Canudos Vive! - ENTREVISTÃO COM CARLOS LOPES da Dorsal Atlântica!

Precursor do som pesado no Brasil e desde sempre movido a inquietações artísticas, Carlos Lopes (Dorsal Atlântica) é o entrevistadoCarlos Lopes Dorsal_Canudos_5_Dani_Dread FOTO Dani Dread das Páginas Psicodélicas da Rock Press. Após lançar “Canudos”, disco que no melhor dos sentidos, já nasceu inovador e perto de lançar uma nova revista em quadrinhos, Lopes falou sobre a escolha da Guerra de Canudos como temática central do disco e o papo ainda fluiu sobre Eleições 2018, Cena Rock, HQs, Educação, Tecnologia, Rock no Subúrbio e ao falar sobre a volta da banda aos palcos ele assume: “tocar Canudos no sertão da Bahia é uma ideia interessante”. Mantendo a tradição, das Páginas Psicodélicas convidarmos personalidades para enriquecer a entrevista com algumas perguntas. Com vocês páginas psicodélicas com Carlos Lopes!

"CANUDOS VIVE! - ENTREVISTÃO COM CARLOS LOPES"
PÁGINAS PSICODÉLICAS DO PORTAL ROCK PRESS
ENTREVISTA: Michael Meneses! - FOTOS: Luciana Sendyk + Dani Dread + André Barcinski + Divulgação. - REVISÃO Renata Vieira


Dorsal_Canudos_Dani_Dread_OK2 Carlos Lopes FOTO Dani Dread1 – Na História do Brasil, muitos fatos dariam temática para um disco. Por que escolheu a Guerra de Canudos?
Carlos Lopes -
Canudos é o caso mais emblemático de como a sociedade brasileira não muda. O arraial fundado na Bahia por Antônio Conselheiro pode ser comparado hoje a uma favela, uma comunidade, um quilombo ou um acampamento do MTST. Lembre-se de quando um canal de televisão divulgou ao vivo a “invasão” da Rocinha e do Complexo do Alemão no Rio por forças da “lei e da ordem”. A mesma transmissão ao vivo foi usada com objetivos políticos para incentivar patos e panelas. Brasileiro esquece muito rápido do que realmente importa.

2 – Sem dúvida, esse foi o álbum com mais influências regionais da banda. Existe uma Brasilidade DORSAL_CANUDOS_CAPA explícita nos sons. Como a música nordestina e brasileira inspirou esse trabalho?
Carlos Lopes -
Canudos propõe um novo estilo de rock pesado com melodias brasileiras e cantado como brasileiro. O som não se afasta das origens da Dorsal, ainda é muito pesado, mas rompe com o padrão de mercado globalizado. O processo de criação do álbum inclui o desenvolvimento de novas batidas de bateria que mesclam maracatu, frevo, baião e a metranca do metal. Alterei a minha forma de cantar para que se parecesse ao canto dos repentistas e não só isso, mas agi como repentista em Canudos ao criar várias melodias no improviso, como o refrão da música dedicada ao golpista do Planalto. Para falar sobre o Brasil e mais especificamente sobre a Bahia gravei o disco com uma guitarra baiana que tivesse o som pesado de uma guitarrona. Desenhei o instrumento e o luthier baiano Fabio Batanj a construiu. Além da guitarra, precisava que os músicos se sentissem desafiados e por isso não quis que ensaios estragassem a espontaneidade.

3 – A banda vinha de dois discos com a mesma formação, Hardcore saiu e o ex-Mustang, Américo Mortágua, assumiu as Dorsal Atlântica 2018 FOTO DIVULGAÇÃObaquetas. Como se deu essa transição?
Carlos Lopes -
A decisão foi meramente profissional e não pessoal. Eu não queria ensaiar e precisava de músicos dispostos a tal. Planejei Canudos como parte de uma obra que deveria ser vivida, sentida e não tratada como um disco qualquer. Tudo deveria ser inventado na hora e fluir sem receios. O disco foi gravado ao vivo e sem ensaios. Talvez isso explique grande parte do sucesso de Canudos. Não é algo superficial, planejado ou tocado como um trabalho a mais. Canudos foi gravado como se nossas vidas dependessem disso. Pensei, como falar sobre o sertão sem estar irmanado com o mesmo sentimento, vamos dizer, agreste? Gravamos ao vivo em estúdio sem edições, da forma mais realista possível inspirado no método Stanislávski de teatro.

