D.R.I. - Crossover in Rio

Em noite chuvosa no Rio de Janeiro, onde calor se fez presente no Teatro Odisseia, com os americanos do D.R.I. provando para um D.R.I. FOTO Michael Meneses CREDITO OBRIGATÓRIOpúblico dividido (porém unidos) em adolescentes e dinossauros da cena carioca porque é uma referência fundamental do estilo. A noite ainda contou com as bandas Força & Honra, Nortel Cartel, Uzômi e os santistas do Surra deram o calor inicial em sets dignos do estilo.

CROSSOVER IN RIO
DRI + Uzômi + Surra + Norte Cartel + Força & Honra 
15 de abril de 2018 – Teatro Odisseia - Lapa/RJ.
TEXTO & FOTOS: Fabiano Soares e Michael Meneses!

D.R.I. FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIO

Rio de Janeiro, um dia chuvoso. A caminho do Odisseia, um catador de latinhas me para:
- Ei, irmão! Que show que vai ter hoje?
- D.R.I., cara, uma banda gringa.
- Ah, mas é rock “Aaaaaaahhhhhh”, né? - diz, balançando a cabeça. Fico até emocionado!

Esse era o espírito do domingo. Um show do D.R.I., com 4 bandas preparando o palco para os caras. 

Banda Força e Honra FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIOPassando um pouco das 18 horas, a banda Força & Honra iniciou os trabalhos com seu hardcore, tocando para um público que ainda ocupava o Teatro Odisseia. A cerveja lá fora é bem mais barata, então uma parcela do público que chega cedo acaba aproveitando para o aquecimento pré-show, e ainda tinha bares exibindo jogos da abertura do Campeonato Brasileiro, o que infelizmente sempre segura o povo! Ainda assim, a banda mais nova do evento deu o seu recado com as músicas, avisou do lançamento do videoclipe no mesmo dia, e deram seu “Foda-se” ao Bolsonaro, o primeiro do dia.

Em seguida veio o peso da banda Norte Cartel, juntando um pouco mais o público ainda escasso na casa, porém crescendo e promovendoBanda Norte Cartel FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIO rodas (ainda não muito cheias; sabe a questão das bebidas, certo?) e momentos dos mais empolgados cantando junto com Felipe Cheuan. A energia da banda contagiava boa parte dos presentes, mas ainda havia espaço para pular sem incomodar tanto os vizinhos de pista. Bolsonaro tomou o segundo “foda-se” amplificado do domingo.

Banda Surra FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIOQuando os paulistas do Surra subiram no palco, a casa já estava mais cheia e foi lindo de ver. O trio, juntando a rapidez e a brutalidade do seu “thrashpunk”, fez a primeira roda do dia que envolvia pessoas que não queriam estar na mesma: uma essência de um show de thrash ou punk ou crossover ou rock pauleira; chame como quiser. Fãs subindo no palco para cantar, pulos e socos no ar; um balé agressivo (mas não-violento), sincronizado com todo o barulho que vinha do palco! Digo barulho no bom sentido, pois houve também um momento de microfonia; é quando percebemos que o público que diz amar barulho gosta mesmo é de ouvir notas musicais. Mas segue o baile. Ah, o guitarrista e vocalista Leeo Mesquita usava um adesivo da “Antifascistiche Aktion” na guitarra. Considerei um terceiro “foda-se” ao Bolsonaro, mais globalizado, menos amplificado, mas ainda assim, só mensagem positiva! E depois do show do Surra, o público já estava aquecido para a atração principal!  

Já com a maioria do público dentro do Odisseia, passava das nove horas e até quem foi para ver só o D.R.I., muito provavelmente, já Banda Uzômi FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIOtinha bebido o suficiente fora, e entrou. Mas pra que a pressa? Você me dá mais meia hora? Então toma um clássico do crossover carioca: Uzômi! A banda, com mais de 20 anos, subiu no palco e com poucas pausas entre uma música e outra, destilou todo o nervosismo de seu setlist, diretão. Passando por músicas dos 3 CDs da banda, a angústia e raiva do vocal de Sales, que parecia esconder-se junto à bateria, contrapunham-se ao gutural extasiante de Heron, que não parava no palco, pulando o tempo todo, parecendo um gigante apesar do pouco mais de um metro e meio de altura! O público continuou no clima das rodas que se espalhavam com pulos e socos, e cantou junto em várias músicas. Após os trinta minutos de show, emendando um som a outro, a banda despediu-se, deixando a vontade de continuar vendo aquele show de horrores. Tão bom e tão rápido! Deixaram a plateia ainda mais preparada para o show que fechava a noite, e que bom que aqueceram bastante o ambiente, porque assim nem o atraso foi um problema. 

