DOSSIÊ: PAUL McCARTNEY – THE LONG AND WINDING ROAD - CAPÍTULO 1: ANOS 1940 e 1950: O nascimento de uma lenda!

Em março, Paul McCartney estará novamente no Brasil. Dessa vez, com a turnê Paul_McCartney_Freshen_UpFreshen Up que divulga o muito bem sucedido álbum Egypt Station lançado em 2018. Os shows acontecerão em São Paulo (dias 26 e 27/3) e Curitiba (30/3). Em razão disso, a Rock Press vai publicar um dossiê em sete capítulos sobre a vida e obra do velho Macca. Nesse primeiro capítulo, iremos das suas raízes em Liverpool ao início dos Beatles.
 

DOSSIÊ: PAUL McCARTNEY – THE LONG AND WINDING ROAD
CAPÍTULO 1: ANOS 1940 e 1950: O nascimento de uma lenda
TEXTO: Robert Moura – FOTOS: Divulgação

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Em 2010, após 17 anos sem tocar por aqui (seus primeiros shows no país ocorreram em 1990 e 1993), Paul McCartney aterrissou em terras tupiniquins com sua turnê Up And Coming. Desde então, a América do Sul, e em especial o Brasil, tornou-se escala regular de suas turnês. A primeira data da Freshen Up Tour no Allianz Park em São Paulo, no dia 26 de março, já se encontra com ingressos esgotados. Devido a isso, um show extra foi agendado para o dia 27. Depois, Paul segue para Curitiba onde faz show no dia 30 no Estádio Couto Pereira. Os ingressos estão a venda em: https://bit.ly/2Danf47 e enquanto aguardamos pelas apresentações, vamos nos aquecendo com esse dossiê que vai repassar a vida e obra de Sir James Paul McCartney. “So c’mon people let the fun begin!!!”

Liverpool: As origens...
Localizada no Merseyside (devido ao Rio Mersey), noroeste da Inglaterra, a cidade Liverpool foi fundada em 1207. Em 1229, foi criado o porto que seria de fundamental importância na região. Entre os séculos XVIII e XIX, a cidade desenvolveu-se economicamente quando passou a ser o principal porto da Europa para a América do Norte. A barbárie do tráfico de negros africanos escravizados foi a grande base de sustentação econômica de Liverpool, com cerca de um milhão e meio de pessoas sendo vitimadas e transportadas através do porto. Produtos como algodão, rum, açúcar e fumo tiveram grande importância no desenvolvimento comercial fazendo com que a cidade chegasse a ser a mais rica da Inglaterra. Com o crescimento econômico, Liverpool recebeu muitos imigrantes europeus, sobretudo irlandeses. Os liverpuldianos se auto-intitulavam “scousers”. O termo tinha origem em um prato de culinária chamado “lobscouse”, um guisado de carne e legumes, ao qual seria incluído o costume irlandês de adicionar as sobras de comida a uma panela estrategicamente conservada em cima do fogão que era levada novamente à mesa durante a semana. Algo como o nosso mexido. O povo de Liverpool sempre viveria certa rixa com os londrinos devido à rivalidade entre sul e norte por questões sociais, com os mesmos estereótipos de sempre, aonde os sulistas seriam os esnobes e “sofisticados”, e os nortistas, os caipiras ignorantes.

Em 1830, a primeira estação ferroviária do mundo foi inaugurada na cidade, o que ajudou ainda mais para que ela seguisse prosperando. No século XIX, Liverpool era o principal portão de saída da Europa para os EUA. No entanto, devido à Grande Depressão provocada pela 1º Guerra Mundial, o movimento no porto caiu, e a cidade jamais voltaria a ter uma nova ascensão. Os ataques alemães durante a 2ª Guerra, entre 1940 e 1942 deixariam grandes estragos em Liverpool. (Paul McCartney nasceria apenas cinco meses após o término dos bombardeios. Os pais de Paul atuariam como voluntários no pós-guerra. O pai, James, como bombeiro, e sua mãe Mary, sendo enfermeira de profissão, cuidava de famílias em suas casas, frequentemente sem água ou luz devido aos bombardeios, e pessoas desabrigadas em péssimas condições).