4 – Na campanha do financiamento coletivo para o álbum, foi cogitada a possibilidade de Canudos também sair em Vinil. Ainda existe essa possibilidade?
Carlos Lopes - Custa três vezes mais prensar um LP do que um CD. Como a versão em LP não foi financiada, administrei a verba não somente com os custos da gravação e prensagem, mas também com uma arte gráfica diferenciada. Como a questão artística é muito presente na obra, assim como a musical e a política, o pacote deveria ter uma arte que impactasse e principalmente que não tivesse similar.

5 – Seu próximo lançamento será uma HQ. Fale dessa revista e futuros lançamentos!
Carlos Lopes -
A revista em quadrinhos será lançada daqui a um a dois meses. É um sonho de criança tornado realidade, uma nova etapa na HQ Dorsal Atlânticacarreira que busca o Brasil profundo, psicológico, artístico, emancipado da colonização. Não há super-heróis porque o herói é o operário que pega trem todos os dias. Não há romance porque só pode haver amor em uma sociedade não materialista. A revista é um repensar e refletir sobre o Brasil. Antropofágica e descolonizada, brasileira como o tatu, o pau-brasil e o sertão. Desenho desde os 4 anos de idade. Abandonei o sonho de ser ilustrador e quadrinista quando fundei o Ness em 1981, que mudaria de nome para Dorsal Atlântica. A partir da gravação do CD 2012 retomei passo a passo a relação com papeis, canetas e pinceis. Mas precisava bem mais do que sonhos. Precisava de metas e objetivos para me estimular a desenhar continuamente. Dei início à campanha para os quadrinhos em 2015, mesmo sem ter desenhos para mostrar. Confiei nos apoiadores que retribuíram à altura, confiando em todo um trabalho dedicado à arte em 35 anos. Fui eu quem deu a cara para bater – mais uma vez. Vencida a campanha, iniciei os desenhos em fevereiro de 2016. Desenhava todos os dias, horas e horas. Cansava, errava, retomava, prosseguia. Reencontrei-me comigo mesmo e refiz o link desfeito há tanto tempo com aquela criança que sonhava em ser um Will Eisner, um Colonnesse, um Hal Foster... E hoje, tendo entregue aos fãs, um disco como Canudos sinto-me livre para continuar não mais com uma banda, mas com uma revista que também possa exprimir minhas indignações, dores e sonhos com a mesma intensidade.

6 – Há cerca de 20 Anos que a Dorsal não faz shows. As campanhas de financiamento em que a Dorsal Atlântica participou foram vitoriosas. “Canudos” parece ser o disco com mais visibilidade midiática em anos. Levando tudo isso em conta, quando a banda vai se reunir para um show e desse show a gravação de um DVD Ao Vivo? Não seria hora de mobilizar um financiamento coletivo para Show + Registro em DVD/CD Ao Vivo?
Carlos Lopes -
Essa questão de tocar não se refere à Dorsal... Meu último show foi com o Mustang abrindo para os Titãs. Então não me parece uma questão relacionada à uma ou outra banda mas a algo bem maior, que envolve questões humanas e os meandros do show business. Essa ideia do DVD/CD ao vivo tem sido aventada por vários apoiadores desde 2012, mas ela precisaria fazer sentido para mim e realmente tocar ao vivo não está em meus planos. Seria mais fácil e artisticamente significativo se todas as ideias de retorno, revival, old school fossem esquecidas de vez para apenas dar espaço ao novo. Eu não consigo me imaginar tocando Ultimatum ao vivo. Mas tocar Canudos sem banda e no sertão da Bahia é uma ideia interessante...

7 – Algumas bandas contemporâneas a Dorsal e que deram um tempo em algum momento, acabaram voltando à ativa e estão tocando e gravando regularmente. O que pensa sobre e você tem acompanhado esses trabalhos? 
Carlos Lopes -
Cada cabeça, uma sentença. Cada banda ou artista tem seus motivos para o retorno, mas como eu sempre busco o novo, então cobro o mesmo de quem leio, assisto ou ouço. Se os trabalhos dessas bandas forem mais do mesmo, eu não sou o público ideal.

