Al Di Meola - Genialidade, Coração e Classe! - Teatro Bradesco/RJ - 1/8/2018

Flamenco, Rock, Tango, Bolero, Música Oriental, Jazz, Fusion etc. Pegue tudo isso e misture num imenso caldeirão.Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_Obrigatório . Em um show de cordas e acordes, vôos solos reais e solados esvoaçantes imaginários, batidas e ritmos, sons muito ou pouco sutis e pausas quase barulhentas, Al di Meola, 64 anos, revisita parte de sua longa carreira, entremeando com faixas de seu mais recente CD, numa espécie de celebração do aprendizado infinito que a maestria busca sem cessar e ensina, apesar de alguns ainda duvidarem, com  sentimento. Sofisticação para poucos ao alcance de todos!

Al Di Meola - Genialidade, Coração e Classe!
Teatro Bradesco (RJ) 01/08/2018
TEXTO: Rick Olivieri – FOTOS: Michael Meneses!

Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_Obrigatório

Noite de terça-feira fria e chuvosa na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Findas inúmeras baldeações de trem e ônibus, atravessamos a então úmida e movimentada Avenida das Américas, driblando os carros e motos até alcançar a calçada do imponente Village Mall.

Após percorrermos os luxuosos corredores da galeria, passando por Porsches, Lamborghinis, Ferraris, Cadillacs e outras máquinas estilosas, chegamos ao aconchegante hall de entrada do Teatro Bradesco (espaço que completa cinco anos), que daria acesso para o espetáculo.

Ali, ao observar o público presente, um transeunte desavisado que passasse pela porta e olhasse rapidamente, poderia ter a nítida impressão de que estávamos aguardando por um concerto de música erudita com orquestra ou algo do tipo. Mesmo que nem houvesse muita gente de terno e gravata, e reconhecêssemos diversos músicos (pertencentes ou não a bandas de rock - progressivo inclusive), era quase formal o clima naquele momento. Como se o conteúdo musical preparado fosse voltado para uma espécie de elite. Sensação imediatamente quebrada ao avistarmos um conhecido e "popular" youtuber circulando pro ali. E, de fato, a experiência que a música Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_Obrigatórionos traz é, quase sempre, universal e sem fronteiras. Não importa a classe ou o nível de entendimento, a arte se mostra acessível quando vai de encontro ao coração, independente da forma que alcance o intelecto.

Mas deixemos de divagações e vamos ao show! Todos da plateia já devidamente acomodados em seus lugares e na expectativa de se deleitar com o cardápio que Al di Meola (nascido Al Laurence Dimeola, em 1954 nos EUA) e os músicos que o acompanhariam estavam por servir. Mesmo que não tivesse sido alcançada a lotação máxima para o teatro, ainda assim, havia um bom público para prestigiar ao veterano e premiado artista.

Sentado ao centro, com um painel de fotos de trabalhos anteriores seus, Al cumprimentou os presentes e apresentou os dois músicos que o ajudariam na execução do repertório (voltado para a divulgação do trabalho recém-lançado, Opus, assim como contando com trabalhos mais antigos): ao piano, Kemuel Roig e no acordeon, Fausto Beccalossi.

Como abertura, tivemos a bela “Azzura”, começando de forma bastante suave e delicada e se intensificando gradativamente, a ponto de conseguirmos imaginar uma dançarina espanhola usando um vestido vermelho e bailando de modo, ao mesmo tempo sensual e dramático. Ao término desta, o nosso anfitrião sorriu juntamente com os aplausos. A próxima, “Milonga Noctiva” (faixa do Opus) tem um formato de construção estética quase similar à primeira, retomando a magia onírica do princípio e culminando em movimentos mais fortes e rápidos, porém, voltando à tranquilidade do começo.