Os McCartney e os Mohin...
Joe McCartney, o avô de Paul, nasceu em Liverpool em 1866, no bairro de Everton, então, um dos mais pobres da cidade. Assim como boa parte da população local, os McCartneys eram descendentes de imigrantes irlandeses. Joe trabalhou como empregado no comércio de tabaco Cope. Dos nove filhos que teve com Florence Clegg, apenas sete sobreviveram. Um deles foi James McCartney, nascido em 7 de julho de 1902. Aos quatorze anos, James (ou Jim como era mais conhecido) foi trabalhar na A. Hannay & Co. Cotton Merchants como entregador, após ter abandonado a escola. Anos depois, ele se tornaria vendedor, o que significou uma grande ascensão. No entanto, a empresa fecharia no final dos anos 1930, e com a recessão causada pela guerra, Jim assumiu o cargo de torneiro mecânico na empresa Napiers. Apesar da orientação religiosa protestante da família, Jim tornou-se agnóstico. Em 1940, Jim conheceu Mary Patricia Mohin (nascida em 29 de setembro de 1909), com quem viria a se casar no dia 15 de abril de 1941. Ele estava com 38 anos na época e ela com 31, consideradas, então, idades avançadas para o matrimônio. Assim, como a família de Jim, Mary também era descendente de irlandeses e o catolicismo romano tinha grande importância em sua vida. Seu pai, Owen Mohin emigrou para a Inglaterra e se casou com Mary Theresa Danher em 1905.

Michael_no_colo_da_mãe_Mary_Jim_e_Paul_McCartneyO primeiro filho do casal, James Paul McCartney viria ao mundo em 18 de junho de 1942. James era também o nome do pai, avô e tataravô de Paul, que assim também batizaria seu filho. Inicialmente, ele se chamaria James McCartney IV, mas, a mãe Mary, optou por incluir o nome Paul para distinguir o filho e o marido. E seria pelo nome do meio que o garoto se tornaria conhecido. O segundo filho, Peter Michael McCartney, nasceria um ano depois. Mary era enfermeira e seus rendimentos seriam fundamentais ao sustento da família, mesmo que Jim houvesse recuperado seu emprego no mercado do algodão após a guerra. Ela passaria a trabalhar como parteira domiciliar a partir de 1947, o que significava que podia ser solicitada a qualquer momento. Era comum que ela saísse de bicicleta para atender.Paul_McCartney_aos_7_anos_a_mãe_Mary_e_o_irmão_Michael De qualquer forma, baseado na origem de suas famílias, Mary e Jim haviam conseguido avanços sociais. Infelizmente, a vida aparentemente feliz da família receberia um duro golpe quando Mary foi detectada com câncer de mama em 1948.

Uma família musical... 
Joe, o avô de Paul, tocava trompa na banda do Exército e promovia encontros com músicos em sua casa que costumavam atrair os vizinhos que dançavam no quintal e na rua. Assim como o avô, o pai de Paul, começou a tocar ainda jovem. Jim tocava trompete, e mais tarde passaria também a tocar piano. Um hobby levado a sério que faria com que tivesse sua banda, a Jimmy Mac Jazz Band que se apresentava na região. Paul ainda conserva o antigo piano da família, curiosamente comprado na North End Music Stores, loja de Harry Epstein, pai de Brian Epstein (futuro empresário dos Beatles). Paul sempre associaria muito da sua musicalidade ao velho Jim, inclusive o gosto pelo piano. Foi no ambiente doméstico que o jovem Paul começou a se interessar pela música, ouvindo o pai tocar ao piano standards de jazz e sons populares. O vaudeville e as bandas de metais também formariam o gosto de Paul.

