Glenn Hughes - "A Voz do Rock Tratando a Todos Muito Bem" - Circo Voador/RJ - 29/4/18

Para todos acostumados com os espetáculos feitos no local, chamado carinhosamente por muitos de Glenn Hughes - Circo Voador/RJ - 29/04/18"Nave Espacial", assistir a qualquer show no Circo Voador, localizado em frente aos arcos da Lapa é quase como estar em casa. Ou seja, a atmosfera mais intimista está garantida. Foi nesse clima que Glenn Hughes conduziu a “Nave” do Circo Voador e sua tripulação de fãs!

Glenn Hughes - "A Voz do Rock Tratando a Todos Muito Bem"
Circo Voador/RJ - 29/04/18
TEXTO: Rick Olivieri e Marcus Larbos - FOTOS: Anderson Almeida

Glenn Hughes show no Circo Voador FOTO Anderson Almeida

Para aquecer os presentes, é recepcionada a competente banda de abertura, Seu Roque - que, formada por Diego Denucci (Bateria), Flavio D'Anunciação (Voz / Baixo) e Neube Brigagão (Guitarra), trás um som com claras influências do Rock setentista. Como fica claro na audição do riff introdutório de "Diana", que imediatamente  faz lembrar o bom e velho Led Zeppelin (grupo, aliás, do qual levariam uma cover mais à frente, a clássica "Rock And Roll"). Na estrada desde 2009 e mostrando um trabalho vigoroso e honesto, a banda carioca percorre parte de seu repertório, com destaque, para as canções do disco  "Visceral", lançado em 2017. Parabéns aos rapazes!

Glenn Hughes show no Circo Voador FOTO Anderson AlmeidaCom alguns minutos além do horário previsto, Glenn Hughes e seus três companheiros de banda surgem, sendo bastante ovacionados, para brindar o público com uma apresentação que conta com versões de músicas do Deep Purple que remetem aos tempos de "California Jam" e "Made In Europe". E eles iniciam a noite, a todo vapor, para usar uma expressão antiga, com "Stormbringer", faixa título do nono álbum do Purple, lançado em novembro de 1974 - obra que veio surpreendemente, mesclando influências de Funk e Soul ao Hard Rock do grupo (fato que, segundo consta, foi desagradando Richie Blackmore a ponto deste sair, em 1975 para formar o Rainbow).

Mas, voltemos ao show! Seja pela arte do backdrop, seja pelas roupas de pelo menos 3/4 da banda, ou o som do teclado Hammond, há inúmeros elementos que  nos levam ao clima dos anos 70. De cabelos grandes novamente, óculos escuros e elegantemente vestido, o Glenn Hughes que hoje tem 66 anos, ainda faz jus à sua figura dos tempos de glória. Não fisicamente, claro, mas pela sua energia expansiva e, lógico, pela voz que continua potente após tantos anos de estrada. Com ele, Soren Andersen (Guitarra), Jay Boe (Teclados) e Fernando Escobedo (Bateria). Este último, um jovem chileno de 25 anos, é o único que, visualmente, destoa um pouco dos demais, lembrando mais os bateristas da virada dos 80/90.  Mas jamais se deixe levar pelas aparências. Nem ele ou qualquer um de seus colegas está ali por acaso. Logo fica claro que o lendário Glenn Hughes sempre busca estar cercado dos melhores músicos possíveis. Os rapazes logo emendam com duas enérgicas faixas do Burn (lançado em fevereiro de 1974): "Might Just Take Your Life" e "Sail Away". Detalhe para os backing vocals, que fazem as vezes do timbre mais grave do grande David Coverdale, importante elemento presente naquela que muitos consideram a melhor formação do Deep Purple de todos os tempos - a Mark III.

