nos anos 80, após uma primeira metade de década onde Blitz, Gang 90, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso e outros despontaram fazendo um som mais voltado para a diversão, quando da chamada redemocratização, algumas bandas de Brasília (incluindo Plebe Rude e Capital Inicial), chegaram trazendo um conteúdo mais político em suas letras.
 
Pouco mais de 30 anos atrás, em 1988, quando eles tocaram para um Maracanãzinho lotado, no Alternativa Nativa, promovendo o disco "Que País é Este?", o Brasil tinha alcançado o auge do BRock. Além do "Triunvirato" Legião, Paralamas e Titãs, tínhamos Barão, Capital, Engenheiros, Plebe, Ira! e outras sendo executadas no dial, especialmente nos 94.9 da Fluminense FM que deu voz a essas bandas bem antes das demais, mesmo que logo outras emissoras tocassem sem parar - alguns até diriam que à exaustão. "Eduardo e Mônica" e a longa "Faroeste Caboclo" são bons exemplos.
 
Foi, sem dúvida, um dos períodos mais ricos e diversificados para o grande público em termos musicais, ao menos, em nível nacional. Aquela geração de adolescentes que assistia ao Chacrinha na TV (que partiria em 30/6/88), viu uma mistura de gêneros e estilos numa salada sonora. Por isso, muitos se acostumaram a ouvir de Roupa Nova a Tim Maia, de Byafra a Camisa de Vênus, de Jessé a Egotrip. Porém aquela época mais "inocente" (de garotos que iam fazer revoluções por minuto, combatendo toda forma de poder para mudar o mundo) estava com os dias de luta contados. Afinal, boa parte de nós envelheceu na cidade. Natural que muita coisa ficasse pra trás.
 
O lançamento da MTV Brasil, no ano de 1990, trouxe também uma grande diversidade e escancarou, de vez, as portas para o som que era feito lá fora. Antes, tínhamos que correr atrás dos discos importados ou esperar meses até determinado clipe passar na televisão. Mas, à medida que iam aparecendo programas como Fúria Metal, DisK MTV, Yo!, Lado B e outros, nichos com gostos direcionados foram se formando e consolidando.

Não que essa segmentação fosse algo raro. Nos anos 1960, tínhamos a turma que curtia mais a Bossa Nova. Nos 70, os fãs de Rock Progressivo. Nos 80, os de Punk (note que o brasileiro, pegava a onda de certos estilos internacionais com atraso, muitas vezes), Heavy Metal etc. Mesmo que vários desses gêneros e subdivisões internacionais já existissem pelos guetos das cidades brasileiras, o convívio foi se tornando mais difícil com o passar do tempo.
 
Assim como Kid Abelha, Erasmo Carlos, Eduardo Dusek e outros artistas haviam sido hostilizados na primeira edição do Rock in Rio (1985), ao se apresentar no Rock in Rio II, Lobão recebeu uma saraivada de latas da plateia à frente da bateira da Mangueira, no mesmo palco de Sepultura, Queensryche, Megadeth, Judas Priest e Guns and Roses, no Rock in Rio II (1991). É como se cada geração chegasse num ponto em que o ecletismo não era bem vindo. 

Isso, somado à "sofistificação" na estratégia da indústria fonográfica e da mídia musical de investir em determinados públicos-alvo, fez com que bandas como a Legião passassem a ser amadas ou odiadas com a mesma intensidade, mesmo entre os apreciadores do Rock. Bom,  o assunto leva a tantas discussões que talvez mereça outra matéria.

O fato é que, com a morte de Renato Russo, em 1996, chegamos ao final de uma era. A turnê "Legião Urbana XXX Anos” faz uma retrospectiva dos primeiros LP's lançados. Este show específico serviu para celebrar os discos "Dois" e "Que País é Este?". Vamos a ele...
 
Por Enquanto...
João_Pedro_Bonfá_Legião_RJ_2_2_19_FOTOAntonio_Carlos_PaesPouco a pouco, o público ia preenchendo a pista e arquibancadas da Fundição Progresso, o DJ ia fazendoJoão_Pedro_Bonfá_Legião_RJ_2_2_19_FOTOAntonio_Carlos_Paes uma feliz releitura de clássicos dos anos 80, por exemplo, com um mix de "I Can't Stand Losing You", do The Police com "Talking in Your Sleep", do The Romantics.

O show estava marcado para as 22h, mas quem entrou por volta de uma hora depois, para aquecer os presentes, foi a banda do filho de Marcelo, o guitarrista e vocalista João Pedro Bonfá. Levando diversas composições autorais, os caras mostram talento. O único ponto negativo foi a duração da apresentação, de aproximadamente uma hora, que deixou as pessoas um pouco impacientes pela entrada da atração principal daquela noite quente de sábado. 
 
E Depois do Começo...
Dado_Villa_Lobos_Legião_Urbana_RJ_0222019_FOTOAntonio_Carlos_PaesPor volta de 1h, Dado, Marcelo e Cia, finalmente, sobem ao palco. "Daniel na cova dos leões" abre o show. O vocalista André Frateschi, que entra em cena usando uma saia preta e comprida, desafiando "o instinto dissonante", imita a Dado_Villa_Lobos_André_Frateschi_Legião_Urbana_RJ_2_2_19_FOTOAntonio_Carlos_Paesfamosa dança de Renato, misto de Tai-Chi Chuan com uma espécie de Air Painting com as mãos. Seu ofício como ator, claramente o ajuda em sua interpretação da letra e desenvoltura na posição de frontman da banda (e a encarar a baita responsabilidade de ocupar o lugar que outrora foi de Renato).
 
