Everlane Moraes! - "Cinema, Sonhos e Atitude"

A Coluna 1, 2, 3, 4... Conversou com Everlane Moraes, baiana, radicada em Sergipe que Everlane Moraes escola de cinema de Cuba Acervo Pessoal Leia entrevista no PORTAL ROCK PRESSconquistou com dedicação e estudo uma bolsa para cursar cinema em Cuba. Contudo, ver todo seu empenho prejudicado por medidas de cortes financeiros do governo federal na área da educação. Entrevista Por: Alex Dusky e Victor Araujo / Fotos: Acervo Pessoal de Everlane Moraes.

Com o país passando por um período de catástrofes políticas diárias, em uma época onde algumas pessoas parecem ter acordado na década de 1950, como se estivéssemos novamente em plena guerra fria, com todos os medos e preconceitos, valores ultrapassados sobre a família, discriminação racial, religiosa e ideológica aflorando desenfreadamente, sentindo o velho medo do “inimigo vermelho”, elegendo seus “grandes vilões” a serem perseguidos (as), obras de artes censuradas, Universidades e demais instituições públicas arruinadas e outros demais absurdos que não deveriam pertencer a este século. Enquanto, além de tudo isso, o governo despeja a população a conta da corrupção e dos gastos para se manter no poder, não chega a ser surpresa que haja tantas pessoas sofrendo com a total falta de compromisso deste (des) governo.

Usando uma tática covarde, o governo transferiu a "culpa" pela crise nos trabalhadores, estudantes, nos serviços sociais, na cultura, saúde e educação, com principal foco aos setores onde há maior oposição aos golpistas. Assim, o Estado passa a cumprir uma agenda vingativa, tirando recursos pontuais e aplicando cortes cada vez maiores para deixar seus opositores acuados no canto do ringue, levando golpes seguidos nos seus mais básicos direitos.

Seguindo este padrão de cortes de recursos, no dia 17 de Agosto deste ano, nove (9) estudantes que conquistaram uma difícil bolsa de estudos em uma das mais conceituadas escolas de cinema do mundo, a Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV), em Cuba, foram apunhalados com uma noticia péssima. As bolsas de estudos assim como o convênio com a instituição foram cancelados, impossibilitando, assim, os estudantes brasileiros de concluírem seu último ano letivo na instituição, causando um enorme prejuízo e jogando fora dois anos de investimento, estudos, vida e sonhos dos alunos.

1, 2, 3, 4... Com Everlane Morais  - "Cinema, Sonhos e Atitude"
Entrevista Por: Alex Dusky e Victor Araujo / Fotos: Acervo Pessoal de Everlane Moraes.

