Festival Arena Do Heavy e o Legado das Lonas Culturais

Alguns eventos fizeram história no rock do subúrbio carioca, só para citar alguns, Rato no Rio, Arena_do_Heavy_29_7_2018_Campo_Grande_RJRoquealize-se, Tomarock, Rio Metal Works... Um dos eventos mais bacanas da década de 1990 está de volta, falamos do Arena do Heavy que acontece domingo, 29/07, às 15hs na Lona Cultural de Campo Grande, com as bandas Hicsos, FIC Trio, Sanskrit e Liverking. A primeira edição desse evento aconteceu em 1990, antes mesmo do Teatro de Arena se tornar a primeira Lona Cultural do Rio de Janeiro. Aproveitamos o gancho para contar um pouco da história desse fabuloso aparelho cultural e do surgimento das Lonas Culturais no Rio.

Festival Arena Do Heavy e o Legado das Lonas Culturais
TEXTO: Michael Meneses – IMAGENS: Divulgação.

Sabe aquele evento que toda banda quer tocar?! Então, esse foi o Arena do Heavy! A primeira edição do festival aconteceu em 1990, e mesmo com “Heavy” no nome, ao longo das edições o evento sempre foi eclético, indo de estilos como: Death-Metal ao Rap-Core. Afinal o evento nasceu na década que mais uniu estilos no rock. Ao todo foram três edições, em 1990/91 e em 1993. Depois o Arena do Heavy, deu uma longa pausa, ficando 25 anos sem acontecer. Contudo na medida do possível o rock sempre esteve presente no palco da Lona, afinal graças ao Arena do Heavy a Lona Cultural de Campo Grande se tornou uma referencia rock na região, especialmente nos anos 90.

Arena do Heavy – Lona Cultural de Campo Grande A VOLTA!
Passados 25 anos, o evento volta a acontecer. No palco, show com Hicsos, FIC Trio, Sanskrit e Liverking. Inicialmente a banda Cancro iria participar em homenagem póstuma ao seu guitarrista, Alexandre Leite (O Pinguim). Uma verdadeira festa com direito a uma jam com amigos e músicos presentes. Pinguim, partiu deste plano no último mês de março, porém por motivo de força maior a banda precisou cancelar seu show. Aliás, a ideia de retornar com o Arena do Heavy surgiu como forma de homenagear não apenas o Pinguim, mas também ao músico Flávio Cunha, que faleceu em Janeiro.

Para completar, outras atrações estão confirmadas para o evento. Um hambúrguer artesanal foi criado exclusivamente para ocasião, entre um show e outro, vídeos no telão, som mecânico, stand com merchan, sorteio de CDs, Camisas e Brindes, opções de comida vegana e muito mais. #Prestigiem! (Serviço ao final da matéria).

Arena do Heavy - A história...
No inicio do Ano de 1990 alguns heavys do bairro de Campo Grande na zona oeste carioca, entre eles, Paulo Iquiene, Miltão e os irmãos Christian e Ives Pierini, estes dois residentes do Teatro de Arena. O teatro era e é até hoje é um ponto de encontro da cena, que lá se reunia para ouvir um som ou trocar ideias, certo dia, entre um som e outro esses “Metaleiros Furiosos” (apelido inspirado no programa Fúria Metal da MTV), tiveram a ideia do evento, o nome foi uma sugestão do Miltão. Assim, surgiu o Arena do Heavy Festival.

Arena do Heavy I – 23 de junho de 1990
Arena do Heavy I 23 de Junho de 1990Em tempos sem redes sociais, divulgar um show de rock era xerocar cartaz e espalhar pela cidade, fazer divulgação boca-boca e esperar o dia. Na primeira edição, bandas de Hard, Heavy e Punk dividiram o palco. Entre as bandas; Anti-Tripanos, Dementia, Maleficent, Kalidor, Steel e outras... Como era de se esperar, o Hard e o Heavy dialogaram. Infelizmente por conta de “alguns” Punks mais exalstados, algumas brigas que resultaram em agressões ao vocal da banda Stell, ao Joey Summer, o motivo, o fato que o Joey tocar Hard-Rock. A confusão foi fator decisivo para curadoria do evento nas edições seguintes. No ano seguinte, o representante mais próximo do Punk/HC foi o Sarava Metal da Gangrena Gasosa. Uma curiosidade dessa edição é que na época o piso do Teatro era de terra batida e o chão foi forrado com serragem de madeira. Resultado: Muita gente ficou com serragem na cabeleira por dias. (Risos).

 

Arena do Heavy II – 22 Junho de 1991
Arena do Heavy 2 Junho 1991Mesmo com as brigas da primeira edição, nova edição ano seguinte e graça ao empenho da equipe da primeira edição, resenhas em fanzines e o boca-boca da galera, o Arena do Heavy ganhou status gerando bastantes expectativa no publico. Entre as bandas escaladas; Dementia (banda de Nova Iguaçu na Baixada Fluminense que retornava ao evento), The Rotten (banda do Paulão que mais tarde tocou com Gangrena Gasosa e B’Negão), Blockhead (o vocalista hoje canta no Liverking), Nivarnna (banda de Campo Grande/RJ, que por conta do Nirvana de Seatle, mudou o nome para Pandemônio), duas bandas representaram o interior do estado e completaram o evento, Morbid Death (Petrópolis) e Extreme Violence (Macaé). A banda Kripta estava escalada para tocar, porém sua apresentação foi cancelada.

