GANGRENA GASOSA e TAMUYA THRASH TRIBE - Detonando em Madureira/RJ!

Madureira, zona norte carioca, terra do jongo da serrinha, dos eternos sambas portelenses e imperianos, do Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_Soaresbaile charme e do comércio de rua. É neste famoso bairro do subúrbio carioca que se localiza o Parque Madureira, palco de mais uma noite épica, com shows da Gangrena Gasosa e Tamuya Thrash Tribe, que ainda contou o com Fakir Pawlowski como atração surpresa!

GANGRENA GASOSA e TAMUYA THRASH TRIBE - Detonando em Madureira/RJ!
Arena Carioca Fernando Torres – Madureira/RJ – 10 de maio 2019
TEXTO e FOTOS: Fabiano Soares

Sexta-feira, é dia de curtir a noite. Chego no Parque Madureira por volta das 18:30. O lugar é enorme, sei que em algum ponto tem a Arena, mas só vejo uns coroas caminhando. Vamos nesse pique, caminhando e procurando um som desgraçado por aí. Uns passos depois, ouvi um pagodão, mas entremeado por um sonzinho bem abafado de guitarra distorcida. Fui andando no sentido em que a guitarra ficava mais alta, e achei o local, onde passavam o som. Na terra do samba, duas bandas que mesclam as guitarras e o peso do metal com o batuque brasileiro; bem bolado!

Lugar maneiro, mas às 19hs o pessoal começava a chegar, tímido, em parte por conta do atraso carioca (tão de lei quanto falar “de lei”), mas também por conta do trânsito louco das sextas, sem contar que os precinhos do produtos madureireses devem ter seduzidos a galera que não tá acostumada a pagar 2 Reais em um fome de ouvido de ziper que não quebra nem dando nó!. Beleza, dá pra ficar de papo com o pessoal. Um cara que está andando no local, falando com todo mundo, para ao nosso lado, começa a conversar sobre Shibari, BDSM, swing.  — Você é o tal Pawlowski? – pergunto, e ele confirma na hora.

Para quem não soube, foi anunciada uma atração extra, com o Fakir Pawlowski – que o Gurcius Gewdner, cineasta e músico (?) anunciou nos seus famosos e lindos “Dança-fone” como DJ por conta da empolgação. Mas na conversa soubemos qual seria a performance surpresa, e eu, particularmente, coloquei a mão protegendo meu saco, um gesto instintivo para tudo o que me causa aflição. Vai entender… Freud explica. Enfim, após um bate-papo animado sobre o cenário BDSM e fetichista no Rio de Janeiro, começam uns riffs do lado de dentro. O espaço ainda tinha essa separação: o palco era em uma arena fechada, e o ar condicionado estava no talo, uma delícia!

TAMUYA THRASH TRIBE - Tamuya_Tharsh_Tribe_FOTO_Fabiano_SoaresAos berros, Angelo Arede, vocal da Gangrena Gasosa, chamou o público presente para prestigiar o Tamuya Thrash Tribe. Com suas letras politizadas somadas ao cenário impactante e o peso musical, o show do Tamuya foi de arrepiar! O show começou com “Immortal King”, famosa por conta do clipe, e agitou o pessoal logo no início. Um diferencial presente é a percussionista, Paula Perez, que complementa o som e dá a liga com a temática da banda.

O desfile de petardos como “The Voice of Nhanderu”, “Senzala / Favela”,  “Violence and Blood”, Tamuya_Tharsh_Tribe_FOTO_Fabiano_Soaresveio acompanhado de um discurso coerente do vocalista e guitarrista, Luciano Vassan, e óbvio, rolou um “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!” por parte do público, o que é sempre lindo. O ambiente, aliás, além de fascists-free, tinha até crianças: um com uns 2 anos e outro maiorzinho, mas mal passava dos 10. Um programa família, de verdade. Não esquecendo que as letras, que mostram preocupações sociais e sobre a ancestralidade esquecida por muitos (principalmente afro e indígena, porque pessoal pode ter avó negra, mas só vai lembrar do tataravô italiano ou português na hora de falar do passado), acabam sendo oposição indireta ao governo evangélico do Crivella, e o show aconteceu em um local da prefeitura. Essa ocupação – Tamuya_Tharsh_Tribe_FOTO_Fabiano_Soaresde pessoas não indicadas pela Márcia hehe – é muito importante! Recomendo de verdade que leiam as letras, principalmente nesse momento que estamos vivendo.

O Tamuya Trash Tribe fez um ótimo show, levando diversão e conscientização através de sua música. O pano de fundo dos caras, inclusive, com uma criança indígena apontando uma arma para a própria cabeça, era um soco no estômago, lembrando o pessoal do “só curto pelo som” que só é alienado quem quer, porque tem banda produzindo coisa boa e interessante, tanto no som quanto no conteúdo. Aliás, o peso extra da guitarra fica por conta do Leonardo Emmanuel, e a cozinha conta com os JP, Mugrabi no baixo e Rodrigues na bateria, além da Paula.