Após um breve tema que lembra a cadência quente de uma rápida chuva de verão, di Meola deixa o palco por alguns minutos, para dar espaço para o solo de piano, com acompanhamento do acordeon, no meio e retorna ao final para mostrar  um "pouco" de seu conhecido virtuosismo ao violão, com a esplêndida “Mawazine”.Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_Obrigatório

Aliás, importante salientar - e cabe um parênteses, neste ponto - algo que se tornou recorrente ao longo dos últimos anos. O músico virtuoso, dentre todos os artistas, talvez seja a figura mais injustiçada. Jamais ouvi alguém condenar Da Vinci ou Michelangelo por serem indivíduos que faziam tudo o que queriam com seus pincéis e telas. Grandes desenhistas, cineastas, escritores etc são considerados gênios no seu ofício e suas obras cultuadas, mas, por algum motivo que a razão desconhece, aqueles que têm um  instrumento musical como meio de expressão costumam ser mal vistos por uma parte do público quando chegam ao auge da performance e da técnica. Vide os "Malmsteens" e "Vais" da vida...

Al di Meola, que ao longo de uma prolífica carreira já tocou com gente do quilate de Jean Luc Ponty, Stanley Jordan, Chick Corea, Stanley Clarke e tantos outros, não constitui exceção e já foi taxado por diversas vezes de músico virtuoso, mas sem alma ou coração (o chamado "feeling"). No seu caso específico, talvez isso se dê por que a música que ele produz, em certos aspectos, foge do caráter meramente popular e de fácil assimilação e se embrenha por caminhos bem sofisticados.

Mas é um erro pensar que apenas um músico é capaz de apreciar sua forma de compor e tocar. Onde alguém ouve escalas e arpejos velozes, quiálteras, síncopes, sextinas e acordes intrincados, outro, de ouvidos e olhos da mente mais abertos, consegue "enxergar" verdadeiras paisagens sonoras.

Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_ObrigatórioAssim acontece com “Frozen in Time”, que  inicia com sons de piano que lembram cristais de gelo caindo numa caverna que, aos poucos, vão derretendo. Mesmo sem ingerir uma gota sequer de álcool ou qualquer outra substância de efeitos psicotrópicos, pude visualizar a saída daquele ambiente para uma bela paisagem lá fora. Claro, a experiência de cada ouvinte é pessoal e intransferível. Porém, gostaria de salientar, uma vez mais, que quando se fala em falta de "feeling" a pessoa pode estar falando muito mais a respeito de si mesma do que daquele que se tornou objeto de sua crítica.

E para comprovar que seus detratores podem estar redondamente enganados em seus ataques, ou ele não teria se tornado o artista mais aclamado no seu nicho, o músico anunciou, em seguida, “Ava's Dream Sequence Lullaby” (também do Opus e uma das mais belas do novo álbum). Esta foi composta inspirada em sua filha e transmite, magistralmente, a noção de alegria, afeto e ternura.

Com “Double Concerto”, de Astor Piazzolla e “Because”, dos Beatles, Sir Laurence mostrou que domina bem também a arte da interpretação e releitura de obras consagradas.

Depois de podermos conferir ao vivo mais uma faixa do Opus, chamada “Broken Heart”, tivemos ainda “Café 1930” (também de Al_di_Meola_Teatro_Bradesco_RJ_FOTO_Michael_Meneses_1082018_Credito_ObrigatórioPiazzolla), “Stephanie's Theme” e, fechando essa parte, “Cerreto Sannita”, onde Al falou um pouco da história das raízes de sua família e, mais particularmente, do avô.

Chegada a hora do bis, somos agraciados com uma versão acústica de “She's Leaving Home” (Beatles) e uma das mais tradicionais tocadas ao longo dos anos: a excelente “Mediterranean Sundance” (que todos devem conhecer graças ao álbum lançado com os grandes Paco de Lucia e John McLaughlin).

E assim, com os três músicos sendo aplaudidos de pé, presenciamos ao mais que satisfatório encerramento de mais uma noite memorável, gratos pela oportunidade de confirmar que a boa música jamais irá deixar de ser feita e relembrada, enquanto houver uma boa comunicação e espíritos dedicados a perpetuar o melhor da arte, seja ela simples ou repleta de nuances e tramas. - Rick Olivieri.

Portal Rock Press