Do trompete ao violão...
O primeiro violão de Paul foi um Zenith. Na verdade, seu pai, Jim, o havia presenteado com um trompete, mas após aprender alguma coisa no instrumento, Paul se deu conta que não teria como tocar e cantar ao mesmo tempo, e trocou o trompete pelo violão. O Zenith era um instrumento de baixa qualidade e de difícil execução. Depois relutar com o instrumento, Paul percebeu ao ver uma foto do músico country Slim Whitman que algo mais lhe dificultava tocar: ele era canhoto. Foi então que inverteu as cordas do instrumento e adequou sua postura. A partir desse momento essa seria a principal atividade do rapaz. E foi com aquele instrumento que compôs sua primeira canção “I Lost My Little Girl”. Futuros sucessos dos Beatles como “Michelle” e “I Saw Her Standing There” também foram compostas nesse violão Zenith que Paul ainda conserva consigo.

Um estudante promissor...
A primeira escola de Paul foi a Stockton Wood Road Primary School, e depois a Joseph Williams Primary. O menino era considerado bem-comportado e interessado, apesar do senso de humor zombeteiro. No ano de 1953, ele ganhou um concurso de redação sobre a coroação da rainha Elizabeth II que envolveu toda a cidade. Paul também mostrava habilidade para o desenho. Mais tarde, suas notas lhe garantiram uma vaga no Liverpool Institute, a melhor escola secundária da cidade. Um grande feito, ao qual nenhum dos McCartneys até então poderia sonhar. Surpreendentemente, seu irmão Michael, se juntaria a ele na escola em 1955, mesmo ano em que a família se mudaria para a Forthlin Road no subúrbio de Allerton que se tornaria conhecida como a “casa da infância de Paul McCartney”. Como parteira, Mary teria direito a uma casa como parte de um programa da prefeitura de acordo com a região em que fosse trabalhar. Isso explica as mudanças residenciais, sempre nos arredores de Speke, um conjunto habitacional industrial barra-pesada onde aconteciam brigas de delinquentes, e embora Paul não estivesse envolvido, vez por outra se metia em alguma delas. Localizada em um bairro de classe-média, a casa da Forthlin Road, apesar de fazer parte de um conjunto de residências populares construídas pelo governo, oferecia mais tranquilidade. Além de que só o fato da casa ter um banheiro interno já seria um grande luxo em relação às residências anteriores em que família morou, pois o banheiro externo era o padrão das moradias operárias britânicas. No Liverpool Institute, McCartney era sempre indicado para ser o representante da turma. Um professor de literatura fez com que ele tomasse gosto pela leitura, e Paul tinha entre seus autores prediletos Dylan Thomas, Samuel Beckett e Tenesse Williams.

A perda da mãe Mary...
No ano de 1956, Mary voltaria a sentir muitas dores com o agravamento de sua doença. O câncer havia se espalhado por órgãos vitais, além do seio. Ela não resistiria a uma cirurgia de mastectomia. Uma de suas últimas frases foi: “Gostaria de ver os meninos crescerem”. Ao saber da notícia, um atônito Paul disse: “e agora, o que faremos sem o dinheiro dela?”. Apenas o irmão Michael se recordaria de ter ouvido essas palavras, e ainda assim, pensando ter sido ele o autor da frase, tamanho o choque em que se encontrava. Anos depois, ele comentaria o fato como tendo sido uma “piada idiota” e que ele e Paul lamentaram durante anos. Jim também ficou profundamente abalado. Paul passaria a rezar com a promessa de que faria qualquer coisa se Deus mandasse sua mãe de volta. Somente anos mais tarde, ele saberia o real motivo da morte da mãe. Paul declararia: “Ela era fantástica. Era de fato uma mulher maravilhosa e movia mesmo a família, tendo sido provavelmente por isso que acabou morrendo de uma doença relacionada ao estresse. Assim como muitas mulheres, era a líder não devidamente reconhecida da família”.

Rock’n’Roll...
Em 1957, Paul ouviu o Rock’n’Roll pela primeira vez. O primeiro disco de Elvis causaria enorme impressão sobre Paul que sempre o teve como seu disco predileto do cantor. Chuck Berry, Little Richard, Carl Perkins e Buddy Holly seriam outras importantes influências para ele. Nesse período, ele descobriu os poderes terapêuticos da música. Um dos seus antídotos foi “Don´t Be Cruel” de Elvis Presley que costumava ouvir num 78 RPM com o amigo Ian James. A música os curou de uma depressão após um passeio por uma feira quando os dois não conseguiram chamar a atenção de uma garota sequer. 

