ZÉ RICARDO - “Favela não é só Funk, favela é Funk, Samba, Hip-Hop, Rock, MPB, Clássico, Arte, Dança e é Heavy Metal também!”

Entrevista com Zé Ricardo Curador do Espaço Favela do Rock in Rio!

Entre as novidades da edição 2019 do Rock in Rio, um palco vale o ESPAÇO_FAVELA_VISTA_PUBLICO_ROCK_IN_RIOsonho para as muitas bandas do underground que sempre almejaram tocar no Festival. Trata-se do Espaço Favela, que em sua estreia tem entre suas atrações nomes como Agona, BK-81, Canto Cego, Setor Bronx. Bandas que roeram o osso no underground carioca e agora estão no cast do maior festival de música do mundo! A Coluna 1, 2, 3, 4... conversou com seu curador, o músico Zé Ricardo que já faz um belo trabalho no Palco Sunset e agora leva sua experiência Espaço Favela.

ROCK IN RIO 2019 - “Favela não é só Funk, favela é Funk, Samba, Hip-Hop, Rock, MPB, Clássico, Arte, Dança e é Heavy Metal também!” 
Entrevista com Zé Ricardo Curador do Espaço Favela do Rock in Rio!
ENTREVISTA: Michael Meneses – FOTOS e ILUSTRAÇÕES: Divulgação

Espaço “De Sonhar...” 
Canto_Cego_Rock_in_Rio_2019Não é novidade, centenas de bandas espalhadas nas periferias e guetos do Brasil sonham com uma chance em grandes eventos e uma melhor visibilidade na mídia. Sair da garagem e conquistar um merecido e justo espaço, levando suas ideias a um público maior e fazer ecoar o grito de suas comunidades, ruas, vielas e esquinas! Por isso, o “De Sonhar” usado neste subtítulo e inspirado em um trecho da música tema do Rock in Rio, representa bem a luta dessas bandas afinal: “Que a vida começasse agora /E o mundo fosse nosso outra vez /E a gente não parasse mais de cantar / De sonhar...”, que nesse contexto representa o desejo de cada um desses artistas que construíram suas histórias em palcos como o Tomarock, Roquealize-se, em saudosos espaços culturais como o 911 e o Tijolinho, nas Lonas Culturais, na CUFA, no Rato no Rio e em tantos outros palcos e que agora chegam com vontade ao Rock in Rio, “Todos numa direção” e na busca “Por um mundo Melhor”!

Aliás, essa vontade ganha força, com o fato de esses artistas serem fiéis às suas origens. Um envolvimento fundamental para que esses nomes estejam hoje entre as atrações do Rock in Rio, depois de tanto ralarem no underground do Rio de Janeiro, Baixada Fluminense eNós_do_Morro_Rock_in_Rio_2019 Grande-Rio. Essa gente sempre sonhou alto, mas nunca ignorou o fato que era um dever de cada um deles (e de nos também) cuidar, lutar e defender nossas raízes. Seja fazendo uso da arte, participando de coletivos, ONGs, cineclubes, debates e rodas de poesia... tudo na base do “Faça Você Mesmo” e sabemos que esses músicos sempre tiveram a iniciativa de fazer algo em prol das favelas que os abrigam!

O Espaço...
O Espaço terá aquela efervescência cultural tão rica nas favelas do Rio e do Brasil, mas que muitas vezes passam despercebidas aos nossos sentimentos. A programação completa desse palco, você confere ao final dessa entrevista. Porém, para conhecemos e apresentar melhor essa novidade do Rock in Rio, conversarmos com Zé Ricardo, seu curador e que também está à frente do sempre animado Palco Sunset. Zé Ricardo é músico e estava em estúdio minutos antes dessa entrevista, e até nós deu o toque: “Em novembro irei gravar três singles e sairei com eles até o inicio do ano que vem”. Antes disso, o foco é o Rock in Rio! Segue: 1, 2, 3, 4... com Zé Ricardo e o Espaço Favela.