O Arena do Heavy II foi um sucesso ainda maior que o primeiro, o publico marcou presença, Gangrena Gasosa, Blockhead e Morbid Death foram destaques. Brigas, nenhuma, já os jargões sugiram aos montes no microfone aberto ao publico e perpetuaram por anos (“Os Punks São Tudo Playboys”, “Nem Deus nem o Diabo”, “Paraíba é a Mãe”...). De confusão, só um carro que bateu em um ônibus em frente ao local logo no inicio da noite, mas nada sério!

 

Arena do Heavy III – 16 e 17 de Julho de 1993 - O Primeiro evento de Rock em uma Lona Cultural!
Arena do Heavy 3 1993O ano de 1992 não teve Arena do Heavy, para compensar no ano seguinte, o festival voltou com duas noites, melhor que isso, foi o evento rock de estreia da recém-inaugurada Lona Cultural de Campo Grande (contamos a história abaixo). Dessa vez o festival contou com; Cancro, S.T.I., Wind, Sex Machine, NRA, Chindren Sex, Caos Verve, S.H.U., Poindexter, Hicsus e Sanskrit. Confusões nessa edição? Nenhuma! Descontração no Arena do Heavy III? MUITA!

Com a reforma da Lona, o evento ganhou mais força, abrindo portas para eventos maiores. Bandas como Dorsal Atlântica, The Mist, Planet Hemp, Patu Fu, Sex Noise, Sagrado Coração da Terra e diversos nomes da MPB, do Pop Rock nacional e até nomes internacionais como o Guitarrista Stanley Jordan passaram pelo palco musical mais charmoso de Campo Grande.


Lona Cultural Teatro de Arena Elza Osborne de Campo Grande - A Origem!
O Teatro de Arena (inicialmente Teatro Rural do Estudante) é um aparelho cultural criado graças à iniciativa ao melhor estilo “Faça Você Mesmo” de jovens que na década de 1950 estavam à frente do seu tempo na Zona Oeste, então Zona Rural da cidade. Entre esses visionários, Herculano Leal Carneiro, Rogério Fróes, Wilson Dray, Zelia Moraes, J. Thomé, Dinear V. Plaza, Carlos Branco e Regina Pierini (mãe de Christian e Ives citados acima). O empenho do grupo foi reconhecido pela engenheira Elza Osborne, que os contemplou com a construção do Teatro de Arena. A “pedra fundamental” que deu inicio as obras ocorreu em 1956 pelo Pres. Juscelino Kubtschek. A inauguração veio em 1958 com presenças do então prefeito Negrão de Lima e da então Primeira Ministra da Guatemala que assistiram apresentações do I Festival Nacional de Teatro Amador em Recife; incluindo a peça “Zé do Pato”, de Elza Osborne.

Os anos passavam e um problema persistia, o espaço não tinha cobertura, era a Céu aberto, assim como muitos Teatros de Arenas pelo mundo, porém, qualquer espetáculo cairia iria por água abaixo em caso de chuva. No ano de 1986, o casal Regina Pierini e Ives Macena, assumiram a administração do Teatro e deram inicio a luta: “Cubra o Arena e descubra nossa Arte”. 

Por vezes, Ives Macena levou projetos aos órgãos públicos e privados, em busca de uma lona de circo para cobrir o Teatro de Arena. Sempre tendo o descaso como resposta, até que em 1993, Ricardo Macieira, (Ex-Secretário de Cultura do Rio), atendeu a solicitação, e não apenas foi feito a cobertura do Teatro como teve início o Projeto Lonas Culturais. Logo, bairros das zonas oeste e norte do Rio, como Bangu, Realengo, Guadalupe, Anchieta, Vista Alegre, Santa Cruz, Jacarepaguá e Maré ganharam Lonas e que se tornaram o primeiro contato cultural para moradores dessas áreas. Para solucionar o problema do Teatro de Arena e criar as Lonas Culturais foram utilizados as tendas instaladas no Aterro do Flamengo para os debates da RIO ECO 92. Ou seja, discutiu-se ecologia e um ano depois se promovia arte com aquelas tendas. Assim surgia o conceito Lona Cultural. Desde então, o espaço atende por Lona Cultural Teatro de Arena Elza Osborne.