John e o nascimento de uma grande parceria...
Nascidos no mesmo dia, Ivan Vaughan e Paul tornar-se-iam grandes amigos. Ivan eraThe Quarrymen dia em que Paul e Jonh se conheceram Geoff Rhind considerado uma figura instigante e original. Foi ele quem levou Paul para uma festa no dia 6 de julho de 1957 na paróquia da igreja St. Peter em Woolton. A banda que se apresentava chamava-se Quarry Men (nome inspirado na escola em que eles estudavam a Quarry Bank High School) e tinha como líder um garoto chamado John que também era amigo de Ivan (que eventualmente tocava com os Quarry Men). Eles tocavam skiffle (estilo musical em voga na época e que conquistou a juventude inglesa) e algumas versões de rocks, com John improvisando sobre as letras. Imediatamente, Paul ficou seduzido pelo carisma do vocalista da banda que cantava “Come Go With Me” dos Del-Vikings. A figura não lhe era estranha, Paul o conhecia de vista. Ao final do show Ivan os apresentaria. John não deu bola ao garotinho que aparentava ter menos ainda do que os seus quinze anos. Paul percebeu o cheiro de cerveja de John que, depois, admitiria estar um tanto quanto bêbado mesmo. Ivan incentivou a conversa elogiando Paul e dizendo que ele sabia muitas músicas. Paul que havia achado estranho a maneira como John fazia os acordes descobriu que ele tocava com o violão afinado em ”sol aberto” como se fosse um banjo. Ele havia aprendido a tocar banjo com sua mãe, Julia, e transferiu o conhecimento para o violão. Paul então afinou o violão na afinação tradicional e tocou a música “Twenty Flight Rock” de Eddie Cochran que deixou todos impressionados, inclusive John. Confiante, ele tocou ainda “Be-Bop-A-Lula”, e emendou “Tutti Frutti”, “Good Golly Miss Molly” e “Long Tall Sally” de Little Richard. John pensou em convidá-lo para entrar na banda, considerando o fato de que se Paul entrasse, a banda se tornaria mais forte, mas, se não o convidasse, ele (John) continuaria sendo o mais forte da banda. A sábia decisão de John Winston Lennon hoje é conhecida de todos.

Os outros Quarry Men eram Eric Griffiths no violão, Len Garry no baixo, Colin Hanton na bateria, Rod Davis no violão e banjo, PeteThe_Quarry_Men_Colin_Hanton_Paul_Len_Garry_John_e_Eric_Griffiths_nov_1957 Shotton no wahsboard (tábua de lavar) e Nigel Walley que fazia um misto de empresário e membro do grupo tocando tea-chest-bass (um baixo improvisado com uma caixa de chá, uma corda e um cabo de vassoura, típico do skiffle). Da casa de Eric Griffiths, os ensaios passaram a ser também na residência dos McCartney com direito a Paul tocando piano em alguns momentos. A estreia de Paul com a banda se deu no dia 18 de outubro no baile do Conservative Club. Apesar de toda sua autoconfiança e crescente habilidade musical, Paul errou o solo de “Guitar Boogie” de Chuck Berry que ensaiara cuidadosamente. O fato provocou gargalhadas em John. Paul levaria alguns anos para se arriscar novamente em outro solo. Apesar do contratempo, o produtor do evento gostou da banda e os convidou para ser atração regular nos bailes de sábado à noite que estava produzindo na cidade.

A admiração mútua e amizade entre John e Paul iam se desenvolvendo. Desde os cinco anos de idade, John passou a viver com seus tios George e Mimi, irmã de sua mãe, Julia. Aos dezessete, ele sofreria um duro golpe. No momento em que começava a conviver mais com sua mãe, ela morreu ao ser atropelada por um policial. Um trauma que John carregaria por toda vida. A perda da mãe se tornou mais um elo entre eles que algumas vezes chorariam juntos por isso.

