ANDRÉ MIDANI - A música popular brasileira do vinil ao download

No último dia 13 de junho, a indústria fonográfica brasileira perdeu um de seus mais importantes produtores, André Midani. ANDRÉ_MIDANI_Do_vinil_ao_download_DivulgaçãoAtuando desde os anos 1950, ele trabalhou com boa parte dos grandes nomes da música popular brasileira.

ANDRÉ MIDANI - A música popular brasileira do vinil ao download
TEXTO: Robert Moura – FOTO: Divulgação

O produtor musical André Midani faleceu no dia 13 de junho, vítima de um câncer aos 86 anos de idade na cidade do Rio de Janeiro. Nascido na Síria e criado na França para onde se mudou aos três anos de idade, André Midani, acabou por se tornar um dos nomes mais importantes da indústria fonográfica brasileira, tendo atuado também no mercado americano e mexicano. Ele chegou ao Brasil em 1955. Antes disso, trabalhou no setor de estoque e como vendedor na gravadora Decca na França. Seu primeiro emprego no Brasil foi na Odeon Records onde esteve ligado diretamente ao lançamento da bossa nova, uma vez que João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes foram contratados pela Odeon no período. No mesmo período, Lúcio Alves, Dick Farney, Sylvia Telles, Elza Soares, Anísio Silva, Isaura Garcia, Tony e Celly Campelo também gravavam pela Odeon. Depois de um período atuando pela Capitol Records no México e nos EUA, retornou ao Brasil ainda nos anos 1960 para assumir a direção da gravadora Phillips, tendo sido responsável pelo lançamento de discos de vários artistas ligados à Tropicália, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e os Mutantes; além de Elis Regina, Nara Leão, Chico Buarque, Erasmo Carlos, Jorge Ben, Maria Bethânia, João Donato.  Na época, a Philips fez um anúncio no qual apareciam todos seus contratados e trazia a frase: “Só nos falta o Roberto Carlos...Mas ninguém é perfeito”, pelo fato do artista ser contratado da CBS (hoje, Sony Music). Em 1976, Midani foi o responsável pela inserção da gravadora Warner no país, lançando discos de Tom Jobim, Hermeto Pascoal, A Cor do Som, Marina Lima, Belchior, Zezé Motta, Ney Matogrosso, Banda Black Rio, Raul Seixas, Gil, Elis, Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara. No início dos anos 1980, a Warner viria a se tornar um dos principais selos a lançar bandas do rock nacional, entre elas: Barão Vermelho, Titãs, Kid Abelha, Marina Lima, Lulu Santos. Em resumo: Midani atuou diretamente na carreira discográfica de quase todos os artistas brasileiros que estiveram na grande mídia dos anos 1960 aos 1980.

ANDRÉ_MIDANI_Do_vinil_ao_download_DivulgaçãoQuem quiser conhecer um pouco mais da história de Midani e da música brasileira pode ler o livro André Midani – Música, Ídolos e Poder – Do Vinil ao Download que foi lançado em 2008 pela Editora Nova Fronteira e que saiu em edição revista e ampliada em 2015. Apesar de carregar a alcunha de autobiografia, Midani não entra muito em questões pessoais, de forma que o livro se torna um histórico de sua vida profissional. Mesmo com uma narrativa que não se aprofunda em detalhes, ainda sim, é bastante útil para quem tem interesse na história da música brasileira, trazendo muitas informações e questionamentos para quem sabe ler as entrelinhas. Em poucas palavras, porém diretas, está nele toda a sujeira que permeou as grandes gravadoras: o surgimento e funcionamento do esquema de jabá; o envolvimento da máfia na indústria fonográfica; a perda da direção das gravadoras por “homens da música” para cair nas mãos de tecnocratas; a pirataria de cassetes e CDs que tomou conta do país nos anos 1990, num esquema fabuloso com origem na China. As revelações escritas por Midani deixam um pouco menos bela a história da música popular brasileira e internacional (ok, essa história nunca foi tão bela mesmo), ainda assim, essas palavras precisavam ser ditas e explicam muito de como o mercado chegou a essa miséria musical que hoje se encontra na grande mídia.

Ah, para quem nunca soube, o verso “André Sidami só faz confusão, sonhei com ele e mijei no colchão” da música “Conversa Pra Boi Dormir” de Raul Seixas, é uma brincadeira do Maluco Beleza com Midani. - Robert Moura.

ROBERT MOURA - 
É natural de Belo Horizonte. Bacharel em Música (UEMG) e Mestrando em Artes (UEMG). Professor na Alaúde Escola de Música. Tocou guitarra em bandas de Rock na capital mineira. Atualmente seu trabalho está focado no violão clássico e trilhas para teatro.

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