8 – Atualmente o que você tem escutado no Heavy e no Rock nacional e internacional?
Carlos Lopes -
Não escuto rock continuamente há uns 20 anos. De vez em quando dou uma “bizoiada” em alguns lançamentos de bandas grandes como o Metallica e o Judas Priest, mas não passa muito disso. Quando termino de gravar um disco, como os três últimos, escuto umas 50 a 100 bandas no YouTube. Nunca antes. A audição é sempre depois de ter gravado. E nada tem me chamado a atenção. Vi alguma coisa na TV do Lollapalooza. Os músicos, principalmente estrangeiros – pois a estética rock é deles - tocam muito, têm algumas boas ideias, mas as harmonias e timbres são os mesmos e eu estou cansado de tanta repetição. Tenho imenso prazer em escutar Villa-Lobos ou Beatles, Novos Baianos e Secos e Molhados, mas isso não é saudosismo. É algo muito maior, que alcança a alma. Muita coisa não serve mais para mim, tanto a respeito de produção – não gosto de truques de estúdio – e nem estilisticamente.

9 - Recentemente, a ROCK PRESS o convidou para fazer uma pergunta ao Gepeto (Ação Direta). Faço-lhe a mesma pergunta: O Rock perdeu sua relevância cultural?
Carlos Lopes -
Sim. O rock morreu. O que resta dele são fragmentos, idealizações, fantasias. Virou uma Disneylândia. É direito de quem quiser acreditar que o rock pode continuar a existir sem ser relevante e cooperativo com as grandes mudanças sociais, mas eu passo adiante.

10 - Falando em política. Quais suas perspectivas para as Eleições 2018?
Dorsal_Poster 1990Carlos Lopes -
Canudos tece uma comparação entre a destruição do arraial e o impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. No primeiro disco que gravamos em 2012, após um longo período de inatividade, escrevi sobre o golpe de 1964. Um ano depois, uma parcela de jovens foi às ruas se dizendo apartidária para mostrar sua indignação. Estava na cara que ali havia dedo de conglomerados capitalistas americanos com fascistas brasileiros. Era a preparação para o golpe. No disco seguinte, Imperium de 2015 comparei a queda da monarquia à futura queda de Dilma que ocorreria um ano depois. Hoje, o cenário é de completa instabilidade. Várias pessoas me dizem que estão arrependidas de terem batido panelas mas que têm vergonha de pedir desculpas, de voltar às ruas... Se Marx me permite, e a história vai de farsa à tragédia, vivemos um ciclo ditatorial light como o de 1965 e não haverá eleições com ou sem Lula. Ou cancelam as eleições, ou forjam um vitorioso adepto do golpe, ou impõem o parlamentarismo rechaçado pela população em plebiscito ou nos transformam em um enorme Paraguai – me desculpem os paraguaios – com a entrega do país, o fim do nacional-desenvolvimentismo e o trabalho assalariado semiescravo. A Constituição de 1988 não serve para mais nada. 54 milhões de votos rasgados... Canudos vive!

11 – Na história do rock, sempre existiram artistas de variados segmentos defendendo ideias contrárias à essência do rock, como a liberdade, a paz, o amor... Porém, nos últimos anos ideias contraditórias ao rock estão ganhando força dentro do rock. Como você ver isso?
Carlos Lopes – Na verdade, rock em sua origem não tinha nada a ver com amor no sentido humanista. O termo rock and roll pode ser traduzido como “meter e mexer”. Rock and Roll é uma expressão sexual. O rock nos anos 50 não foi e nunca pretendeu ser intelectualizado, mas sempre foi sexualizado e quando escrito por negros, combativo. Os descendentes dos escravos uivavam, gritavam, emitiam cantos orgásticos, plenamente entendidos pelos seus. Mas esse canto não podia ser escutado pelas famílias brancas. Tanto que havia segregação até nas rádios. Os radialistas brancos não tocavam compactos de artistas negros, considerados sujos pela classe média branca. Assim como hoje, quando ainda se incomodam com uma letra chula de um funk esquecem-se que o rock negro dos anos 50 era uma celebração à vida, ao sexo e à liberdade, mas em um ambiente restrito como o de uma senzala. Ouvi muito que negro no Brasil só poderia ascender socialmente se fosse artista ou jogador de futebol. Quem intelectualizou o rock foi o folk americano Bob Dylan e ingleses como o Who. E no Brasil, rock sempre foi uma bobagem lírica. Os Tropicalistas e os Novos Baianos foram grandes, mas a lírica só melhorou mesmo com o Renato Russo e o Cazuza. O que sempre foi importante no Brasil, principalmente nos anos 60 e 70, foi a MPB, liricamente e musicalmente.

