ANDRÉ MATOS - Between My Life and Death - Relembrando sua Trajetória

Entre tantas noticias ruins que nos assolam diariamente, o mês de junho de 2019, ficará marcado no rock shaman_hub_rj_em_2_12_2018_foto_antonio_carlos_peresnacional e mundial, pela partida do André Matos. Reconhecido como um dos mais talentosos vocalistas da história do Heavy Metal, foi a voz de bandas ícones do metal como Viper, Angra e Shaman, assim como teve uma prolífica trajetória de participações e projetos diversos como Virgo, Avantasia, Symfonia e outros.

ANDRÉ MATOS - Between My Life and Death - Relembrando sua Trajetória!
TEXTO: Rick Olivieri
FOTOS: Antonio Carlos Paes e Divulgação
DEPOIMENTOS: Michael Meneses

shaman_hub_rj_em_2_12_2018_foto_antonio_carlos_peresMuitas vezes, a vida é como um sopro e nos pega de supresa como uma boa música que escutamos ao acaso no rádio. E qual foi nossa surpresa quando, no início da tarde do último dia 08, tomamos conhecimento que no dia seguinte após a partida do rocker Serguei para outro plano, foi a vez do André Coelho Matos ascender em direção às estrelas. O vocalista que chegou a ser cogitado à substituir Bruce Dickinson no Iron Maiden (o posto ficou com Blaze Bayley), recentemente, subiu ao palco para cantar tanto com o Avantasia quanto com o Shaman na turnê Reunion (Fotos). Aos 47 anos, e natural de São Paulo, André Matos havia realizado seu último show uma semana antes do dia que ninguém esperava chegar tão cedo e que pegou todos de surpresa.

Antes do Amanhecer...
Felipe Machado, guitarrista e ex-companheiro de Viper, conheceu o jovem André por volta de 1983. Os membros fundadores da banda (ele, seu irmão Fernando Machado e os irmãos Yves e Pit Passarel), moravam no mesmo prédio, ao lado do prédio para onde André se mudou. Quando, na virada de 1984 para 1985, aqueles adolescentes, com idade entre 13 e 16 anos, decidiram que queriam ser o novo Iron Maiden, resolveram chamar o garoto de óculos de lentes fundo de garrafa, estudante de piano desde os 7 anos, para ser o vocalista no lugar de Pit, que tocaria apenas o baixo. 

Nós lutamos pelo Metal e o Amanhecer é o nosso Sinal...
Viper_Soldiers_of_SunriseLogo, realizavam shows por São Paulo, inicialmente no lendário Lira Paulistana, berço de diversas bandas underground e artistas de vanguarda (como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Ratos de Porão, Cólera, Dorsal Atlântica). Ainda em 1985, gravaram a demo “The Killera Sword”.

Em 1987 o Viper grava seu primeiro disco, pela Rock Brigade Records. Intitulado de “Soldiers of Sunrise”, o álbum trazia um sombrio guerreiro de olhos vermelhos e brilhantes, montado em seu cavalo com o Sol nascente ao fundo, a capa revela um conteúdo bem presente nos anos 1980. Na primeira audição é possível distinguir a clara influência de Manowar, Iron Maiden e outras bandas de NBWOHM e Power Metal da época.

Apesar das limitações de gravação da época, podemos vislumbrar bons músicos e compositores, com uma pegada bastante enérgica, rápida e vibrante. O baterista, naquele tempo, era Cassio Audi. André, apesar de muito jovem, já mostrava a que veio, lembrando o alcance e a força épica de vocalistas como Bruce Dickinson e Eric Adams... Difícil dizer quais são as melhores músicas do álbum, mas o destaque vai para a faixa título “Soldiers of Sunrise”, “Knights Of Destruction”, “H.R”. e “The Whipper”,

Teatro do Destino...
Viper_Theatre_Of_FateO segundo trabalho e para muitos, o melhor álbum do Viper. “Theatre of Fate” foi lançado em 1989, com um novo baterista, Guilherme Martin e também com um novo produtor, o inglês Roy Rowland e que propiciou a que banda tivesse um grande salto qualitativo em termos de gravação.