A Inauguração da Lona - “Uma Dádiva dos Ninjas”
A cerimonia de inauguração rendeu um fato pitoresco, uma curiosidade lembrada até hoje. da inauguração da Lona Cultural, Cesar Maia, na época do Rio, esteve presente e a cena rock local idem, afinal aquela era sua casa. Entre um aperto de mão e outro, o então prefeito cumprimentou o jovem Lionman (apelido que perpetua até hoje), teve “Uma Dádiva dos Ninjas” honrando seu apelido, procurou a moita mais próxima e fez questão de tirar uma “água do Joelho” NA MÃO e foi apertar a mão do prefeito. Para comemorar o “Protesto Politico”, Sandro Negão, outra figura da cena rock local, pediu dinheiro para “Comprar Feijão” ao João Mendes (Então Secretário Municipal do Governo). O pedido foi atendido, João Mendes ganhou um abraço e um beijo na testa do Negão. Em seguida, Sandro Negão e Lionman foram brindar o protesto politico tomando cachaça com o dinheiro do feijão. Detalhe: Sem lavar as mãos!

Um Eterno Legado para a Arte que merece ser valorizado!
Causos a parte, cabe a todo e qualquer artista, produtor cultural e cidadão reconhecer o pioneirismo do Teatro de Arena em promover arte na Zona Oeste e que inspirou o surgimento das Lonas em outros bairros cariocas. Ao longo dos anos a iniciativa foi reconhecida pelo Mercosul, faturou prêmios no exterior por ser uma ferramenta sociocultural de importância para as regiões atendidas. 

As Lonas Culturais são excelentes incentivadoras na pratica cultural, indo da música à dança, do teatro às artes visuais, oferecendo cursos e espetáculos em áreas muitas vezes carentes do Rio de Janeiro. Passado 25 Anos do surgimento das primeiras Lonas, infelizmente o projeto não vem sendo bem acolhido por outras administrações impedindo que outros bairros do Rio recebessem novas Lonas. Por anos muito se falou, que bairros do subúrbio como Marechal Hermes, Bento Ribeiro, Pavuna e até que o projeto chegaria à Zona Sul e aos municípios, Baixada Fluminense. O que aconteceu foi o surgimento de um novo aparelho cultural às Arenas Cariocas, projeto similar as Lonas Culturais, mas que não é a continuação do projeto faz história desde a década de 1990. As Arenas Cariocas são lindas e assim como as Lonas, em muitos casos são as únicas opções culturais em bairros como Madureira, Guaratiba, Pavuna e Vila da Penha. De negativo com o surgimento das Arenas Cariocas, o fato que na visão de muitos elas surgiam para ofuscar as Lonas Culturais. Inclusive, algumas Lonas passaram a se chamar “Areninhas Cariocas”, entre elas, a “Lona Cultural Gilberto Gil” (em Realengo) que hoje atende por “Areninha Carioca Gilberto Gil”. Por parte do publico, ainda não se conhecer alguém que tenha aplaudiu esse “espetáculo” nessa mudanças de registro de identidade das Lonas ocorridas na gestão do Eduardo Paes!

Na administração atual (Marcelo Crivella) pouco se ver em iniciativas em prol das Lonas Culturais e das Arenas Cariocas. Mas, justiça seja feita, esse descaso é algo que ocorre há anos. E nem precisa dizer que a falta de incentivo cultural com esses aparelhos é algo LAMENTAVEL. Pergunte a qualquer artista, músico, (independente ou mainstream), aos alunos que cursaram de artes nas Lonas e TODOS vão defender o legado das Lonas.

O que pode ser feito em prol das Lonas e Arenas Cariocas!?
As Respostas para esse questionamento são simples, mesmo que complexas: ATITUDE DE TODOS! Por parte das autoridades publicas cabe atenção a esses equipamentos culturais de extrema importante para cultura carioca, é de responsabilidade dos políticos eleitos desenvolver iniciativas para por em pratica iniciativas de uma agenda consistente de espetáculos e cursos para esses espaços, assim como manter de forma permanente atividades de manutenção técnicas e de reformas nesses espaços, pois é triste presenciar goteiras em meio a um evento ocorrido em dias de chuvas. Como resposta do publico cabe todos nós cobrar desses políticos, assim como prestigiar comparecendo aos eventos oferecidos nas Arenas Cariocas e Lonas Culturais. Sempre opções diferenciadas para todos os gostos, como o Arena do Heavy que marcou época, rendeu histórias, amizades, construiu um legado e está de volta a Lona de Campo Grande! - Michael Meneses!

SERVIÇO: Festival Arena do Heavy - 29 de Julho 2018 – 15hs.
BANDAS:
 Hicsos + FIC Trio Band + Sanskrit + Liverking
LOCAL: Lona Cultural de Campo Grande/RJ – Estrada Rio do A – Campo Grande/RJ - (21) 2413-2255 (Varias linhas de ônibus no local, próximo a Estação de Trem e ao antigo viaduto de Campo Grande).
OUTRAS ATRAÇÕES: Vídeos no Telão + Stand com Merchan + Comida vegana + Sorteio de CDs e Brindes.
INGRESSOS: No Local e antecipado nas lojas:
Loja Requiem – Camelódromo de Cpo. Grande/RJ
Loja Underground – Próximo à estação de trem de Bangu/RJ.
APOIO e PATROCÍNIOS: Gravadora Sinfônica + Insanity + Treta Vegana + Velho Oeste 1800 + Selo Cultural Parayba Records + Rock Press.
FACEBOOK: https://www.facebook.com/events/171370360371283/

Portal Rock Press