12 – A Dorsal sempre assumiu o seu posicionamento político! Mesmo assim alguns fãs da banda pensam justamente o oposto. O que diria a esses fãs?
Carlos Lopes -
Que nunca entenderam a Dorsal. Que nunca me entenderam.

13 – Mesmo com a banda longe dos palcos, novos fãs da Dorsal estão sempre surgindo. O que você diria a essa nova geração de fãs, gente que ainda não era nascida quando vocês se apresentaram pela última vez? E como foi chegar adolescência em meio aos anos 1970?
Carlos Lopes -
O Brasil de ontem tem muita coisa diferente e muita coisa igual ao país de hoje. E digo isso com pesar. Tenho por hábito rever programas de televisão e filmes brasileiros que assisti nos anos 70 para tentar, de alguma forma, relembrar como percebia o mundo... Essa reflexão me auxilia a não me iludir com nada, para que eu não aceite verdades impostas, e principalmente que eu nunca esqueça. Alegoricamente falando, e chega a ser engraçado, sou da época em que só havia rádio AM, leite em garrafas, não havia iogurte, a TV era preto e branco, e mamãe comprava galinhas na Visconde de Pirajá em Ipanema, hoje local chique, para cortar os pescoços dos bichinhos na cozinha de casa! Faço questão de não esquecer nada disso. Os anos 1970 não foram nem melhores, nem piores. Meu vizinho de porta, um advogado, foi torturado pela ditadura e virou alcoólatra enquanto eu assistia Vila Sésamo. Meus pais e amigos não estavam nem aí para ditadura, não fazia parte do mundo deles. Dissidentes políticos e negros favelados sumiam nas delegacias, mas se a vida tranquila da classe média fosse garantida, tudo estava bem... Todos viviam suas vidinhas. A esposa do meu vizinho torturado nos contou sobre os responsáveis pela morte da menina Ana Lídia em Brasília... Fui amigo da filha do Francisco Tenório, pianista de Vinícius de Moraes e Toquinho, “desaparecido” na Argentina em 1976. Era uma realidade para mim que eu não entendia, mas estava exposto a ela. Eu lia o que podia, contestava, tentava entender nas entrelinhas mesmo sem discernimento. Minha época de me conscientizar politicamente ocorreu por volta de 1978.
carlos_lopes_lemmy 1989Emprestaram-me livros proibidos sobre Sierra Maestra, Mao, em português de Portugal. Recomendaram-me esconder os livros e tomar cuidado. Li o Veias Abertas na faculdade de jornalismo a partir de 1982. E nada disso excluía a espiritualidade. Tive espinhela caída e não falava... fui tratado dos dois problemas e rezado por uma benzedeira! Na minha família vi parentes incorporarem espíritos. Esse Brasil que eu vivi era real, parecia Saramandaia (Novela de Dias Gomes exibida na TV Globo em 1976), e tinha muita coisa ruim, gente má, gente boa, e apesar de uma ditadura. A gente sobrevivia, acreditava que poderia “ver El Rei andar de quatro”! Hoje, em um shopping Center eu não reconheço o Brasil.

Como tradição do PORTAL ROCK PRESS convidamos músicos e formadores de opinião para fazer perguntas às bandas e músicos que entrevistamos, selecionamos algumas.

14 - Quais os Guitarristas lhe influenciaram quando você começou a tocar e quais influenciam atualmente? – João Jr, guitarrista Freelance - Aracaju/SE.
Carlos Lopes - Obrigado João. Acredito que a alma tem uma porta de entrada que dura apenas alguns anos. Fui tocado pela magia da música e da guitarra em meus anos iniciais, talvez até uns 25 anos. Quando fundei a Dorsal queria trazer o heavy metal, feito da minha forma, ao país mas também queria criar um estilo diferente de guitarra. Era muito insano nos anos 70 ouvir a guitarra do Angus Young do AC/DC apitando no Powerage, assim como era insano ouvir os Ramones, os Sex Pistols e o Van Halen. E tudo aquilo somado fazia muito sentido para mim. Algumas pessoas da geração anterior me perguntavam no começo da carreira o porquê de eu não “tocar direito” ... Não entendia muito bem o sentido da pergunta e com o tempo vi que elas não me ouviam, não queriam ouvir o novo, queriam o convencional. Entendi que não há uma verdade e que também há várias verdades impostas. Mas depende de quem as aceita.