D.R.I. - Crossover Passado a Limpo!

D.R.I. FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIO

D.R.I. FOTO Michael Meneses CREDITO OBRIGATÓRIOE o domingo estava acabando quando o D.R.I. subiu no palco, com Kurt Brecht e Spike Cassidy, fundadores, além de Rob Rampy que fez história na banda, e Greg Orr, que pegou o baixo da banda recentemente. Um dos motivos do atraso para inicio do show do D.R.I. se deu pelo fato daD.R.I. FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIO banda não ter levado pratos de bateria ao show, algo típico de bandas iniciantes na cena, mas raro de se ver com nomes veteranos como o D.R.I. Seja como for, uma entidade do crossover que estava ali para tocar para jovens de 18 anos e para não tão jovens assim de seus mais de 50. E essa mistura de idades permaneceu clara apenas até acabar a introdução de “The Application”, que abriu o show. Quando o riff foi acompanhado do rufar da caixa, uma tensão pairou no ar, e no que a voz de Kurt ecoou com o “Whaaaaat”, a maior roda da noite até então já havia começado, dissolvendo diferenças etárias, fazendo a molecada mais nova sentir-se com a disposição dos mais cascudos, e os mais velhos esquecendo qualquer artrite, artrose, dor na coluna, etc., todos pogando ao som da essência da mistura dos gêneros punk e metal! Por ter muitas músicas, seria impossível não deixar algum fã na vontade de ouvir alguma específica, mas o setlist do Dirty Rotten Imbeciles abarcou as mais variadas fases de sua carreira, tocando sons de todos os álbuns! Até as músicas do mais recente EP, de 2016, o “But Wait... There's More!” D.R.I. FOTO Fabiano Soares CREDITO OBRIGATÓRIOtiveram espaço. Foram as primeiras gravações de estúdio da banda desde o “Full Speed Ahead”, de 1995, quebrando o jejum de mais de 20 anos sem lançar algo novo.

- Incrível como tem energia e tem o mesmo som de um CD deles, igualzinho! - empolgou-se um fã.

Tudo bem que o novo EP tem apenas 3 músicas novas, mas o repertório do D.R.I. é  muito variado, e muda vez ou outra, sem no entanto, deixar clássicos obrigatórios de fora. “Acid Rain”, “Violent Pacification”, “I'd Rather Be Sleeping...” acho que eu teria que ficar escrevendo o setlist inteiro, e ainda assim, teria alguém para falar “tal música também é clássica e ficou de fora!” Apesar disso, duvido achar um indivíduo que estava presente nesse domingo chuvoso no Rio de Janeiro, que tenha saído insatisfeito com o show apresentado. Os hematomas viram atestados de participação das rodas; verdadeiras medalhas de alegria (ao menos até chegar a manhã de segunda-feira, muito menos simpática que a noite de domingo). Os moshs ocorreram, rodas tomaram conta do ambiente, sorrisos nos rostos dos que sempre querem passar uma imagem de malvado. Tudo dentro da normalidade que um show desses permite!

Quando todo mundo já estava moído, próximo da meia-noite e de acabar literalmente o domingo, o D.R.I. sai de palco e volta para o bis mais nervoso que poderíamos esperar, para mostrar que não há cansaço quando o som pede uma roda de pogo! "I don't need society" começou o bis, causando o alvoroço de sempre, e o público só pôde descansar (contra sua vontade) após os últimos coros de “I win!” em “The Five Year Plan”.

Saímos de lá com sorrisos bobos de adolescente, procurando nosso lado sujo, podre e imbecil. Só precisava de um espelho, claro. E sim: setlist D.R.I. RJ Brasil 15 4 2018 foto Michael Meneses Portal Rock Press Faltou "No End!” - Fabiano Soares e Michael Meneses!

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