1 – ROCK PRESS: Como surgiu a ideia do Espaço Favela, por que esse nome e como foi feito a seleção dos artistas?
ZÉ RICARDO – 
O Espaço Favela nasceu em um almoço que tive com o Roberto Medina, perguntei o que iríamos fazer de provocativa, e de repente o Roberto apareceu Zé_Ricardo_Rock_in_Riocom a ideia: “Por que não fazemos um Palco Favela?”, e a partir dali o projeto cresceu e virou Espaço Favela, porque além dos artistas que vão estar no palco, terá moda de favela, botequim de favela. Na verdade, ele não tem nada de assistencialista, paternalista e nem de projeto social, ele é uma busca pelo talento! Em relação à seleção, foi feito nas favelas cariocas uma curadoria artística, porque qualquer ponta onde a gente identifica que existe uma grande potência criativa você tem que ir buscar e entender o que está acontecendo e as favelas cariocas são um grande ponto de criatividade, não só de música, mas também de artes plásticas, teatro, dança... A ideia é buscar exatamente um pouco do que está acontecendo e borbulhando nas favelas do Rio. A favela é um lugar criativo muito forte, não só no Rio, mas em várias partes do Brasil, mas nessa primeira edição optamos por trabalhar só em favelas do Rio, para que possamos conhecer mais o projeto e ampliá-lo aos poucos, porque falar de favela é uma coisa importante e necessária nesse momento com muita propriedade. O Rio de Janeiro é cercado de favelas e a gente precisa falar dessa inclusão da favela na nossa vida. Então, essa busca pela curadoria foi com medidas às favelas cariocas. Eu fui a 13 favelas cariocas conversar com os pensadores de favela, diretores, músicos, artistas... Muitas pessoas iam nessas reuniões, cerca de 150 pessoas por reunião. Além de explicar o conceito, porque a primeira ideia parecia nas pessoas que era algo assistencialista e quando eles entenderam o conceito todos abraçaram e em todas as comunidades eu ouvi espontaneamente por mais de dez vezes: “Nos somos favelados, nos gostamos do Espaço porque o nome é Favela, e não comunidade!” Então, foi uma grande surpresa para eu saber que tínhamos acertado no nome também, porque as pessoas se sentem representadas. A ideia foi passar um recorte de curadoria onde a gente passasse a realidade da favela, que hoje tem oAgona_Rock_in_Rio_2019 estereotipo que a favela é só Funk, e favela não é só Funk, favela é tudo, favela é Funk, Samba, Hip-Hop, Rock, MPB, Clássico, Artes Plásticas, Dança... É Tudo! Então esse recorte de curadoria, apresenta a possibilidade em que as pessoas percebam como consequência que favela é Heavy Metal também, favela é Música Clássica, e isso está sendo muito rico para mim! Lembro que ao lançamos o Espaço Favela no ano passado, as pessoas falavam a mim “Vai ter um palco de Funk no Rock in Rio?” e respondia: “Vai não!” e elas respondiam: “Mas eu vi no Jornal Nacional, não tem lá o Espaço Favela?” Tem sim o Espaço Favela, mas não é só Funk, é Funk também! Acho que vamos conseguir ampliar o olhar sobre o que é favela no Rio de Janeiro, e no Brasil também através desses artistas super talentosos que estão na programação. Ainda sobre a seleção, pedia o material nas reuniões e recebemos mais de 700 projetos, ouvi também muitos dos meus consultores, tive dois consultores, um foi o Guti Fraga, criador do Nós do Morro, um cara que tenho uma admiração absurda e outro foi Pablo Ramos que faz todo o mapeamento artístico das favelas cariocas para TV Globo e eles foram fundamentais nessa aproximação que tive com esses pensadores das favelas e descobri quem são essas pessoas que estão fazendo aquele som, foi surpreendente, algo muito maravilhoso!

2 – ROCK PRESS: Você fez um excelente trabalho em outros palcos do Rock in Rio, em especial no Sunset. Como o Palco Sunset pode inspirar o Espaço Favela?
ZÉ RICARDO – São dois universos diferentes, apesar do Sunset desde o Rock in Rio 2011 sempre ter tido artistas de favela e nesse ano continuar tendo artistas de favela. Aliás, a primeira artista que estará no Palco Sunset é a Lellê que é uma mulher negra de favela, e isso tem uma representatividade muito grande para mim. Eu acho que o Sunset é de inspiração nesse modelo de diversidade, em tentar apresentar um recorte curatorial. Eu já fazia curadoria desde o Sunset até minhas pesquisas e descobertas que criaram meus fundamentos de curadoria, que é também uma proposta, uma provocação e tento fazer isso no Espaço Favela, de uma maneira diferente, pois não são encontros, mas em um palco com atrações que tenham uma profundidade no trabalho de cada um. Todos têm uma representação artística muito interessante. São palcos com curadorias diferentes, mas tento trazer a mesma ótica, o mesmo rigor e a mesma inspiração.

