1, 2, 3, 4... Com Pedro de Luna

"CoLUNAs" é o sexto livro de Pedro de Luna, um dos "Homens Cena Rock" de Niterói/RJ

1, 2, 3, 4... Aqui entrevistamos personalidades de forma rápida como o Punk Rock dos Ramones e de forma Primorosa como o Progressivo do Yes, serão sempre cinco perguntas para quem lutam pela Arte, Cultura, Literatura e Rock and Roll!

Dando o ponta pé inicial a Sessão 1, 2, 3, 4... Conversamos com Pedro de Luna é um guerreiro da cena Rock em Niterói e região e por que não do Rio de Janeiro e do Brasil. Pedro de Luna acaba de lançar seu novo livro. Intitulado "CoLUNAs" (Veja Resenha do livro aqui no PORTAL ROCK PRESS). 

Confira: 1, 2, 3, 4... com Pedro de Luna
Por Michael Meneses

1 - Você é um profundo pesquisador da Cena Cultural de Niterói e região. Qual sua motivação para essas pesquisas?
Pedro de Luna -
As motivações são várias, começando pela preservação e difusão da nossa memória. Tente procurar algum material do período anterior a popularização da internet. Você não acha. E mesmo com a web difundida, quando plataformas, sites e blogs saem do ar, esse conteúdo desaparece. Então, primeiramente, o objetivo número um dos meus livros é, sobretudo, registrar, contribuindo para uma bibliografia ainda muito rala aqui no Brasil, das cenas culturais. Em segundo lugar, ao olhar para trás, gerar uma reflexão. Existe uma tendência a desprezar o passado e os mais velhos, mas acho que aprender com erros e acertos é uma das formas de se fazer melhor daqui para frente.

2 - Com o lançamento do livro "CoLUNAs", o que podemos somar ao seu livro "Niterói Rock Pedro de Luna Livro Niterói Rock UndergroundUnderground (1990-2010)"?
Pedro de Luna -
Os recortes são sempre diferentes. Na época do meu primeiro livro, Niterói Rock Underground (1990-2010) eu pensava de uma maneira, ainda sonhava com a união e o apoio institucional, sobretudo dos governos locais, achava que o Arariboia Rock poderia ser um caminho para a tal política pública no Leste Fluminense. Hoje, passados cinco livros e seis anos, mudei a minha forma de pensar. No livro coLUNAs não tive a preocupação de documentar mês a mês o período de 1990 a 2010 em Niterói. Nem de mostrar o quanto os governos te enrolam, que, quando ajudam, dão apenas as migalhas. O que rola é o corporativismo, e criticar os que estão aí desde sempre seria como chutar cachorro morto. Não espero mais nada desses mecanismos e destas instituições. O foco do livro novo foi basicamente registrar e comparar as mudanças de uma década para outra, que foram absurdas. Saímos, por exemplo, do VHS, da fita k7, da carta, do telefone fixo e da foto em película para um momento completamente diferente, com celular, CD-R, máquina digital, o mp3 e a profusão de páginas pessoais na internet. De 1998 para 2008 foi um salto inacreditável, mudaram os paradigmas e as relações interpessoais. Abordo um pouco de cada aspecto e creio que o livro trará lembranças sim, mas também reflexões.

3 - "CoLUNAs" é o seu sexto livro, fale um pouco sobre os outros cinco livros?
Pedro de Luna -
Desde que comecei a me aventurar nos livros, a diretriz era priorizar assuntos ou pessoas que tivessem relevância - que inclusive não são reconhecidas como deveriam - e mantendo uma coerência entre os meus títulos. Então, comecei em 2011 com o já citado “Niterói Rock Underground” (independente), depois lancei o infantil “Acampando com os Animais” (com minha filha mais velha), e, em 2015, a biografia do quadrinista Marcatti – pra mim um símbolo do faça-você-mesmo nas HQs – que saiu pela editora Marsupial. Em seguida fiz o “Brodagens”, que conta a história do rock e do rap no Rio a partir do final dos anos 80, e, em abril deste ano, lancei a biografia do Chico Alencar, que está em seu quarto mandato consecutivo como deputado federal e é, antes de tudo, um pensador e um notável escritor, com 34 livros publicados. Escrever, publicar e comercializar por conta própria tem sido uma experiência incrível, por que vejo muitas semelhanças entre a cadeia produtiva do mercado editorial com o fonográfico. Meus livros não vendem em livrarias que pedem 50% do valor de capa. Prefiro organizar eventos presenciais e vender diretamente ao leitor. Dá mais trabalho, mas esse contato é muito enriquecedor. Com o livro do Chico, fizemos cinco lançamentos em um mês: Niterói, Rio, São Paulo e dois em Brasília. Foi incrível. A IPedro de Luna e a biografia do Marcatti FOTO Tatiana Garridolustre Editora tem esse nome por isso: ela trata de pessoas ilustres, mesmo que ilustres para mim. Seguindo a essência do faça-você-mesmo.