15 - Carlão, gostaria de saber sua opinião sobre as novas tecnologias de comunicação! WhatsApp, aplicativos, redes sociais etc. Como você enxerga essas mudanças no comportamento das pessoas a partir dessas tecnologias? – Gepeto - Bandas Ação Direta e Lettal - ABC/SP
Carlos_desenhando_1_Luciana_SendykCarlos Lopes - Tenho uma relação dúbia com a tecnologia, gosto e desgosto, uso e não uso. Se a tecnologia te auxilia, ótimo. Se você não é escravo dela, melhor ainda. Negá-la é inadequado. Negar a criatividade e a vida também é. Estou diagramando uma revista em casa enquanto te respondo. Graças à tecnologia. Nos anos 80, vi em estúdio uma câmera fotográfica rodar sobre um trilho para fotografar e ampliar uma arte em uma sala escura... Gravei com fita de rolo, 2 polegadas, meia polegada, ADAT, Beta, até chegar ao digital. Então acompanhei a tecnologia pela necessidade. Mas até hoje certas coisas não mudam. Tenho que lidar com egos... Claro que as redes sociais deram voz a todos, esclarecidos e não esclarecidos mas isso nada fez quase nada para melhorar a qualidade da música, apenas a tornou mais e mais igual, mais e mais do mesmo. Há muito autopromoção e pouca dedicação e incentivo à criatividade. As curtidas não são reais, há máquinas curtindo ídolos de barro, e ao mesmo tempo há todo um universo fantástico de gente que trabalha pelo bem estar comum, em agro florestas, e agro habitações. É preciso ir além do óbvio.

16 – Durante a pesquisa para o álbum, você tomou conhecimento que cerca de 500 indígenas da Etnia Kiriri foram mortos no massacre de Canudos?  - Daniele Rodrigues - Pedagoga e apoiadora das causas indígenas. - Botafogo/RJ.
Carlos Lopes - Sua pergunta é pertinente, Daniele. Sim, os Kiriri do norte do estado da Bahia. Houve muita valentia por parte dessa etnia que se aliara a Antônio Conselheiro tanto por estarem cansados dos brancos como pela lenda que diz que Conselheiro fez uma pesada madeira ficar leve após o toque de seu cajado. E com a morte dos combatentes Kiriri foi-se muito de seus encantamentos e de sua própria língua... O que me fascina e me envergonha do Brasil é essa luta constante entre o Brasil burlesco e o Brasil profundo como dizia Machado de Assis... Os Kiriri estão nas entrelinhas das letras de Canudos. Li o que pude sobre o assunto e derivados, refleti, até o ponto em que foi preciso resumir para que se tornasse Cordel. Minha indignação foi poetizada e se tiver força para perdurar e puder incentivar mais e mais pessoas a conhecerem o Brasil real, o trabalho não terá sido em vão.