Com uma clara mistura de Heavy com elementos fortes de música clássica, esse trabalho é uma verdadeira obra-prima do metal nacional e mostra André Matos em grande forma. O disco é tão bom em seu todo que é até mais difícil que o anterior destacar as melhores faixas. A marcante “Living for the Night” se tornou o hino de uma geração. “A Cry from the Edge” é uma arrasa quarteirão. A belíssima “Moonlight”, versão de Sonata ao Luar de Beethoven, mostrou todo o potencial de André nos caminhos do canto lírico e apontou para a fusão que seria feita ainda mais, posteriormente, com o Angra.

Theatre of Fate seria o último álbum de Matos com o Viper, fechando com chave de ouro a fase anos 80. No início dos anos 90, ele mergulharia fundo nos estudos de composição e regência para se tornar um respeitável maestro.

Seguindo Adiante...
Angra_Angels_CryNa faculdade Santa Marcelina, André conheceu os guitarristas Rafael Bittencourt, ex Spitfire, e André Linhares, com quem formou, em 1991, o Angra (que significa "Deusa do Fogo e da Beleza", pela mitologia tupiniquim). Em 1992, foi gravada a demo “Reaching Horizons” que marcou presença nas rádios rock do Brasil, entre elas a carioca Fluminense FM.

Após algumas mudanças de formação, o disco de estréia, Angels Cry, foi lançado no final de 1993 e se tornou um marco do Metal nacional e internacional. Com as mesmas influências de Heavy e música clássica vistas nos tempos do Viper, a banda veio trazendo outros elementos interessantes, que são os ritmos brasileiros, como o baião em “Never Understand”, por exemplo. Vendeu milhares de cópias no exterior e garantiu o acesso de André, Kiko Loureiro e Cia, ao reconhecimento mundial.

Terra Abençoada...
Angra_Holy_LandO álbum seguinte, Holy Land viria em 1996, tratando do descobrimento do Brasil pelos portugueses em 1500. Após uma turnê na Europa, André teve um problema sério nas cordas vocais e o próximo disco demorou 8 meses para ser finalizado. Logo após a turnê Holy Live, André Matos resolveu deixar a banda para trabalhar no seu projeto solo, Virgo. Mas foi convencido a permanecer para o lançamento de mais um álbum.

Buscando Manter a Chama Acesa...
Angra_FireworksLançado em 1998, Fireworks é tido pelos fãs como um ótimo trabalho e que manteve o nível da banda, mas já mostrava um André Matos um tanto distante se comparado à velha sintonia. Era tempo de encarar a realidade e abrir as asas para voas novamente. Foi uma fase de transição na carreira de André.

Ventos Novos, Antigos e Rituais...
Em 2000, Luis Mariutti (baixo) e Ricardo Confessori (bateria) deixariam o Angra juntamente Shaman_Ritualcom André para formar o Shaman. Após lançarem uma demo em 2001, é lançado o álbum Ritual (2002), RituAlive (2003) e Reason (2005). 

Nesse período Andre Matos conseguiu, finalmente, dar luz ao projeto Virgo e, partir dali, iniciou uma série de outros projetos paralelos com bandas e em carreira solo, como o Avantasia com quem lançaria "The Metal Opera parte I" e "II", em 2002 e "The Wicked Symphony", em 2010, "Symfonia In Paradisum" em 2011 são os destaques. Como artista solo, Andre Matos Virgo_CD_Andre_Matoslançou os álbuns “Time to Be Free” (2007), “Mentalize” (2009) e “The Turn of the Lights” (2012).

Em 2012, André Matos se reuniu com os companheiros de Viper para uma bem sucedida turnê de celebração dos 25 anos do lançamento do disco Soldiers of Sunrise tocando os dois primeiros álbuns, na íntegra, pela primeira vez na história. A turnê rendeu o DVD To Live Again – VIPER Live in São Paulo.