As primeiras composições da dupla Lennon/McCartney...
Pelo fato de Paul ser canhoto, ao ensaiar com John, eles funcionavam como um espelho um do outro quando olhavam para a guitarra do companheiro. Não demorou muito para começarem a esboçar as primeiras canções juntos. Ao mesmo tempo em que algumas dessas músicas foram abandonadas por eles, outras se tornariam conhecidas alguns anos depois como “Like Dreamers Do”, e “One After 909” que sairia no disco Let It Be, além de “Love Me Do” e “P.S. I Love You”, lados A e B do primeiro single lançado pelos Beatles. Paul costumava escrever sob o título dessas canções: “Outro original de Lennon-McCartney”, como se estivesse prenunciando a grande parceria que formariam.

George: o amigo pirralho que tocava muito...
Cartão_de_Visita_do_The_Quarry_MenDo Liverpool Institute, Paul teria outra amizade com base na música, um garoto mais novo que conheceu no ônibus a caminho da escola, que além de ser um dos seus melhores amigos, tocava guitarra muito bem e poderia ser o solista da banda: George Harrison. Bem antes de Paul conhecer John, ele e George costumavam treinar guitarra juntos tentando aprender algum acorde ou música nova. A habilidade do colega e o gosto pelas mesmas músicas que ele e John fariam com que Paul apresentasse George a John com a intenção de incluí-lo na nova formulação do grupo. (Os Quary Men haviam sofrido algumas mudanças. Eric deixara a banda ao ser comunicado que passaria a tocar baixo, uma vez que com Paul e John nos violões, não haveria necessidade de uma terceira pessoa tocando o mesmo instrumento. Len Garry sairia em função de uma meningite que o deixou hospitalizado por meses. Rod Davis saiu para se dedicar aos estudos e também por não gostar muito do estilo mais rock que eles vinham adotando após a entrada de Paul). John, com dezessete anos e já universitário, relutou em aceitar no grupo um garoto de quatorze anos. Não obstante, o fato de George ser nove meses mais novo, o que faz certa diferença na adolescência, ele realmente aparentava ser ainda mais jovem. Porém, John começou a mudar de ideia ao ouvi-lo tocar o solo de “Raunchy” de Bill Justis. Paul ainda levaria o pianista John Lowe (conhecido como Duff) para a banda. E foi com essa formação e contando ainda com Colin Hanton na bateria que eles fariam sua estreia no Cavern Club naquele ano de 1958.

A primeira gravação...
The_Quarry_Men_VinilCom o intuito de apresentar melhor seu trabalho, eles foram ao estúdio amador de Percy Phillips para gravaram uma versão de “That’ll Be The Day” de Buddy Holly e “In Spite Of All The Danger” composta em parceria por Paul e George. Ambas tiveram John cantando a voz principal. Finalizada a gravação, eles foram embora animadíssimos com o acetato para ouvir em casa. (A gravação só se tornaria conhecida muitos anos depois, pois o combinado era que cada um dos Quarry Men ficasse com ele por uma semana e passasse para outro integrante. Porém, quando chegou a vez de Duff Lowe, ele acabou ficando com o disco por 23 anos, quando Paul o comprou). Os Quarry Men deixariam de existir como grupo pouco tempo depois. Durante um breve período Paul e John fizeram apresentações em dupla como “The Nurk Twins”.

Esse período coincidiria com a trágica morte de Julia, mãe de John que se recolheu e passou a agir com impaciência e violência com as pessoas causando repulsa e afastamento por parte de colegas da faculdade. Paul, no entanto, insistia na convivência com o amigo. Enquanto aguardava um retorno da banda, George passou a tocar com alguns amigos na banda de jazz e skiffle, Les Stewart Quartet. E foi George o responsável por reunir os Quarry Men novamente ao convidar John e Paul para tocar no Casbah, um bar que seria inaugurado. Eles, inclusive, ajudaram a terminar de pintar o bar. O guitarrista Ken Brown tocou com o grupo nessa apresentação.