17 – A banda Dorsal Atlântica, formada lá na década de 1980, era muito incisiva como tendência estética e muito voltada às influências de riffs oriundos de bandas estrangeiras e que por excelência e obviamente eram contracultura a partir de uma leitura hegemônica e fora dos nossos contextos de Latinos, Sul-americanos, de Brasil e de Cariocas. Lembro-me bem dos ensaios e dos shows e de como vocês guardavam um interesse melódico particular, uma textura que buscava uns solos virtuosos e uma disposição em falar em uma língua própria. Três décadas depois e muitos “staccatos”, vejo que vocês buscam variações, diálogos com uma raiz, um Brasil mais disforme. Medidas que amplificam valores e, talvez, os façam reencontrar novos porquês. Algo ligado a essa América Latina, a esse mundo pós-colonial que grita, outra vertente de olhar, talvez menos hegemônico. Pessoalmente venho pensando muito nesses últimos 30 anos, por senti-los quase como intervalos na História e nas nossas histórias, claro que são intervalos repletos de ações e reações e acontecimentos de vida. Conte-nos um pouco sobre essa trajetória, os novos diálogos que se abriram e as descobertas a que levaram. Sejam em relação às linhas melódicas, ao peso, às letras, ao uso de novos riffs, às dissonâncias...  Assim...  Um antes e depois. Como vocês se comparariam a vocês próprios, 30 anos depois? Pensando nesses novos diálogos possíveis e nesse momento triste do Brasil, uma desesperança latente em relação à esperança pulsante que eram aqueles meados dos anos 1980. Tem uma contraposição muito grande nisso e ao mesmo tempo a arte é uma esperança de mudança! - Renata Vieira Arshied – Carioca, meio nômade. Residente entre continentes: Beirute/Amsterdam. No Egito, no momento. Professora / pesquisadora de Literatura Comparada / Língua Portuguesa. Trabalha com educação, diálogos culturais, cinema, música... - EGITO.
Carlos Lopes - Renata... Emocionei-me com suas reflexões. Emocionado te respondo que estou desencantado com o país e com a metade da população que se considera brasileira... E isso abre a porta para tantas outras reflexões. Não quero me estender mais do que o necessário, mas li que você está no Egito... O que me faz lembrar da Primavera Árabe... E segundo o recém-falecido historiador Dr.Moniz Bandeira, os países “árabes” e latinos americanos foram induzidos às Primaveras por questões de dominação geopolíticas norte-americanas... Mas é claro, isso é “teoria da conspiração” e “esquerdismo” sem fundamento... Em sua análise você retratou bem o Brasil antes e depois. O que me inclui, antes e depois. Quando optei pelo rock em 1981 entendi que deveria fazer as adaptações necessárias para que eu não fosse mais uma banda e nem uma cópia. Escutei Darcy Ribeiro e Sergio Murilo chamarem o rock de “boboca” na mesma época em que estávamos nas ruas pelas Diretas Já. Eu, como tantos, acreditávamos em um país mais justo e em um rock não alienado e afeito a causas sociais. Conforme cresci junto à banda, a nossa música tornou-se mais e mais combativa e de alguma maneira, entendi que as pessoas absorviam o que conseguiam absorver. E para minha surpresa, a banda não cresceu comigo. De um guitarrista visionário, tornei-me um artista polêmico fora da caixinha. Decididamente esse meu comportamento artístico interferiu em nossa carreira e não me arrependo. Analisando em retrospecto, acho que não pertenço a este país, como não pertenço a lugar algum... Quando me lembro do “boboca” usado pelo Darcy Ribeiro ao se referir a rock, o entendo cada vez mais, mas eu não havia sido exilado fisicamente. Ainda... Hoje sinto-me exilado de várias formas. Mas acredite, não me sinto exilado de mim. Sinto-me mais conectado. Resta-me a arte. Mas será o suficiente? E até quando? Até chegarem as tochas? As cruzes? Uma nova ditadura como a que combatemos em 1981? Riocentro? Ou pior?