3 – ROCK PRESS: Uma das bandas do Espaço Favela é a Setor Bronx, um nome veterano do underground na Zona Oeste Carioca. A banda já esteve presente em um festival independente chamado Rato no Rio. Você já ouviu falar desse festival?SETOR_BRONX_Rock_in_Rio_2019
ZÉ RICARDO – Sim! Cara não conhecia esse festival, mas gosto muito de saber a trajetória artística, é assim com muitos dos artistas internacionais que eu gosto, quero entender qual é a trajetória, e eu percebi que o Setor Bronx tem uma trajetória muito interessante no Hip-Hop dentro das comunidades, uma voz muito grande, assim como o Dudu de Morro Agudo tem uma voz em sua comunidade. Quis ampliar essa voz e foi uma grande surpresa receber um trabalho maduro na proposta musical, como é o do Setor Bronx, e achei muito bacana.Dudu_de_Morro_Agudo_Rock_in_Rio_2019

4 – ROCK PRESS: Voltando ao Rock in Rio. Como será a participação do Sebrae, Viva Rio e da CUFA no Espaço Favela e no festival. Vai existir algum tipo de consultoria para bandas novas ou inscrições para futuros eventos?
ZÉ RICARDO – Não, o Sebrae e o Viva Rio estão com a parte de seleção dos buffets e dos chefs de favela que vão está no Rock in Rio fazendo a comida, eles estão ajudando também na parte da moda do Espaço Favela, na parte de música não, eles estão se envolvendo na parte de estruturação, moda, os botequins, as lojinhas que vão ter lá, tudo isso tem a participação deles com a produção do Rock in Rio.

5 – ROCK PRESS: Finalizando, o Rock Underground sempre sonhou um dia participar do Rock in Rio, e nos últimos anos o Festival vem dando uma melhor atenção a essa cena. Com a criação do Espaço Favela, as bandas de garagem agora têm seu lugar garantido no Festival? O que o público pode espera do Espaço Favela no Rock in Rio?
ZÉ RICARDO – Claro! O Espaço Favela vem para aumentar as possibilidades para artistas talentosos dentro do festival, muitas vezes a gente quer trazer mais artistas, BK_81_Rock_in_Rio_2019diversificar mais e muitas vezes não podemos porque não tem espaço. O Sunset não é mais para artistas novos, apesar de receber artistas novos, e hoje com o Espaço Favela a gente amplia muito mais essa possibilidade de entender que existe um universo muito maior de artistas produzindo e fazendo arte e que não estão no mainstream, e sim as bandas de rock vão ter esse espaço, essa é a nossa intenção, ampliar e dar mais esse espaço e fazer do Espaço Favela uma ação definitiva para o Rock in Rio assim como é o Sunset e o Palco Mundo! Quanto ao público, ele vai se emocionar muito porque a gente nunca fez um Rock in Rio tão engajado e profundo como estamos fazendo esse. Todo ano tentamos melhorar, mas, esse ano, demos um salto, não apenas no Espaço Favela, mas em todos os Palcos é um Rock in Rio de muitas opções de diversão e o público vai se surpreender com o Espaço Favela porque vai sair dali artistas que vão ganhar o mercado de música no Brasil, os artistas do Espaço Favela vão se tornar conhecidos e vão fazer parte de uma maneira efetiva da grande cena musical que acontece no Brasil!

A Rock Press lembra: Ainda é possível comprar ingressos para o Rock in Rio na venda extraordinária que o festival disponibilizou, seja rápido em: https://rockinrio.ingresso.com/ #Recomendamos! - Michael Meneses!

ESPAÇO FAVELA - Programação:
DIA 27 de Setembro -
Nós do Morro + Heavy Baile + Gabz + Abronca
DIA 28 de Setembro - Nós do Morro + Orquestra Maré Do Amanhã Apresenta Rock Symphony + Batalha Do Slam + Setor Bronx
DIA 29 de Setembro - Nós do Morro + BK’ + Malía + Dudu De Morro Agudo
DIA 3 Outubro - Nós do Morro +  Roda De Samba A Festa Da Raça + P-Tróleo + Dughettu
DIA 4 Outubro - Nós do Morro + Canto Cego + Agona + BK-81
DIA 5 Outubro - Nós do Morro +  Cidinho & Doca + Jonathan Ferr + Lucas Hawkin
DIA 6 de Outubro - Nós do Morro + Delacruz & Maria + Xamã + Tuany Zanini

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