Ok! Se alguém tinha alguma dúvida, chega a hora dele mostrar porque exatamente é chamado "The Voice of Rock". Pequena pausa e o primeiro acorde já deixam claroGlenn Hughes show no Circo Voador FOTO Anderson Almeida que a próxima música é, nada mais, nada menos, que a gloriosa "Mistreated"! Com mais esse petardo do Burn, o carismático vocalista faz o público cantar o marcante refrão a plenos pulmões - a maioria, umas duas oitavas abaixo - enquanto as cordas vocais de Hughes alcançam notas estratosfericamente celestiais, com aparente e impressionante facilidade. No exato momento em que meu cérebro compara a versão cantada pelo saudoso Ronnie James Dio a esta, Glenn parece ouvir meus pensamentos e baixa o tom em determinada parte para um bem mais grave, fazendo lembrar o velho Elfo. Eu sorrio, sozinho, pensando com os meu botões: tem gente que é boa no que faz. E tem gente que nasceu pra isso. Esse cara é uma destas pessoas! 

Ao término da música, Glenn Hughes saúda o público e fala do prazer de estar tocando para os brasileiros. Após o solo de teclado, eles prosseguem com a excelente "You Fool No One", mais uma do Burn (álbum vencedor do setlist da noite, em número de sons tocados). A condução percussiva de Escobedo é empolgante. Assim como sua precisão na alternância entre deixar seguir soando e parar  o contratempo com a outra mão, num intervalo curtíssimo de tempo. Uma verdadeira aula no instrumento! O que, ao meu ver, já dispensaria o longo solo de bateria que se segue, recurso que parece vir se desgastando no decorrer dos últimos anos, por já ter sido utilizado quase à exaustão. Mas, claro, é apenas a minha opinião. Falando em solos, o de guitarra de Andersen, no meio da música, também foi muito bom. E o que é melhor,  mais curto que as viajantes e intermináveis trips do nosso querido Blackmore! Hehe... Como deveria ser, apenas o suficiente para resgatar as lembranças de um período glorioso em termos de concerto de Rock.

Glenn Hughes show no Circo Voador FOTO Anderson AlmeidaNuma ótima sequência, duas do Come Taste the Band (de outubro de 1975): "This Time Around" e "Gettin' Tighter". E as primeiras notas do teclado prenunciam que é momento de um dos maiores hits do Deep Purple e da história do Rock mundial, a clássica "Smoke on the Water" (do Machine Head/março de 1972). Ao som de um dos riffs de guitarra mais famosos do mundo e que, provavelmente, os funcionários de lojas de música estão quase cansados de ouvir, a plateia ajuda não só Hughes a cantar como solfeja a melodia dos outros instrumentos. Em seguida, é a vez da magnífica e cheia de alma "You Keep on Moving", outra pertencente ao Come Taste the Band - trabalho ótimo, ainda assim, subvalorizado por muitos. Se nunca prestou muita atenção a este trabalho do Purple, recomendo tentar uma segunda audição. Tem muito a ser apreciado ali. 

E, no bis, como era esperado, temos a sempre boa para se cantar junto  "Highway Star" (também do Machine Head), como já tradicionalmente acontece, emendada com um trecho generoso de "Georgia on My Mind" (clássico imortalizado por Ray Charles). Para encerrar a noite, outro clássico que "A Voz" não pode deixar de levar em seus shows: a poderosa "Burn" (do álbum homônimo, é lógico!). Mais um refrão cantado com vontade por uma audiência, feliz da vida Glenn Hughes show no Circo Voador FOTO Anderson Almeidapela experiência. A banda chega á frente do palco para se despedir e Hughes dá algumas palavras, com mensagens de amor e positividade, deixando a esperança de retornar no ano seguinte.

Para alguns, como nosso grande colaborador Marcus Larbos, Hughes só pecou por incluir "Smoke on the Water" e "Highway Star" (dos tempos do Gillan) no repertório e deixar outras, da própria fase, de fora - como, por exemplo, “Holy Man”. Mas o fato é que em shows de artistas desse porte sempre acabam ficando esquecidas algumas joias preciosas ao longo de uma discografia prolífica a ser percorrida. Tudo isso só deixa o público torcendo para que ele venha mais vezes ao Brasil. - Por Rick Olivieri

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