18 – O que você pensa sobre a Escola Sem Partido? Jamais vou deixar de associar o Heavy Metal, o Samba e a música como ferramenta educacional. Afinal, muitas bandas abordam o tema, enquanto outras nem tanto, assim como no samba, onde existem bons sambas que falam de sentimentos e reflexões, temos o exemplo da Dona Ivone Lara. O Heavy muitas vezes segue esse caminho. Pergunto sobre a questão da “Escola Sem Partido”, principalmente no ensino médio, um período na vida que estamos em transição, saindo da adolescência, pensando no futuro, cheio de cobranças. Comigo foi assim, acredito que tenha sido com o Michael Meneses e com você também. Entre meus alunos, vejo alguns querendo estudar música, educação-física... - Maristane Fernandes – Professora da Rede Municipal do RJ, também leciona aulas particulares de música, ritmista do G.R.E.S. Império Serrano e fã da Dorsal Atlântica desde a década de 1980. - Madureira/RJcanudos imagem clipe darcy
Carlos Lopes - Obrigado Maristane por ser tão combativa. Estudei em colégio público nos anos 70. Tive aulas de música nesse colégio público durante as quais aprendi a ler partitura. Passei a considerar música como uma opção. Eu era uma negação nos esportes e entendi que meu papel era outro, mesmo que meus pais só quisessem que eu passasse de ano e que arrumasse um bom emprego e uma boa família. Uma vez no colégio, me recusei a responder determinadas questões em uma prova. Eu sabia as respostas, mas não concordava. A professora aproximou-se e me disse, meio debochada: “Ou você responde o que tem de responder ou o sistema te ferra. É assim que funciona!”. Então a vida é muito simples e tudo é doutrinação, inclusive familiar com meus pais querendo que eu me submetesse. Estavam me impondo uma Escola Sem Partido, mas eu não caí. Eu era criança, mas não era estúpido. Desde cedo, meu coração disse qual era o meu partido, o partido da igualdade, o partido do estudo consciente, o partido da liberdade das mentes contra o lugar comum para que o povo se libertasse da escravidão. Tudo é doutrinação, mesmo que digam que não. Minha geração teve a mente lavada pela TV. Meus amigos negros no colégio não se pareciam com o mundo da TV, no colégio eu via a realidade. Se minha mãe soubesse ao que eu estava sendo exposto com amigos favelados, certamente ela teria me tirado daquele ambiente... Hoje, quem lava mentes é a doutrinação que acredita em Jesus, na teologia da prosperidade, na meritocracia, e na pasta que clareia os dentes. Lembro bem de algumas faixas dos protestos da classe média contra o governo de Dilma Rousseff onde lia-se “Menos Freire e Mais Rockefeller”. Do mesmo nível de “Somos Todos Cunha” ... Um povo desses que considera mau exemplo incentivar crianças a refletir e que acha perfeitamente normal deixá-las brincar como soldados ianques a metralhar inimigos não pode ser normal. São deformidades morais sobre duas pernas. A questão é que escolhem um alvo para perseguir e melhor ainda se for brasileiro, nordestino e acreditar que “Não se pode falar de educação, sem amor”. Por isso é tão importante, e necessário, libertar as mentes desde cedo, permitir que as crianças reflitam desde sempre sobre si mesmas e sobre o próximo, o “outro”, para que nunca mais haja o outro. Inglória a tarefa é ainda mais com tantos pastores, tanto materialismo, celebridades sem talento que enriquecem e traficantes que ofertam empregos que a sociedade da meritocracia não cede tão facilmente. Mas eu acredito que é possível. Tenho que acreditar. O que pretendo te dizer com tudo isso? Que não há escola sem partido como não há Brasil sem Brasil.

19 – PORTAL ROCK PRESS - Nos tempos de Usina Le Bond você compôs uma música sobre a Vila Kennedy, bairro da zona oeste, no subúrbio carioca. Já naquela época, a região era vítima da violência. Hoje o bairro tá ocupado pela intervenção militar no RJ. O que você pensa sobre a intervenção e o que lhe inspirou a comprou aquela música?
Carlos Lopes -
Nossa carreira teve início em Botafogo, zona sul carioca. Nossos primeiros shows foram todos nesse bairro, mas de certa forma era uma zona de conforto, apesar que ainda não havia público para a nossa música. Fomos construindo uma cena, principalmente entre 1981 e 1983. Ser xingado de viado ou maluco fazia parte... Mas já naquela época havia correspondência (cartas) entre fãs de rock e começaram a nos chamar para eventos no subúrbio e zona oeste do Rio. Vi no subúrbio como a cidade era partida, apesar de ter estudado em colégios públicos com metade dos meus amigos de comunidades, favelas. O Rio de Janeiro, como um todo, foi minha iniciação ao social. Através dessa correspondência visitei a Vila Kennedy no início dos anos 80. Ao estudar sobre o local vi que parte de seus habitantes havia sido removida da Praia do Pinto no Leblon e Lagoa. E desses removidos nasceram tanto a Vila Kennedy como a Cidade de Deus. Isso só me fez pensar, pensar e pensar. E compor. Compor um rock para tratar do assunto, falar sobre a Vila Kennedy seria pouco, fácil, então compus uma bossa nova, um samba.2 SHOW de Heavy e Punk do Brasil em Marechal Hermes em 1984