GANGRENA GASOSA - Após um pequeno intervalo, a intro sinistra da Gangrena começa, seguida pela lenta aparição de cada uma das entidades representadas pelos Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_Soaresmúsicos, um figurino que chama atenção para quem nunca os viu ao vivo. Começam então as notas do início de “666”, para demarcar que o território evangélico da prefeitura fora tomado pelo Capeta! É… novamente a luta simbólica – que não deve ser ignorada – entre a teocracia corrupta e a avacalhação contra-hegemônica. Após o aquecimento com aquele cheirinho de enxofre, emendaram com a faixa-título do álbum novo (“Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra Quem Não Presta), e as rodas já estavam rolando quando rolou a sequência do hit “Surf Iemanjá” com a pesadíssima “Black Velho”.Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_Soares

Era show de estreia do novo baterista, Alex Porto, o Exu Tiriri, que mandou bem e espancou a bateria que ditou o ritmo das rodas. E na Gangrena também tem mulher na percussão, Ge Vasconcelos, a Pomba Gira Maria Mulambo, se desdobrando entre alfaia, caixa, atabaque e sei lá mais quantos instrumentos; sempre acrescentando na sonoridade bem trabalhada da percussão da Gangrena.

Eder Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_SoaresSantana e Angelo Arede, Omulu e Zé Pelintra respectivamente, afinadíssimos na distribuição das vozes (ou urros?), complementavam-se, cada um no seu estilo. Além disso, o Angelo comandava o público com os berros, caretas e as chamadas entre as músicas, sempre com alguma zoação. E assim foi, mesclando entre músicas do disco novo e outras mais antigas – a partir do EP Cambonos from Hell –, o show foi animado e gerou hematomas felizes nos mais empolgados, principalmente em músicas mais pesadas, como a sequência “Matou a Galinha e foi ao cinema” / “Exu Afirma seu Ponto”, seguida por “Headbanger Voice” e a velocíssima “Darkside”.

Na parte das cordas, Minoru Murakami, o Exu Caveira, abusou das expressões raivosas; isso só chamou a atenção, claro, porque ele tocou sem máscara. Embora visualmente diferente, as palhetadas e o peso da guitarra são os de sempre, então não teve erro. Já do outro lado do palco, com expressões muito mais amenas, e sempre parecendo divertir-se muito, Diego Padilha, o Exu Tranca Rua das Almas, muito tranquilo nas quatro cordas, completava o time, encorpando o saravá metal com o grave.Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_Soares

Rolou “Cambonos from Hell”, “Eu Não Entendi Matrix”, “Hardcore DFC” e as novas “Fiscal de Cu”, “Farda Preta”, e “Jogo do Bicho”… A roda se animava em umas e depois paravam pra dar pulinhos e cantar juntos em outras. Ambiente agradável, sério. Aí veio uma parte linda dessa cerimônia, quando em “A Supervia Deseja a Todos Uma Boa Viagem” o público e a banda chamam carinhosamente “Satanás” em um transe guiado só pela guitarrinha e a percussão. Esse peso todo virou socos e chutes na música que sempre tem a maior roda da Gangrena, aquela que até seu tio crente conhece: “Centro do Pica-Pau Amarelo”.

Depois do pau comer lindamente, vem a última música da noite: “O Saci”. Aí vocês lembram do início do texto, o Fakir Pawlowski? Pois ele entrou no palco mascarado, junto com uma menina, e se algum integrante cagasse no palco durante a música, não seria visto: Pawlowski colocou ganchos nas costas da menina e fez suspensão corporal, com ela dando uns chutinhos no ar enquanto rolava a música. Todos olhando para o alto, foi a hora de jogar despacho no público, todos pegos de surpresa, porque tinha uma pessoa suspensa por correntes no ar, moshando sozinha!

E nesse clima acabou o show! Foi bonitão, legal ver galera podendo levar crianças para ver esse espetáculo (foi foda mesmo!), Gangrena_Gasosa_FOTO_Fabiano_Soarese apenas um fato negativo: Tamuya e Gangrena numa sexta à noite, a R$ 20, se fosse no Circo Voador, tinha lotado. Não ficou vazio, mas merecia mais gente. Porque quem mora na Zona Norte, na Baixada, é muito mais fácil ir a um evento em Madureira do que no Centro, né, então fortalecer esses eventos que ocorrem no subúrbio é um caminho. Mas enfim, bom que se não tomou farofada na cabeça, deu até pra pular o banho, porque o ar condicionado tava uma beleza, o suor já se desfazia na hora!

Por mais eventos baratos na Zona Norte, com bandas de peso como Gangrena e Tamuya. Voltei pra casa tranquilamente, sem perrengue (porque além de perto, o show acabou antes das 11). E se perdeu, fortaleça da próxima vez, morador! - Fabiano Soares.

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