Para Viver Novamente em Cada Lembrança do Passado...
E chegamos ao fatídico dia 08/06/19. Com apenas 47 anos de idade, o cantor, pianista, compositor, arranjador e maestro, shaman_e_marcus_vianna_hub_rj_em_2_12_2018_foto_antonio_carlos_peresteve uma parada cardíaca, sofrendo um infarto fulminante - no laudo do IML, segundo Eco Moliterno, seu primo, consta “infarto agudo do miocárdio”, que teria acontecido "entre as 9 e as 10 da manhã daquele dia e teria sido provocado pelo entupimento de uma artéria." e partindo prematuramente deste plano. André Matos deixa aos fãs de Heavy Metal (incluindo aqui, todas as variações: clássico, tradicional, Power Metal, melódico etc) um grandioso e importante legado.

Se servir de consolo, para quem admira este ícone que ficará para sempre em nossa memória, importante mencionar a existência de um vídeo veiculado onde o músico - que, talvez não por acaso, já entoou o clássico do Queen, "Who Wants To Live Forever" - dizia: "Se eu tivesse que ir embora deste mundo em breve, eu iria feliz. E gostaria de agradecer mesmo a oportunidade que nós tivemos até hoje, porque a gente pode dividir muita coisa com muita gente e isto é arte de verdade, isto acho que talvez seja uma das únicas coisas que vale a pena nesta vida".

Feelings Are to Share...
Pelas informações que tivemos, os familiares esperam que os fãs sigam compartilhando as performances do músico, em homenagem à sua obra tão consistente, numa trajetória de quase trinta e cinco anos. Também vale dizer que existe uma petição online circulando para que 08 de Junho seja transformado no “Dia do Metal” no Brasil. E não podemos esquece que sua Missa de 7º dia conseguiu levar uma multidão de fãs a Igreja Nossa Senhora da Consolação/SP, e que contou com homenagem do músico Rafael Bittencourt ao violão.

Obrigado, André, pela dedicação ao rock e à disseminação de boa música para todos nós. Seu trabalho continuará sendo revisitado desde o começo e descoberto pelas novas gerações que virão como, um baú repleto de tesouros de valor inestimável. - Rick Olivieri.

DEPOIMENTOS:
Dejair Benjamim – (Vocalista da banda sergipana Tchandala) - “A morte prematura de André Matos foi uma perda irreparável para o cenário nacional! Alguns podem até não gostar da linha de som produzida por ele, porém é inaceitável não reconhecer a sua relevância. Juntamente com o Sepultura, foi ele quem alavancou o metal nacional ao exterior e quem chamou a atenção da mídia internacional para as bandas brasileiras. Infelizmente, essa uma lacuna que ficará aberta..., será difícil aparecer outro gênio como André Matos.”

Föxx Salema (vocalista da Fö​​​​​​​xx Salema)“O falecimento do André Matos foi uma grande perda para o Metal mundial, infelizmente ele (que era a minha MAIOR influência na voz e também em como componho) se foi. Eu tive o prazer de cantar em um show de tributo a ele aqui em Belo Horizonte/MG e acredito que todas as pessoas que participaram, fizeram de coração esta homenagem”.

Eduardo Lira – (Guitarrista do Katharsiis) “André Coelho Matos, foi um artista chave por todo o sucesso brasileiro do metal no segmento. Uma pessoa que com sua perseverança enxergou uma  chance de desbravar territórios nunca antes imaginado pelos admiradores da música pesada. Primeiro com Viper e em seguida com o Angra, os passeios deste herói em rádios nacionais e a impenetrável TV aberta brasileira, fez florescer uma esperança de que o metal no Brasil pode sim ter giro, o que arrastou uma multidão de novos camisas pretas a trilharem o mesmo caminho. Além de ser orgulho dos administradores no Brasil e no exterior, gostando ou não do que AM produzia. Afinal, era o Brasil escrevendo sua história com categoria na biografia metal do mundo. Todo esse alto padrão brasileiro estourava em admiração em todo planeta, mostrando que no Brasil também se formavam ídolos na boa música”.

Marcelo Campos – (Baterista da banda Salário Mínimo) – "O legado de André Matos vai muito além de sua obra como um dos maiores cantores e compositores da história do Heavy Metal mundial. Ele elevou o nível da música pesada brasileira e ajudou a criar e estabelecer um novo padrão de profissionalismo para todo um mercado”.

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