“Os Bons Morrem Cedo” - RIP João Carpalhau

O Céu recebeu no último dia 27 de Julho, João Carpalhau, um dos criadores da Capa Comics uma iniciativa que nos últimos anosJoão_Carpalhau_DESTAQUE_Capa_Comics_Por_Carlos_Lopes vem promovendo de forma magnifica a cultura dos Quadrinhos pelo Subúrbio do Rio, sobretudo em Caxias/RJ. Rock Press convidou o poeta Gutemberg F. Loki “Tubarão” para narrar um pouco da luta de Carpalhau. Convidamos também o cartunista Ota, o musico Carlos Lopes e de personalidades da cena independente em Duque de Caxias (Cidade de Carpalhau) como o produtor Luciano Félix e Bruno Hendy,  que deram depoimentos homenagem ao artista!

“Os Bons Morrem Cedo” - RIP João Carpalhau 
TEXTO & POEMA: Gutemberg F. Loki “Tubarão” 
DEPOIMENTOS: Ota + Carlos Lopes + Luciano Félix + Bruno Hendy
ILUSTRAÇÃO: Carlos Lopes
FOTOS: Acervo Pessoal Gutemberg F. Loki “Tubarão”.

Todos os dias quando acordamos, muitas vezes não pensamos no que nos espera. Algumas coisas sabemos, pois estão devidamente marcadas e torcemos para que tudo dê certo. Outras coisas, porém, surgem inesperadamente, nos jogam para o alto e nos deixam desnorteados. Quando essas coisas inesperadas são coisas boas, não há como ser dominado de uma gigantesca felicidade! Entretanto, quando essas coisas não são boas são como se o próprio chão se abrisse sobre os nossos pés e nos engolisse rumo a mais completa escuridão. Perdemos o rumo, os sentidos, todos os pensamentos caem em interrogação. É assim que me sinto. Ao receber na última sexta-feira, 27 de Julho de 2018 o telefonema de uma amiga que há muito não nos falávamos, pois vivemos ocupados. O tom de sua voz e as perguntas que fez, já denunciavam que algo ruim estava por vim. Não houve como escapar da triste realidade, meu bom e querido amigo, João Paulo, mais conhecido como João Carpalhau, havia falecido na noite anterior! A minha voz engasga e o estômago embrulha, como assim? Ele havia comemorado o aniversário dois dias antes, como assim... Morreu?

Não queríamos acreditar, mas pelo o que circulava no Facebook, não era nenhuma pegadinha. Era uma notícia verdadeira e infinitamente triste. Morreu João Carpalhau, cartunista e amigo de muita gente, principalmente aqui na Baixada Fluminense. É incrível como a cabeça fica ao receber um choque desses, você parece flutuar em um limbo de tristeza e silêncio. É como se o mundo caísse de suas mãos e você tivesse que catar os milhares de pedacinhos sem saber nem mesmo, por onde começar?

Territorio_Baixada_FOTO_Acervo_TubarãoAos poucos as informações tentam nos conectar novamente, ao que tudo indicava, o vilão dessa história foi um tal de Infarto Fulminante, que acabou derrubando o nosso herói. E João Carpalhau foi sem dúvida, um grande herói em sua trajetória. Ele foi um dos principais responsáveis pela criação da Gibiteca Cartunista Adail José de Paula e antes disso, foi um dos criadores da revista Capa Comics, que trazia à tona desde 2013, o trabalho de artistas ligados ao mundo das Histórias em Quadrinhos, na Baixada Fluminense. Com este trabalho, levava aos mais diversos públicos e lugares, não só Quadrinhos, mas alegria, esperança e incentivos a quem quisesse escrever e desenhar. Dava oficinas, participava de muitos eventos e de Territorio_Baixada_FOTO_Acervo_Tubarãodebates, como o Território Baixada que participei com ele (Fotos), em junho de 2014, que aconteceu no SESI-Caxias, alguns anos atrás, onde também estive entre os entrevistados.

Era sempre um prazer encontrar João Carpalhau, estava sempre com um sorriso no rosto e alegria nos olhos. Lembro que estudei com a mãe dele, na sétima ou oitava série, e anos depois o conheci, sempre brincalhão. Tentamos montar uma banda, mas não deu certo. Lembro que ele participou de uma banda e que cheguei a ver um show bem legal, a banda se chamava 100 Faces. Ficamos um tempo nos esbarrando em alguns shows e o tempo passou. Certa vez, estava indo para um evento de Poesia, no Leme na Zona Sul Carioca o encontrei no metrô! Na ocasião, João Paulo (ainda não se definia como Carpalhau) estava à caminho de uma manifestação de humoristas que acontecia na praia. Conversamos e surgiu a ideia de fazer um trabalho juntos, disso veio o grupo Os Camaradas, que gravava vídeos com intervenções humorísticas, fosse num sarau de Poesias do grupo Ratos Di Versos, na Lapa/RJ, ou na horripilante e divertida Zumbi Walk, pela orla de Copacabana. Nessa vibe dos Camaradas, fizemos outros vídeos, mas o que mais gosto é o que brincamos com o horário político obrigatório o “Candidato Eleitoral Gratuito”!

Por motivos profissionais, o tempo nos afastou, mas a amizade sempre permaneceu intacta e presente! Fiquei super feliz com a criação da Capa Comics, que além de revista e um site onde se encontrar o trabalho de talentosos artistas. Prestigiei a conquista dele ao criar em Duque de Caxias/RJ uma Gibiteca que funciona dentro das acomodações da Biblioteca Municipal Leonel de Moura Brizola. João Carpalhau vivia cheio de projetos e alegrias, imagino quanta felicidade e esperança levou as pessoas, principalmente às crianças de escolas municipais do Rio com a arte das Histórias em Quadrinhos que a Capa Comics tão nobremente sempre promoveu!