Everlane Moraes Retrato  PORTAL ROCK PRESS1 - Portal Rock Press/Alex Dusky - Fala um pouco de você, da sua trajetória?
Everlane Moraes - Eu comecei em 2007, tô exercendo já 10 anos de carreira. Eu comecei de maneira muito autônoma, muito independente, com amigos de Sergipe. Nasci em Cachoeira na Bahia, mas fui criada em Sergipe. Então me juntei com vários estudantes, vários artistas principalmente e a gente começou a fazer filmes lá e dessa turma cada um foi seguindo seu caminho, uns estão estudando cinema, outros foram ainda pelas artes visuais, tem outros indo pra crítica, outros saindo da área e indo para outras áreas e eu continuei a seguir esse caminho mesmo do cinema paralelo também à carreira da televisão, já tive um programa de TV, também já fiz produção na TV, mas segui com o cinema, né, nunca deixei de fazer. Então, até que teve um edital na minha cidade, eu participei desse edital e fiz o meu primeiro filme que chama “Caixa D'água Qui-Lombo é Esse?”, depois eu ganhei o mesmo edital e fiz meu segundo filme chamado “Conflitos e Abismos: A Expressão da Condição Humana” e aí, depois disso trabalhei na TV por seis anos, e também todo o ‘rolê’ dos festivais no Brasil e fora do Brasil, com prêmios e tudo e todo esse ativismo do corpo a corpo com o espectador, com os realizadores, com as produtoras dos festivais e aí segui até que um dia, fiquei desempregada, por questões políticas, também, todos os profissionais da TV foram desligados, afastados ou demitidos. Passei seis meses sem trabalho, até que encontrei esse anúncio da EICTV e aí pensei na possibilidade, né, então peguei o último dinheiro que eu tinha e fui para Recife, onde era o polo das provas no nordeste, fiz a prova muito confiante, fui pra passar mesmo e aí passei na primeira fase das provas, passei pra entrevista, e aí depois de um tempo eu recebi a notícia de que fui selecionada e vibrei, né, porquê quando eu achava que não tinha mais caminho, que não tinha mais esperança pra mim, veio essa noticia e pra mim foi maravilhoso, fiquei muito feliz, me preparei mesmo pra ir, pra imergir mesmo nessa escola e é o que eu fiz até hoje. Dentro da escola realizei meus filmes, estudei, estudei muito. É uma escola muito puxada, dura o dia todo, a gente mora na escola, a gente come na escola, a gente bebe na escola, a gente chora na escola, a gente faz tudo na escola e é isso. Fiz alguns longas-metragens, trabalhei com grandes profissionais do cinema no início da minha carreira que me ajudaram muitíssimo a seguir mesmo fazendo filme, e aí o primeiro filme foi O Senhor do Labirinto, de Geraldo Mota, que contava a história de um artista sergipano Arthur Bispo do Rosário, participei ali da equipe de arte, seis meses nesse filme, trabalhei também com Lana Benigno e Sergio Chaves, cenógrafos, diretor de arte e aderecista. Ensinaram-me muitíssimo, são os meus padrinhos do cinema. Depois eu fiz o filme do Rosemberg Cariry, lá no Ceará, em Fortaleza. Aprendi muitíssimo, também fui com o Sergio e com a Lana, eles também gostaram do meu trabalho e me levaram. Depois eu voltei pra Sergipe, fiz o filme do Hermano Penna, “Aos Ventos que Virão” e depois eu fiz a minha primeira direção de arte pra longa-metragem de um filme chamado “A Pelada” de Damien Chemin, que é um diretor belga, é um filme Belga-Brasileiro. E aí, fiz a minha primeira direção de arte, do longa, e foi muito legal porque foi a primeira vez que eu assumi uma posição, assim, maior, né, n’um filme. Depois disso é que eu passei nos editais, fiz meus próprios filmes e segui. Tenho formação em artes visuais, licenciatura, e agora na EICTV com direção de documentário e a outra formação é a vida, né.

2 - Por que Cuba? Fala da instituição, da historia, etc.
Everlane Moraes - Eu escolhi estudar nessa escola porque quando o edital eu percebi que era muito menos burocrático o pedido de documentação pra poder se inscrever, pra fazer a prova, então eu achei pouco burocrático e isso me incentivou bastante e, também, quando soube que era em Cuba e fiquei louca, fui ler sobre a escola, até porquê também conheço muitas pessoas que já estão na área do cinema há muitos anos que estudaram nessa escola que estudaram nessa escola, então essas pessoas... Eu conversei com algumas, que me aconselharam bastante a ir pra essa escola e aí eu vi o chamado, me inscrevi, levei a documentação, fiz a prova, uma prova muito interessante, muito subjetiva, inclusa, assim, muito interessante mesmo. As coisas que eles pediam, também, pra poder avaliar o aluno a distancia, muito interessante. Então todo o procedimento eu achei muito interessante, tanto da prova quanto da avaliação, da entrevista e tudo. E aí é isso, fui ler mais sobre a escola, fui procurar os profissionais que estão no mercado de trabalho que estudaram na escola e todos me falaram muito bem da instituição, me falaram principalmente muito bem dessa vivencia forte que tem entre os estudantes da escola. Essa coisa de você sair do país, ir pra Cuba e passar lá três anos dentro de uma escola e viver, respirar o cinema o dia todo, todos os dias e toda a escola funcionar em prol disso, né, da realização subjetiva e objetiva também de cada estudante em realizar seu sonho que é trabalhar nessa área que é pensar o cinema, que é entender todos os procedimentos metodológicos da linguagem, então, assim, eu achei muito interessante a escola ser em Cuba e ser uma escola internacional. E, bem, uma vez que eu tô em Cuba estudando cinema eu vou ter uma experiência sociológica, política muito interessante por se tratar de Cuba.

