A Arte Imita a Vida: Surpresa, Choque e Dor

Rock Press – Arte! Aqui será o espaço destinado ao dialogo no mundo das artes-plásticas. Navegaremos em uma viagem que vai do grafite à fotografia, das tatuagens às vídeos projeções, das pinturas rupestres a arte contemporânea... Tudo o que nos dê pauta para pintar o sete, será nosso motivo para molhar o pincel!  
Por falar em arte contemporânea, a primeira pincelada é sobre a recente polêmica censura das obras de arte nos espaços culturais brasileiros!  Para falar sobre o tema, convidamos o professor universitário, jornalista e artista plástico, Robson Granado, que deu exemplos de como a arte sofreu perseguição ao longo dos séculos, obras que hoje são contempladas e estudadas em escolas do mundo todo já chocaram em algum momento da história, será que o que muitos censuram hoje será objeto de estudos no futuro?! 


A Arte Imita a Vida: Surpresa, choque e dor
Robson Granado – 14/10/2017

A vida real surpreende, choca, provoca dor incessante. Exemplos há muitos. Um médico pediatra, já avançado em idade, próximo da aposentadoria, trabalhava em um hospital público no Rio de Janeiro. Sempre entrava no hospital vestindo terno, que ocultava sob um jaleco branco enquanto trabalhava. Impecável em seu comportamento, fazia jus à tradição familiar de militares de alta patente. Nunca se casara. Um dia, para a surpresa dos colegas, chegou ao trabalho vestido em seu terno habitual, mas adornado com lindos colares, brincos, anéis, coberto de maquiagem, um escândalo. Foi aposentado. Em manifestações políticas recentes no Brasil, um grupo de defensores da volta do regime militar desfilava com uma faixa na qual se lia que eles lutavam pelo direito de não ter direito algum. Esta é uma muito idiota luta por não-O Juízo Final. Michelangelodireitos. E para ilustrar a dor na vida real, basta citar o ataque por um indivíduo contra uma creche em uma cidade de Minas Gerais do qual resultou a morte de mais de dez crianças por queimadura. O criminoso jogou combustível e ateou fogo nas crianças.

Dizem que a arte imita a vida. Nunca ouvi dizer que a vida imita a arte. Tal como a vida real, a arte surpreende, choca e talvez até provoque dor.

O Divino Michelangelo, é assim que o nome dele é citado em uma praça em Roma, pintou o afresco “O juízo final”, na capela Sistina, Vaticano. Na pintura, Michelangelo incluiu mais de 300 figuras. Originalmente, quase todas as figuras masculinas e os anjos estavam nus. Pouco antes do final da execução da obra, o Papa visitou a capela, acompanhado de seu mestre de cerimônias. O assessor do Papa dissera “Foi muito infeliz que em um lugar tão sagrado tenham sido representadas todas essas figuras nuas, se expondo tão desavergonhadamente”, acrescentando que “essa não era uma obra para uma capela papal, sendo antes adequada aos banhos públicos e tavernas”. O Mestre de Cerimônias foi em seguida representado no afresco como um dos juízes do mundo subterrâneo, com orelhas de asno.

Le déjeuner sur l'herbe Édouard ManetO pintor impressionista Edouard Manet pintou uma cena de um piquenique no bosque com dois rapazes e duas moças. Seria uma ocasião inocente, só que contrastando com os rapazes vestidos com suas casacas e empunhando bengalas, as moças estão uma completamente nua e a outra se banhando em um lago em suas roupas íntimas. O quadro gerou forte reação no meio cultural francês. Todos na cena pareciam bastante contemporâneos, sugerindo prostituição. Isto tornou a obra inaceitável para exposição ao público.

Gustave Courbet, em 1866, pintou a tela “A origem do mundo”. A pintura apresenta em primeiríssimo plano a genitália feminina comA Origem do Mundo. Gustave Courbet toda a sua vasta pelagem através da qual se veem entreabertos os grandes lábios ligeiramente umedecidos. O quadro escandaloso em sua época foi adquirido no século seguinte  (1955) pelo psicanalista Jacques Lacan.

Muitos outros exemplos de obras que provocaram escândalo em suas épocas podem ser citados. Ninguém, no entanto, efetivamente mudou radicalmente seus valores e comportamentos por causa delas. As reações falam mais dos valores de sua época, expõem muito mais as contradições e até a hipocrisia reinante.


Sem entrar no mérito das polêmicas exposições no Brasil atual, a mostra Queermuseu, em Porto Alegre, e a exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo onde um homem nu faz parte da mostra, temos que destacar que as reações individuais ou de grupos, especialmente pelas redes sociais, devem ser entendidas em boa dose como efeito de um momento de exacerbação de posturas políticas e morais reacionárias. Neste momento, intensifica-se muito o desejo de rígido controle social em uma sociedade em boa dose hipócrita e flertando perigosamente com o fascismo. - Robson Granado*

Figura 1. Michelangelo. O Juízo Final. Afresco, 1536-1541, Capela Sistina, Vaticano.
Imagem disponível em
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/18/Last_Judgement_%28Michelangelo%29.jpg 
Figura 2. Édouard Manet. Le déjeuner sur l'herbe. Óleo sobre tela, 1862-63, Museu D´Orsay, Paris.
Imagem disponível em
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/fc/%C3%89douard_Manet_-_Le_D%C3%A9jeuner_sur_l%27herbe.jpg 
Figura 3. Gustave Courbet. A Origem do Mundo. Óleo sobre tela, 1866, Museu D´Orsay, Paris.
Imagem disponível em
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3f/Origin-of-the-World.jpg 

* Robson Granado é jornalista, artista plástico e professor universitário

Postado por Michael Meneses terça-feira, 17 de outubro de 2017 17:43:00 Categories: Projeções