Stuart Sutcliffe, a excursão para Hamburgo e finalmente: The Beatles...
Beatles_FOTO_Astrid_Kirchherr_Hamburgo_1960Como não tinham um baterista, eles costumavam dizer que “o ritmo está nas guitarras”. A essa altura, o estudante de pintura Stuart Fergusson Victor Sutcliffe (ou simplesmente Stu), amigo de faculdade de John, havia se integrado à banda, após adquirir um baixo Höfner (por insistência de John), com o dinheiro que conseguiu ao vender um quadro. No entanto, sem experiência musical, Stu não conseguia tocar bem, e sua amizade com John somada ao fato deles terem a mesma idade de John e fazer o curso de arte como ele, deixaria enciumados Paul e George. Um novo nome foi adotado para a banda: Johnny and the Moondogs. Como desagradasse a John, Stu sugeriu Beetles, baseado em Crickets (nome da banda de Buddy Holly, que em inglês significa grilos, sendo que beetles significa besouros). Foi sugerido Beatals com um “a” para fazer um trocadilho com a palavra beat (batida em inglês). A banda adotou Beatles, mas como o costume da época era bandas com nomes grandes, eles foram Silver Beats, Silver Beetles, Silver Beatles, e ainda tiveram outros nomes destacando o líder do grupo como também era comum, Johnny Silver and the Beatles, Long John and the Silver Beatles, até chegar, em 1960, ao nome simples com o qual eles se tornariam conhecidos: The Beatles.

Ainda em 1960, fizeram uma turnê pela Escócia com o cantor Johnny Gentle organizada por Allan Williams. Durante a turnê, eles usaram nomes artísticos. Paul escolheu Paul Ramond (anos mais tarde, os Ramones se inspirariam no codinome adotado por ele para batizarem a banda). Por um breve período, os Beatles tiveram Tommy Moore na bateria (operário numa fábrica de garrafa e com 36 anos, o dobro da idade dos Beatles, ele foi indicado por Allan Williams, dono do bar Jacaranda e que se tornaria empresário da banda. Tommy abandonaria a banda, após um acidente com o furgão que os transportava).

Por intermédio de Williams, eles conseguiram agendar uma turnê em Hamburgo, no Indra, casa noturna de Bruno Koschmider. O Indra era, na verdade, uma boate de strip-tease. Como era fundamental um baterista para este trabalho, eles recorreram a Pete Best, filho de Mona Best, proprietária do Casbah. De início foi difícil, mas com a ajuda do irmão Mike, e de Allan Williams, Paul conseguiu convencer seu pai a abandonar a escola e partir para as quatro semanas de shows na Alemanha. Após uma breve passagem no Indra, Koschmider resolveu transferir a banda para o Kaiserkeller, sua outra casa, devido à reclamação dos vizinhos em função do barulho. O repertório dos Beatles incluía não apenas sucessos do rock como “Johnny B. Goode”, “Rock´n´Roll Music”, “Long Tall Sally”, “Lucille” e “That´s All Right Mama”, mas também lados B dos singles, o que era um grande diferencial da banda. Esse período foi de fundamental importância para a banda que chegava a tocar sete horas por noite, a necessidade de entreter o público fez com que o grupo desenvolvesse não sóPaul_McCartney_FOTO_Astrid_Kirchherr_Hamburgo_1960 musicalmente, mas também sua performance.

Outra banda de Liverpool estava tocando em Hamburgo nesse período: Rory Storm & the Hurricanes, cujo baterista era um certo Richard Starkey, mais conhecido como Ringo Starr. Conhecidos desde Liverpool, os dois grupos se revezariam de hora em hora no palco do Kaiserkeller. As apresentações costumavam ser regadas a muita cerveja e eventuais “loucuras performáticas” dos Beatles. Para recuperar do cansaço, eles começaram a tomar anfetaminas, mais especificamente comprimidos de Preludin.