3. Portal Rock Press/Alex Dusky - Quando vemos este governo acabar com vários programas sociais, Everlane Moraes Retrato PORTAL ROCK PRESSvocê sente que algo está sendo feito por uma espécie de vingança?
Everlane Moraes - Eu não sei se eu vejo como uma vingança. É muito óbvio que em uma política de direita os convênios, os acordos firmados com países de esquerda, digamos, socialistas, se desfaçam, né. Isso é muito óbvio. A gente já sabia, ou imaginava que as bolsas ou o convênio não iriam ser renovados. E óbvio né, qual o interesse que uma política de direita, tradicional aí que tá vindo tem em manter estudantes brasileiros aprendendo cinema. Os interesses são outros, a gente já sabe né. Mas não sei se eu vejo como vingança. Eu vejo como política mesmo, pública, né, uma politica de governo que é isso, né, que congela a cultura, a educação, que só pensa em dinheiro, em progredir economicamente o país e está pouco se lixando pra formação subjetiva, a formação intelectual de estudantes, principalmente dessa área do cinema. Que é uma área tão perigosa, também, né. A gente lida com imagem, a gente lida com discurso, o cinema é uma potência muito grande, então eu imagino que pra eles isso seja uma ameaça. Então, não sei, um certo tipo de ameaça. Então, é isso, não sei se é vingança o nome, mas é uma politica de governo do qual a gente já sabe muito bem qual será, né, quais são as perspectivas. Bem, dentro de todo esse âmbito geopolítico e da cena politica brasileira, obviamente sempre tem uma questão de ego aí, né, seja Fidel com os EUA, seja Brasil, sabe... Tem sempre disputas de ego, de orgulho aí que não deixa de ter nunca, e de vinganças históricas também, não sei. Mas, bem, a gente já imaginava realmente que isso poderia acontecer, o que a gente não imaginava é que o governo não ia se comprometer com quem já estava na escola. Então os alunos que vão entrar esse ano agora já vão entrar sabendo que vão ter que pagar seus estudos porque a bolsa foi cortada, né, porque o convênio foi cortado.

4 - Na sua percepção, quais as principais diferenças entre (estudar) o cinema no Brasil e em Cuba?
Everlane Moraes -
Eu acho que, assim, se eu não estivesse indo pra Cuba, eu não estaria neste momento estudando cinema no brasil. A não ser numa universidade federal e tal, com toda aquela problemática de cursos super-sucateados, sem câmeras, sem a tecnologia necessária pra fazer um bom curso de especialização. Os cursos da universidade do Brasil geralmente são cursos muito fracos em relação à especialização nas áreas de atuação, são cursos muito gerais e tal. Esse curso em Cuba é um curso de especialização, em que você se especializa em uma categoria, em uma função em cinema. Primeiro que é muito barato, né. São 5 mil euros por ano que se paga a escola. Esse valor é muito barato em relação a outras instituições pelo mundo e até no Brasil também. E a diferença é que em Cuba eles abrem espaços para estudantes da América-Latina, da Ásia e da África, então você tem uma diversidade muito grande de estudantes dentro da escola, todo um projeto pedagógico, também, de fundamento do surgimento do novo cinema americano que é muito levado em consideração, até por conta dos fundadores da escola. Eu acho que a grande diferença é essa, primeiro o valor, segundo é o tipo de vivencia que a escola possibilita, de uma imersão total no universo cinematográfico com pessoas de várias lugares do mundo além de uma especialização específica pra uma área do cinema. Então, o primeiro ano da escola a gente tem toda uma polivalência que é nivelar os alunos em diferentes áreas do cinema sobre os conhecimentos teóricos e práticos da realização cinematográfica e depois do segundo ano cada estudante vai pra sua área de atuação e no terceiro ano se aprofunda ainda mais. A gente tem várias aulas teóricas e geralmente no final do semestre a gente faz uma peça, prática, né, um filme. E, quer dizer, os diretores dirigem os filmes e os outros estudantes das outras áreas entram também nos projetos, o som, edição, roteiro, produção... e aí se formam equipes pra fazer filmes. Então a gente coloca todo o conhecimento teórico adquirido para a realização dos filmes. Então é realmente um curso muito específico, é muito direcionado, teórico e prático e de uma imersão cinematográfica, assim, sem tamanho e em um lugar como Cuba que é um lugar onde a solidariedade ainda está muito ativa, né. E, bem, pra mim que sou documentarista é muito importante estar em Cuba, principalmente nesse momento histórico que a gente está passando, né, que Cuba está passando. Então, pra mim, é um grande universo de possibilidades narrativas, até porquê é isso, é uma escola que está em Cuba. Tem toda uma especificidade aí que faz com que a escola seja considerada uma das melhores escolas do mundo e uma das mais valorizadas. Tem pessoas do mundo todo, que poderiam estudar cinema em seus países, que tem toda a possibilidade de estudar lá, mas não estudam, vão pra Cuba estudar, então isso quer dizer alguma coisa sobre a escola, né. Então eu acho que as diferenças são essas, é que no Brasil nós temos um ensino muito elitizado, muito né... Tem muitos problemas ainda pro cinema, pras pessoas que estudam cinema. Hoje em dia menos, né, hoje em dia, quer dizer... várias pessoas, vários tipos de pessoas estão nas universidades estudando cinema, artes e outras áreas de conhecimento, mas ainda é muito aquém do que a gente poderia ter, então é muito interessante na verdade ter essa escola de cinema em Cuba e Cuba aceitar essa ideia, valorizar essa área do conhecimento que é o cinema.