Na sequência, a platéia ajuda a fazer o coro, cantando três clássicos do segundo disco e algumas das letras mais formadoras de caráter para a juventude dos anos 80: "Quase sem querer" (Quantas chances desperdicei/Quando o que eu mais queria/Era provar pra todo o mundo/Que eu não precisava provar nada pra ninguém), "Eu sei" (Um dia pretendo tentar descobrir/ Porque é mais forte quem sabe mentir) e "Índios", "Quem me dera ao menos uma vez/Que o mais simples fosse visto como o mais importante/Mas nos deram espelhos/E vimos um mundo doente).
 
"Acrilic on canvas" talvez seja aquela que tenha uma das letras mais e herméticas e difíceis de acompanhar, pois é cantada na primeira pessoa, descrevendo de forma poética e criptografada uma narrativa de relacionamento conturbado - ou que nem mesmo aconteceu, usando de vários elementos de pintura (Preparei a minha tela/ Com pedaços de lençóis/Que não chegamos a sujar/A armação fiz com madeira/Da janela do seu quarto/ Do portão da sua casa/ Fiz paleta e cavalete). Seria o personagem um psicopata atormentado por um amor platônico? Não é à toa Renato ser chamado pelos fãs de "O Bardo de Brasília", tamanha a força na intenção e qualidade de suas letras, mesmo quando não é compreendido em sua inteireza. Nesse ponto, Cazuza era mais direto. MasAndré_Frateschi_legião_Urbana_RJ_2_2_19_FOTOAntonio_Carlos_Paes dizem que o interessante em música, é deixar o que é contado, aberto à interpretação.
 
Dado Villa-Lobos, com sua Fender Telecaster e camiseta em clara homenagem a casa de shows Napalm e que nos anos 1980 abrigou apresentações da Legião em São Paulo dá boa noite aos presentes numa das sequências mais pesadas da noite, composta por músicas do "Que País é Esse" e da fase punk de Brasília e do Aborto Elétrico: "Tédio (com um T bem grande pra você)", "Mais do mesmo", "Metrópole" e "Química". "Plantas embaixo do aquário", do "Dois" precede mais duas do terceiro disco, "Depois do Começo" e "Conexão Amazônica" (cantada por Dado).
 
A banda Bonfá_Legião_Fundição_Progresso_RJ_0222019_FOTOAntonio_Carlos_Paescompleta é apresentada, antes de tocar uma vigorosa versão Folk/Blues de "Música Urbana 2", do final dos tempos do Aborto Elétrico. Esta sendo seguida de "Eduardo e Mônica", com Bonfá no vocal, André na gaita e, claro, cantada por quase todos os presentes. 
 
Chegada a hora de ver se os fãs ainda sabem cantar toda a letra de “Faroeste Caboclo”, música que chegou a virar filme recentemente. Frateschi usa todos seus recursos como ator para  contar/relembrar a saga de João de Santo Cristo, chegando a usar a pandeirola como se fosse uma coroa de espinhos, num dos pontos altos do show. E, sim, o público ainda lembra e cantou a letra do começo ao fim!
 
Também dos tempos do Aborto, “Que país é esse?”, com direito à frase resposta padrão do público ("É a &8##@ do Brasil!"), mostra que apesar de ter sido composta no final dos anos 70, ainda permanece atual no seu questionamento. A bela “Angra dos Reis”, continua na mesma linha, perguntando: “quando as estrelas começarem a cair, me diz pra onde é que a gente vai fugir...”
 
Encerrando com suas questões existenciais internas em “Andrea Doria” (eu sei é tudo sem sentido), sociais e ambientais na contundente “Fábrica” (eu quero trabalho honesto em vez de escravidão... o céu já foi azul, mas agora é cinza) e da brevidade da vida humana em “Tempo Perdido” (todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou), onde curiosamente, Bonfá erra o tempo na virada principal. Bom, nada demais... 
 
...o que Vier Vai Começar a Ser o Fim...
Bonfá_Legião_Fundição_Progresso_RJ_0222019_FOTOAntonio_Carlos_PaesNo bis temos a bonita “Vento no litoral”, com Bonfá no vocal e Frateschi na bateria, Dado cantando “Giz”, a filosófica “Há tempos” (compaixão é fortaleza), a questionadora “Será” (faixa que foi o carro-chefe de lançamento do primeiro disco) e a crítica mordaz de “Perfeição” (vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado).
 
Ao final do show, os fãs visivelmente satisfeitos com aquela celebração dos 30 anos de obras historicamente importantes do Rock e da Música Brasileira e também da química entre Dado, Marcelo e Renato Russo e que extrapolou a música e a poesia, mudando ou consolidando certas formas de pensar esse nosso mundo. Ao final, aquela certeza de que já não somos tão jovens e o futuro não é mais (mesmo!) como era antigamente... - Por Rick Olivieri. 

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