Atraído pelo som, Klaus Voorman, um alemão estudante de arte, entrou no Kaiserkeller durante uma das apresentações dos Beatles. Ele voltou nas duas noites seguintes, e depois de alguma insistência conseguiu convencer a namorada, a fotógrafa Astrid Kirchherr a ir com ele em um dos shows, juntamente com o amigo Jürgen Vollmer. Assim como Klaus e Jürgen, ela foi seduzida pela banda. Mais do que Klaus, inclusive. Dias depois, Astrid faria as primeiras fotos profissionais do grupo. E, Jürgen seria responsável pelo novo corte de cabelo e penteado dos Beatles (inicialmente Paul e John que ganharam cortes iguais ao de Jürgen). Eles abandonaram seus topetes típicos dos Teddy Boys, e adotaram o corte que se tornaria conhecido como “moptop” depois que a banda fez sucesso. Por sua vez, o próprio corte de Jürgen com seu penteado para frente ao estilo dos “Exis” (como eram chamados os jovens “existencialistas” alemães), havia sido feito por Astrid, inspirado na moda francesa. Stu, que iniciara um namoro com Astrid (que a fez romper com Klaus), decidiu abandonar a banda para ficar com ela na Alemanha.

A volta da banda para Liverpool foi antecipada quando os Beatles assinaram um contrato para tocar no Top Ten Club, concorrente de Koschmider. Para se vingar, ele denunciou às autoridades que George ainda era menor de idade, e tramou a prisão de Paul e Pete sob acusação de que teriam tentado incendiar o cinema Bambi Kino (local em cujo quartos de despejo, os Beatles ficaram alojados durante a estadia em Hamburgo), quando penduraram preservativos na parede e colocaram fogo neles para terem um pouco de iluminação enquanto recolhiam seus pertences, uma vez que o espaço estava às escuras. Segundo Paul, não haveria como incendiar as paredes que eram de puro concreto. George foi deportado. Paul e Pete chegaram a passar três horas em uma cadeia local antes de seguirem o mesmo destino de George.

O retorno para casa...
A volta para casa foi deprimente. Depois da partida de Liverpool com discursos de que iriam à conquista de sucesso, retornar a cidade sem um tostão no bolso deixou Paul e George envergonhados diante dos pais, assim como John com a tia Mimi. A sensação era de derrota total, e eles se isolaram por algumas semanas com o sentimento de que a banda havia acabado. Devido às cobranças do pai, Paul foi trabalhar como motorista de um furgão de entregas, depois como limpador do pátio da usina elétrica Massey and Coggins, e por fim, passou a enrolador de bobinas elétricas. Ele voltaria à música após John e George aparecerem em seu trabalho para comunicar que tinham apresentações para a banda fazer no Casbah. McCartney pulou o muro e nunca mais apareceu por lá.

Beatles_em_frente_ao_Cavern_Club_julho_de_1961Em momentos que as coisas iam mal, John costumava perguntar à banda: “Para onde estamos indo?”, os outros respondiam: “Para o topo, Johnny!”, e ele seguia: “Qual topo?”, a resposta final era: “O mais alto!”. A apresentação no Casbah foi revigorante e teve enorme aprovação do público. A experiência em Hamburgo surtira efeito. Chas Newby, amigo de Pete Best foi quem substituiu Stu no baixo. Eles fariam ainda uma apresentação no Grosvener Ballroon e outra no Litherland Town Hall no qual a banda foi extremamente aclamada pela plateia ensandecida. Essas seriam as únicas apresentações de Newby com a banda. Ele retornaria para a Universidade de Manchester, onde fazia o curso de graduação em química. Os Beatles seguiriam tocando com frequência em Liverpool, o que os levou contratar os serviços de Neil Aspinall, dono de um furgão Commer, que seria responsável pelo transporte da banda pela cidade.

Ainda, em 1960, o governo britânico acabou com o serviço militar obrigatório. Paul se refere a esse fato como fundamental para a sobrevivência da banda, pois, sem a extinção da obrigatoriedade, Ringo (que ainda não havia entrado na banda) e John teriam ido para o exército, seguidos depois por ele e George, impossibilitando a continuidade das atividades dos Beatles. – Robert Moura.


Aguardem no segundo capítulo do dossiê: Paul, os Beatles e a primeira metade anos 1960! A trajetória artística da banda até 1966 e seus discos comentados com foco nas contribuições de Paul McCartney.

 

ROBERT MOURA - É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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