5 - Deixe uma mensagem sobre sua luta e qual sua esperança.
Everlane Moraes -
Bem, uma mensagem é o seguinte. É... A gente já esteve mais longe, né. Quer dizer, eu lembro como hoje eu fazendo uma campanha aqui chamada Travessia Cine Cuba em que pessoas do Brasil inteiro, profissionais, amigos e familiares doaram dinheiro, doaram coisas pra eu vender, foi uma campanha muito bonita. Preparei-me dois meses pra ir pra Cuba, com toda a esperança né, deixei tudo no Brasil, tudo pra trás, emprego, relações pessoais, tudo, deixei tudo pra trás. Vendi livro, vendi disco, vendi instrumento musical, vendi tudo que eu tinha pra ir pra Cuba viver esse sonho. E aí me lembro de quando eu cheguei a Cuba, o primeiro dia ainda, a primeira semana, primeiro mês, o primeiro ano, quando voltei a primeira vez pro Brasil e voltei novamente pra Cuba, toda uma vivência que a gente passa que é realmente muito forte, né. Tudo que eu já passei em Cuba, também, e toda a dificuldade também que já encontrei por lá. Quer dizer, já estive, mas longe, mas agora já estou bem perto de me formar. É um ano só. Tô passando por esse problema todo que dura desde o ano passado, mas eu acho que se a gente já chegou até aqui a gente chega um pouquinho mais longe. A gente precisa realmente fazer pressão política e eu acho que isso não é somente um golpe nas expectativas dos estudantes, mas é também um golpe no cinema brasileiro, quer dizer, uma medida como essa já diz muito como será a politica desse governo voltada pro cinema. O cinema vai voltar a ser o cinema da elite, o cinema de apenas uma mirada, um olhar, o cinema nas universidades, quer dizer, quem vai estudar cinema é a elite né, quem tem dinheiro. Quer dizer, a gente avança as questões de descobrir novas narrativas, novas linguagens, através de novos olhares e em vários movimentos sociais e agora vai voltar a ser como era, né. Quer dizer, ainda é assim e poderia ter a possibilidade de começar a mudar e a gente vê que a mudança não é a perspectiva desse governo, né. Esse governo quer manter as estruturas de sempre, do conhecimento, do poder concentrado em algumas mãos e é isso né. Mas a esperança que eu tenho é a seguinte, eu já estudei dois anos nessa escola, aprendi muita coisa lá, tenho muito que aprender ainda, mas já aprendi e eu faço cinema com escola ou sem escola, com politica e sem politica, eu faço cinema como modo de vida, é uma filosofia de vida, então farei independente de qualquer coisa. Mas eu espero poder concluir os estudos porquê é concluir um ciclo, e isso é importante. E é isso. Se eu conseguir terminar esse último ano eu vou voltar com sangue no olho pra poder fazer do cinema a verdadeira arma do bem, a arma do conhecimento, da reflexão. É isso a perspectiva que eu tenho. De que tudo que eu aprendi até aqui e até o que eu tô aprendendo mesmo com todo esse baque que a gente está tomando nas costas, serve pra gente produzir arte. Eu acho que da angústia a gente tem que gerar arte. Acho que a perspectiva é essa. A arte salva. Por: Alex Dusky e Victor Araujo*.

Para conhecer os trabalhos de Everlane Moraes entre em contato: everlanemoraes@gmail.com 

Everlane Moraes mostra de filmes na Bahia Entrevista no PORTAL ROCK PRESS

 

*Alex Dusky é Roteirista, produz vídeo-clips pela Lunar Filmes, Guitarrista da banda Sex Noise e pai do jovem escritor e estudante de filosofia Victor Araujo.

Postado por Michael Meneses sexta-feira, 6 de outubro de 2017 14:46:00 Categories: África América-Latina Artes Visuais Ásia Bahia Brasil Cinema Cuba Everlane Moraes Independente Sergipe Sex Noise TV
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