4 - O livro foi publicado pela sua própria editora. Apresente-a e fale dos seus próximos projetos!?
Pedro de Luna -
Estou fazendo um livro para novembro que é a biografia do pintor angolano Filipe Salvador, falecido em 2006. Ele foi um dos primeiros refugiados da Guerra de Angola, fugiu para o Brasil em 1989 e viveu uma vida intensa por aqui. Para se ter uma ideia, logo que ele chegou, Filipe foi trabalhar de caseiro na casa do Gringo Cardia, em Santa Teresa, e conviveu com a Marisa Orth quando ela também chegava ao Rio para fazer a sua primeira novela. O Filipe pintou a capa e contracapa do CD da banda Vexame, da Marisa, do Abujamra e outras seis pessoas. E daí seguiram-se histórias incríveis. É um tema bacana e atual, dos refugiados de guerra, porém muito sofrido também. O fascinante é ver como as coisas estão ligadas. Essa casa do Gringo Cardia foi, depois, o estúdio Totem, por onde passaram Planet Hemp, Squaws, O Rappa, Chico Science e toda essa turma está no livro Brodagens. Por que ninguém está sozinho no mundo, estamos todos interligados. Existem outros projetos rolando na Ilustre Editora, mas cada livro é um livro. Não existe padrão, nem fórmula. Em alguns podemos fazer uma pré-venda, em outros um crowdfunding. A única certeza é a mesma de quando eu empresariava bandas e organizava shows. Se o artista ou autor não se envolve, o projeto não acontece. Não dá para ser apenas a estrela, tem que ser também o peão, colocar a mão na massa. E quando a gente pensa na juventude, você acha que a maioria prefere ler o livro ou ver o filme? (risos) Somos uma sociedade imersa no audiovisual. Veja quantos vídeos você recebe por dia pelo Whatsapp.

5 – Finalizando, durante os anos 90, por meio de zines, colunas e afins, você desenvolveu uma pesquisa em prol da cena. Hoje, aquele trabalho que para muitos era visto como uma "brincadeira" se transforma em livros que vão se perpétuar na história. Provavelmente nos dias atuais, algum editor de blog e/ou rede social vai transformar o que faz em livros (quem sabe até em alguma ainda desconhecida mídia futura). Qual conselho você daria a esses comunicadores?
Pedro de Luna -
Tomara mesmo que isso aconteça, amigo Michael. Infelizmente, muita gente se livra dos acervos, começa a ver fitas, zines e recortes de jornal como tralhas. Se tivéssemos mais hemerotecas e locais bacanas para doação, acho que nossa memória estaria melhor preservada. Mas é um processo, inclusive de valorização da cultura brasileira. Neste sábado (8/7/17) a Folha publicou que a exposição sobre o Nirvana custou R$ 4,9 milhões bancadas pela Samsung pela Lei Rouanet. Os meus livros nunca tiveram um tostão de dinheiro público. Nem o de amigos meus, mesmo os que fizeram documentários e curtas. Não tenho a esperança de ser contemplado em editais ou concursos, por que vivemos a sociedade do “quem indica”, da intelligentsia, de uma meia dúzia dizendo o que é a moda ou o que tem valor. Ou seja, vou continuar fazendo livros sobre o que acredito, mesmo que seja para ser lido por um grupo menor de pessoas. Para mim, os meus leitores são os mais importantes do mundo. Se outros colecionadores ou jornalistas transformarem seus acervos em livros, acharei legal e comprarei. Mas deixo um alerta: não crie expectativa. Mesmo aqueles citados no texto ou que estejam nas fotos, poderão curtir e deixar um coração na rede social, mas não vão comprar. Por que o mundo capitalista moderno é assim: um monte de gente ingrata, vaidosa e mal-agradecida, e alguns poucos que veem valor na literatura. Tenho certeza que muita gente vai vestir a carapuça ao ler isso. Mas a real é que escrevemos para esses poucos que valorizam o nosso trabalho. Por isso mesmo, eu faço livros quase sob demanda. Faço 100, 200 exemplares. Se vender, faço mais 20, 50, e assim vamos. Tem que ser realista, ter o pé no chão. Entre comprar um hambúrguer e uma cerveja ou um livro, muita gente opta pela primeira opção. Quando lancei o meu primeiro livro, fiquei quatro anos realizando eventos e viajando para conseguir vender 1.000 exemplares. Lancei até na Argentina, no Uruguai, em Portugal e na Espanha. Viajei por quase todo o Brasil. Hoje, não tenho mais tanta disponibilidade, mas o amor pelos livros aumenta a cada dia.
Texto Por: Michael Meneses - michaelmeneses@portalrockpress.com.br
Fotos: Divulgação e Arquivo Pessoal

Postado por Leandro Cavalheiro terça-feira, 11 de julho de 2017 16:52:00 Categories: Fanzines Independente Livro Niterói Rock Underground
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