20 - Não muito longe, da Vila Kennedy no bairro vizinho de Campo Grande um assalto que você presenciou lhe inspirou na música “Violência Real”, (do disco Dividi e Conquistar). O primeiro show unindo bandas de metal e punk no Brasil aconteceu em Marechal Hermes em setembro de 1984. Explique essa sua ligação com o subúrbio carioca!
Carlos Lopes -
Estava no bairro de Campo Grande em um ônibus que foi assaltado em 1987 e um passageiro levou uma coronhada. O motorista desviou o veículo para o hospital Rocha Faria e só prosseguimos viagem após o médico ter dito que o passageiro estava bem. Todos aplaudiram e ninguém reclamou que estava atrasado... Porém, próximo a Campo Grande, vi crianças rirem de um cadáver em um porta-malas aberto na Avenida Brasil na mesma época. Mas o segundo caso não me motivou a escrever uma música... Sobre esse famoso show em 1984 é como lembrar de algo que parece não ter acontecido... Explico... O movimento punk carioca ainda dava as cartas no underground e ninguém imaginava que uma banda de meninos da zona sul carioca aceitasse tocar em um evento no subúrbio em uma rua mal iluminada, de terra batida e com o equipamento que havia... Mas eu era destemido e convenci a minha banda a tocar, mas não convenci a banda Metalmorphose a ir... Eles deixaram que puséssemos o nome no cartaz, mas não foram. Me recordo que ninguém estava preocupado em fazer história, apenas fazíamos, não havia ninguém para fazer antes. Simples assim. Quando começamos a tocar, jovens cabeludos vestidos de preto e com correntes com as quais socavam no chão tomaram todo o espaço do público e afastaram os punks para os lados que com suas jaquetas e moicanos ficaram um pouco impressionados. Ali eu fiz um dos meus primeiros e vários discursos sobre a união entre as classes. Se houve o Motörhead no exterior para ser o elo entre os extremos, houve a Dorsal Atlântica no Brasil.

21 – Passaram-se 2 semanas da execução da vereadora Marielle Franco. As fake news e discursos de ódios ganharam força na internet. Por outro lado a luta da Marielle ganhou respeito com manifestações pelo mundo. O que podemos aprender com esses dois exemplos distintos e cite os fake news da Dorsal e da sua pessoa ao longo dos anos.
Carlos Lopes -
Discursos de ódio só têm adeptos entre pessoas odientas. O que não me serve não me atinge. Pessoas que repassam esse tipo de conteúdo e os apoiam não são gente. Sobre o mimimi, é natural incomodar quando não se segue a cartilha. Adicione inveja, hipocrisia e ignorância. E para ser popular você depende desse “povo” ... Já lidei com gente sem caráter e eles também vestiam preto, tinham tatuagens e cabelos longos. Pensar fora da redoma, inclusive no underground, “cena”, mídia, é tornar-se alvo. Difícil é listar todos os mimimis, mas até para fazer graça, aqui vai uma parcela pequena... 1981 – só alienado toca rock (vindo dos nacionalistas dos anos 70). 1983 – você nunca gravará um disco (vindo de todos). 1986 – o que você faz não é música (dito por vários roqueiros e metaleiros). 1987 – você é maluco de abandonar as correntes e roupas pretas para compor música mais refinada (dos radicais que ajudei a criar).1994 – você virou cristão e apóia negros ao gravar o Alea Jacta Est (vindo dos Black Metals). 2000 – você cospe no prato em que comeu ao escrever o texto “O Metal Está Morto” (dos metaleiros). 2001 – você quer enriquecer ao gravar funk (escrito pelo editor da revista Rock Brigade). 2012 – você está com a caneca na mão para entrar no crowdfunding (vindo de várias bandas). 2017 – você é comunista, defende o PT e a corrupção (vindo dos metaleiros conservadores). Recordar é viver...

22 – Deixe seu recado final aos leitores do Portal Rock Press...
Carlos Lopes -
Certa vez me disseram que eu era um sonhador e me senti honrado. Porque transformei sonhos em realidade. MasDorsal BANNER searching parque laje Foto André Barcinski o tempo passa e para manter esse pique de independência, - que assemelha-se à vida do trabalhador que pega o trem lotado para o seu ganha-pão, - é preciso superar desafios pessoais e profissionais quase intransponíveis. Hoje, ainda tenho sonhos. E ainda me orgulho disso.

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