Estou triste pela notícia, mas digitar essas palavras, lembranças e compartilhar essa emoção com vocês, me faz sentir o irradiar de uma luz confortante! Em homenagem ao meu amigo João Carpalhau, escutei o disco “Há dez mil anos atrás”, de Raul Seixas, que começa com o tango “Canto para minha morte” e nele também há “O Homem”, com seus tocantes versos. Em seguida, escutei os versos da Legião Urbana que dizem mais ou menos assim: “É tão estranho, os bons morrem cedo...” Um grande abraço e uma boa viagem, meu bom amigo João Carpalhau! - Gutemberg F. Loki “Tubarão”.

"PARTIDA & GLÓRIA" - Para o eterno Camarada João Carpalhau – Por Gutemberg F. Loki “Tubarão”
Um vazio
Muitas lágrimas
Uma certeza
Grande falta

Um vazio
Sem palavras
Uma tristeza
Grande falta

Um enorme
Desmoronamento
E todo o nosso
Sentimento

Dói por fora
Dói por dentro
Um grande golpe
Lá no centro

Fica a lembrança
Fica a História
Sua vida
Sua glória!
Gutemberg F. Loki “Tubarão” – 28/7/2018.

Depoimentos: 
Otá (Cartunista)
- Morrer todo mundo morre um dia, mas alguns vão embora cedo demais. Fiquei em estado de choque quando soube da morte do querido João Carpalhau. O primeiro pensamento foi que ele poderia ter morrido de bala perdida ou algo assim, afinal quem mora no RJ tem sempre esse medo. Depois vi que foi infarto, algo mais raro de acontecer na idade dele (38 anos). Dois dias antes tive uma conversa ótima no Messenger com ele, estava cheio de planos. Tinha acabado de fazer aniversário. Conheci o Carpalhau em 2010 e de lá pra cá desenvolvemos uma amizade que foi se aprofundando nos últimos anos. Carpalhau brincava, dizendo que era meu filho com a Elke Maravilha (alguns acreditavam), mas na verdade estava para mim mais como um pai que como um filho. Desde que virei um autor independente foi um dos que mais me ajudaram, me enfiando em todos os eventos que organizava. O último foi na LER, poucos meses atrás, quando nosso grupo ganhou um espaço para vender quadrinhos alternativos. Sim, Carpalhau era o maior agitador cultural do mundo dos quadrinhos independentes. Foi um dos criadores do selo independente Capa Comics. Fez várias Gibizeiras, um evento rotativo na Baixada e adjacências. Fazia questão de me pagar cachê quando era possível. Sempre me tratou com dignidade.

Voltando à causa mortis. Quem morre do coração é abençoado, pois é a morte menos sofrida de todas, uma pontada só e puf, não fica meses definhando numa cama ou tem uma morte dolorosa. Em compensação é um baque pros que ficam. A viúva, filho e mãe estão inconsoláveis, bem como seus amigos. Inimigos? Acho que ele não tinha, mas caso tivesse esses também devem estar chocados. Do ponto de vista espiritual, a pessoa parte quando cumpriu sua missão neste mundo. O que me intriga, porque pra mim parecia que a dele estava longe de terminar. Fazer o quê, não entendemos os desígnios do destino.

Enfim, só tenho a agradecer pela ajuda e solidariedade que me prestou o tempo todo João querido, descanse em paz ou continue agitando no Céu, que é pra onde com certeza ele foi. Carpalhau é desses que entra no céu direto, sem passar pelo setor de triagem. - Ota.

Carlos Lopes (músico, desenhista e escritor) - João passou um ano me caitituando para quadrinizar Alea Jacta Est, o álbum da Dorsal Atlântica sobre o Cristo Negro, para lançá-lo pela Capa Comics, o que seria uma honra. Um projeto inconcluído, infelizmente... Uma semana antes de desencarnar, João retornou ao assunto e me filosofou: "Tu criou o evangelho segundo a Dorsal. Jesus voltava 3 dias depois pela mídia e Marielle Franco era aquele Jesus!" - Carlos Lopes.

Bruno Hendy (Loja Toca do Vinil – Duque de Caxias/RJ) - João Carpalhau, mais um ícone da cidade que se vai. Agitador cultural, sempre com um projeto novo nessa cidade que respira cultura e música. Não tive muito contato com ele, mas era um dos nossos... R.I.P. – Bruno Hendy.

Luciano Félix (Produtor) - Conheci João Carpalhau ainda adolescente num sebo de gibis em Caxias/RJ. Ele era aquele típico garoto que falava muito e sonhava em criar suas histórias em quadrinhos. Passamos vários domingos no terraço da sua casa ouvindo discos e lendo gibis. Infelizmente nos deixou, porém, fazendo o que sempre sonhou. Deixando-nos a lição de que não podemos abandonar os nossos sonhos, ainda que, aparentemente, inalcançáveis... Uma pessoa simples e determinada, era assim o nosso Super-Herói Caxiense: Carpalhau. - Luciano Félix.

Michael Meneses (Criador do Selo Cultural Parayba Records e Editor Rock Press)Não tive a honra de conhecer pessoalmente o João Carpalhau, meu contato com ele foi infelizmente virtual e unicamente profissional em janeiro de 2017, quando a Parayba Records estudou a possibilidade vender as publicações da Capa Comics. Conheci o trabalho da Capa Comics na Loja Toca do Vinil em Duque de Caxias no final de 2013, era a primeira edição da revista que comprei com gosto. Descobri uma publicação que representava o sonho de produzir arte independente com o diferencial de promover e dar vida a cultura na Baixada Fluminense. Namastê. – Michael Meneses!

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